Um balcão e a máquina industrial de fazer pipoca, a chapa quente para fazer os sanduíches e os bicos de sair refrigerante. A moça negra, magra e com um boné na cabeça compondo a farda, parecia distante daquele lugar, uma ante-sala dentro de um cinema grande, com muitos locais de projeção. Era uma pessoa calma, indiferente a tudo, como se pertencesse a outro mundo, mas não no sentido de seu nome Selena, relativo à lua, distraída e sem compromisso com nada. Ao contrário, sentia no seu âmago que não se enquadrava na sua pobreza, na batalha escravizante de um trabalho repetitivo e menosprezado por todos. Mas ficava alheada, como meio de não se entregar, contraditoriamente, a devaneios, a seus sonhos esfuziantes e sofrer.
Tinha sonhos de bailarina, freqüentava a escola de dança clássica no morro, nos seus dias de folga no trabalho, mesmo percebendo que os frutos dali colhidos de pouco adiantariam se quisesse seguir uma carreira. Concebia-se uma pessoa realista e sabia que só sairia de sua posição atual, por essas reviravoltas retumbantes, alucinantes, que não acontecem amiúde.
Preparava e servia os alimentos, além tomar conta do caixa, tendo certo cuidado em suas tarefas, para atender bem ao cliente e não perder o emprego. Vivia do salário mínimo que recebia ali e das raras gorjetas que ganhava. Morava com sua avó, uma senhora idosa e cheia de sabedoria, em uma casa de madeira, de um cômodo, um cubículo espremido entre duas casas, onde deveria ser um muro e o fundo dava para um barranco cheio de mato.
Selena, que, na verdade era Selena Hortência, uma disputa entre a avó e sua mãe, que evaporara no mundo do álcool e da droga, nunca se dera bem em seu emprego e onde morava, com medo de que esses ambientes a contaminassem de alguma forma, colocando-lhe uma espécie de tatuagem. Não que fosse por soberba ou prepotência, mas sabia que aqueles lugares evadiam-se em seus sonhos, como inexistentes no que desejava para si.
Nunca conseguira desfilar em uma escola de samba, nem ia aos ensaios, sempre achando que aquela dança não casava com a melodia da música, embora seguisse o ritmo frenético e ensurdecedor da batucada, sem se poder apreciar o acompanhamento, a harmonia função decisiva para a evolução de uma dança. Alguns diziam que era a melodia que embalava a dança, mas ela sempre discordou, ao ser dançado o clássico, onde a melodia e a harmonia se invadem e se estendem na beleza dos gestos suaves e refinados, leves e acariciantes.
Mas a cliente diante dela não pensava nisso, mas em como emagrecer, ir a passear e se divertir, vendo a comédia bem hollywoodiana que estava passando nas telas. Queria, com seu marido e filhos, quatro pipocas gigantes e o mesmo número de refrigerantes. Pagou a despesa, de pequeno valor, com cartão de crédito, que a máquina insistia, nas três vezes que passou o cartão, em anunciar que “ o crédito não foi autorizado”. Selena passou mais uma vez e comunicou à senhora quarentona o resultado da operação. A mulher olhou para ela com um ódio intrínseco. Em volta várias pessoas conversavam, esperando na fila com um vozerio, formando um ruído alto, e a mulher perguntou “o quê?!” com um tom de quem não havia escutado, misturado com incredulidade.
Selena voltou a repetir os termos escritos da máquina, com a voz mais elevada. “ Que é isso, sua negrinha de favela? Você nem sabe mexer nessa maquininha. Volte pra favela... ah!”. Há uma espécie de susto coletivo, o vozerio diminui, acompanhando aquele entrevero, na mais autêntica curiosidade sobre a agressão. Ana Cristina que estava aos berros, como fazia na produção de seus eventos, continuou insultando Selena, que aguardava, na sua postura ereta, olhando acima do nariz, como fazem as bailarinas e sem dizer mais uma palavra. Estava habituada a humilhações desse tipo, embora, na academia improvisada em que dançava, fosse tratada com respeito e admiração pelo seu talento.
A robusta Ana Critina continuou: “...diga alguma coisa, sua negrinha. Vou bater em ti” e tentou pular o balcão, passando com a mão perto do rosto de Selena. Foi contida pelas pessoas em volta que falavam em crime de preconceito, quando o marido dela falou ao jornalista: “ Chamar uma negrinha de negrinha, um crioulo de crioulo é crime? Como eu diferencio? Isso é síndrome de novela...”.
A polícia chegou e Ana Cristina desafiou os guardas com desaforos e foi levada para a delegacia com quatro testemunhas, inclusive o jornalista, todos perdendo o filme O Caçador de Pipas a que iam assistir.
Saiu, no dia seguinte, uma pequena nota no jornal, falando que a agressora ficou detida para investigação.
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terça-feira, 14 de abril de 2009
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