segunda-feira, 13 de abril de 2009

12 - SÔNIA

Chego à beira e, mais uns passos, estou com 60 anos. O retrospecto é inevitável, neste final de tarde de domingo, deitada na rede, fumando um cigarro sem gosto. Aniversário na segunda, sem festas, nem dobrados, como um dia comum de horizontes vazios.
Aposentada, morando só, apenas com a lembrança dos carinhos dos homens, alguma coisa fiz de errado, lutando por uma liberdade pessoal, na dengosa e inesperada aventura de ser feliz, enquanto se pode. Um modesto apartamento, com escritura em cartório, bem simples, como meu desejo pela vida. A um canto da sala de estar, um mini-escritório com um computador atualizado, impressora, livros, papéis soltos, textos escritos nos arquivos e a eterna esperança de escrever um livro, apenas um que fosse, que pudesse entreter, comover e ter a simpatia de um público leitor. Eu me sinto uma contadora de histórias dos outros e quero contar a minha, não muito relevante, mas minha, aviltada pelo desejo de um sucesso, mesmo que pequeno. Nada do grande Romance, mas uma história, pelo menos lida, sem o anonimato do meu jornalismo diário. Com capa e tamanho compatível com mãos interessadas no assunto.
Seria minha vida, sem as desonestidades e o vangloriar-se dos fatos positivos, mas contando, também, as derrotas, as decepções, o lado triste das coisas. Começaria pelo meio, no fulgor da carreira, escrevendo reportagens mais densas e a época em que tive muitos homens jovens, sendo eu jovem, nas deslumbrantes ocasiões, fugidias, intensas e fortes, altaneiras e devassas. A conjugação desses dois aspectos, compensaria os desvarios e explicaria a monotonia de um casamento marcado pela presença dos compromissos tatuados no cotidiano de pagamentos, filhos, apenas três e outros adereços incômodos. Há, ainda, as reuniões em família, sempre com disputas de cunhados e cunhadas, na ostentação de bens materiais ou na maledicência de comentários íntimos da vida de cada um.
Talvez, começasse o livro pelo que de interessante há no jornalismo, uma vida sempre atenta, sagaz, cheia de ávidas ambições por prêmios e um papel destacado na redação. Um trabalho que não escolhi, mas fui exercendo nas noites insones, na máquina de escrever, na própria sala dos repórteres, com certo preconceito por ser mulher, junto com colegas que liam muito, mas foram péssimos alunos na escola. Sabíamos escrever com o autodidatismo das leituras assistemáticas de autores famosos, clássicos da literatura, com a capacidade de observação e uma tremenda preguiça para as atividades presas a escritórios, com paletós e gravatas, sob a batuta de um patrão austero, cobrando horário de chegada e de saída. Éramos os escrevinhadores de jornais o que, para muitos, significava não dar para nada, não ter uma profissão, mas passar as noites nas farras boêmias dos bares ou nas conversas, em torno de bebidas, sobre assuntos do cotidiano, incluindo questões filosóficas intermináveis, quando não as religiosas.
Essa era uma fase de aprendizado, em que os mais novos ficavam apenas ouvindo os tarimbados e experientes expulsarem seu conhecimento das particularidades da vida e do trabalho, além da sabedoria contida nas observações, nos conselhos e nas análises de fatos históricos. Os jovens, começando pelos classificados e pelas notas de falecimento e efemérides, ficavam calados, jamais ousando fazer uma pergunta sequer, àqueles senhores astutos, elevados a um pedestal simbólico, pela competência e pela capacidade de liderança.
Não sei se vou começar, mas, se o fizesse, poderia ser com as primeiras escolas de jornalismo, depois chamadas de comunicação, como se, onde há mais de um, não houvesse comunicação, até na incomunicabilidade entre eles, de vez que tudo é comunicação. Esses cursos que levaram às redações estagiários, despreparados até para serem estagiários. Irreverentes, resmungões, mimados, inventando moda, sentindo-se livres até no modo de vestir, sem terem conhecido a liberdade fora dos Manuais de Redação.
Se os leitores atuais apenas se interessam por textos curtos, descomplicados, sem erudição, com análises reais dos fatos apresentados, não há mais necessidade de jornalistas profissionais. Bastam, apenas, os diletantes, sem compromisso, que catam notícia na internet ou entrevistam políticos da corrente que o jornal defende ou fazem marketing disfarçado, falando de um campo de trabalho e citando frases do empresário sobre o assunto, com o linguajar das redações, chamado de comunicança de escrevrio e com fotos da empresa.
Se escrevesse sobre isso, poderia insinuar que resisto ao novo, mas o novo verdadeiro, o contemporâneo mesmo, que chega e se impõe, sem sérias contestações. Não relataria esse passado, nem minhas passagens com o advento dos cursos de jornalismo, nem com a tranqüilidade da informática, a não ser como ponto de partida histórico.
Teria, nesse livro, alguns capítulos dedicados ao futuro/presente, que é o jornalismo digital, com outra estrutura, nessa fase de transição do papel para a tecnologia eletrônica. Esse jornalismo novo me interessa, dinâmico, sempre atual, 24 horas por dia, com notícias e comentários novos a cada dois minutos, não mais a notícia impressa no dia anterior.
Não sei se começaria pelas minhas relações com os homens, sempre egoístas, com um leve toque de escândalo, tão do gosto dos jornalistas, como forma de atrair leitores incautos. Não sei se colocaria aquelas informações-fofocas, do agrado das biografias de personalidades conhecidas, desde que revelem os fundilhos de suas vidas, para a glória de fãs das superficialidades.
Não sei se abordaria relações, ora vadias, ora construtivas, que há homens incríveis, inteligentes, pecaminosamente doces, mas firmes em seus propósitos.
Não sei, não sei mesmo, se alimento esta preguiça insana ou começo amanhã meus 60 anos, novamente, com uma vida mais ativa.


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