- Vc acessou a livraria hoje, Stella?
- Não, não deu tempo, tive que fazer compras, entrando no site daquele supermercado mais barato, amiga. A conexão não tava boa...
- À noite vou assistir a um filme... vc quer assistir comigo, Stella? Baixei ontem da internet...coloco a webcam na tela de 42 polegadas, pra você ler bem as legendas.
E, assim, a conversa continuou pelo msn, do computador ligado 24 horas por dia. Em casa, no agasalho do próprio medo, as pessoas só se comunicavam pelos meios digitais.
Lá fora, um micróbio poderoso – uma cepa do staphylococcus, - que é transmitido pelo contato pessoal, atemorizava a população de todo o Estado. Esse bichinho maldito transforma as infecções cutâneas menores em graves problemas de saúde. Causa necrose – morte – na pele, produzindo uma eliminação do tecido, ao matar as células. Essas infecções penetram na corrente sanguínea e causam a morte.
Aliás, a morte das pessoas nas casas, todas trancadas e lacradas, estava sendo um problema resolvido de forma radical. Faziam o enterro no piso, escavando o chão, depois tapando, sem se preocupar em reconstituir o local, onde quer fosse, na sala, nos quartos, banheiros, por todo lugar. Pareciam grandes chagas pelo assoalho, na assombrosa combinação de sujeira, lâmpadas ligadas o dia inteiro, e mais nenhuma possibilidade de ir à rua.
As contas eram pagas pele internet e quase tudo que se podia fazer era usando tecnologia digital. A palavra virtual desapareceu, envolta na praticidade do dia-a-dia, na necessidade de convivência humana, de olhar outras pessoas pela webcam e não só aqueles rostos habituais, pálidos e abatidos pelo medo.
Os pedidos eram feitos e entregues por automóveis ou motos, por pessoas mais corajosas, que se aventuravam, vestidos com roupa de isolamento, tipo astronautas. Basicamente comida e material de higiene e de limpeza. O trabalho era feito pelo computador de casa e, quando quebrava, era abandonado e comprado outro. O pagamento, também, era on-line e não circulava dinheiro, da forma anteriormente conhecida, mas valia o crédito que a pessoa possuía no banco.
Muitos empregos desapareceram. Até os bancários, bem poucos, moravam no próprio banco, que se adaptou a isso. O valor das mercadorias se modificou, assim como o sistema de troca voltou a existir. Os computadores passaram a ter preço muito baixo, pela enorme oferta e procura e roupas perderam quase totalmente o valor. O setor imobiliário desapareceu. Muitas atividades lucrativas se adaptaram à nova realidade.
Em cada casa havia um cômodo com um computador, uma webcam e um microfone e, quem não tinha sua mulher ao alcance da “mão”, namorava e fazia sexo, on-line, trancado nesse cômodo.
Stella era solteira e dava aulas de literatura latino-americana pelo computador, no que foi a aula presencial, na Universidade Federal. Arranjou um namorado, em um encontro de professores por vídeo-conferência. Ele era um tipo baixo, que a webcam ainda não mostrava direito. Usava de estripulias para esconder esse seu lado, mas não conseguia fazê-lo com seu caráter. Eles fizeram sexo algumas vezes, mas ela descobriu que ele havia falado isso a colegas de universidade.
Uma amiga de Stella havia sabido da notícia por seu namorado, a quem Otávio contara, sem conhecer a ligação entre os envolvidos. Ela estava em dúvida se o desmascarava ou, simplesmente, terminava o namoro.
Otávio chamou-a pelo msn:
- E aí amoreco, como vc tá?
Ela fingindo segurança, mas, por dentro, bem angustiada, resolveu, naquele instante, apenas terminar com ele.
- Tou bem. Onde vc andava, grrrrrrs – ela disse , tentando disfarçar.
- Tava fazendo pesquisa no google, pra preparar aula.
Ele ensinava matemática superior nos curso de matemática e de física. Não gostava de literatura e odiava arte, principalmente, pintura, balé e música clássica, dizendo ser coisa de veado, de boiola. Ele dizia que veado era o bicho, o animal e que viado era a bicha, o homossexual e morria de rir disso.
- Sabe, tive pensando, talvez fosse bom a gente dar um tempo. Assim, vc sabe... um tempo... tenho muita coisa pra estudar, tem autor novo nos e-books, preciso ler e analisar...
- Que isso, amoreco, sei do que vc precisa, vamos lá pra sala reservada, vc pode ficar nua e...sabe... fazemos uma transa gostosa, vc se toca gostosinha, vê meu cacete... tou no ponto.
- Não dá Otávio. Quero parar. Além disso, a sala tá ocupada.
- A gente espera, ô queridona, tou a fim...
Enchendo-se de coragem e indignada com a atitude dele de contar os detalhes das relações sexuais deles, ela foi ríspida:
- Não me procura mais, não quero mais saber de vc, pra sempre.
- K que é isso?, pensa bem...
Ela, num impulso, apagou a tela do computador. Mais tarde, fez uma nova conta de msn.
* * *
segunda-feira, 13 de abril de 2009
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