quarta-feira, 8 de abril de 2009

LIVRO DE CONTOS I

SARAIVA 23




UMA SIMPLES HISTÓRIA SUJA
(Contos)





2008



APRESENTAÇÃO

A prática do autor na arte de escrevinhar vem de longo tempo, desde sua adolescência, quando cometia suas poesias e alguns de seus contos, na sôfrega inquietação de suas madrugadas. Com muitas leituras e a vontade ferrenha de ser escritor, perseguia fórmulas, imitava autores famosos, até encontrar seu próprio estilo literário.
A reunião destes contos em livro com o nome de um deles: Uma Simples História Suja, tenta retratar uma época recente, a que vivemos, preocupando-se em salientar a realidade social que nos cerca e os desdobramentos daí advindos. Procura, também, evidenciar um pouco do fedor comportamental, inerente à natureza humana, que fede desde a fralda à mortalha, nos percalços que a vida apresenta, principalmente, o seu lado sórdido.
Sordidez não do submundo, que sempre é caricata, mas a que é praticada no dia-a-dia, como forma corriqueira de agir e que traduz a podridão de atos humanos, na sua essência, quase sempre, com a aparência de banalidade, com plena aceitação pela sociedade. Um agir imoral ou ilegal, que é tratado como pequeno deslize ou chegando a ser ignorado por todos, como uma coisa normal.
Estes contos, também, procuraram, sempre que possível, trazer um pano de fundo de cunho político econômico ou meramente de costumes, de vez que as histórias policiais se repetem, salvo exceções, e a realidade fantástica, o terror e a ficção científica dão sinais de cansaço. Os costumes, aquelas atitudes diárias, são sempre atuais e atualizadas pelas mudanças freqüentes, chegando ao nível de ruptura histórica, como é o caso das novas tecnologias.
Por outro lado, as histórias curtas, como os contos, se adequam mais aos novos tempos, que, pela falta de tempo para a leitura, já não comportam a forma literária do romance, embora ela ainda tenha o seu lugar, quando as pessoas, em situações especiais, podem se dedicar à sua longa leitura. Acompanham, assim as tramas das histórias paralelas e se deleitam com um enredo mais complexo.
Contos, como histórias curtas, são cortes que se fazem na realidade, evidenciando aquele momento, chamando atenção pra certos detalhes da vida, sem chegar a formar quadros psicológicos dos personagens, apenas sugerindo esse aspecto, sem se preocupar com finalizações da história contada, assim como, no cinema, os curtas-metragens.
Como primeiro livro publicado sem a escravidão das editoras, há a esperança de que sua releitura agrade, de vez que foram publicados on-line de forma esparsa.
O AUTOR
São Luís, MA,17/01/08


SUMÁRIO


1 – A Co-Piloto de Certo Automóvel
2 – Uma Simples História Suja
3 – Os Seios de Medeia
4 – O Encontro Fatídico
5 – Uma Agência
6 – O Quadro na Casa
7 – Uma Entrevista Coletiva
8 – Calados, no Silêncio
9 - O Blog de Marina
10 – Uma Terça-Feira
11 - O Homem que não Conseguia Le3u em Papel
12 - Um Bar, Uma Noite
13 - Ouvi Dizer…
14 - O Esquecimento
15 – A Viagem da Doida com Don Quixote
16 – Os Saltos Altos




A CO-PILOTO PARA UM CERTO AUTOMÓVEL

A viagem era premente. Ele achava que poderia ser a sua última, vivo, diante da doença degenerativa, há quinze anos, atormentando seu autocontrole, sua paciência e seus sonhos perseguidos.O Mal de Parkinsons não se apresentara, ainda, galopante, mas caminhava sorrateira e silenciosamente, ostentando pequenos sintomas, que a sua atenção redobrada descobria e assinalava. Depois de dez anos dessa dolorosa revelação, aos quarenta e um anos de idade, foi detectada, em rotineiros e incômodos exames, a sua gelatinosa evolução e a incrível e insuportável possibilidade, também, de vir a ter o Mal de Alzheime. Era a derrota final! Não havia tempo algum a perder! Precisava viver com lucidez por mais algum tempo e ter a mobilidade suficiente para apreciar e participar de tudo. Com seu espírito cauteloso espicaçado, desejava os momentos mais belos, a pujança de abraçar a vida, cobri-la de beijos apaixonados. Veio, então, a idéia da viagem.
Pensara, primeiramente, em um barco, um veleiro, com certo conforto e tecnologia avançada. Logo nas primeiras pesquisas de preço, a idéia alagou, violentou, afundou qualquer possibilidade de levar o projeto em frente. O custo financeiro seria tão grande que, mesmo utilizando seus acreditados bens mais valiosos, ainda que acima do preço de mercado, não seriam suficientes para alimentar essa paixão antiga: navegar pelo mundo, sem amarras, âncoras e portos. Sucumbiu no desvão, no vácuo odioso de não poder concretizá-la.
A compra ou aluguel de um avião, e teria de ser a jato, não havia necessidade de projeto, planejamento, nada. Estava fora de questão! Descartava esse pensamento, colocando defeitos inexistentes: era rápido demais; não haveria o apreciar, o integrar-se à paisagem e aos lugares visitados; pareceria um simples turismo de despedida, frio, calculado e inútil, para seu objetivo.
Sobrou o automóvel. Seu automóvel! Um carro pequeno, um ponto zero, , embora tivesse ar condicionado, vidro elétrico, trava nas portas, película e um som de certa qualidade. Bem conservado, mas um carro pequeno, de conforto duvidoso, até para uso urbano. Imagine por esse Brasil afora, com estradas esburacadas, roteiros de piçarra, quase sem sinalização … Não parecia atraente, principalmente, sozinho. E se a ou as doenças se acelerassem? Alguém para servir de companhia … Quem? Sua ex-mulher ou aquelas com quem costumava sair, embora com certo afeto, no carinho de momentos, por mais completos, nunca inteiros?
Teria de ser uma pessoa que entendesse de viagem por terra, conhecesse estrada, sinalização diurna e noturna. Antes de tudo, soubesse dirigir com desembaraço por caminhos, que nem sempre o mapa era fiel. Teria de conhecer certos atalhos de vida, para tolher sofrimentos físicos e até morais. Saber improvisar, na falta de peças para conserto do carro. Teria de possuir magia, conduzir a ousadia, sem ser temerária. Haveria de ser de uma competência, magnitude e vivência, à beira da perfeição. Existiria? Por definição do ser humano, não!
Mas o premente, agora, era mostrar, a quem quer que tivesse a coragem de acompanhá-lo, algo concreto. Um meio de transporte seguro, confortável, na medida do possível, e, sobretudo, pronto. Retomou a pesquisa de preços: folha de duratex, ripas de dez centímetros de largura e dois metros de cumprimento, pregos, parafusos e muita disposição para montar tudo. Seria o fundo do automóvel, na parte que se chama mala e ficaria suspensa onze centímetros. Ali, caberiam materiais de cozinha alternativa, para comida semi-pronta, rápida, um café, um água fervida e outra utilidade, vinda de um pequeno fogão, talvez a gás ou a álcool; alguma roupa, material de higiene pessoal e outros cacarecos. Na parte restante, entre esse fundo e a capota, com os alto-falantes, colocaria o órgão japonês, paraguaio de distribuição, a sacola ou mala da acompanhante – já seria certa forma de saber quem realmente era a pessoa – e qualquer outra coisa comprada pelo caminho.
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Ao empilhar a madeira e o duratex, em um canto da sala, em seu acanhado apartamento, pensou novamente em sua doença. Ultimamente vinha sendo uma constante. Todo o esforço que fazia para esquecer, afugentar qualquer idéia de incapacidade, redundava em reforçar a condição animal do Homem. Sua prevalência sobre a mente, por mais privilegiada que fosse!… Comer, dormir, fazer sexo, claro que retirando a parte do afeto, do aconchego, do carinho, representavam um ser humano macaco evoluído – os verdadeiros macacos são mais humanos! Pobres símios, tão incompreendidos! O animal feroz residindo no ser, dito pensante, capaz até de matar os da sua própria espécie, sem motivo qualquer, vaidoso, preguiçoso e corrupto… Um objeto animado, com o insuportável poder de escolha, inclusive de desejos inconfessáveis, necessitava de controle, educação – educare: desentortar o que está torto – corrigir rumos, para não ferir a si próprio e aos outros.
Nesse momento, ficou mais nítido ainda que não poderia viajar só. Teria de escolher alguém como co-piloto. E gostaria que fosse mulher: UMA CO-PILOTO!. Mas que mulher? As que conhecia, e poderiam ter o espírito nômade, não se enquadravam em seus requisitos. Como encontrar alguém disponível, para viajar com rumo certo, mas sem horários, imposições de comportamento e manias esdrúxulas? Não uma aventureira, com os percalços da irresponsabilidade, inerentes a essa maneira de ser.
Ele começou, então, a observar as mulheres, por onde andava. Procurava, em suas atitudes, geralmente, a distância, adivinhar como seriam viajando, sacolejando por inóspitos lugares para um urbano. Chegou a conversar com algumas, mas nunca encontrou oportunidade para tocar no assunto da viagem. Para elas, viajar significava hotéis cinco estrelas, passeios a lugares estampados em folders de agências de viagem, roupas novas, clima, mesmo gélido, mas agasalhado, e , preferencialmente, praia, muito sol controlado, jantares com mêtres e garçons com luvas, fotografias, muitas fotografias, documentando a aventura, para mostrar aos parentes, amigos, conhecidos ou ter a satisfação de guardá-las em álbuns, mofados pela crueza do cotidiano e pelo tempo. Ele tinha outra concepção e, por sua condição física, outro objetivo.
Ao saber de sua doença, fez planos para um breve futuro. Planos bem mais condizentes com a sua posição social classe-média e dignos, perante a sociedade do senso comum. Nada de conhecer o litoral do nordeste brasileiro, partindo de São Luís do Maranhão, em direção a Fortaleza, no Ceará. Nem pensar em enfrentar estradas-caminhos, próximas ao mar. Esses planos, tidos como loucura, não obtinham a benevolência, nem a permissão do consenso social. Mas fazer uma viagem a trabalho, para, talvez, ter o reconhecimento da direção geral da empresa, seria uma atitude gloriosa, cheia de coragem e audácia, ao enfrentar uma doença dessa natureza. Não seria um derrotado, um fracassado, sucumbindo à sarjeta, como diziam quase todos os seus conhecidos, ao saberem da planejada viagem ao nordeste. Para ele, seria gozar um resto de vida bem junto a ela, entranhada que é na natureza.
Trabalhava no setor de informática de uma multinacional de renome, onde estava implantando um projeto, que considerava revolucionário: abandonaria os programas e sistemas informatizados, baseados no raciocínio burocrático vigente, como e-mails, utilizados como memorando interno, planilhas de contabilidade, baseadas nos tradicionais “dever” e “haver” e toda uma “tralha”, como ele dizia, onde era transportado para o computador o fixado antes em papel; o que era pior, ainda: faziam-se cópias, em papel A-4, de quase todo os arquivos dos CPUs. Isto representava um custo adicional exorbitante e inútil. Ele sempre afirmava, de forma contundente e agressiva:“Se não confiam na informática ou mesmo no computador, não usem”. O projeto foi aceito pela matriz, mas necessitavam de uma explanação, ao vivo, - esquecendo-se, de novo, da tecnologia das teleconferências. Não é a mesma coisa? É só uma questão de saber usar… A resistência ao novo …
Ele, no seu trabalho, era considerado um excêntrico, um metido a besta, pedante, assustadoramente perigoso, apenas por se restringir a dar o “bom dia” tradicional e trancar-se em sua sala. Não freqüentava as happy-hours das sextas-feiras, ficando até mais tarde, entre números e outros apetrechos de última linha, para a formação de seus programas revolucionários. Não era visitado e também não o fazia a nenhum colega de trabalho, evitando a cordialidade quase sempre necessária, para quem vive em sociedade. Amigo, considerava apenas três, que conhecera ainda na época do vestibular e raramente se encontravam, apesar de manterem uma aproximação virtual.
Dessa sua maneira de ser no trabalho, não escapou a estagiária de pernas compridas, olhos quase como duas linhas, nariz diferenciado e o nome incomum: Anim, com quem teve um caso.
A tradicional festa de fim de ano, antes do Natal, o prolongamento da comemoração em um bar, com vários outros colegas e a promessa bêbada de se encontrarem no dia seguinte, que foi levada sério por ela. Até hoje, ele não sabe bem o porquê.
Ao tocar da campainha, André teve um sobressalto ressacado e se levantou resmungando pelo pequeno apartamento, fruto de suas incontáveis separações conjugais. Ela entrou, olhou em volta e coube-lhe apenas fazer o costumeiro pedido de desculpas pela bagunça. Não se lembrava por que ela estava ali, no que deveria ser entre doze ou treze horas, vestida com roupa esportiva, os cabelos soltos, longos, bem lisos e de uma negritude
asiática. Leve e falante, diferente de como se comportava no trabalho, sentando-se logo no sofá estreito, cheio de roupas usadas, cruzando as pernas e acendendo um cigarro. Os olhos dele estavam tão abertos, quanto a fuga repentina de sua sonolência e seu incorrigível mau-humor, pela manhã. Movimentou-se com uma rapidez espantosa, para quem era acostumado a se espreguiçar bastante, mesmo depois de levantado.
Saíram para o café da manhã dele e o almoço de Anim. Foi a primeira vez que ela ouviu aquela história estapafúrdia de viagem pelo litoral do nordeste. Riu, um riso de canto de boca, como quem escutava uma velha piada sem graça. Ele falava tão seriamente e com tanto entusiasmo, que a deixou confusa e tratou de terminar logo sua refeição. Mas aquele alucinado de idéia fixa se tornou logo um galanteador tão estranho, como foi a transformação que ele havia percebido nela, ainda há pouco, em seu apartamento. Aproveitou a florista, carcomida em perceber oportunidades de venda, e ofereceu-lhe uma rosa. Não usou palavras adocicadas, nem o galanteio fácil e horroroso dos habituais conquistadores. Disse apenas que era um agradecimento por ela lhe ter acordado, naquela manhã de sábado, com sua presença alegre e bem disposta, em contraponto a seu modo característico de se levantar todos os dias. Não foi nem necessário convite, para retornarem ao apartamento. Os passos pela calçada retomaram o caminho de volta, com a naturalidade de um inexistente acordo prévio. Fizeram amor, como se há muito se conhecessem e a despedida foi com a tranqüilidade informal de antigos amantes.
Depois daquele dia não se falaram mais, nem aquele assunto de percorrer parte do litoral nordestino em seu automóvel, nem qualquer outro. Quatro dias depois, ela mudou de Departamento, ao ser contratada em definitivo, recebendo, logo em seguida, uma promoção para subchefe. Ele não se sentiu usado, até porque não contribuíra em nada, para que isso acontecesse. Mesmo sendo estagiária em seu Departamento, se houvesse algum elogio ou interferência por parte dele, não ocorreria qualquer conseqüência, dado a seu comportamento esquivo e de muito pouca ressonância. Não se sentiu escada, pneu estepe ou teve qualquer outra reação, atribuindo o acontecido ao que realmente observara: tratava-se de uma pessoa de reconhecida competência, disponibilidade e bom relacionamento com todos. Trocavam apenas cumprimentos nos corredores, nas reuniões, como sérios e compenetrados colegas de trabalho. Nada de olhares insinuadores ou qualquer outra demonstração de que algum dia houve um relacionamento breve e íntimo entre eles.
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E a procura por uma co-piloto continuou, para a viagem. Uma companheira, um agasalho que não gruda, mas aquece e disposta, com determinação para enfrentar qualquer dificuldade, mesmo a mais tormentosa. Foi quando, no estalo de um fim de tarde, as tarefas cumpridas, sem disposição de prolongar o expediente e voltar para casa, lembrou-se de Anim. Por que não Anim? Solícita, envolta pela capa da subchefia e não mais de uma simples subalterna, talvez cedesse a seus argumentos ou lhe retornasse um NÃO diplomático, bem urdido, como sempre se mostrara, para resolver situações difíceis. Foi até a sala onde ela estava e encontrou-a no computador. Pensando tratar de assunto de trabalho, logo abandonou os olhos da tela e voltou o rosto para ele, uma face mansa e agora bem cuidada, a mesma morenice, parecendo de mormaço e não de sol, angular, não deixando os olhos negarem os seus genes.
- Sim, algum problema? Posso ajudá-lo, disse, em seu característico tom, um misto de presteza e profissionalismo.
- Acredito que sim. Mas não me é fácil tocar no assunto. Sei que as chances
são mínimas – fez uma pausa titubeante e completou – Vou falar!…
- È aquele seu projeto de desburocratizar programas? Não estava tudo
resolvido? A viagem à Suíça, a oportunidade de falar diretamente com os chefes da matriz e tudo o mais …
- Não aquilo não foi resolvido. Desisti, diante da má vontade de todos …
- Mas a minha, não! Dei-lhe meu apoio em reunião, apostei na idéia, fiz pareceres favoráveis … não posso ser acusada de má vontade ou, como você diz, saudosista,, retrógrada e de me acomodar ao que levei anos para aprender… É, na verdade, um avanço, que, talvez por comodismo, bem poucos aqui na filial viram com bons olhos. Mas a matriz aceitou, pelo menos conversar e até dispensou os olhos eletrônicos da vídeo-conferência, para vê-lo diretamente nos seus. Realmente, uma chance que bem poucos perderiam.
- Não é isso, é algo mais pessoal, talvez mais íntimo, como se tivesse de tirar a pele e mostrar a parte asquerosa, que é nosso corpo por dentro.
- Não me diga que é uma recaída saudosista, por aquela manhã de sábado, que nem chegou a ser um relacionamento! Com toda a franqueza, admiro seu trabalho, suas idéias, invenções, opiniões, mas daí a ter um relacionamento afetivo … Faz tempo que não me envolvo emocionalmente com ninguém. Não sinto falta… Os carinhos e outros desejos os resolvo em ocasiões seguras e, por isso, sem conseqüências – e imediatamente, em palavras mais rápidas, sobrepujando certo embaraço, continuou – Se você veio aqui para isso, deixe eu terminar o relatório. Tem prazo apertado para entrega …
- Não, não é nada disso! … – e maneou a cabeça, como um incompreendido contumaz – Acredito ser algo maior ..
- Casamento?! Nem pensar …
- Não!!! Deixe –me falar um pouco, apesar de seu tempo curto. Sei que um último convite para uma bebida quente, um chope, um café, poderia ter o cheiro uma cantada insistente, repetida e sei que não aceitaria. Mas eu espero você terminar o texto, sentado aqui neste sofá, quieto, sem dar uma palavra, tentando não lhe atrapalhar, apesar de minha presença parecer coercitiva. É que o assunto, talvez fuja à sua compreensão, de imediato, o que acho difícil, mas lhe garanto que é delicado e vexatório para mim.
- Sente-se, então, naquele sofá, na outra sala e não durma. Não demorarei muito!
Mas a demora foi de quase de meia hora. Parecia de propósito. Esse tempo ajudou-o a ensaiar o começo do que iria dizer e ficou pensando em outras partes soltas. Não gostaria de falar de suas doenças, poderia até ser mórbido, mas havia necessidade, para que ela entendesse os motivos de sua escolha, pelo roteiro e por ela. Procurou se lembrar de outra pessoa para ir com ele, como a Nilda, a morena baixinha, simpática e quase servil, na sua tarefa de assessorar a Diretoria. Mas ele achou complicado. Além de tudo demonstrava distribuir atabalhoadamente seu tempo e não possuía a frieza suave de resolver situações de aparente caos. Apesar da ansiedade dele, em momento algum se sentiu levando “um chá de cadeira”. Conhecia a meticulosidade e sua pertinácia de Anim, em fazer algo bem feito.
Repentinamente, ela cruzou a porta, com a bolsa a tiracolo, de acabamento perfeito, nada parecido com as tradicionais bolsas executivas. Uma quase bolsa comum de mulher. Sempre esbelta, elegante, o caimento correto da roupa e a altura dos saltos dos sapatos adequada para um dia de trabalho cansativo. Olhando Anim em pé, percebeu que houve mudanças na sua visão estética de mulher bonita, boazuda: fêmea bunduda, coxas grossas, culotes condizentes com o todo. Nada disso!
Com a necessidade de tomar remédios, houve uma inibição de sua ereção, mas não da libido e a beleza da arquitetura corporal feminina se alterou. Em vez de massa muscular bem colocada, um corpo magro não esquelético, a área do púbis curta, próxima ao umbigo. O volume da bunda não teria mais a forma de duas bolas cheias e macias, mas continuando rijas… Desapareceria esse volume para encher os olhos masculinos de volúpia, excitando, desenvolvendo a libido.
Essa nova visualização do corpo de mulher se adequava a sua nova forma de fazer sexo. Para isso, aprendeu a usar o tato, através dos dedos, da língua, substituindo o visual exuberante. Interessava o prazer proporcionado na troca de carícias e não mais sexo de introdução. O braço, o cotovelo e outras partes do corpo, antes impensáveis, como, por exemplo, a fricção das bochechas da bunda ou o esfregão leve, com toque lento e suave, permitiam o prazer dos parceiros. Anim se enquadrava, perfeitamente, na forma atual de seu corpo esbelto.
Com ares de quem está com muita pressa, ela disse:
- Vamos, desculpe pelo atraso, mas… você sabe…
- É! Eu sei. Tem de sair à beira da perfeição – e num gesto conciliatório disse: - sem preconceito.
- Não é isso!!! Apenas mantendo a qualidade – disse rindo, como se saísse alegra da beira de uma piscina – Não quer ir logo adiantando o papo? O café fica logo ali…
- Prefiro sentado, olhando em seu rosto as reações. O que vou falar não é muito agradável, acredito, e, por isso, não espero piedade.
- Que tom mais macabro!… – sorriu, buscando descontrair o ambiente – Então vamos sair.

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- Um café forte e uma vodca com limão e muita soda, ela comandou ao garçom do restaurante.
- É! Essa vodca talvez combine com o que vou falar… Não é mistério algum. Só não me parece consistente e necessário enfrentar, agora, as feras lá na Suíça. Não se trata de querer elogio seu ou qualquer outra coisa…
De repente, ele parou. Um silêncio alheado, as mãos passando constante e rapidamente pelos cabelos, como se quisesse retomar a conversa. Seu rosto foi ficando transtornado pela angústia. Um suor repentino salpicou sua testa de bolinhas d’água e seu olhar foi se voltando cada vez mais para longe do fim do restaurante. Ela percebeu o estranho da situação, mas também permaneceu calada. Sabia somente que havia algo errado…
Como se ele retomasse de um longo caminho, retomou, abruptamente, a conversa, pedindo:
- Vamos viajar juntos pelo lado direito do litoral do nordeste, saindo daqui do Maranhão até o Ceará e suas praias?
O susto inicial deu a ela a presença de espírito, para levar na brincadeira.
- Você já me propôs isso há muito tempo. Éramos mais jovens, afoitos e eu achava que estava apaixonada por você, mas, mesmo assim, não aceitei. Era e é uma loucura!
- O carro está todo pronto.
- Que carro, pronto como?
- Tipo uma casa ambulante, com aparência externa de um automóvel. Preciso de uma co-piloto competente e sagaz, como você.
Novo silêncio, desta vez mais longo e atemorizante, pelo inusitado da parada brusca. Algo não estava certo, havia algum problema, ela confirmou mentalmente. Uma procura rápida por uma doença qualquer a fez atinar de que se tratava. Teve vontade de se levantar, como nas cenas cinematográficas, típicas de mulher zangada, que deixa o parceiro no restaurante.
Estava zangada mesmo, mas por não saber do que se tratava: se era apenas uma farsa ou se um grave problema estava presente. Como quem acorda de um sonho profundo e esquecido, até de qualquer pesadelo, ele não resistiu à aflição estampada no rosto de Anim:
- Estou doente. Não há doença melhor ou pior - falou com uma lucidez altiva e perfeita que a fez duvidar do que ele dizia agora – Tenho Mal de Alzheime e essa pequena tremedeira não é nervoso, mas Mal de Parkinson controlado.
Os olhos dela, em vez de ficarem arregalados com o horror da revelação, tornaram-se semicerrados, como quem analisa um pânico profundo, dos outros, é claro!. Novamente teve vontade de sair correndo, na dúvida entre uma verdade cruel e uma realidade ilusória, como se aquele momento não existisse ou nunca tivera existido. Foi sua vez de ficar propositadamente calada, recompondo o conjunto de palavras, que lhe pareceram estúpidas r atrozes.
- Você tem certeza?! Isso que acabou de acontecer com você, esse alheamento, faz parte do quadro?
- Infelizmente, me esqueço de muita coisa para minha idade e deixo de fazer algumas bem importantes, para a sobrevivência de qualquer ser humano. Por isso quero fazer essa viagem, como se fosse a última…
- Você ouviu algumas opiniões de especialistas…
- Todos os que conheciam e os que me indicaram.
- Então essa viagem é um sonho, uma fantasia, uma fuga para o nada, uma
mania, como se diz em psiquiatria?
O mutismo voltou e ela teve de pagar a conta e levá-lo pelo braço, até a sua própria casa, ali perto. Acomodou seu pesado corpo na cama, junto a sua camisola, passou a mão por sua cabeça, que tanto lhe ensinara, até a viver melhor, e, enquanto ele permanecia imóvel, com os olhos abertos, em uma paralisia esdrúxula, ela foi até a cozinha, fazer para si, um chá de erva cidreira.
Ele passou dois dias lá, quase na mesma posição. O quadro clínico se agravou e ela o internou no hospital. Ficou sabendo pelos colegas diretos de trabalho que ele andava muito estranho ao retornar dias depois ao trabalho. Seu automóvel, cuidadosamente preparado para a grande viagem, estava em frente a seu apartamento, com o motor estourado. Soube, depois, que ele havia sumido e que o defeito no automóvel ocorrera por falta de água e troca de óleo no motor. Puro esquecimento!




UMA SIMPLES HISTÓRIA SUJA

O livro de Henry Miller, um da trilogia, aquietou-se na mesa de cabeceira. A lembrança da última cena jogou-a na excitação dos famintos de sexo. Perambulando pela madrugada, caminhou até a geladeira, sentindo falta de uma presença masculina, mesmo a do ex-marido, desleixado e fanfarrão. Deveria deitar-se agora, quieta, relaxada, para na manhã seguinte, bem cedo, cobrir a cerimônia de assinatura do contrato de construção do Centro Administrativo estadual. Mas estava ativa, agitada, desperta demais para se preocupar com uma tarefa rotineira como essa, às primeiras horas da manhã.
Trabalhava no mesmo jornal desde o início da carreira, há mais de uma dezena de anos, o que é raro. A princípio, para ajudar nas despesas domésticas e, não muito depois, pelo conforto de ser reconhecida como pessoa capaz e independente. Sentiu-se vitoriosa ao ser promovida para a editoria de política. Outra coisa não muito fácil, sendo mulher.
Seu porte altivo, pescoço longo e cabelos bem cuidados, abriam portas e instigavam confissões que, nem sempre, somente a competência profissional favorece. Tinha consciência dessa sedução canalha, mas superava o uso de sua imagem, produzindo textos com mordacidade e esperteza, para não ofender governantes, nem desinteressar leitores. O cargo de chefia lhe garantia a estabilidade financeira para uma vida de apartamento próprio e carro novo na garagem, sem precisar da ajuda do ex-marido.
Tivera, com a separação, a rotina dos divorciados. Chegou a se envolver temporariamente com um colega de jornal, de olhar insistente nas suas pernas grossas e na sua disponibilidade. O interesse dela desapareceu, quando os corpos ficaram nus e satisfeitos, no vazio de uma conversa inexpressiva, até chegar a pequenos desentendimentos e a um silêncio sem eco. Para não circular, de braço em braço, entre os amigos e conhecidos, impôs-se um convívio masculino mais íntimo apenas nas viagens freqüentes, no tempo em que era repórter. Acalmada a fúria do prazer imediato, procurou selecionar e até se abster, para não criar situações embaraçosas com a sua posição no jornal.
Andando pela casa, envolta na madrugada, alimentava a saudade do filho com um sorvete em pote, enfiando colheradas automáticas, como ele gostava de fazer. Viajara há uma semana, sentindo-se orgulhoso e dono de si, ao ganhar do pai uma excursão para Orlando.
A insônia e a necessidade de gozo completo tiravam-lhe o ânimo para uma masturbação menor, mesmo com o vibrador. De volta à cama, acomodou-se, encolhida sob o lençol, apertando as mãos juntas entre as pernas. No sono, ainda distante, quase início da manhã, colocou o relógio para despertar e chamou o rádio táxi para as nove em ponto. Acordou com a buzina do carro lá em baixo e se vestiu apressada. Por pouco, não esquecia a pasta executiva com o nome Norma Abranches, gravado na chapinha de metal.
Na solenidade de assinatura do contrato, encontrei Norma, logo na entrada do Palácio. Saltava de um táxi, sempre atrasada. Com um sorriso cordial, quase lhe entreguei o braço, como antigamente. Trazia consigo a elegância habitual: o desalinho arrumado de quem sabe se preparar à última hora.
Subindo a escadaria larga para o salão principal, ficamos algum tempo com os rostos virados uma para o outro, formando ainda um casal aceitável, para nossa idade e compostura. Nossos pedaços repartidos, na conversa sobre seu trabalho, ficaram mais pedaços e mais partidos, quando ela me parabenizou pelo projeto rentável daquele dia.
No topo da escadaria, desdobrei-me em cumprimentos, no meio daquela pequena multidão de peitos estofados e sorrisos hipócritas. A tônica das conversas era o recente pacote econômico do governo federal. Mais um choque arrasador, deixando à deriva toda a população, diziam os espíritos mais exaltados. Para meu escritório de arquitetura e também para outros empresários, obras do poder público, eram a única alternativa de sobrevivência, naquela avalanche de incompetência e tortura econômica. Talvez por isso estivesse ali expondo meu lado sociável no contato com políticos e administradores.
Por todo o salão enorme, pequenos grupos decidiam, comentavam ou simplesmente eram presença. Circulavam entre murmúrios, cochichos e possíveis encontros posteriores, alheios a tudo em volta, como acontece nas missas de sétimo dia.
Na praça em frente ao Palácio, como plataforma inferior à sacada onde iriam discursar os políticos, um ajuntamento disforme de pessoas: da palidez desdentada à curiosidade insolúvel e alienada. Mais adiante, brincantes de bumba-meu-boi aqueciam os tambores, em uma disputa surda com a banda local de reagge, em sua parafernália eletrônica.
Não tive a ilusão de que ela viera a essa “festinha”, como chamava esses cerimoniais, por ser a assinatura do contrato com meu escritório. Naquele local, pontilhado por um coquetel generoso, estava um covil de notícias e o prumo para suas decisões sobre o quê publicar. Não seria meu desgastado charme quarentão que a fizera vir pessoalmente!
O começo de nossos desencontros foi também por interesse profissional. Ficamos descompromissados sem perceber. Nessa época, a flauta que eu tocava quase todas as noites, antes de dormir, como exercício e simples prazer, foi aos poucos substituída pelo empenho nos encontros sociais, que resultariam em mais lucros. Nesses contatos acumulavam-se vantagens como o reconhecimento público e galanteios ao bolso. Um vício nada fácil de abandonar! Houve um final de expediente em que não estava prevista qualquer saída com clientes, em potencial ou não. Habituado a não voltar para casa e com o vazio de uma solidão insolente, convidei Carlos, meu assistente, pra tomar umas cervejas, desdobradas em jantar e uma esticada, deixando-o orgulhoso e prestigiado, como se tivesse sido promovido. Ela se empenhava no novo cargo de editora de política. Nosso filho se apascentava, cada vez mais, nos cuidados da babá.
Enquanto o Governador discursava na solenidade, ela ficou um pouco à minha frente e pude perceber que passei muitos anos sem observar seu rosto e cobiçar seu corpo. Talvez porque estivesse muito perto e tivesse esquecido do que gostava nela. Mas amadurecera bonita, com a mesma plasticidade de gestos fortes e paciência soberba com que ouvia a falação.
Os discursos acabaram. Lá fora, os batuques exaltados dos tambores assanhavam meu contraditório lado crítico, inconformado com aquela pantomima financiada com dinheiro público. Era uma sensação espalhafatosa, principalmente diante de minha participação no enredo. Mas as cinco doses de uísque importado justificavam a aceitação daquele momento. E mais outras doses, ainda passando nas bandejas, haveriam de acalmar meu ânimo falso-moralista, nesse encontro tumultuado de vida profissional e realidade.
Afastei-me de um grupo que planejava a subempreitada de um outro contrato de obras. Falavam claramente em não deixar de fora alguns amigos do peito. Fui então deliciar-me com uma conversa sarcástica de jornalista, atraído pela presença de Norma. O sorriso inicial com que me recebeu se desfez com minha primeira intervenção no bate-papo. O cheiro forte do uísque chegou primeiro do que qualquer argumentação lógica ou da piada sobre o recente plano econômico. A reprovação no franzir da testa acordou em mim um desprazer, velho conhecido. Nesse momento, quase senti sua mão, apertando meu nó afrouxado da gravata. Mas, contraditoriamente, trazia consigo, intato, um copo de uísque cheio e, para quem não bebe em ocasião alguma, principalmente àquela hora da manhã, foi um alívio ao terminaram meus temores de ser censurado, com o meu copo quase vazio.
Entre os “administrativos”, do outro lado do salão, estavam dois grandes olhos azuis de uma não-sei-o-que-adjunto . Brilhantes e iluminados, eles pareciam olhos de quem estava atenta à conversa, sem esconder, nas bochechas tensas e nas leves rugas da testa, um distanciamento interessado. Era uma visão diferente, no seu moreno forte, circundado por cabelos pretos bem lisos. Quase uma índia de olhos azuis. Impossível não notar. Vez por outra, ela olhava para os lados, com seus olhos escondidos no amendoado do corte, sobreposto por sobrancelhas finas, como quem prestasse a atenção às coisas ao redor. Em uma espécie de pacto de múltiplos olhares, estabelecemos um diálogo de conversas muitas. Norma me interrompeu, entregando um uísque renovado, como nunca fizera, quando éramos casados. Naquele final de manhã, era a segunda vez que agia assim.
Depois disso, Norma passou a me relatar suas desventuras no jornalismo. Procurei pelos olhos azuis e notei que essa busca interferia em nossa conversa. Convidei-a para uma sala menor, ao lado, mas, como era uma das estrelas principais da festa, não conseguimos ficar a sós. Permaneci cercado por pessoas que não se cansavam de me cumprimentar pela “vitória” de ter ganho a licitação, como se tivesse recebido um prêmio, pelos reais méritos de meus conhecimentos sobre arquitetura. Achegavam-se com um riso prêt-a-porter, de lábios escancarados, como o estandarte do sorriso falso, com os dentes expostos, para uma alegria lambuzada de inveja ou de bajulação. Apertos de mão à moda dos políticos – em que as mãos se encontram e, imediatamente, sobem à altura dos ombros, para favorecerem o encontro das barrigas – com direito a tapinhas nas costas, num movimento esbaforido de puro protocolo. Depois, vinham as manifestações de pieguices, aquelas babosas apelações baseadas em falsos valores dominantes na sociedade, como religiosidade, maternidade, capacidade pessoal …
O próprio Governo era motivo quase exclusivo dos comentários. O boato do dia era a saída de um secretário de Estado. Afirmavam que caíra em desgraça, por não atender a um comando do primo do Governador, com gabinete particular junto ao do parente poderoso. A própria eminência parda. O portador do boato trazia o nome do substituto par o cargo de secretário: era um ex-prefeito de uma dessas cidades do interior, com denominação indígena, perdida em algum escaninho de uma estrada de terra. Sua credencial maior era ser familiar próximo à mulher do Governador, além do escândalo na prestação de contas de sua gestão.
Na sala menor, apareceram os olhos azuis, conversando com Carlos. No intervalo que me deu Norma, sem quase sair de perto, perguntei para Carlos, com o rosto virado para o outro lado:
- Aquela morena com quem você tava conversando… é… já fizemos contato com ela?
- Que contato? - respondeu Carlos, lacônico.
- Profissional, é claro! Ela trabalha no Governo? – não sei porque o meu pudor, na discrição de não sermos ouvidos por Norma, se estávamos divorciados.
Com um sorriso largo, na malícia de quem sabe das coisas e um triunfo eufórico, por estar bem mais informado do que eu, disse com voz sussurrada, como a revelar um terrível segredo:
- Ela é a nova secretária-adjunta, da Secretaria de Desportos e Lazer. É um pedaço… nós até que tamos encaminhados…
Para disfarçar uma intimidade de colegas de escritório, que não desejava demonstrar naquele momento, procurei mudar de assunto:
- Pode parecer besteira, mas até aonde minha compreensão chega, essas atividades de desporto e lazer são de iniciativa da sociedade e não do Estado. Tem alguma coisa errada…
- - É! Chefe Anderson, isso é interessante, mas o que importa mesmo é uma informação quente, de que há vários estudos em andamento, para a construção de estádios e quadras de esporte em vários municípios. Coisa bem grande, com verba da Secretaria, recebida do Governo Federal. Ela mesma me soltou essa… sigilosamente, é claro!
Ainda em tom de segredo, entregou-se à descrição do apartamento de cobertura, que ela possuía, em área relativamente nobre. Continuou a falar de sua admiração sobre a aparelhagem de som, que tomava uma parede inteira do apartamento, em sala reservada. Não poupou elogios também ao sistema de vídeo, com as últimas inovações, adquirido em sua recente viagem ao exterior. Fingi não me interessar em como ele tinha conhecimento disso. Os grandes olhos azuis se penduravam em mim, com a entrega dos desfalecidos.
Levei Norma para sua casa, ao final da cerimônia. Enquanto olhava com mais atenção o ambiente da sala, ela foi para sua mesa de computador preparar, rapidamente, a matéria para o jornal. Da cozinha, transmitiu, pelo telefone, ordens e providências à sua secretária na redação, talvez para não deixar por escrito, no e-mail, rastros de sua ausência, por mais tempo que o necessário, ela como chefe.
O ambiente da sala estava reformulado, desde minha última visita, quando fui levar as passagens, para os Estados Unidos. A sala em preto e cinza, com as paredes branco-gelo, móveis tubulares de ferro, um tapete bege, com bordas e desenhos acinzentados abrigou o lanche rápido, para complementar os salgadinhos da festa. Os sapatos saíram dos pés e a camisa sem gravata ficou aberta até o umbigo. Norma retornou do banheiro com um vestido longo bem fino, que evidenciava a calcinha e a falta de sutiã. Sem querer me precipitar em algumas conclusões, apenas constatei que ela não tinha o hábito dessas “provocações” comigo, quando marido.
Liguei uma FM no aparelho de som às minhas costas e fiquei olhando o suco de tomate que nos separava. Enquanto vínhamos no carro, ela falava alto, ria bastante e gesticulava, como acrescentando mais palavras do que devia às suas idéias. O suco de tomate e o sanduíche não mudaram muito seu ânimo. Continuou falante, apenas com a cabeça levemente inclinada sobre um dos ombros e os olhos brilhantes, sublinhando uma meiguice inesperada.
Na minha segunda garrafinha de cerveja, para tirar o travo dos uísques, o impulso do sexo entre minhas pernas garantia uma virilidade bem-vinda, na minha idade, bebedeira e cansaço. Não demorou muito para ficarmos nus e exaustos no tapete. Então confirmei com os olhos a afirmação do tato: Uma enorme cabeleira encaracolada se impunha, como porta de cofre arrombada, sobre o começo de suas coxas. Entre risos e certo desconcerto, ela apontou para meu capinzal, mostrando um pau babado, como pescoço de pavão morto, com a cauda em leque. Recompondo-me do silêncio presente, perguntei onde havia uma tesoura média. Comecei por um corte de cachos melados, deixando a um competente tintureiro a tarefa de tirar os restos mortais de nossas cabeleiras pubianas, enrugados no tapete.
Nossa intimidade nessa brincadeira, a princípio relutante por parte dela, foi passando a se tornar erótica, porque aprendemos, desde o início de nossa relação, a conservar com a maior higiene nossos órgãos sexuais. Essa coisa de higiene era quase um estandarte nosso contra doenças e a favor de peripécias, nas reviravoltas de invenções e artifícios, em noites inteiras acordados. Mas, depois de descabelados, tornamos a nos enfiar, perdurando a sensação de certa desconfiança, pelos anos afastados um do outro.
Antes de sairmos definitivamente do tapete, fiquei observando seu corpo deitado no chão, com aquela tarja negra recém aparada e com as laterais definidas pelo barbeador, que peguei depois. Segurei, então, cuidadosamente a tesoura e com a ponta fui desenhando a inicial de meu nome, como numa talha em baixo-relevo. Ela se moveu rapidamente ao contato da lâmina, pelo temor de um corte inesperado. Depois, levantou-se com a letra enorme entre as pernas e me fez deitar, para colocar seu “N “.
Banhados, passamos o resto da tarde entre esfregões e pequenos gozos, sucos de laranja e bolachas com queijo. A luz acesa da sala deu passagem às vertigens do lusco-fusco. Deveríamos estar cansados, mas nossos músculos distendidos e aquecidos pelas massagens dos carinhos, deixaram-nos bem despertos para uma noite sem horas e sem desgostos.

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Norma não o viu sair, na manhã seguinte, antes de clarear. A sala agora ruborizada pelo raiar de um novo dia , testemunhava os pedacinhos de cada um, espalhados entre gosmas secas e farelos de bolacha. Nua, no banheiro, tentou alcançar seu conhecido interesse pelo trabalho, mas se limitou a sentar no vaso. A mão tocou a inicial gravada e seu primeiro impulso foi raspar tudo, para que o tempo, mais uma vez, não tornasse Anderson mais distante, esquivo e amado. Questionou sua independência, esbofeteou seu ego e teve certeza de que os olhos azuis seriam mais um exótico aliado de sua rotina de solidão.




O ENCONTRO FATÍDICO

Eles se conheceram da forma mais usual possível. Em uma longa fila de caixa eletrônico, na sexta-feira, pela manhã, início de um feriadão até segunda. Muita conversa para passar o tempo, principalmente sobre o avanço tecnológico, como o fim do microcomputador, a evolução do celular, substituto de vários aparelhos, inclusive o controle remoto. A revolução tecnológica era o único assunto e chegava, segundo eles, a impensáveis concretizações, embora, às vezes, inúteis…
A palavra fácil, um discurso corrente, coerente e atraente, informação atualizada e uma compreensão mútua, deixava-os fora do mundo e esqueceram até que estavam na fila. Foi só, então, que se dando as mãos formalmente, para se despedirem, disseram seus nomes. Ficou o convite dele para se encontrarem à noite, em um barzinho calmo, onde pudessem continuar a conversa.
Bruno chegou dez minutos adiantado, da hora marcada, à portaria do prédio de Bruna. As piadinhas com seus nomes não puderam ser deixadas de lado.
Tomadas as medidas de segurança, pelo interfone, ela desceu logo em seguida e ficaram se atropelando em assuntos diversos, sem definir em que carro iriam. Sentiam-se como velhos conhecidos e essa definição era lógica. Comportavam-se casualmente e com muita conversa a ser atualizada.
O barzinho escolhido por ele era mesmo calmo, aconchegante, de aparência bem cuidada, localizado em uma das barracas rústicas na Avenida Litorânea, em São Luís do Maranhão. A noite se acomodava tranqüila sobre a tênue luz da praia, fazendo aparecer apenas a orla de espuma do mar.
Ela pediu um martini seco e Bruno uma cerveja em latinha, enquanto decidiam sobre uma refeição. Pediram um de tira-gosto de camarão ao alho e óleo que iam, bem devagar, descascando com talher.
- Sabe, Bruno, com a MP3, outras possibilidades, além da música, podem chegar gratuitas pela Internet.
- Você diz como o livro, por exemplo. Mas as experiências até agora são bem negativas… Bem eu sei que é só o começo… não se pode prever qualquer coisa. Não vou repetir o velho raciocínio dos saudosistas ou dos que nada entendem de informática. O livro, no formato atual, acho que jamais acaba! No campo virtual, sem a necessidade de empacotar ou aprisionar em CD ou em papel, como livro, nunca se sabe… Essa é uma coisa tão inovadora e grandiosa que não se pode imaginar o que vai acontecer. Acho que nem as próprias pessoas que inventaram e inventam programas, ships etc. Talvez aconteça, como no caso do cinema: no início do século XX, quase todo mundo dizia que a invenção do cinema não iria prosperar…Como aconteceu, também, com a televisão: iria matar o cinema! E os dois convivem muito bem… Se acabar a necessidade de película, passando a ser virtual, pela Internet ou outro mecanismo mais simples… aí mesmo é que essa invenção vai crescer!
Enquanto Bruno falava esse palavreado todo, ela observava seu rosto, seus olhos, os gestos, suas mãos, a linguagem, tudo. Sentia-se protegida pelas palavras dele, sem perguntas, como se estivesse por trás daquele vidro das salas de interrogatório, dos filmes americanos. Sabia que, do outro lado, havia o espelho de seu raciocínio e o cuidado com o que dizer. Bruna estava vestida com uma roupa “vamos-a-qualquer-lugar”, de vez que ele não dissera onde era o barzinho. Vestia uma camiseta entre chique e despojada e uma calça comprida de linho, totalmente social. Um sapato salto alto, que logo abandonou, para pisar na areia fina, nenhuma bijuteria, com o cabelo abaixo dos ombros, cobrindo as orelhas. Não usava brincos, pois sabia que não se davam bem com seus óculos.
- É, Bruno, você tem razão! E há mais: a venda de cds, as gravadoras, as fábricas de cd virgem, de aparelhos de som… tudo isso será peça de museu … Aliás, estou lendo um livro sobre MP3 que traz curiosidades históricas sobre a trajetória da música. Coisas bem interessantes! E até meio poético, como o nome do primeiro capítulo “A Alma”. Diz que a música voltou a ser dona de sua alma. Ela não está mais presa a um invólucro, onde várias empresas lucram demais e até controlam, com poder excessivo, o tipo de música a ser ouvida. Forjam a preferência por alguns cantores ou compositores e chegam ao cúmulo, no caso das gravadoras maiores, de inventar cantores, grupos de pagodes, dupla sertanejas, de música baiana, etc., para funcionar apenas por alguns meses e depois, abandonadas, somem do mercado.
Bruno estava encantado com os longos e finos dedos de sua parceira se movimentando lentamente e com sua voz suave, quase melódica, som que não pôde apreciar na fila, onde se conheceram. O rosto fino, a cabeça de formato comprido e o cabelo bem liso se aclopavam com a precisão de um computador ao nariz exótico, revelando um estimulante encanto. Ele não se cansava de olhar seu rosto. Do corpo, percebera apenas esfumaçados contornos ao entrarem e saírem do carro, para não parecer grosseiro insistente ou, talvez, lascivo. Sabia que aquela noite morreria na conversa gostosa, em possíveis olhares denunciadores ou não e em uma agradável companhia. Não que fosse adepto da ridícula convenção de que, na primeira saída juntos, não haveria sexo ou beijo arrojado. Isso era de uma hipocrisia sem limite, mesmo para pessoas que não se conheciam antes. Nestes tempos de ficar ou de ir beijando enquanto passa, nas festas, a intimidade muda de sentido. A sofisticação de Bruna, pela simples postura ereta e casual, sugeria um relacionamento inicial obsequioso, mas sem extremos.. Ela era uma pessoa saudável, viva, inteligente, bem apessoada, bonita mesmo e parecia uma parceira. Em outras circunstâncias, tinha certeza, ela jamais ao menos o notaria. Ficaria com o nariz empinado, como a encontrara inicialmente na fila do caixa eletrônico, olhando por cima do ombro, fingindo estar sozinha naquele lugar. Mas ela era, como se costuma dizer, uma pessoa diferenciada!
Bruno ainda se referiu a outras possibilidades de virtualidade, a um futuro de certa forma totalmente imprevisível, se a longo prazo ou imediato, dado os crescentes avanços da tecnologia. Falou alguma trivialidade leve, como seu trabalho com informática, seu sonho de fazer Direito e outras pequenas preferências, principalmente na gastronomia.
Bruna escutou muito pacientemente , educada e pertinente, até para ser bom ouvido e revelou poucos sonhos, como viajar pela Europa inteira, conhecendo museus e igreja, como obras de arte e a parte leste, para ver como ficou depois da queda do muro de Berlim. Concordou com alguns aspectos da comida local e mostrou um entusiasmo esfuziante por sua nova coleção de cd’s de música clássica.
─ Foi um verdadeiro achado! Uma coleção inteira, a preço baixo, boa qualidade de som e as mais famosas e renomadas orquestras filarmônicas, sinfônicas e de câmera… de tudo um pouco… uma versão bem diferente, constante em um catálogo. Depois que comprei, nunca mais vi anunciada.
Ele escutou em silêncio e prometeu apanhar a coleção, no dia seguinte, alguns exemplares, na portaria do prédio dela. Gostava muito de música clássica e tinha o dom de ter um ouvido privilegiado. Devolveria no domingo, pois já tinham agendado uma praia em hora de sol fraco, pela tarde.
O mesmo barzinho, agora usando as barracas de lona na praia, uma cerveja e o camarão ao alho e óleo. Enrolada na canga, revelou um corpo desejável, em suas formas não propriamente exuberantes, mas bem ao gosto de um braço, atraente para um carinho mais ousado e, para ele, o tamanho dos seios perfeitos. Uma pessoa completa, na conjunção de corpo e cabeça arejada, de fazer inveja aos mais esclarecidos.
Ele colocou a sacola pequena sobre a mesa e não se conteve e comentou o conteúdo, a qualidade a remasterização pouco saudável dos cd’s que ela lhe em prestou pela manhã e que agora estava devolvendo. Não havia falado a Bruna que era músico amador, mas estudioso como um profissional ao piano e que tinha ouvido absoluto. Era capaz de identificar qualquer tom musical, mesmo em um ruído que fosse. A harmonia da música era sua especialidade, esquecendo-se mesmo até da melodia, o que era difícil em música clássica, onde as duas se confundem de tal forma, que apenas os conhecedores conseguem identificá-las e separá-las.
A reação de Bruna não foi das mais agradáveis. Deixou de lado a sofisticação e passou a acusa-lo de não saber ouvir música clássica, talvez por ser um grosso que gosta apenas de lambada; que seu aparelho de som era uma porcaria, um traste inútil de contrabando do Paraguai. Fingia que gostava desse tipo de música apenas para conquistá-la e um monte de outros absurdos que fez Bruno desconhecê-la.
E nunca mais se viram, nem falaram.



UMA AGÊNCIA


A situação não era agradável. Aquele clima de juizado de família, com os rostos enroscados em si mesmos, o azedume da separação enchendo o ar, como volumosas nuvens de fumaça, oprimia os presentes. Roberto, sério, mas até certo ponto aliviado, tinha como companhia seu amigo Carlos e o advogado, um rapaz jovem, responsável pelo divórcio. Depois de um bom tempo de espera, Helena, a sua ex-mulher, do outro lado do corredor, lançava olhares de uma raiva mansa, contida, aquela raiva onde o ódio se esconde entre a ternura e a morte, transmitindo uma mensagem nada recomendável. Mas o divórcio foi consensual, apesar das brigas na hora da partilha extra-oficial, com solavancos, coisas atiradas em direção a Roberto, mas, por fim, conciliadas as divergências, o pedido foi assinado. Mais de uma hora depois, veio um rapaz avisar nova data, justificando que naquele dia não era possível ser realizada a audiência. Essas coisas confusas de Direito, fazendo com que o casal não entendesse o motivo de tanta burocracia para desfazer um casamento. Só faltava o juiz assinar a sentença, mas tinha que ser na presença dos dois. O divórcio mesmo já estava decidido.
Roberto e Carlos foram a um bar em frente ao tribunal, onde tomariam alguns drinques, para espantar o estresse da espera e falar mal da burocracia na aplicação do Direito. Carlos falava, então, do casamento de um amigo comum, que seria no fim de semana e de como era simples conseguir os papéis e difíceis os preparativos para a festa. Nesse momento, chegou Cássia, ainda vestida de branco, vinda do consultório ali perto. Inteirou-se do assunto e, ao ouvir festa de casamento, ficou pensativa. Carlos e Cássia tinham uma relação de entrosamento. Isso aproximava os dois, até mesmo na cama, em momentos de carência mútua, o que vinha se tornando cada vez mais freqüente.
Mas Carlos continuou recordando o que a noiva do seu amigo tinha que fazer para a festa de casamento e lembrou, falando, despretensiosamente, depois de cinco doses de uísque:
─ Se descasar é tão difícil, por que não há uma festa também? É justo que, depois de tanto esforço para a separação, não haja uma baita comemoração? – todos riram, mas Cássia logo ficou séria e disse:
─Poderíamos criar uma Agência para promover essas festas. Ganharíamos uma grana. Mais do que eu no meu emprego no SUS e no meu consultório. Seria uma festa com o desfazimento do casamento. Como um filme voltando ao contrário – e Carlos emendou:
─ Sabe que é uma boa idéia?! Tou cheio de ser contador naquele escritório. E jamais ficarei com uma boa grana ali. Poderíamos experimentar com a separação de Roberto, cada um bancando um pedaço. Teremos de convencer Helena a participar, pra ser realmente interessante. Quem iria falar com ela?
─ Eu falo, disse Cássia, mulher se entende melhor e ela não ia pensar que era deboche. Pode deixar, a gente vai bolando devagar até sair a certidão do divórcio.
─ Isso demora muito. É, depois da sentença, vai pro cartório… muita burocracia! – falou Roberto entusiasmado com a idéia – Podíamos fazer no domingo. Sábado tem o casamento de nosso amigo e no domingo a festa do meu descasamento.
─ E como seria? Perguntou Cássia.
─ Será assim: - completou imediatamente Carlos – o casal vem da porta da antiga casa onde morava e entra na igreja junto. Isso depois da festa …
─ Não, pera aí, vamos organizar melhor: - Cássia falou apressadamente – Começamos pela festa. O conjunto tocando música agitada, todo mundo dançando e bebendo…
─ Eu passando a mão na sua bunda gordinha e macia – falou Carlos, depois de sua sétima dose.
─ Nesse começo, o bolo tá todo repartido, só tem alguns pedaços. Sim, a gente faz isso. Com o que retiramos do bolo, os ex-casados o completam, até deixá-lo inteiro. Depois dançam uma valsa, tem os discursos, improvisa-se o altar em outro ambiente, os ex-casados entram de braço dado e devolvem as alianças para um “padrinho”. E voltam todos pra festa.
─ Não, tem muita cerimônia – disse Carlos – e isso dá muito trabalho, precisaria até de um roteiro. Nada disso. Contratam-se drags e umas mulheres espertas com as bundas de fora, de fio dental, muitas bebidas, muita sacanagem e vamos até enquanto agüentarmos.
─ Mas por que drags? – disse Roberto - eu não vou contratar drags.
─ Mas tem gosto pra tudo e tem muitos casamentos que acabam porque as mulheres pegam os maridos com homens. Lá, vale tudo, nesse tipo de festa e sem preconceito – sugeriu Cássia.
O dia já ia fugindo pela barra do horizonte, as luzes do bar se acenderam e entrou Helena, acompanhada de uma amiga. Os três as chamaram para sua mesa e Cássia, como havia prometido, contou a idéia para Helena. Ela deixou sua pasta de executiva sobre uma cadeira vazia ao lado, pediu uma vodka com gelo e dois camparis ao mesmo tempo, um para a amiga e outro para ela tomar com a vodka. Tomou um gole grande, olhou para Roberto com um ar atrevido, e disse:
─ Agora que posso beber à vontade, sem vigilância, concordo com a idéia, mas sem a cerimônia ridícula. Minha amiga Carla tem a casa dos pais na praia e podemos fazer a festa lá – em seguida, pediu outro campari duplo.
─ Então, estamos acertados, nesse domingo agora, cada um convida seus amigos, compramos as bebidas e os salgadinhos e contratamos dois garçons. Eu posso fazer isso – comandou Cássia
─ Ótima idéia! As bebidas deixem comigo, não quero miséria, quero muita e da melhor, nada de cerveja. Eu e o Roberto faremos uma festa de acabar casamento acabado. Vamos deixar todo mundo rolando no chão e nos quartos – e Helena foi desfiando detalhes cada vez mais picantes, à proporção que as doses de campari e vodka iam chegando à mesa e uma música suave invadia o ambiente. Foram pedidos mais tira-gostos, a clientela foi mudando de happy-hours para casais que tomavam drinques e jantavam, quando Helena falou eufórica e convincente.
─ Quer saber, festa boa é a que se faz na hora. Nada de programar. Vamos agora lá pra casa, já que a casa ficou comigo, cada um telefona pra seus amigos, a gente pede bebidas e comidas no DRINK ´S BAR 24 HORAS e eles ainda mandam copos, pratos e talheres de plástico duro e inauguramos a AGÊNCIA DE FESTAS DE DESCASAMENTOS é logo. Como disse antes, nada de deixar pra depois. Os ânimos ficam frios… vamos pedir a conta aqui.
Na manhã seguinte, no alvorecer de estômagos vazios, Carlos e Cássia foram se levantando do sofá na sala e havia de tudo espalhado pelo chão: de camisinhas a vômitos, de restos de comida a corpos seminus. Carlos subiu com dificuldade as escadas para o segundo andar e foi procurar Roberto, naquele local, onde havia três quartos com banheiros. No quarto de casal encontrou Roberto e Helena nus, de costas e a cama com os lençóis e cobertores no chão.. Fechou a porta e deu de encontro com Cássia que vinha do andar de baixo.
─ Vamos sair daqui, a festa foi de recasamento! – e saíram rindo, abraçados, naquele meio-dia de sol a pino, suados e felizes pelo que fizeram durante a noite.




O QUADRO NA CASA

O quadro parecia ingênuo e até mesmo infantil. Traços grossos curvados dispostos ao longo de uma tela deitada, com um céu sem nuvens, em tom violeta claro e, embaixo, um verde vivo, quente, verde musgo, atenuado pelo branco, em sua mistura. O traços curvos, ora pareciam a estilização de raios, ora viadutos superpostos, ora simples riscos grossos e finos que santificavam a inocência.
Colocado, há muito tempo, atrás de um guarda-roupa antigo, surgira na casa de Marçal, na arrumação de uma mudança que sua família fez, por causa da venda do imóvel. Fora alugado pelo seu pai, quando este ainda trabalhava e tivera o contrato sempre prorrogado, à base da palavra dada. Nada escrito, nem o documento inicial..
Fora no início de uma das ditaduras brasileiras, em março de 1964, que a família ali se instalou, pela proximidade do trabalho de seu pai, o seu Alberto. Ele era revisor de um jornal, aliás função muito respeitada na época, que ficava na Rua de Santana e se chamava O Dia. Seu Alberto também escrevinhava comentários sobre livros, filmes e exposições de artes plásticas, num período em que a televisão ainda não chegara a São Luís do Maranhão. Essa novidade só veio a acontecer quase no final de 1965 e não havia as redes nacionais.
A casa era cheia de quartos, com um corredor longo que dava, de uma lado, para o pátio interno com um jardim mal cuidado e de outro, para as portas desses quartos. Era uma casa antiga, necessitando de reparos de conservação que a mantivesse ungida pelos doces prazeres de um visual mais limpo e decorativo. Os poucos quadros que se diluíam nas paredes eram retratos de família em molduras ovais, retocados à mão ou, então, estampas de paisagens longínquas de ambientes europeus. Não havia dinheiro para pendurar telas, nem de artistas locais, da incipiente produção artística da cidade.
Enquanto em Brasília era entronado um general como Presidente da República, seu Alberto passava as madrugadas revisando as notícias para imprimir nos linotipos e, acanhadamente, nos intervalos, rabiscava comentários artísticos, que não poderiam ser chamados de crítica de arte.
A uma exposição que fora, em um final de tarde, ante de ir para o trabalho, encontrara o artista plástico - por estas bandas ainda se chamado de pintor - e cenógrafo Jorge Dennies, que teria o seu evento dentro de poucos dias. Eles combinaram uma crítica favorável ao pintor e no dia seguinte o artista levou um quadro na casa de seu Alberto, para que ele tivesse uma noção do que seria apresentado na ocasião e solicitasse ao editor-chefe uma notinha sobre o vernissage.
O quadro, segundo Dennies, pertencia ao movimento pictórico Expressionismo Abstrato, surgido no pós-guerra e chegado ao Maranhão nos anos 60, atrelado à onda beat e hippie, de então. Para seu Alberto eram simples pinceladas ao acaso, como se provenientes de uma loucura temporária. Nada representava para ele, a não ser o espaço de um pincel louco e uma falta de tema. O autor chamara o quadro de “Ligações Desligadas”, mas, para o crítico, não passava de coisa desligada da realidade, embora tivesse que tecer elogios à obra.
Durante muito tempo, o quadro perambulou pela sala, em cima de móveis ou no chão, encostado à parede, até que, em uma grande faxina, ele foi parar atrás do enorme guarda-roupa do quarto do casal. Marçal, a essa época um adolescente, começava a cometer suas poesias desencontradas e a se interessar pela estética, pensando, no futuro, buscar uma carreira artística. Olhara o quadro, antes de seu encafuamento, e , quase lamentando, comentara com o pai:
─ Quadro bonito, esse aí! – e para demonstrar algum conhecimento de arte, acrescentara – Pinceladas fortes, cores vibrantes, parece uma arte nova que não se copia.
Seu Alberto, na sua incredulidade pela linguagem do filho, cansado das atribuições diárias, das desventuras da profissão e com a visão formada pelos ditames da arte européia, desdenhara:
─ Nada disso! Isso é porcaria de pintor da terra que quer inventar coisas… – e não falou do comentário escrito que tinha feito.
Após a morte de Seu Alberto, próximo ao início do novo milênio, Marçal, já engenheiro de uma construtora, iria sair da casa, a pedido do dono e se mudar para um apartamento na parte nova da cidade, em um prédio para o qual contribuíra na construção. Fora uma concessão da empresa onde trabalhava, para ajudar seus funcionários, diminuindo o preço final e dividindo em várias prestações.
Com o quadro na mão, procurou um pano umedecido em água e começou a tirar as teias de aranha e aqueles flocos de caruncho em tiras, que ficam atrás dos móveis. À medida que limpava, olhava com maior clareza para as formas e as cores e se encantava com a criatividade do artista.
Como tudo na vida, o momento histórico é decisivo para a definição de valores. Comentou, então, com a esposa:
─ Este quadro, há quase quarenta anos, não valia nada. Representava uma loucura do pintor, um verdadeiro disparate e, hoje, dependendo do artista, vale uma fortuna.
Ela o olhou emburrada, sem entender muito o que ele dizia e falou:
─ Mas você não vai botar essa besteira aí na parede do nosso apartamento, vai?



UMA ENTREVISTA COLETIVA
A sala repleta de jornalistas exalava uma expectativa sobre aquela entrevista com uma pessoa fisicamente desconhecida, mas de fama universal. Alguns profissionais haviam preparado um questionário caprichado, outros se entregaram a uma pesquisa, baseada em critérios científicos, esotéricos, espíritas e de crenças africanas, além de um longo histórico.
Ninguém conhecia a entrevistada pessoalmente, apenas por suas realizações e faziam dela, ora uma imagem aterradora, ora a de uma espécie de intermediária ou quase uma promoter de eventos.
Permeava na sala um burburinho de inquietação, como se o alvo daquele encontro de trabalho fosse uma pop star. O ambiente fora decorado com longas cortinas de parede inteira e tiras enormes de fazenda, em forma de redes armadas sob o teto, em cor branca, dando maior claridade ao recinto. Alguns repórteres, fotógrafos, iluminadores, câmeras-man, formavam grupinhos, onde a ansiedade se mostrava em cada cigarro sorvido com avidez ou com o remexer sôfrego e contínuo dos cabelos femininos.
A hora marcada avançava, aumentando o sofrimento dos interessados, alguns porque tinham outro compromisso, outros pela curiosidade em conhecer personalidade tão temida e cheia de mistérios, chegando mesmo a exasperar os mais afobados ou a desacreditar em sua vinda, os destemidos e tímidos.Alguns já pensavam em desistir, com o ânimo de que ela não viria se expor de forma tão contundente.
Inesperadamente, ela surgiu pela porta lateral, sozinha e vestida de branco, decepcionando a quase todos, por terem dela a imagem de uma mulher vestida de preto, com capuz e sempre acompanhada por um séqüito de acontecimentos, como se chegasse sempre em entrada triunfal. Tímida, bem magra, com roupas esvoaçantes, sentou ao meio da mesa principal, em forma de linha reta, em uma cadeira de espaldar alto, parecendo um trono. A seu lado, outras cadeiras comuns e vazias compunham um quadro de isolamento, sem a presença de um assessor, de um ajudante ou mesmo de um segurança.
Aparentava um ser frágil, mulher com rosto masculino, de idade indefinida, como algumas pessoas que têm um trabalho árduo e diuturno, com afazeres repetitivos. Sentada ali, em seu encolhimento e até certa generosidade, não demonstrava os transtornos que causava às pessoas e a malquerença que despertava, até nos ânimos menos revoltados. Era admitida por várias religiões, que a tratavam de forma diferente, mas, sempre, com um sentimento de perda, não importava que papel desempenhasse.
Os profissionais da imprensa voltaram-se imediatamente para ela, cada um buscando suas anotações ou enquadrando o melhor ângulo de imagem. Ela abriu os braços em um gesto, como a dizer perguntem, satisfaçam sua curiosidade; depois juntou as mãos uma sobre a outra, aguardando ser inquirida, quando, imediatamente, levantou-se uma jovem afoita, que aparentava não ter trinta anos e, com a voz trêmula, perguntou de chofre, sem ao menos se identificar:
- Porque a Senhora se chama Morte?
Com uma calma inquietadora e um silêncio repentino, ela se ajeitou na cadeira, colocou uma das mãos no queixo e relaxadamente respondeu:
- Não sei. Sempre foi assim, em todas as línguas e considero quase um apelido. Não me incomoda. Esse nome vem do latim vulgar e se incorporou à vida das pessoas, quando elas deixam de existir. Acho que assumiu uma conotação pejorativa demais, para uma coisa tão comum e normal, na própria vida. Mas assim sou conhecida e levo a fama, muitas vezes, por atos praticados pelas próprias pessoas, como se eu fosse a causadora de tudo de ruim que acontece. Já imaginaram como seria o mundo, se eu não existisse? O acúmulo de pessoas no planeta, gerando um verdadeiro caos, como bem expôs o escritor português José Saramago, no seu livro “As Intermitências da Morte”?
A resposta não satisfez plenamente a todos e pareceu mais um pedido de desculpa, uma justificativa por sua existência. Cochichavam alguns entre si que ela nada dissera e continuaram frenéticos em suas perguntas:
- Por que a Senhora é sempre representada por um esqueleto humano, armada com uma foice?
- Não sei, acredito que vem da crendice popular e já faz muito tempo, quando era muito comum utilizar-se da foice para ceifar a colheita ou cortar capim e outros vegetais. Hoje, aqui no Brasil, ainda é usada no campo e em movimentos de Sem Terras, mas não tem a mesma repercussão de outrora. A maioria das pessoas que vive em centros urbanos desconhece uma foice. Quanto ao esqueleto, é o que nos tornamos mais dia menos dia, até ele mesmo desaparecer. A morte é um símbolo que parece cruel, mas retrata a verdadeira face da vida, perdoem o trocadilho, na sua essência mais pura, mesmo que possa parecer dolorosa. Não há no mundo animal ou vegetal quem não se torne esqueleto, na sua simplicidade e vínculo estreito com a vida. Com os outros animais e plantas há uma serventia real para a vida, mas com os humanos, ora causa terror, ora é objeto de veneração, como se fosse um “alimento” espiritual. Serve até para cultos considerados heterodoxos, com sua simbologia própria, dependendo do credo É, como disse, um símbolo. Como os ícones das igrejas, o emblema de um time de futebol ou qualquer outro, embora as pessoas o tratem com desprezo e asco.
Fez-se um silêncio na sala, como se um absurdo acabasse de ser dito e as canetas começaram a escrever rapidamente, antes que outra pergunta surgisse. O clima de pasmo, porém, não se dissipou de imediato. A entrevistada parecia segura em suas declarações, o que causou certo intimidamento nos jornalistas, nada que atrapalhasse o lado profissional. Como em uma entrevista com uma pessoa acusada de corrupção, em que há provas contestáveis contra essa pessoa, não deixa de causar certo mal estar em quem pergunta ou registra a imagem, como se esses soubessem que era mentira, mas sem condições de colocar o entrevistado contra a parede.
Passado o primeiro impacto, logo veio a terceira pergunta, feita por um senhor grisalho, com a expressão descrente e um sorriso irônico:
- Por que, quando a Senhora aparece, sempre leva alguém consigo?
Ela suspirou fundo, como se contivesse uma irritação, abaixou a cabeça para ajeitar a roupa, abaixo do pescoço e empinou o nariz, em sua altivez e segura do que iria falar:
- Não vou dizer que é porque chegou a hora. Seria muito determinismo para um fato tão comum. Se houvesse uma hora para cada um, seria admitir que existe um ser superior que determina essa hora, como se o mundo fosse organizado por alguém, por sinal muito incompetente, pelo que se vê na vida. Conceber que as relações sociais são conflituosas, por natureza, é admitir que a própria existência humana é contraditória e que a chamada paz e harmonia são uma utopia, incapaz de se concretizar. E isso me parece óbvio… É claro que algumas pessoas têm que acreditar que não é isso ou enlouquecem, criando-lhes um vazio existencial, por não haver alguma outra oportunidade de compreender a vida. Mesmo aquelas que se dizem intelectualizadas, mas não o suficiente para irem além de sua profissão e conseguirem processar o conhecimento, a informação. Essas repetem a forma como foram educadas. Não questionam nada, não tem a curiosidade saudável e bem vinda, quando se tem a mente irrequieta e ávida por processar os conhecimentos, fazendo as ligações necessárias entre o que aconteceu e o que está acontecendo, entre o que se aprendeu e sua mutabilidade, entre o presente e as possibilidades futuras. Enfim, raciocinar com os dados conhecidos e com os que estão surgindo. Na verdade, levo a fama por algo que necessariamente acontece ou irá acontecer, sem que para isso contribua em nada. Sou mais um símbolo, escudo de verdades que não querem ou não podem ser ditas, por isso não levo ninguém.
Dessa vez, a sala ficou alvoroçada todos fazendo comentários paralelos, com perguntas várias ao mesmo tempo, enquanto a entrevistada, em sua calma permanente, aguardava que a exaltação diminuísse. Ficou calada por um tempo, acendeu um cigarro e soltou uma baforada com gosto. Sentiu-se como se estivesse superpondo-se àquela camarilha de sequiosos por um sensacionalismo barato. Essa matéria que atende à demanda de leitores e telespectadores, atraídos por fatos magníficos ou degradantes. Isto sem cumprir não especificamente sua função de informar ao público, mas de realmente enchê-lo de fatos bizarros e esdrúxulos, próprio de mentes ávidas pela desgraça dos outros, pelo desastre, pelos atos inconcebíveis, mas sem relevância alguma.
Ao terminar o cigarro, uma voz se sobrepôs às outras, em tom quase histérico e descrente, afirmando: mas a Senhora fuma, não tem medo de morrer? Ela se conteve, num sorriso discreto. Acolheu a pergunta como se fosse uma piada e respondeu:
- Quem disse que o cigarro industrializado mata? Pesquisas científicas? Essas pesquisas foram feitas em todos os diversos biotipos humanos? Impossível. Não haveria uma outra “indústria”, bastante lucrativa, por trás dessa informação? Como se justificaria a existência de pessoas que fumaram a vida toda e morreram velhinhas, de causas naturais? Como você encara os congressos e encontros médicos sobre o tema, onde informações do malefício do cigarro são repassadas a esses profissionais da saúde, e são promovidos e custeados pela indústria farmacêutica internacional? Você não é ingênuo a ponto de pensar que quem combate o “mal” não se beneficia dele?
Interrompendo a entrevistada, como costumam fazer os jornalistas, logo outra pergunta surgiu e interessou mais a ela:
- A Senhora leva as pessoas para onde?
- Meu jovem rapaz, você não está acompanhando bem meu raciocínio. Eu não levo ninguém, sou só um símbolo. E para onde iria levar? Além do cosmo, nada existe de concreto, onde se possam depositar pessoas ou almas, como você quiser. Senão haveria um outro lugar concreto onde esses entes ficariam. É imaginação demais!!! Acreditar numa vida posterior à vida física é uma forma de consolo pessoal de que alguns necessitam, para suportar a dor da perda de um ente querido. Conceber a existência desse lugar ideal torna a lembrança mais vívida, mais real mesmo. É uma confusão de conceitos com os quais se tem que aprender a conviver…
- A Senhora falou em perda, como sinal de destruição, dor, partida para sempre. O que isso significa para a Senhora?
- Minha amiga, se posso chamá-la assim, você é uma pessoa madura, já deve ter tido experiências de vida suficientes, para sentir essa dor, essa perda. No ciclo da vida está incluída a morte, embora alguns não se conformem com isso. As religiões pregam vida além túmulo, uma passagem, um outro modo de existir. Exclui-se da vida a morte. Se existimos, morremos, não como algo separado, fora da vida. A Morte é intrínseca à vida. Lembra a frase “tudo que tem começo, tem fim”? Exatamente porque tem começo.
A entrevista foi ficando cada vez mais filosófica, o que não interessa à imprensa. Não vende. Os jornalistas foram saindo apressados, e, quando uma jovem se aproximou da mesa principal, para cumprimentar pessoalmente a entrevistada, não havia ninguém sentado lá.



CALADOS, NO SILÊNCIO
Sempre que aquele assunto surgia, por qualquer motivo, Natam se lembrava do dia em que fizera amor com a mulher de seu cunhado. Lembrança antiga, de uma época em que tinha mais ou menos 35 anos, mas que ficara presente, pela forma inusitada como ocorrera.
Às vezes, em rodas de cerveja, em finais de semana, alguém se referia a traçar a cunhada gostosa, como forma de afirmação de masculinidade e sempre lhe perguntavam se ele ainda não havia feito. Resultava sempre em uma negativa peremptória, mesmo porque o que acontecera não fora bem com a cunhada, a não ser que queira se considerar o parentesco por afinidade realmente como uma ligação de família.
Foi em uma manhã de segunda-feira, por volta das dez horas da manhã, que Natam se dirigira ao apartamento do cunhado, em um conjunto de sete blocos, cercados por muro, para levar uma encomenda . Era um pacote em forma de livro, desses que se recebe via postal, endereçado à sua casa, mas com o nome de Isolda Alves dos Santos, a mulher do cunhado.
Ele saíra de seu trabalho, no Ministério da Agricultura, onde era chefe de uma Divisão, com essa incumbência, pois há três dias o embrulho estava em sua casa e sua mulher todo dia lhe lembrava da necessidade da entrega. Ele só não entendia por que estava com seu endereço, em vez do próprio da destinatária.
Bateu à porta e foi atendido por uma mulher alta, de cabelos compridos e loiros, os olhos azuis, coberta por um roupão de banho. Ela lhe sorriu e ele entregou o pacote, sendo convidado a entrar. Ainda quis rejeitar, mas ela foi tão gentil com seus gestos de mão, que não houve como recusar. Àquela hora da manhã, em um apartamento de fundo, todos no trabalho, as crianças no colégio, o cinzento do céu, ela sozinha em casa, estava implantado um silêncio que agasalhava segredos e abordava inferências.
Ele se sentou no sofá, abriu o paletó e ela começou a lhe fazer gestos como se lhe agradecesse a entrega. Natam sabia que ela era surda e muda, trauma de um estupro que sofrera há dois anos, quando chegava em casa da faculdade. Nunca fora descoberto o autor, mas ela ficara com uma seqüela maior: o desprezo do marido por seu corpo.
Naquele silêncio interior no apartamento, não havia muito o que falar. Ele não entendia a linguagem dos sinais e mesmo não havia assunto comum, nem os comentários triviais habitualmente usados nessas situações. Calados, um olhava para o outro entre aqueles móveis antigos e bem conservados. Natam colocou a mãos no joelhos para tomar impulso e se levantar, quando ela ficou em sua frente, por trás da mesinha de centro e abriu o roupão, escancarando o corpo todo nu, com os seios empinados e a penugem loira no seu sexo, contornados por curvas sensuais e sem qualquer vestígio de barriga.
De olhos arregalados, recostou-se no sofá, sem esboçar qualquer gesto, estupefato, quando ela tirou por inteiro o roupão, deixando-o cair no chão e colocou as mãos na cintura, encarando-o com um sorriso nos lábios. Os olhos pareciam mais azuis, com um brilho especial, contrastando com sua nudez. Era algo gratuito, pois jamais ela demonstrara qualquer interesse por ele, nem esboçara qualquer gesto que pudesse sugerir algo mais íntimo, como um olhar furtivo ou um sorriso mais acolhedor.
Ela era professora universitária, no tempo em que essa função representava uma posição de destaque na sociedade, através de boa remuneração e guardando uma dignidade imposta por um concurso público que poucos se atreviam a fazer, pela dificuldade de obter êxito. Não havia universidades particulares na cidade, aviltando a atividade de magistério, por uma seleção ineficiente e capenga e um salário degradante. Como professora do Curso de Direito da Universidade Federal, tinha como colegas de trabalho pessoas representativas da sociedade, como desembargadores, advogados famosos e assessores jurídicos de renomadas instituições públicas, dando credibilidade ao corpo docente. As faculdades da Universidade funcionavam em prédios distribuídos pela cidade, sem aquela idéia de vulgaridade do campus, como uma comunidade isolada, confinada aos muros da intransigência e do descaso do poder público.
Ser professor universitário conferia à pessoa a respeitabilidade de um ser diferenciado, conhecedor de sua atividade profissional. Não era apenas um emprego, mas o coroamento de uma carreira, um destaque profissional e isso em plenos anos 70 do século XX, quando a massificação do ensino superior ainda não tinha implantado suas garras ferozes da avalanche de incompetências e falta de recursos. Quando uma base teórica sobre o Direito, por exemplo, ainda consolidava carreiras brilhantes, no aconchego das arcadas do saber.
Ela, cônscia da posição que desempenhava, jamais poderia imaginar que seria atacada, de forma tão covarde, dentro de sua própria casa, ampla e confortável, antes de ter de se mudar para aquele apartamento de classe média, como que clamando por segurança. Até então, sentia-se incólume a essas práticas que, para ela, constavam apenas da seção policial dos jornais populares. Isso, antes de o sangue e a desgraça alheia ser o objeto primordial do jornalismo, que hoje ainda se diz informativo, mas que destaca apenas a comezinha miséria de uma sociedade sustentada por um consumismo doentio.
Desde a época do estupro, ela ficou tão perturbada, que teve que se aposentar por invalidez, por perturbação mental. Freqüentou sessões de psicanálise, vendeu a casa luxuosa e foi morar com o marido no apartamento em que estava. A princípio, não tolerava qualquer contato físico, uma abraço que fosse, e foi se distanciando do companheiro de estripulias sexuais, até que ele arranjou amante, que depois se tornou fixa. Ele não admitia que sua mulher tenha sido usada por outro homem, principalmente da forma grosseira e violenta como acontecera. Recusava-se a aceitar que ela não havia provocado ou insinuado, na sua ignorância de machão, ao chegar a casa e vê-la semi-nua, sendo possuída pelo invasor. Seu raciocínio estreito não concebia que se tratava de um estupro. Sua cegueira de homem que se sente traído, impedia de ajuda-la a se recompor emocionalmente, dando-lhe o desprezo de uma infratora.
Ela, a partir de então,depois de certo tempo, se ocupava escrevendo um livro sobre Direito Penal, que nunca terminava, entremeando essa atividade com crises existenciais, depressões profundas que os remédios não combatiam. Saía de casa muito pouco, nos seus momentos de euforia, para fazer compras no supermercado próximo ou ir a um shopping center olhar vitrines ou fazer um lanche leve e perambular pelos corredores e escadas rolantes
Com ela nua à frente de Natam, o silencio se tornou malicioso e um péssimo aliado, com eles calados, um olhando para o outro. Ele se levantou e, de imediato, abaixou-se para juntar o roupão e cobri-la, quando ela se abraçou em volta de seu corpo, de modo ávido e pungente e contrariando a sua mudez de quase dez anos, disse em seu ouvido baixinho :”faça amor comigo”.



O BLOG DE MARINA


A idéia surgiu, para Marina, como um protesto. Depois que inventaram blog na internet, todos se acharam literatos, mesmo em forma de diários insípidos de adolescentes. E esse recurso de informática criou má fama. Uma leva de textos açucarados ou simplesmente sem nexo fez pedir silêncio, como se estivéssemos não em frente à tela do computador, mas se pudéssemos estar em alguma biblioteca de autores consagrados e aparecessem baderneiros. Esse grito de alerta aconteceu, realmente, em Curitiba, na Revista Oroboro, dizendo um basta a CDs, blogs e festivais.
Em meio a essa confusão, Marina, que fazia poesias, criou um blog no provedor Terra, para divulgá-las. Não pôde colocar seus contos, porque não cabiam no formato. Tomou-o como um despretensioso espaço para suas angústias literárias, sem o alarido ou a grandiosidade de um site. Tinha em mente que era esse o futuro próximo e mais difundido de nova configuração do livro, como coisa concreta e não mais a ditadura das editoras e todo o processo dolorido de feitura de um, em suas fases, desde a aceitação pela editora até à noite de autógrafos, incluída a distribuição. A divulgação via informática seria natural pelo processo de busca, com o apoio de banners ou cookies, desde que, para o livro sair grátis para o usuário, houvesse um ou alguns patrocinadores. Essa seria a remuneração do autor, como nos livros encomendados por empresas.
Não via necessidade do conhecido chavão de que era preciso pegar, guardar, acariciar o papel, naquela relação sentimental e nostálgica das bibliotecas particulares e públicas. Continuariam os bibliófilos, mas sentados em suas confortáveis poltronas, lendo ou armazenando seus livros em arquivos de computador. Para os mais renitentes, que os copiassem na impressora e os mandassem encadernar, obedecendo ao feitio original. Assim, não haveria carência de espaço físico, nem a conservação e manutenção dos livros, como não o há para criá-los. Bastaria um computador de última geração, talvez na forma de um celular ou algo semelhante, uma tela e a rede mundial de computadores, que talvez não se chamasse mais internet.
Com essas idéias na cabeça, seus sonhos e fantasias à mão, começou a postar poesias e a saborear os comentários, inicialmente de amigos, escritos logo abaixo de cada texto. A cada dia Marina se empolgava com a idéia de ruptura com o antigo formato do livro e foi escrevendo no tempo livre do seu trabalho e dos afazeres domésticos, fazendo crescer seu blog nas madrugadas, com uma velocidade assustadora.
Sua luta individual em tirar a mediocridade dos blogs foi se espalhando pela própria internet, na base do teclado a teclado e passou a ser não só entre amigos. Foi assim que chegou ao conhecimento de Marcelo essa espécie de pacto revolucionário. Ele pesquisou com amigos o MSN dela e, com a maior desfaçatez, apresentou-se também como poeta e contista. Tiveram uma conversa formal de artistas, mas, desde o início, instalou-se um respeito recíproco, principalmente quando ela usou uma expressão poética de conteúdo forte e ele respondeu com outro verso e, de frase em frase, fizeram, sem pretensões, um poema em co-autoria.
Como se novos cânticos surgissem, emoldurando encontros, estabeleceu-se uma amizade que foi se transformando, paulatinamente, em sonoros arroios de amor, na urdidura de momentos fugidios e horários carcomidos. Ela era casada, mãe de duas filhas e um pouco mais velha do que ele. As intermitências do amor foram gerando ousadias que não se permitiam vulgares. Eram bem qualificadas para um amor a distância, onde a palavra escrita substituía os cinco sentidos tradicionais, em descrições que geravam emoções, na dosagem de um sentimento idêntico ao presencial. Os eflúvios da pujança do amor foram modificando e substituindo a conversa inicial, ficando sempre presente a caracterização do blog ou do site como uma nova forma, a longo prazo, talvez, de se apresentar o livro.
A inconveniência dos horários em que se falavam via internet foi sendo substituída por outros momentos menos impiedosos com o estado civil dela. Não ficava muito confortável jogar beijos e fazer outros gestos carinhosos para a web cam, como se fossem para o nada, em pleno dia, com pessoas passando pelo studio dela.
Os blogs cresceram, sempre com a troca de poemas entre eles como comentários, entretanto, o tempo amoleceu a paixão. Vieram os sites e os livros eletrônicos de cada um, formulando vidas literárias próprias.



UMA TERÇA-FEIRA
Naquela manhã, eu completava 54 anos e acordei vazio, desgostoso mesmo com o encontro da noite anterior. Minha cama ainda exalava, em um canto, o cheiro do perfume da mulher cheia de classe, que estivera comigo.
A boca estava amarga, pelos cigarros e pela bebida. Eram mais de dez horas de uma manhã de sol forte, como as desta ilha de São Luís do Maranhão. Comecei a pensar no inusitado de ter ficado com aquela mulher, daquela forma intelectualmente abrupta, conversando sobre filosofia e política, basicamente, quando poderíamos estar curtindo as delícias do sexo sem compromisso, como qualquer casal. Mas percebi que ela não era uma pessoa comum, daquelas que tratam a vida como simplesmente uma seqüência de momentos. Havia questionamentos em suas preocupações e uma pessoa assim não se leva inexoravelmente para a cama, sem certo preâmbulo.
Nesse momento, interrompendo meus pensamentos e suposições, meu filho telefonou, avisando que ligasse, naquele instante, a TV, porque os Estados Unidos estavam sendo invadidos por terroristas. Pensei em repreendê-lo, pelo absurdo da idéia, mas um cansaço mental me fez agradecer e expressar-me com um simples OK.
Liguei a TV e, por milhares de vezes, as torres gêmeas do Word Trade Center eram atacadas por aviões e caíam aos pedaços. Esse jornalismo exaustivo, massacrante e sem nenhuma criatividade, tão comum nos dias de hoje. Acredito que vi apenas umas duas vezes e depois fiquei ocupado, fazendo um nescafé e pensando em Lorna, na noite anterior.
A maneira como nos conhecemos era pouco recomendável. Saí na véspera, em plena noite, tomando goles de uísque, até encontrar um bar que me agradasse. No terceiro barzinho, com música ao vivo, na orla marítima, pedi uma cerveja no balcão. A meu lado, uma pessoa muito branca, de cabelos louros compridos e soltos, tomava um refrigerante e me olhou como se eu não existisse. Fiz um cumprimento de cabeça e, não sei porque, disse: “ Olá, como vai?” Ela voltou a me olhar, como faróis focados de longe, e respondeu simplesmente: “tudo bem”, de uma forma bem solta, como se a retribuição do cumprimento fosse sugado de dentro de si.
─Isto aqui tá meio fraco… intervalo da banda, música mecânica… calor… Qual é seu nome?
─Lorna.
─Lorna? Um pouco estranho, para esta ilha estranha, embora eu seja daqui.
─Neta de estrangeiros…
─Não se ofenda, nem considere uma cantada, mas ficar aqui, em pé… nesse calor …
─Que estrangeiros – resolvi perguntar, sentindo que o rumo da conversa a desagradava.
Ela era alta, para a estatura média de São Luís, o cabelo fino, alva, olhos pretos, um corpo apreciável, mas algo a tornava diferente das outras pessoas. Ela não estava ali como todos nós, para arranjar companhia, mas, também não consegui, de imediato saber bem do que se tratava. Era uma segunda-feira morna, com pouco movimento na rua e eu apenas saíra mais para comemorar meu aniversário, embora achasse que esse tipo de comemoração era apenas uma data de calendário que, depois dos cinqüenta, não se comemora mais.
─Estrangeiros, você quer dizer suecos, italianos…
─Os dois. Como você adivinhou? Já sei… meu tipo físico… - acrescentou
─Você é turista ou….
- Vim visitar uma amiga. Ela está com o namorado, na terceira mesa à esquerda. Eles tão lá namorando… sabe como é!
Pela forma de falar soube logo que era brasileira, mas não desta Ilha. Havia um certo e leve sotaque nordestino. Convidei-a para ir lá fora tomar um ar, mas ela negou, dizendo que gostaria de terminar seu refrigerante ali mesmo. Sua idade era meio indefinida, mas parecia jovem, de uns trinta a trinta e cinco anos. Insisti mais duas vezes e fomos nos encontrar perto dos carros, no estacionamento. Ela perguntou se não era perigoso e eu disse que achava que não. O local era bem iluminado e nos encostamos à frente de um carro antigo.
─Não sei porque vim até aqui com você. Não é bem essa coisa toda de paranóia de violência… é que falta alguma coisa. – ela disse, sacudindo o cabelo, para se livrar do vento.
─Você quer dizer um papo mais intelectual, sem essas besteiras que se fala nessas horas?
─É, não sei… nossa evidente diferença de idade… você uma pessoa desconhecida… eu acho que estou meio perdida. Talvez fosse melhor eu voltar e ficar com meus amigos – a relutância me parecia sincera, mas, o fato de ela estar fora do barzinho comigo sugeria certo ar de aquiescência, então resolvi insistir:
─Engraçado! A pessoa que sai à noite para estes barzinhos, geralmente procura se divertir, encontrar pessoas e você está me parecendo ao contrário.
─Não, não é isso …
─Eu sou velho, chato e estou longe de ser uma boa companhia… - acescentei
─Não, não é…
─Está bem! Volto para dentro, peço mais uma cerveja e deixo você em paz. está bem assim?
─Não, eu não quero magoá-lo. Mas é que estou com essa amiga e ela achou que não deveria me deixar só em casa. Ela queria sair…o namorado… sabe como são essas coisas…
─Tudo bem. Então para você não dizer que está com um desconhecido, meu nome é Pedro Rafael de Sousa Oliveira, sou jornalista institucional, quer dizer, funcionário público, acabo de me aposentar e não sei o que fazer da vida – saiu tudo como uma metralhadora atirando, porque me parecia que havia algo nela que me agradava e que não se parecia em nada com aqueles tradicionais encontros da noite. É como se tivéssemos estabelecido uma conecção que nos atraía um para o outro, sem que isso estivesse muito claro. Não era uma simples atração física que se resolve na cama, rapidamente. Ela me parecia com a alma recheada, com algo a acrescentar e não simplesmente um corpo atraente. Resolvi perguntar:
─E você?
─Bem, eu sou Lorna Watviskova da Silva e também trabalho para o governo, no Ministério da Educação. Estou há alguns dias de férias nesta ilha maravilhosa e o resto dos detalhes fica para depois, se houver depois…
- Vamos sentar naquela mesa vazia ali fora e conversar mais um pouco.

************

Levantei com os olhos ardendo, naquela terça-feira conturbada, a cabeça doía um pouco, enquanto fazia bem lentamente o nescafé e tentava deglutir aquelas imagens da televisão. Não é que o mundo fosse acabar naquele dia, nem os Estados Unidos estivessem sendo invadidos. A TV falava muito em terrorismo, mas uma sensação estranha me fazia sentir que havia algo mais. Talvez uma reforma geopolítica no mundo, depois do fim da guerra fria – aliás, essa expressão é bem esquisita… as palavras não combinam! Mas Lorna não me saia da cabeça, por tudo o que nos havia acontecido na véspera. Havia deixado apenas o telefone da casa da amiga.
Senti, então, uma espécie de impulso para lhe telefonar, e depois, quando ela chegasse, abrir uma garrafa de vinho, cortar em pedacinhos uma porção de queijo tipo suíço, e conversar mais, estar junto dela. Falar sobre aquele momento especial de mudança do mundo, esquecendo o sentimentalismo das perdas irreparáveis, os traumas, a violência e a estupidez daqueles atos. Lembrei-me de que ela saíra de minha casa quase amanhecendo, na noite de segunda-feira e que não toparia um programa desses. Talvez ainda estivesse dormindo.
Na véspera, depois de convencê-la, na mesa lá fora do barzinho, a ir até minha casa, que ficava próxima, ficamos conversando sentados na cama, vestidos, como chegamos. Eu tomando uma cerveja e ela água mineral com gás, que sempre tenho, para minhas ressacas.
Fomos, aos poucos, nos descontraindo, pelo menos assim eu senti, com aquela filosofia banal, que somente certas dores provocam. Falamos do que faziam trilhões de pessoas no mundo, naquele exato segundo, e uma lista enorme foi surgindo aos poucos e se acelerando com as inúmeras possibilidades. Conversamos sobre probabilidades de encontros e desencontros e foi nesse momento que propus abrirmos minha única garrafa de vinho do porto, guardada para ocasiões especiais, como estava sendo nosso descompromisso. Para meu espanto, fomos deglutindo pequenas taças daquela maravilha portuguesa. Ela estalava os lábios a cada gole esporádico e não cabia, naquela celebração, abraços e beijos, da paixão do álcool.
Sentei-me no chão, tirei os sapatos e conversamos sobre a ordem do mundo, os vulcões dos sentimentos e as intempéries das relações sociais, sem que deixasse de notar as belas pernas longas junto a mim, nos eflúvios de meu lado animal.
**************
A televisão me fazia sentir pelos outros, de tabela, naquela terça-feira pela manhã o oco dos solitários, quando resolvi ligar para Lorna. Para minha surpresa, foi ela mesma que atendeu, fazendo mudar minha estratégia, para convida-la:
- Como vai Lorna? Você já soube da notícia do dia ?
- Coisa horrível! É uma resposta bastante atrevida para os Estados Unidos – respondeu sem voz de sono, ativa como se tivesse dormido a noite inteira.
- Você quer conversar mais sobre isso? Eu estou em casa, acordei agora, mas gostaria de conversar mais sobre isso. Trocar umas idéias…
- Há um programa aqui para ir à praia. Mas não gosto de praias, minha pele… – sorriu desejeitada
- Então venha aqui.
- É eles já vão sair e aproveito a carona.
Meu bairro era na chamada zona nobre, um grupo de prédios novos e grandes, encastelados no Renascença II. Minha casa pequena fica espremida em uma das ruas do miolo dos prédios. Era uma casa em estilo americano, com uma sala em “L”, como dizem as imobiliárias, a cozinha dando para essa sala, através de um balcão pequeno e um quarto. Como eu não preparava comida em casa e não havia possibilidade de expansão do cheiro de coisas cozinhando, coloquei meus livros em estantes de ferro, daquelas que se compram para armar, que tomavam todas as quatro paredes, com mesa redonda e quatro cadeiras e um sofá a um canto. Parecia uma mini-biblioteca malajambrada. Tinha mais um note–book sobre a mesa, um pequeno aparelho de som e uma TV 20 polegadas, sempre ligada, além de um grande pufe velho, em couro cru,em estilo poltrona, companheiro de minhas leituras.
Enquanto esperava Lorna, a lembrança dessas leituras me fizeram recordar a noite anterior, quando falamos da Escola de Frankfurt, Adorno, Habenas e do existencialismo de Sartre e ela quis se localizar, historicamente, sobre o surgimento das teorias desses autores, a influência, nos anos de 1960, do existencialismo de Sartre e Adorno com sua “Teoria Crítica”, na segunda guerra mundial. Conversamos sobre a palidez das teorias, mesmo as mais novas, para enfrentar os problemas atuais e nos perdemos nos desvarios da própria maneira do homem de se comportar nos dias de hoje, onde não há mais tempo para espantos.
A campainha tocou. Saí daquelas lembranças e da letargia inicial que me causou a notícia daquela manhã e comecei a atentar para seu real significado.
- E aí, você tá com sono? Cansada? – Ela surgiu na porta com uma saia larga, uma camiseta de manga cavada e o cabelo esvoaçante e desalinhado. Tinha um ar refrescado de quem passara a noite dormindo, o que não era o caso.
Não. Eu gosto da noite, ela me anima. Dormi um pouco, mas tá bom. E você? Ta firme ou se fazendo de forte? – ela me perguntou em tom de brincadeira.
- Aturdido! Essas notícias deixaram minha cabeça moendo coisas…
- Que coisas?
- A primeira que me veio à mente é que nós, latinos e acho que o resto dos subdesenvolvidos, temos a impressão de que os Estados Unidos são os defensores do mundo e, como nas histórias em quadrinhos, são inexpugnáveis. Essa foi uma prova de que não são. Ah! Desculpe, você não quer sentar, beber, comer alguma coisa?
- Água. – ela respondeu seco.
- Eu só tenho com gás…
- Tudo bem! É eu sempre achei que terrorismo é uma palavra muito pesada, quando se trata de liberdade. Por que os mulçumanos têm de ter uma democracia, como a ocidental? Os modelos de democracia no mundo – ela parou para beber água – são uma droga. Grupelhos, verdadeiras gangs, como nos próprios Estados Unidos, onde Bush filho roubou ou roubaram para ele a primeira eleição. Aliás, um sistema fajuto de eleição indireta, contagem de votos primitiva, em um país de tecnologia avançada.
- Isso me faz lembrar a velha e quase eterna guerra cristãos x mulçumanos, cada um querendo impor seus costumes, sua religião e, sobretudo, seu poderio econômico. O que as pessoas fingem ou não notam mesmo é que está havendo uma mudança colossal no mundo, em todos os campos. Veja o caso das meninas grávidas na adolescência.
-Ah! Esse assunto me interessa muito, mas estou com calor – disse Lorna, interrompendo a conversa abruptamente e sacudindo a camiseta, com as pontas dos dedos nas alças.
- Bem, só há ar-condicionado no quarto, tudo bem?
- Tudo bem. – e ela foi caminhando, enquanto eu fechava a porta e ligava o aparelho e o ventilador, para esfriar mais rápido. Ela sentou na cama soprando o ar dos pulmões e dizendo que não se acostumava à temperatura desta cidade. Eu estava com outro ânimo, diferente do que acordara e, em pensamento, deu-me vontade de pedir-lhe que tirasse toda a roupa, mas o nível do relacionamento não permitia.
- Veja o que há com as adolescentes grávidas – ela passou a comandar a conversa. O volume de garotas grávidas é muito grande neste final e começo de século. Mas tudo é uma questão de costume e esse número enorme não é só no Brasil ou países do terceiro mundo. Acontece que nos países mais ricos esse problema é absorvido pelos setores de saúde pública e, nos Estados Unidos, não se olha o que se passa nos cinqüenta Estados, apenas chamam mais atenção as cidades mais conhecidas e famosas ou parte dessas cidades, como é o caso de New York, em que se vê apenas Manhattan e suas delícias cosmopolitas. As pessoas vão para a televisão e para os jornais, “os especialistas”, e dizem que deve ser combatida a gravidez na adolescência, que essas mocinhas perdem sua juventude, por falta de informação e outro monte de bobagens. O que eles não vêm é que os jovens estão cada vez mais jovens. Uma menina de 10, 12 anos sabe mais das malícias da vida do que suas reprimidas e desorientadas mães e netas, filhas dos anos 60. A vida está começando mais cedo para todo mundo e ainda há a balela de que os velhos estarão ficando mais velhos, se alterarem seus hábitos de vida.
- Alguém já disse, não me lembro quem, que a gente deveria nascer velho e ir ficando mais novo com o passar do tempo, até chegar a bebê e morrer… – falei apenas como um bobo complemento.
- É um pouco disso! Eu que lido com o setor do ensino fundamental, no Ministério, posso te afirmar que esse conceito de adolescência, ao mesmo tempo em que vai até em torno dos trinta, nas classes média-alta e alta, começa, às vezes, aos oito nas classes baixas. A adolescência não é mais “aquela” de nosso tempo, quase uniforme, Mudou e ainda ninguém encontrou o conceito.
- Gostei de “no nosso tempo” – disse rindo, com certo sarcasmo – Vamos abrir um vinho… nacional, que esse papo tá bom.
- Você, hem?! Tem um bom estoque de bebidas! Mas não, prefiro água.
- Bom, eu vou abrir, se você quiser depois…
- Mas sim, voltando ao que falava – ela dominou inteiramente a conversa, empolgada com seu discurso, enquanto eu começava a olhar seu cabelo louro alvoroçado, a fresta de sua camiseta na altura do seio e a saia demarcando suas coxas. Eu não me sentia mais solitário, com os dois copos de vinho tomados seguidamente, como a espantar meus fantasmas – Como eu dizia – salientou ela - assim são outros assuntos. Não há mais tempo para espantos. É preciso falar uma outra linguagem teórica, principalmente na educação.
- E na política partidária também – complementei. Depois fiquei olhando para ela, fitando olho no olho, e eu disse, para tirar o ritmo sério da conversa: - Mas você, hem! Tá com a corda toda!
- Eu ando com isso engasgado um tempão e não tenho com quem falar. As pessoas não querem saber disso: só de consumo e de ganhar dinheiro.
- E sua amiga e o namorado ou suas colegas de serviço?
- Eles acham que isso é conversa intelectual, nada prático e, além de tudo, não alcançam certo nível de abstração. Não têm opinião própria, só repetem o que vem nas revistas semanais e nos telejornais. Não tiram suas conclusões. Minhas colegas fazem aqueles projetos idiotas, que nunca funcionam, repisando teorias antigas, maquinalmente, como se fosse uma fórmula … Não dá pra conversar…
- Sobre isso que nós estamos falando, eu vejo a questão de forma mais ampla: está chegando o momento, sempre adiado, de se encontrar um modelo mais atual de maior confiança e maior eficácia do que a democracia. O exercício do poder também tem de ser repensado. A representação falhou e feio. Eu não sei qual é esse modelo, mas deve existir. As formas atuais de governar ainda são do século XVIII, da revolução francesa. Os temas também: igualdade, fraternidade e liberdade. Não dá mais para conviver com isso. É muita falta de imaginação! – houve uma pausa um pouco longa com minha empolgação e perguntei:
- Não vai nem um vinhozinho?
- Você que me tornar alcoólatra!… – ela riu
- Um pouquinho só…
A conversa foi se desinflamando e, como no alvorecer do dia anterior, parecia a hora para uma separação. Mas ela se chegou a mim e, abruptamente, nos beijamos.
A televisão da sala ficou repetindo a queda das torres gêmeas do Word Trade Center, com os tradicionais comentários dramáticos, enquanto nos enroscávamos cada vez mais na cama fazendo o que não havíamos feito na noite anterior.



O HOMEM QUE NÃO CONSEGUIA LER EM PAPEL

Não era analfabeto. Hamilton tinha doutorado em Ciências Sociais e uma graduação em Sociologia. Não tomava medicamentos que pudessem turvar sua concentração e visão, nem sofria de Distúrbio de Déficit de Atenção. Mas não conseguia ler nada em papel, revistas, livros, jornais, nada que, também, tivesse um conjunto de palavras ou períodos muito longos. Nem bula de remédio. Uma situação desagradável, para quem ministrava a disciplina Relações de Classe Social, no Mestrado da Universidade Federal de sua cidade natal.
Hamilton se sentia amputado nisso que, a princípio, considerou uma deficiência e chegou a consultar diversos médicos e a fazer vários exames, físicos e psicológicos, mas nada fora encontrado que justificasse seu “problema”. Aceitava, sem desconforto, ler artigos breves na tela do computador, redigir mensagens e conversar no MSN. E assistia a filmes com legendas.
Nos romances de costumes e livros científicos, de que tanto gostava, que iam se amontoando sobre sua mesa de trabalho, em casa, porque ele os comprava com freqüência e se forçava a ler, dificilmente passava da terceira ou quarta página. Um espécie de idiossincrasia se instalara em sua mente e, por mais que insistisse, acomodando-se em sua poltrona predileta, terminava logo por fechar o livro e a deter-se em pensamentos de outra ordem, embora ligados ao tema.
Considerava-se uma pessoa voltada para o futuro, com pensamentos criativos sobre novas formas de relações sociais, que iam além da globalização e do consumismo da sociedade capitalista atual. Não tinha a desculpa para seu comportamento, que aos outros parecia estranho, como a interrupção de mulher e filhos, de vez que era divorciado e morava sozinho., produto da distância de seu curso na França, antes da transformação por que passou esse país, com a emancipação das colônias, principalmente as africanas.
Não conseguia entender o avanço tecnológico em tantos campos do conhecimento e, ao mesmo tempo, a mesmice burocrática em certos comportamentos na relações sociais, onde os benefícios da informática não eram utilizados, principalmente no Brasil e, pior, em sua ilha aconchegante, São Luís, capital do Estado do Maranhão. Só as contradições inerentes à natureza humana poderiam explicar.
O controle social dos serviços públicos, na nossa sociedade de massa, praticamente não existia, embora, em alguns órgãos, tivesse a presença de computadores em rede, como símbolo de desenvolvimento de certas atividades. Nem sempre esses computadores eram usados e, quando isso acontecia, o usuário adotava o mesmo raciocínio e procedimento da época do papel, sem se adaptar, realmente, a uma gestão operacional informatizada. Algo que dispensasse os famosos arquivos de aço ou as pastas em material plástico, que substituíram aquele calhamaço mastodôntico de A a Z, com a parte frontal preta.
Havia uma justificativa impiedosa para tal procedimento e sempre há para a acomodação. Não se rompe impunemente com o passado. O argumento era de que os computadores não eram confiáveis: havia queda de energia; eram frágeis e deterioravam seus componentes com a maior facilidade: e existiam limitações quanto a programas para fazer determinadas tarefas, como confrontar dados. Enfim, eram quase um acessório, auxiliando no trabalho diário. Essa ingenuidade escamoteava o poder dessas máquinas e demonstrava a preguiça mental em encontrar caminhos de execução, que substituíssem programas inexistentes e a falta de corrente elétrica podia ser eliminada com a instalação de no break, sem que nenhum desses fatores pudesse gerar a perda de arquivos no processador. Além do que podiam se guardadas as informações importantes em CD ou equivalentes, sem presença de grandes locais de armazenamento, sua conservação e manutenção e com a facilidade de proceder a cópias, com a maior facilidade.
Em um recente curso de aperfeiçoamento que fizera na Universidade de Havard, utilizava seu note-book para todas as atividades escolares, de simples anotações em sala de aula a trabalhos e pesquisa. Havia colegas seus que faziam isso por meio de celulares avançados, sem que uma folha de papel fosse usada. Sobre o balcão de atendimento, havia um pequeno computador em que qualquer pessoa preenchia formulários ou simplesmente fazia sugestões ou reclamações ou agendava entrevistas com os professores em seus gabinetes, se não estivesse ali com o seu instrumento de informática.
Hamilton não se conformava com os textos longos, com a ausência de síntese. Apreciava a concisão da poesia. Na fase de sua dificuldade, chegou ao absurdo de pensar em contratar uma pessoa, uma leitora, mas viu a inconveniência em distrair-se com outros pensamentos e perder seu tempo, além de querer discutir o que era lido, se a pessoa tivesse condição para isso. E, se fosse mulher… outras distrações poderiam surgir, na saudável atração que deve haver entre os sexos.
Conformado com o que chamou de sua deficiência, utilizava-se do que lhe oferecia a cada vez mais ampliada rede mundial de computadores, sem mais questionamentos ou reclamações. O mesmo acontecia com suas companheiras de Chat e de MSN.
Hamilton era definitivamente um ser do novo século.




UM BAR, NA NOITE…

A companhia era agradável, temerosa, pela amizade recente, expandindo olhares, sorriso inseguro, sondando odores. Nossa atitude, em forma de calma controlada, cheia de propostas de diversão, para aquela noite, foi abalada e quase destruída, no Bagdá Café, na Praia Grande, na província provinciana, de São Luís do Maranhão, entre o norte e o nordeste, do Brasil.
O histórico patrimônio, restaurado a custos muito, mas muito, elevados, pelo poder público (dinheiro público, o nosso! ) acentuava o bar-restaurante, nas cores vivas e no toque rústico colonial. É, também, a testemunha e o testemunho passivo do horror de nossa perda, de nossa derrota, de nossa escravidão, de nosso fracasso. Torna-se a imposição contundente de uma arquitetura portuguesa dos séculos XVI para XVII. Gritava, aos olhos mais esclarecidos, a nossa origem humilhada, subalterna, no servilismo do conquistado, colonizado e não rebelde: a maioria da população.
A parede de pedra jacaré, presa com barro e cimento, esqueceram-se da cal, compunha o cenário por trás da nossa mesa, ao som bem feito, do imitador de Raul Seixas, chamado Wilson Zara, executor, também, de composições de outros autores, integrantes de uma vívida e vivida época, em nossos cabelos embranquecidos.
O primeiro contato com esse bar, nessa quase madrugada, foi externo, na conservada rua de paralelepípedos. O nome Bagdá Café lembrou o livro, não sei se existe e não importa, e, obviamente, o filme, candidato ao Oscar. Alegrou nosso espírito, perseguido por diversão. O segundo, foi sentado, na parte de dentro, à mesa redonda, logo atendida por um dos donos, mais cara de gerente, gordo, aparentando estar abatido pelo cansaço do descanso, o tédio inigualável dos imbecis, dos puxa-sacos, dos ávidos por clientela, a qualquer preço.
Após, o pedido minguado: uma cerveja pequena, um tira-gosto de carne de sol com macaxeira e uma garrafinha de água mineral. A música de outros tempos acudia nossa conversa tateante, permeada por comentários maldosos sobre os outros frequentadores, palavrões rechaçados por ela e nosso evidente desconforto, entre um “você é um chato, exigente” e outros julgamentos, censurando atitudes ou ilações inadvertidas dela.
Exigência havia, diante da preguiça dolorosa, travestida de malemolência. A malemolência, de saudável malandragem e esperteza esperta, existente só em baiano, mas empunhada, desajeitadamente, pelos garçons. E não havia qualquer resquício da presença de baianos! O atendimento a um pedido de sal, ao dono, com cara de gerente entediado, nos aniquilou, com um recipiente vazio (AO DONO!). O saleiro foi trazido à mesa e substituído, a duras penas, por um cheio, de onde nada saía. Depois, veio a sequência sofrida, fustigante, desanimadora, para quem buscava, apenas, o divertimento simples de um barzinho, músicas agradáveis, em um momento de chuva forte, mas esparsa.
Feito, agora, outro pedido, um garfo e uma faca, a um jovem garçom, dos dois que se ocupavam com o salão. Esse garçom parecia na dependência da fabricação, dessa parte do talher, tanto foi a demora. O tira-gosto não demorou muito e sobrevoou, pousando à mesa, enfeitado com alface e rodelas tristes de tomate, afrontando com o que parecia ser sua única e exclusiva função: a de esconder a carne dura, sebosa e a macaxeira velha, também dura, insossa, daí o pedido de sal. O afastamento imediato do prato, praticamente intocado, quis ser uma silenciosa e inútil forma de protesto, apesar de algumas teimosas tentativas.
O festival de desacertos culminou com minha necessária presença, quase constante, ao balcão de atendimento aos garçons e ao do caixa, onde se escondia, em uma cadeira baixa, o outro dono do lugar, mulher de feição azeda. Apenas por ter de solicitar algo desejado, os garçons não atendiam, fui levado a esse comportamento, inclusive, para o pedido de fechamento da conta. Isso, sem mencionar a mesa suja, pelo início de nossa frustrada degustação, molhada por nossa bebida e gordurosa, com o passar do tempo. Nós mesmos limpamos, com guardanapo de papel liso, sedoso, umedecido na água mineral, da garrafinha. Que tempo levaria, se solicitássemos aos garçons indolentes! Esse bar, muito mal um Bar, mais do que o Bagdá Café do filme, era a própria Bagdá, destes novos tempos de dificuldades, restrições e sofrimentos, na outra guerra, no início de 2003. E na ocupação anglo-americana, em seguida, indevida, insolente, atrevida, terrorista, repressiva, petulante, pedante, agressiva, própria de um louco, alcoólatra, dislexico, filho de ex-presidente dos USA, George W. Bush e o ávido por firmar-se, politicamente, o inglês Tony Blair.
Essas atitudes dos anfitriões desse bar, desta esquecida cidade, representam a tradicional, perversa e estúpida enganação brasileira ao turista. Um verdadeiro tiro no pé, como se diz, principalmente, para um aprazível local, de belezas naturais incríveis e que deseja ser polo de turismo. E nós não éramos turistas! Estes, geralmente, possuem a definição de o imbecil, o idiota, o beócio, que visita um lugar desconhecido, ou retorna a este, para ser guiado, como automóvel velho, enganado nas indicações de endereços ou nos locais onde se aloja e explorado nos preços dos produtos consumidos.
Um quase falso sono providencial surgiu e foi a deixa, para fugir desse ambiente, insalubre de aconchego, e, cada um, retornar ao que acreditávamos ser o sossego, um recolhimento saudável, depois dessa mini e desagradável aventura. Ah! Faltou citar a promessa firme, honesta e inabalável, de que não voltaríamos mais àquele ataúde insólito, para quem se propõe ser um Bar-Restaurante, de respeito, dignidade e obediente aos princípios de bom atendimento. Outra coisa importante: o aqui descrito parece invenção de escritor, de fértil imaginação, atribuindo a um fato criado, laivos, de verdade concreta. Mas há testemunha presencial, ocular e degustativa!
Desculpe-me a companhia agradável, mas não poderia perder esta oportunidade!
OBS: Baseado em fato real





OUVI DIZER…


Na sala miúda a luz da televisão prateava os ouvidos de Osmar. O telejornal inteiro transbordava o sensacionalismo da votação do impeachment do Presidente. Aquelas notícias vinham se infiltrando em seu cotidiano há alguns meses, mesmo durante os intervalos da programação. Não havia como escapar! Todos os canais repetiam entrevistas com políticos, empresários, advogados de defesa e acusação, sem contar os comentários de especialistas em política. Após o comercial de refrigerante, entrou a vinheta e o rosto sóbrio e confiável do apresentador. Depois veio o repórter, com o pano de fundo da capital federal, anunciando o dia da votação final. Não se conteve em expelir a notícia e acrescentou que a escolha daquele político corrupto ocorria porque o povo brasileiro ainda não sabia votar.
A porta do apartamento se abriu e ela foi entrando com um pratinho de sobremesa. Sua vizinha sempre lhe trazia esses agrados, na proximidade do porta a porta no corredor. Sentado na cadeira de rodas, Osmar pensou em comentar com ela a afirmação do repórter, que lhe cravou fundo no embuchamento de sua incompetência também. Como se não bastasse o corpo mutilado pelo acidente de moto, ainda era obrigado a encapuzar , como todos os votantes, a alienação e a culpabilidade de escolher dirigente inadequado. Ela mesma se adiantou em seu tradicional short curto: A votação do impeachment já tá marcada. Será que ele vai sair mesmo? Esse negócio de política… são todos iguais!
Por não concordar, ele resolveu dar sua opinião contrária, mas sem magoar a vizinha. Afinal ela era quase sua única fonte diária de contato com o exterior. Tirando a televisão e a assinatura da revista semanal, não havia como se comunicar com as pessoas e as coisas a seu redor. Lenita lhe falava das fofocas do prédio, das notícias da cidade e até de certas peculiaridades das mulheres, nas conversas entre elas no supermercado e pelos corredores. De seu marido, queixava-se das viagens freqüentes e de algumas ausências prolongadas, sem descer a detalhes comprometedores, como fazia com suas amigas mais íntimas..
Logo que eles se conheceram, Osmar chegou a pensar que ela era apenas um caso daquele “marido” ausente. Nessa época, ele alugara o pequeno apartamento com a ajuda da irmã. Depois de um ano internado, não se sentia bem na casa dos pais. A forma carinhosa e o excesso de piedade doíam-lhe mais do que a perna direita cortada abaixo do joelho e a esquerda amputada no osso do tornozelo. Quando saiu do hospital, tentou andar de muletas, para facilitar a locomoção e dar menos trabalho. Não conseguiu. Era como se o pé e a perna ainda estivessem ali, levitando, sem poder se apoiar no chão. Conformou-se inteiro à cadeira de rodas, empurrada pela irmã. Aprendeu a sair e voltar com destreza para seu refúgio ambulante, apoiando-se nos braços e nos joelhos. Foi quando decidiu morar só, mesmo com a aposentadoria encabulada de funcionário público. Apresentou como argumento à família a necessidade de se tornar independente, fazendo as coisas para si, em um ambiente onde prescindisse da participação dos outros. As ressalvas de que não abandonaria os pais e de que, de forma alguma, sentia-se tolhido em casa, venceram a resistência inicial, mas não esconderam uma desconfiança sutil nos sorrisos amarelos de aceitação. Mudou-se e apenas pediu carona à irmã, dispensando qualquer outro tipo de ajuda. Comprou à prestação uma daquelas cadeiras motorizadas, com assento estofado, embora houvesse a oferta dos pais. Usava as duas cadeiras, alternadamente: a manual e a motorizada. No íntimo, sabia que sua bunda, agora descarnada, não teria a mobilidade toda apregoada por essa tecnologia. Seu ânimo se ajustou à nova situação, embalado pela esperança de não ser mais um estorvo.
Lenita apareceu em um estágio de plena adaptação. Não havia o que acrescentar, com ajuda física ou até psicológica, a uma pessoa que se movimentava impune aos gracejos carinhosos das crianças e à curiosidade alheia. Ela não lhe fez concessões, nem se atordoou com seus requebros de aleijado. Foi aceita também como a vizinha amiga, que compartilhava os mesmos problemas do bairro, do prédio e do ódio ao síndico, generalizado entre os moradores.
Uma única vez, sentiu todos os seus nervos e a pele se levantarem. Foi quando ela se sentou retorcida no sofá, assomando-lhe as bordas internas de coxas e o perfil dos beicinhos íntimos, apertados pela calcinha azul. Ela não percebeu seu transtorno, encarando-o como outra mulher. E mudou de posição apenas quando foi apanhar o cinzeiro na mesinha ao lado. Dois dias depois, deixou de vê-la em seus sonhos e nas fotografias das mulheres peladas das revistas masculinas.
Lenita voltou a ser novamente a amiga, no que ele acreditava ser uns vinte e cinco anos de pura espontaneidade e compreensão rasteira da vida. Era uma pessoa cooperativa e sem os grandes tumultos da ambição por dinheiro, poder ou diversão. Seu cabelo louro, no rosto fino sem pintura, transmitia uma aparência de desleixo asseado, sem o cheiro forte das épocas calorentas. Era quase uma visão ideal de mulher-companheira, não fosse uma irritação intrínseca, que aparecia nos músculos, visivelmente tensos, saltando dos ombros e na má vontade externada sem pudor, com quem não simpatizasse por qualquer motivo.
Ela lhe serviu a sobremesa, estendendo-lhe um garfo. Alguns talheres, pratos e panelas circulavam nos dois apartamentos com a sem-cerimônia de ficarem meses em cozinhas diferentes. Ele não agradeceu o pudim, pelo hábito dessa troca de pequenos favores. Queria mesmo era conversar sobre política nacional, mas terminou falando dos seqüestros e assaltos, em plena luz do dia, a prédios das redondezas. Era uma forma de generalizar seu próprio caos, diante da perplexidade do país. Ao sair, ela insistiu na sua descrença da saída do Presidente. Osmar pensava diferente, baseando-se nos comentários da revista e nos escândalos que chegavam aos borbotões, uma palavra antiga que ele gostava de usar com as imagens diárias, não deixando dúvidas a qualquer telespectador.
Alguns dias depois, no fim da tarde, entediado com a televisão e sem nada agradável a fazer, lavou o pratinho e resolveu levá-lo a Lenita. Saiu pelo corredor estreito e acionou o trinco da porta, sempre sem a chave passada, para facilitar-lhe a entrada ou qualquer pedido de socorro. Esse lado preventivo ela nunca deixou bem claro, apenas era aspergido levemente com um “ qualquer coisa tô bem aí do lado”.
A porta abriu. Na sala à sua frente a luta continuou entre os dois, com os corpos rolando no chão. Um homem a segurava pela garganta e com a outra mão segurava a camiseta comprida de malha, alcançando a calcinha já no meio das coxas. A presença abrupta de Osmar lhe deu a vantagem de poder atirar o pratinho, que bateu, como um cascudo forte em criança peralta, na cabeça do intruso. Ele largou Lenita e avançou rapidamente em direção à cadeira de rodas. Ainda surpresa, ela se levantou com um grito rouco. A televisão transmitia a parte preliminar da sessão de julgamento do Presidente, pelo Congresso Nacional. O dia inteiro daquela lengalenga não adocicava mais os ouvidos. Aguardava-se apenas o resultado final.
Na penumbra da luz prateada na sala, Osmar conseguiu distinguir o revólver na mão que se aproximava. Estranhamente, o homem parou, deu um passo atrás e engravatou Lenita, com a arma próxima à sua cabeça. A blusa-vestido levantou até quase à cintura, no esforço que ela fazia para se livrar do braço sufocante. Não era momento para isso, mas Osmar não deixou de perceber o centro de penugens finas alouradas e parcialmente cobertas, no levanta-abaixa dos esfregões para se soltar. Na tentativa de superar o desespero, ele arremessou sua cadeira sobre as pernas do homem. E, na velocidade de braços fortes acostumados a grandes impulsos, levou a mesa redonda pela frente, conseguindo imprensar o atacante contra a parede. Travou a cadeira e ficou observando o revólver 38 deslizando pelo chão, rumo a Lenita, paralisada pela novidade da manobra. Enquanto ele gritava para que ela apanhasse a arma e começasse a atirar, o intruso se recompôs e foi arrastando mesa e cadeira, até se livrar da imobilização provisória. Com os olhos arregalados diante da indecisão por trás da arma apontada e, na dúvida, fugiu correndo pela porta.
Ficou um silêncio de corredor comprido, invadindo a sala abobalhada. Ela começou a soluçar, arrumando a roupa no corpo e tentando puxar a mesa para o centro. Parando a andança do móvel e escapulindo hábil de seu retiro de rodas, ele se sentou escancarado com o que tinha de pernas. Abraçou-a de encontro ao peito. Foi inevitável. Os soluços aumentaram junto com uma tensão permissiva. A ereção se fez presente e seu tremor se envolveu à angústia, no simples contato das mãos atracadas à cintura firme, com o resto do corpo entre seus pedaços de pernas.A bermuda molhada no zíper denunciou a umidade escandalosa e distorcida, que os afastou rapidamente. Ela parou de chorar e passou a costa da mão no nariz pingando. E, com os olhos baixos, o rosto invadido de espanto, virou-se, bem devagar, na direção de seu próprio alarido. Osmar, extenuado por toda a emoção, retornou à cadeira e saiu do apartamento.Na sua poltrona escavada pela sua impossibilidade, ele devia também se sentir na comemoração do plenário do Congresso. A luz prateada também se rejubilava com o Brasil inteiro pela saída desvairada do Presidente. Ainda abalado, ele não viu, mas, de certa forma, sentiu-se entre alegre e humilhado.
A convivência solidária de corpos distantes vivendo em espaços pequenos deu a Osmar a sensação de trair um compromisso. Ter se desmanchado sem penetração e, naturalmente, contra o desejo dela pareceu-lhe o desastre maior. Habituado ao seqüestro da solidão, percebeu-se mais distante do mundo lá fora, como ficam as pessoas isoladas em seus apartamentos, em noites de telenovelas e cansaço abalroado pelo tédio.
No outro dia, pela primeira vez, ela bateu na porta antes de entrar. Furtiva e cerimoniosa, chegou ao centro da sala para espanto e constrangimento de Osmar. Na cadeira de rodas, olhava pela janela, que mostrava apenas parede e um resto de final de tarde Depositou o quadro e o revólver que trazia nas mãos sobre o móvel entre a cama e a mesa de jantar. Ainda não abandonara a idéia de ser pintora. Borrava telas e pedaços retangulares de duratex com a desfaçatez audaciosa de uma abstração sem sentido. A combinação de cores berrantes não justificava aquele espasmo artístico. Chegara a comentar, certa vez, que não queria filhos, para não atrapalhar sua futura carreira. Ela acreditava em um talento que talvez nunca pudesse ser levado a sério. ─ Trouxe este quadro pra você. Terminei ontem à noite. E queria que guardasse aqui esta arma - falou, apontando para a peça envolta em uma toalha pequena.O modo carinhoso como foi tocado no rosto, afiançou-lhe a certeza de estar sendo seduzido. A intimidade que os havia envolvido no dia anterior permanecia naquele momento. Ele encostou a cadeira na cama e lentamente deitou-se para recebê-la, sem aleijume, frustração ou timidez. Os tocos das pernas pontilharam no lençol o balé folgazão de esfregões e gozos, sem o constrangimento de culpas.
A tarde finalizara com um café requentado e comentários desajeitados sobre sua pintura. Nada muito contundente, que pudesse magoá-la. O marido apareceu de repente na porta, ainda com a maleta de viagem na mão. A euforia com que Osmar rapidamente se empenhou nos argumentos sobre pintura deu-lhe a impressão de estarem falando sobre a situação política do país. O convite para os três jantarem mais tarde foi imediato. Com a mulher, nada de beijos calorosos. Parecia um reencontro fraterno de quem se vê muito.
À mesa de jantar, a indignação do marido se juntava ao arrependimento de ter votado no Presidente. Sua revolta comandou a refeição improvisada. Osmar e Lenita se entreolhavam contrafeitos pela tarde relaxada. Nada de trágico poderia acontecer. Osmar tinha a insuspeita posição do mutilado, com corpo transparente e sentimento assexuado.
A dor no seu desejo por Lenita residia na dúvida se foi uma entrega por simples agradecimento ou pior, se essa relação iria adiante. Não acreditava que se repetissem a suavidade dos gestos e o êxtase compartilhado naquela tarde, mas parte de seus sonhos deixaram de ser sonhos por ouvi dizer, alcochoando o universo de sua solidão. Com um novo Presidente empunhando o país!



O ESQUECIMENTO

Naquela época, aos quase completos vinte e cinco anos, a perspectiva de vida era outra. Maria dos Remédios - a Dinha, como era conhecida no trabalho, retomando um apelido de infância, na sequência: Remedinho, Remedinha, Dinha - tinha dois objetivos definido: construir uma casa e ascender no emprego. Mais exatamente, refazer sua casa, especada por pedaços de madeira de mangue, onde morava com a mãe. Para conseguir o segundo, teria de adquirir conhecimento instrucional, dignidade e alto confiança suficientes, para impor respeito a todos e ser reconhecida como uma pessoa trabalhadora, tenaz e capaz de ter a própria identidade. Feliz e sonhadoramente romântica, pleonasmo de reforço apenas, gostaria de obter independência, por inteiro, inclusive para a sua preferência sexual. Sem que qualquer pessoa, por mais qualificada que fosse, afrontasse seus desejos de lésbica, como uma doença, um desvio de comportamento ou, o pior, o latente e, ao mesmo tempo, exposto, preconceito ao dizer que não tem preconceito. Quem não o tem, verdadeiramente, nem toca no assunto. Jamais fala que é normal ou que nada tem contra… É corriqueiro, comum demais, como o tomar o café da manhã ou o estresse ao fim de cada dia de labuta…
Perseguindo esse caminho, Dinha se interessou em buscar uma promoção no emprego público federal. Mas, era necessário fazer um curso, em outro Estado, para alcançar o passo seguinte. Teria de deixar a mãe sozinha, idosa e com pequenos achaques verdadeiros, além de outras doenças fundamentadas por uma hipocondria desesperada e escravizante. Haveria, também, o afastamento físico e talvez emocional, da colega-amante, na regional do, então, Ministério da Saúde. Sandra, essa colega, foi, praticamente, convencida, seduzida, envolvida com armadilhas sentimentais, sentimentaloides e disponibilidade excessiva. Presentes caros e despropositados, ajudaram a levá-la para a cama com Dinha. Era uma loirinha de corpo frágil e debilidade maior nos sentimentos.
A vontade de… a força, o ímpeto, a audaz ferocidade para ter sua vida desvencilhada de qualquer empecilho, impulsionaram seu desejo de possuir o suporte financeiro e o ego ainda maior, para conseguir sua finalidade. Ela foi para Campinas, na grande São Paulo, cursar as 550 horas de atividades, constantes da grade curricular, o que lhe daria o direito de exercer o cargo de Supervisor de Fiscais de Mata-Mosquitos, do Departamento de Parasitologia e Epidemiologia Urbana, conhecido como DPEU ou, abreviadamente, DPU. O cargo podia ter nome insólito, mas a remuneração era atraente.
O sofrimento pessoal, a carência emocional contida, na ausência de afeto e recursos financeiros, foram mais um motivo, para enfrentar o desafio à sua frente. A bolsa de estudos, beirando o ridículo: apenas o valor de pouco mais do salário mínimo, além de perder a gratificação, por exercer uma função de chefia, a nível funcional bastante subalterno. Ficou o puro salário-base e o complemento irrisório da bolsa, sustentando-a lá, com um custo de vida escorchante e a casa de sua mãe, em São Luís do Maranhão.
Ao chegar a Campinas, procurou logo uma pensão com mensalidade bem barata, mista e condições de conforto mínimo. Era o jeito! Teria, ainda, de economizar, para soerguer a casa, em São Luís do Maranhão. O perigo de desabar, literalmente, causava-lhe uma preocupação constante. Uma vida difícil! Um sacrifício costurado e pregado pela satisfação pessoal, de fugir dos tradicionais padrões de mulher solteira, morando com a mãe, com a idade de então, naquele tempo de, quase unicamente, mulher-dona-de-casa. Além de tudo, sustentando-se com um empreguinho mequetrefe de funcionária pública. Funcionária pública, sim, mas perseguindo remuneração condigna!
Esse sofrimento, em cidade estranha, se prolongou por longos dez meses, duas blusas, duas calças compridas, um sapato achinelado e amarfanhado , apostilas, uns poucos livros de bolso, em papel jornal, pechinchados nas bancas de revista. Era seu divertimento: esses inexpressivos livros, lidos e relidos, várias vezes, e as renovadas apostilas, a cada quinzena, aprofundando o conteúdo ministrado. Nas avaliações, prova oral ou escrita, , sempre tirava o conceito máximo. Essas conquistas eram desconsideradas pelos colegas, atribuindo seu sucesso no curso a uma dedicação insana, quase doentia e impossível de ser seguida por um ser humano, dito normal. Representava, para seus companheiros, a loucura, a mais profunda insanidade. E isso não tinha mérito algum! Apresentava-se como a excentricidade de mais uma maluca, conhecida lá, como Remédios do Maranhão.
Ao final de todo esse esforço, um histórico escolar invejável e sofrido, para quem conhecesse os meios e os motivos, para sua obtenção. Chegou, por fim, o dia de receber o Certificado de conclusão do Curso. Para ela, sem poder, ao menos, exercer a sua sexualidade, a ausência de uma conversa, apenas mais sincera e com certa intimidade verbal, esse pedaço de papel, representava o passaporte para um novo cargo. Tinha o peso de uma vitória, com milhões de toneladas.
A festa de entrega oficial, uma solenidade, no acanhado auditório da sub-regional de Campinas, foi enfadonha e teve, para ela, logo ao chegar ao local, o sabor de uma inesquecível humilhação. Todos os seus colegas portavam um crachá, com o Estado de origem, em caixa alta e o nome da pessoa, em letras um pouco menores. Interessava à política do Ministério mostrar à mídia a intensa qualificação de recursos humanos, no Brasil inteiro, e não apenas parcial, para alguns Estados. Daí o crachá, escrito dessa forma.
E não havia crachá escrito ESTADO DO MARANHÃO - Maria dos Remédios Braga. O choque foi tão grande, que ela ficou estupefata, ao contrário do habitual esbravejamento, da gritaria quase histérica, do formular de raciocínio contestador, raivoso e de agressão verbal. Ela entalou e, calada, olhou para os lados, para o peito dos colegas e sentiu um suar frio congestionante, um faltar de chão, uma paralisia atroz e inoperante. Todos os , agora ex-colegas, alegres, satisfeitos, eufóricos, portavam a representatividade bairrista de seus Estados, estampados na parte superior dos ternos e vestidos de noite. Ela, vestida com a menos escandalosamente inapropriada, das duas blusas, era o próprio lixo, desnorteada, mais solitária do que nunca, abandonada, impotente e, pela primeira vez, insegura.
A solenidade começou e terminou com um discurso frágil, cheio de lugares-comuns, filosofias e psicologias atribuídas às mesas de bar, em uma seqüência aborrecida de vinte minutos de enfado. Ao final, como sempre acontece nessas reuniões formais, foi facultada a palavra a “quem dela quisesse fazer uso”. Apenas para obedecer a uma demonstração de educação inútil e reconhecida como nunca usada.
Mas, lá de trás, da última fila de cadeiras do auditório, Dinha se levantou e caminhou pelo corredor, no meio da sala, formado pela disposição das cadeiras. Poucas cadeiras de madeira pura, reservadas para concludentes e algum outro interessado ou curioso de última hora. Os olhares a sua volta eram de reprovação, de censura agoniada. Culminaram com a surpresa boquiaberta do sub-delegado regional, que presidia a seção. Mas nada podia ser feito! Era esperar, para ver o que aconteceria.
Dinha se dirigiu à mesa solene, pegou o microfone curto, fez bastante ruído, ao desembaraçar o fio elétrico e começou a falar:
- “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá” - falou, enfática e emocionada, o começo do poema de Gonçalves Dias. Sentindo-se mais aviltada, disse:
- Esqueceram do meu crachá, com o nome do meu Estado querido e saudoso. E do meu nome, também! - a imprensa voltou a única câmara, a da TV Educativa, de propriedade do governo e outras câmaras fotográficas começaram a clicar. Jornalistas mantidos por obrigação de ofício, cumprindo pauta indigesta, espertaram, retomando seus caderninhos de notas, atentos, espantados e prevendo um escândalo. A futura notícia passível de um colorido sensacionalista , carregada de mexerico, matéria ao gosto da grande maioria dos leitores, poderia surgir. Certamente, retirada, na edição, para os incertos telespectadores do jornal da TVE - Ela continuou:
- O sabor de arroz de cuchá, das delícias de um bumba-boi diferenciado e autêntico, a macaxeira de minha terra não pode, jamais, ser esquecida! O meu esforço pessoal, a parte da federação que represento, não será jogada ao esquecimento, como camisinha usada, largada ao lado da cama - o nível do discurso foi se tornando mais contundente, na concomitância do aumento do tom de sua voz, da sua ira incontida, do seu desespero e no nada a perder: o Certificado já estava em suas mãos!
- A insensatez dos que organizaram esta malcheirosa entregada de Certificado chegou ao cúmulo de desconhecerem a geografia de seu próprio país. O Estado do Maranhão existe! Faz parte do Brasil! Sua grandeza está na intelectualidade pura e espontânea de seus filhos, na poesia de suas belezas naturais, no existir, para ser reconhecido, como fonte de cultura, como o zeloso curador da originalidade da língua portuguesa, utilizada em nosso imenso território, essa Língua tão distorcida e afrontada, pela nação brasileira. Não poderia deixar passar em branco este esquecimento sem qualificativos, acredito que propositadamente esquecido. Muito obrigada!
Depois, muitos anos depois, o sonhado objetivo desfeito, aposentada no cargo em que saiu do Maranhão, para fazer o curso, e recontratada, em condições funcionais precárias, tudo se modificou … E modificou, mesmo…



OS SEIOS DE MEDÉIA

Seios ao vivo eu já havia visto: pontudos, em forma de lágrima, totalmente caídos e das formas mais estranhas que alguém possa imaginar. Nos maus catorze para quinze anos, visitava frestas de portas entreabertas, entradas inesperadas nos quartos de minhas irmãs e praticava atos voluntários e solitários, sem esquecer dos seios semi-cobertos de minha vizinha. Há sempre a avezinha de uma vizinha, nem que seja no recôndito da alma dos adolescentes, barbados ou imberbes, até mesmo nos de idos anos, já babando ou nos que têm os acalentados braços de uma esposa. O que é certo é a existência de um belo espécime de mulher, que pelo avantajado de suas formas ou pela doçura de seus gestos chama a atenção de todos os homens, na convivência mais próxima de uma rua ou de um prédio. Acredito que isto haja também para as mulheres, no saudável encontro dos sexos.
Morava naquela idade, em um condomínio fechado de apenas um prédio e observava as entradas e saídas da vizinha, sempre acompanhada, na chegada, de sacolas de butique. Achava estranha a forma que os seios dela adquiriam, dependendo do tipo de roupa que vestia. E não conseguia, por mais que me esforçasse, atribuir na memória uma forma definitiva para aqueles seios. Ora assumia o molde e o tamanho do decote, ora de um acinturado em baixo dos seios – aliás, já falei muito em seios, talvez pudesse chamar de peitos, mas me parece muito grosseiro para uma parte do corpo tão delicada, sutil na sua movimentação e nada agressiva, na sua aparência externa.
Não sei como chamar a essa parte do corpo de uma mulher, que tem a aparência de não fazer parte do todo feminino, como para os quadris, as ancas, numa linguagem mais pornográfica. É algo que se sobrepõe, é uma afetação, mas não agride e, ao mesmo tempo, a estética sente sua falta.
A dona desses seios era uma senhora, variando pelos trinta e cinco anos, que sempre estava às turras com o marido, dando ordens ou exigindo alguma coisa. Certa vez, no estacionamento do prédio, onde brincava com outros colegas, fui convocado com certa rispidez, para ajudá-la com algumas sacolas. Ela se curvou para pegá-las e minha dúvida aumentou sobre a conformação daquelas duas formas de exuberância. Com o corpo ereto, as formas se modificavam, de tal maneira, que nada tinham da forma anterior. Aquilo ficou em minha cabeça, dando voltas, fazendo com que cada vez mais eu especulasse como seria mesmo o formato daqueles seios. É claro que qualquer parte do corpo se altera, conforme a postura e a roupa que se usa. Mas não daquela maneira tão abrupta e radical. Na porta de seu apartamento, fui exonerado de minha função de carregador, sem a menor cerimônia, como se fosse uma obrigação minha.
Eu não conseguia conversar com meus colegas de prédio ou de escola sobre essas dúvidas. Os do prédio, pareciam intimidados pelas glorificantes pernas grossas, bunda volumosa e os compridos cabelos louros, tudo envolvido pela aspereza com que tratava as pessoas, principalmente o marido e os menores. Eu também me sentia pouco à vontade e estudava com muito cuidado, para não ser pego nessa curiosidade, que aproveitava para compor meus desenhos em um caderno próprio, muito bem escondido de todos. Na escola, não adiantaria falar sobre o assunto, porque meus colegas não conheciam a indigitada e, além disso só se interessavam pelas revistas de mulher pelada, onde tudo estava bem defino e concluso.
Procurei, então, fazer amizade com um rapaz do prédio, que tocava violão. Com a desculpa de aprender a tocar o instrumento, enfiei-me em seu apartamento, no mesmo andar da vizinha, que dava os fundos para o de trás, exatamente para uma janela de um quarto. Todo esse trabalho, porque achava os seios a parte mais difícil do corpo, para desenhar. Havia muitas nuances a serem levadas em consideração: os seios da mulher são vida, equilíbrio, beleza, simetria, luzes deslumbrantes de dois bicos incandescentes e a maestria das curvas. Dos que já conhecia sem adereços ou vislumbrados através de tecidos ou bugigangas de carnaval, nenhum deles me intrigaram como os daquela medéia. Nos corredores ou na garagem, apresentavam-se cada vez mais de forma bem diferentes: longos, afunilados ou cheios e voluptuosos ou ainda pequeninos e discretos, como se merecessem uma plástica, para adquirirem sua integridade com o resto do corpo. Era como se a cada dia tomassem forma diferente. Naquela época ainda não havia os recursos plásticos de hoje, pelo menos que eu soubesse, trazendo-me mais estranheza para tantas facetas.
Os longos cabelos louros faziam uma espécie de contratempo àqueles seios multiformes e lhe emprestavam uma graça, que o rosto de lábios grossos, visto separadamente, não aparentava. Tinha uma expressão sisuda, zangada mesmo, como se a vida lhe fosse um eterno estorvo. Nunca a vi sorrindo, a não ser de sarcasmo, mesmo que a testa estivesse desanuviada. Era um tipo de esfinge de cara dura, lá no alto, gestos abruptos e uma leveza espantosa para tanto corpo. Causava certa estranheza entre os demais moradores, pelos seus modos, traduzidos por uma indiferença, como se a raça humana não passasse de uma fratura no processo evolutivo da espécie. Era o tipo de mulher vistosa, vista de longe, que poderia ser chamada de “uma chata”, por quem a visse de mais perto.
Apesar de toda a rejeição que provocava, compunha também minhas fantasias, na hora de um alívio solitário, até porque a garota da minha idade, que eu considerava a mais bonita do prédio, fugia-me da mente, como uma criatura normal e eu não conseguia captura-la dentre meus fantasmas eróticos. Essa garota era o intocável, dentro da represa judaico-cristã de minha formação e de meus sonhos.
Esgotava-me em visitas a meu amigo tocador de violão e não conseguia ver meu objetivo se concretizar. Até que um dia, no final de uma manhã, a cortina do quarto estava aberta e ela entrou encoberta por uma toalha de banho. Olhei para os seios e eles estavam achatados pela pressão do tecido. Até hoje, não pude terminar o desenho que fazia dela.



A VIAGEM DE D. QUIXOTE COM A DOIDA

No glossário ideado de minhas aventuras, há um verbete, com muito poucas palavras, que diz: A viagem da doida com D.Quixote. Especifica apenas que encontrei uma mulher que se dizia doida e que andava com o cavaleiro dos moinhos de vento. Lembrei-me disso agora pela saudade que sinto do que ela chamava de ilusões, fantasias, porque viajávamos pela internet, na ternura de doces palavras e imagens e na voz encantadora, pelo celular.
Encontramo-nos em um Chat de idades, acima dos 40 e conversamos sobre poesia, contos, crônicas e idéias foram surgindo como olhos d´água, em um tom sério, quase acadêmico, evoluindo para uma conversa com imagens pelo MSN. Trocamos nossas poesias, desilusões e desejos, na fartura de decepções que o cotidiano nos oferece. Morávamos em pólos opostos do país, mas nos sentíamos juntos, na mais íntima das intimidades: a intelectual. A proximidade física, também, foi se fazendo presente, até no cheiro do perfume que ela me dizia usar, nos olhares angustiados, nos sorrisos fortuitos, na leveza ardente do desejo, na necessidade urgente de nos tornarmos mais do que uma imagem. Foi quando resolvi atravessar o Brasil inteiro para ir a sua cidade. Seria uma loucura minha, mas ela achou interessante, apesar de ser casada e morar com marido e filhas. Tenho a impressão de que não acreditava que pudesse fazer isso.
Foi aí que se chamou de doida ao aceitar minha proposta de nos encontrarmos fisicamente. E, também, me chamou de D. Quixote, porque iria combater moinhos de vento. Não se achava atraente o suficiente, para tão inusitada aventura pelo país afora. Essa modéstia que algumas mulheres têm, quando estão cientes das limitações que a vida nos impõe, a todos nós, mesmo os que se acham bonitos. Mas ela não era feia, ao contrário, possuía uma beleza não convencional, mas não fazia disso seu objetivo de vida. Cabelos compridos, um rosto expressivo, um torcer de lábios não correspondendo ao que dizia, um busto farto, mas não exagerado, a tristeza dos artistas e era tudo que a câmera on-line permitia ver.
A preparação para a viagem foi tumultuada. Tinha que inventar desculpas no trabalho e em casa, mas consegui me desvencilhar, inventando um Congresso de Psiquiatria, em Porto Alegre. Algo assim como “Os aspectos Fármaco-Psiquicos na Psiquiatria do Século XXI”, que falaria sobre a influência da neurologia sobre a psiquiatria, no que dizia respeito à estabilidade de doenças crônicas. Um assunto atual e convincente para meus pacientes, para a família e para o hospital onde trabalhava. Fui tão convincente, no hospital, que ganhei da Diretoria as passagens aéreas para Porto Alegre. De lá, seguiria para meu destino, uma cidade ao norte do Rio Grande do Sul.
O mês de março caminhava sempre lento, em todos os aspectos, desde o retorno real às atividades produtivas no país ao esticar do salário do trabalhador, para totalizar o mês de 31 dias, com compromissos a pagar com as despesas do carnaval. Em minha cidade, no nordeste, chovia, mas não fazia frio, mas tive que colocar na mala casacos, jaquetas e roupa grossa, para não ter um pequeno choque térmico.
Passeei, dentro de um avião por este país inteiro, com troca de aeronave duas vezes, até chegar à capital gaúcha. Foram muitas horas de viagem com a expectativa e a ansiedade dos vendavais, das tumultuadas fustigações da mente, sem saber o que me esperava, como seria recebido, que impressão causaria e qual a que sentiria, quando chegasse à cidade de minha amada virtual. Tudo parecia uma loucura que eu comparava com a dos antigos descobridores, no século XV, incluindo o sofrimento físico e a tensão dos aventureiros, embora a minha aventura tivesse cinto de segurança, em todos os sentidos.
Fui de Porto Alegre, POA, como é conhecida, até à cidade de meu encontro amoroso, sentindo a brisa fria do ônibus e apreciando a paisagem, que cada vez mais se tornava agrícola, sob a névoa de um dia cinzento. Vesti um casaco grosso desde o aeroporto e me sentia estranho com aquela roupa grossa, um visual diferente, dando-me a sensação de um estrangeiro nos pampas, o que não deixava de ser.
Na rodoviária, tomei um táxi e indiquei o endereço do trabalho dela, na parte central da cidade. Deixei o táxi e subi uma pequena escada larga, naquele prédio de estilo arquitetônico duvidoso, mas bonito e imponente e andei pelos corredores procurando por Alicia Chavez, até me indicarem que era no segundo andar, a segunda sala à direita. Abri a porta, olhei em volta da sala e ela estava escrevendo no computador a um canto. Fiquei à sua frente, ela levantou aqueles olhos tristes e, como se não tivesse surpresa, disse apenas:
─ Você chegou, que bom!
Ela era exatamente como aparecia na câmera do meu computador, mas estava alegre e sorridente, sem aquele ar sofrido que me aparecia todos os dias na telinha. Tomou a minha mão beijou discretamente e falou:
─ Vamos sair daqui – e foi me levando pelo braço, como se deixasse tudo para trás, dirigindo-nos ao estacionamento.
Dentro de seu carro, beijei-a com mais força do que devia, com uma avidez de quem não se beijava há muito tempo e que, na verdade, nunca havia beijado. Eram dez e meia da manhã, fomos ao colégio de suas filhas, colocando-as no carro e fomos até sua casa, onde ela e as filhas fizeram as malas. Chamamos um táxi, enquanto ela rabiscava um bilhete na sala, que eu acreditei ser para o marido e fomos ao aeroporto. Fretei um bimotor e voltamos para POA, quando ela me perguntou no ouvido:
─ Para onde vamos, o que direi às meninas? – vi suas coxas grossas no vestido largo, seu jeito cheinho e sexy, sua mão sem aliança, passei a mão na cabeça das meninas e disse:
─ Vamos para minha cidade, minha ilha querida e aprazível, onde não há moinhos de ventos, nem manicômios e diga a suas filhas que você tem um novo amor.



OS SALTOS ALTOS

Ele estava com o corpo moído, literalmente até a medula, a cabeça pesada, não tanto que não pudesse escutar os saltos altos da vizinha de cima. Começou a imaginá-la loura, volumosa, grande, morando sozinha, quando, em certa noite, na sua insônia persistente ouviu o bate de duas portas de automóvel, na garagem do prédio. Minutos depois, ouviu novamente o ruído dos saltos de sapato, o mesmo som de quem faz o percurso da sala ao quarto, nos apartamentos médios e iguais, em que moravam no prédio. Caiu o primeiro pé do sapato e ele ficou, como na piada, esperando cair o seguinte. A demora lhe pareceu longa demais. Ficou a imaginar que, não estando ela sozinha, o outro sapato demoraria muito a cair e, talvez, não caísse sobre piso. A cena foi se formando em sua cabeça, com o zíper de um vestido preto, sendo abaixado até a cintura, aparecendo uma pele de neve, camuflada por uma penugem loura, como se fosse o cetim da poltrona antiga em seu quarto. Imaginou carícias preliminares, um resfolegar lento e encadeado, o restante das roupas se desprendendo atônitas dos corpos, na volúpia ensandecida dos amores contidos. E nada do outro pé de sapato cair, Talvez estivesse ainda calçado ou desprezado a um canto da cama, enquanto beijos e carícias se desprendiam da avidez de querer mais e cada vez mais o prazer. Ou, simplesmente, o sapato foi tirado com a lentidão de um coquetismo e pousado levemente no chão.
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Em sua fase terminal da doença, se deixava levar por esses eflúvios de lascívia e languidez, quando a dor não o estava atormentando. Sentia e participava do mundo pela televisão, esse espelho falante, sempre ligado, trazendo-lhe uma realidade distorcida em atos e fatos de uma vida, que não correspondia às verdadeiras relações entre as pessoas. Só ouvindo, pois a cabeça afundada na perplexidade, visualizava contextos , em sua prodigiosa imaginação. Impossível vê-las por algum tempo. A brutalidade de atentados e guerras, como a segunda dos EUA contra o Iraque lhe parecia um jogo de vídeo game, com um aparato tecnológico sufocando uma população, esmagada pelo medo, mas, ainda assim, resistindo à intromissão indevida. Até certo ponto o controle da produção de petróleo era o real motivo daquela insanidade, em nome da democracia. Como sua doença, todos sabiam que o Iraque, não teria a menor condição de resistir, apesar dos esforços terroristas do lado islâmico. Outras aberrações faziam parte de seu cotidiano, vindas da tela pumblea, como a putrefata corrupção no governo Lula, de consistência maciça, que atordoavam sua consciência de cidadão e não se comparavam, nem de perto, com sua doença degenerativa, certa e irreversível. Mas isso não lhe havia tirado ainda a inconformação e o desejo de ser gente, mesmo atirado, permanentemente, a uma cama. Assim, procurava distrações extras, como a vizinha de cima.
Os movimentos dos saltos no andar superior, em horário certo, eram a certeza de que ainda estava vivo, consciente, apesar das desgraças do mundo lá fora. Uma forma de vida vivida, pois todas as suas lembranças eram um passado/presente sempre revivido. O ruído de calçar os sapatos, empurrando as pernas para um lado e para o outro, até que se acomodassem por inteiro, faziam-lhe ver um corpo ereto, sustentado por coxas e pernas grossas e uma bunda condizente, como se ela estivesse nua e ele pudesse ver de baixo sua genitália, assim como quase todo o seu corpo, até a ponta dos seios. Pelo som da movimentação, era como se ela estivesse sobre ele. Mas, ao perceber que ela se movimentava pelo apartamento, parecia-lhe que sua vagina se contorcia, protegida por uma calcinha fina e desejável.
No meio da tarde, passos infantis marcavam, como um bunbo fora de compasso, uma batucada insólita. Logo em seguida, os saltos altos eram calçados por pés que ele sentia afrouxados, em outra marcação, parecida com as das matracas.
Esse sonho, alimentado dia-a-dia, era uma espécie de morfina sexual, pois sua situação de quase imobilização não permitia torna-lo realidade, com seu corpo praticamente morto pela leucemia. Talvez, por isso, ele se dava ao luxo de vê-la também morena, de uma cor especial, um lusco-fusco entre mulata clara e mulher do oriente, como as de Taiwan, Cingapura, Filipinas e outros países próximos. Uma morenice diferenciada.
Coxas volumosas, roliças e firmes, em um arcabouço de um metro e oitenta, sustentado por saltos não muito finos e altos, nem da largura de um começo de rolha de garrafa de champanhe fechada, nem fino como o bico de aves. O cotidiano tradicional de pernas grossas, de executivas de trailer, cabelos encaracolados e presos apropriadamente para o trabalho. Era assim que a imaginava morena.
Loura, morena, não importa em seu sonho. Tinha a vantagem de serem duas, pelo menos. Via-as sempre com um corpo perfeito, cheio de desejo, como sua mente vivia, mas com o correspondente sexual mais morto do que ele.
Essa rotina de ruído de saltos altos alimentava seu espírito, como se levasse uma vida normal. Acompanhava os horários de sua dona, como se ele também trabalhasse e, nos fins de semana, saísse para se divertir.
Lembrou-se, então de outra vizinha, logo que a doença se instalou em seu corpo e ele se locomovia de cadeira de rodas. Era porta a porta, o marido dela viajava muito e, em sua comedida e controlada solidão, encontraram-se, certa noite, na cozinha do apartamento dela. Ele sentado sobra a pedra da pia e os dois fazendo amor, de forma desenfreada, agônica, erótica e muito cheia de prazer. Mas essa é outra história.
Os ruídos dos saltos altos desapareceram, na noite de mais um atentado em Bagdá. Ouvindo notícias estranhas a toda hora, pela televisão sempre ligada, sentiu falta dos toc-toc costumeiros. Dois meses depois, fora de qualquer hipótese de férias da dona dos saltos, nunca mais ouvira outro salto de sapatos.

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