segunda-feira, 13 de abril de 2009

SÍLVIA

Viúva, com 54 anos, a alma magoada pelo tempo, até os netos terem crescido - alguns já adolescentes - possuía, ainda, em seu interior a inquietação dos jovens, misturada com a maturidade das experiências de vida e dos sofrimentos de perda. Esse sentimento de potencialidade interior que a impulsionava para além da pieguice de mãe e avó tradicional, ela se roubava , usando um tempo escondido para si, a fim de aplacar a alma, na luta diária, construindo uma família, onde as buscas intelectuais se dissolvem nos afazeres do cotidiano. Nesses momentos escondidos, ia e colocava no papel suas inquietações, em forma de poesia e depois em prosa, mas nada que se parecesse com um diário. Odiava diários e as bobagens neles contidas.
Trabalhara em uma repartição pública, emitindo pareceres administrativos e redigindo textos oficiais, sem a perspectiva de transgredir, de criar e se dedicar a especulações abstratas, filosóficas e sociológicas. Aos poucos seus filhos foram se mudando para o Maranhão, atraídos por salários de uma multinacional e condições de qualidade de vida melhor e ela foi ficando só em Salvador, em seu apartamento, freqüentando academias de ginástica e fazendo aqueles tradicionais curso de pintura e artesanato para idosos.
Um estilo vida cada vez mais vazio, para quem se sentia saudável, cheia de pendores e com um caminho ainda a percorrer, apesar de aposentada. Para não ficar sozinha na capital baiana, vendeu o apartamento e comprou outro em São Luís, uma ilha aprazível, capital do Maranhão. Foi morar no Renascença II, um bairro nobre, próximo a tudo, a shoppings, padarias, supermercados e a dois Centros Educacionais Universitários. Ouvindo falar do Curso de Letras, na televisão, fez o vestibular e passou. Os filhos acharam um absurdo, somente a nora Flávia, mulher do mais novo, entendeu a necessidade de continuar uma vida saudável e ativa, depois dos 50 anos.
Vencida a guerra familiar, Sílvia foi para o primeiro dia de aula com um caderno, duas canetas novas e uma lapiseira com borracha na ponta contrária, acomodados esses objetos escolares em um estojo comprido com zíper. Com o coração saltitante, acomodou-se logo em uma carteira de frente para o professor e viu, em volta, somente jovens, em seus 18, 19 anos de idade e sentiu o olhar deles, entre a desaprovação e a indiferença.
Ela gostava de usar terninhos, resquícios dos tempos de funcionária pública com chefia, mas se sentiu deslocada com os trajes descontraídos de seus novos colegas. Fez uma promessa a si mesma de, naquela tarde, comprar calças jeans, sandália com saltinho e blusas com ar mais jovem. Queria, à sua maneira, ser um deles, sem cair no ridículo da juventude forçada. E deixaria seu cabelo curto, pintado cor de mel, crescer até os ombros de seu corpo magro e enérgico, com uma barriga emergente, disfarçada pelas blusas usadas para fora da calça.
Nesse centro universitário, não havia aquela modorra do 1º dia, com visitas inúteis às instalações, nem a conversa fiada dos professores apresentando o plano de curso para o semestre, já em poder dos alunos, com uma exposição enfadonha para quem não conhecia o conteúdo. Era aula mesmo e a primeira foi de literatura brasileira, sendo apresentado um histórico do conteúdo da disciplina, as produções, o autores, desde o início, o polêmico início, até o movimento modernista de 1922. Ela anotava tudo, datas, nomes, fatos importantes, particularidades, como o esboço de um dossiê, apesar do professor pedir que não anotassem, mas prestassem atenção ao que falava.
Foi logo passado um trabalho em grupo para o fim do mês e os alunos deveriam se dividir em cinco equipes. Após a aula, os grupos foram se formando, automaticamente, e ela e dois rapazes não conseguiram se encaixar em nenhum deles, como que formando um sexto grupo, que Silvia passou a chamar de “os excluídos” ou “os Sem Grupo”.
Era uma pessoa alegre, comunicativa, habituada ao comando, com liderança, mas, por se conhecerem anteriormente das festas, dos cursinhos, dos shoppings, o restante da turma não prestou muita atenção nela, nem nos outros dois “desgrupados”. Um deles, era um rapaz de Teresina, capital do Piauí, com barba serrada, franzino e se chamava Abel. Andava sempre com livros em baixo do braço e se isolava em sala, para ler, nos intervalos das aulas. O outro, ao contrário, com o cabelo parafinado dos surfistas, carregava sempre uma prancha, que deixava encostada na parede do fundo da classe, onde costumava sentar-se. Tinha o nome Carlo Alberto, mas era conhecido como Cauê e possuía uma linguagem indecifrável para Silvia, como se falasse em código e vivia olhando para o tempo, em buscas de ondas na ilha.
No da seguinte, Silvia de calças jeans, viu-se assombrada com suas coxas grossas, ainda rígidas e moduladas, destacando-se na nova vestimenta, apesar da idade e os seios pequenos, comportados na blusa branca sem mangas. Achou-se um pouco ridícula junto às suas colegas, continuando a sentir-se deslocada. Não queria ser uma mocinha de faculdade, nem uma velha atrapalhando o aprendizado dos colegas. Esse meio termo, difícil de conciliar.
Ela gostaria de ter cursado Letras Bacharelado, que tem como função formar escritores, mas só era oferecido o curso de Letras Licenciatura, pra formar professores de língua portuguesa e uma estrangeira. Queria, concluída uma etapa de sua vida, iniciar outra, dedicada a escrever livros, contar histórias, que as tinha muitas, provindas de toda esse emaranhado de situações que viveu e que gostava de inventar por escrito.
Seu lado afetivo ficou adormecido, com a morte do marido há quatro anos, não por fidelidade póstuma ou por falta de apetite para convivência íntima com homens, mas pelo deslumbramento de ser dona de sua vida, sem tutela, mesmo que indireta de maridos e filhos. Era seu momento, egoisticamente buscado, perseguido antes em seus esconderijos, quando casada, que agora podia desfrutar, abertamente, sem prestar contas a ninguém de suas ausências, que não eram mais ausências, mas o conforto espiritual de estar consigo própria. Não se sentia solitária, porque tinha uma solidão acompanhada, por seus pensamentos, suas escrevinhações, suas leituras, suas refeições fora de horários rígidos, seu levantar tarde pela manhã, dando folga ao espírito e ao corpo.
Na primeira reunião dos “sem grupo”, Alex, o piauiense já estava esperando por ela na biblioteca e começaram a conversar, esperando Cauê, o surfista, que estava bem atrasado. Alex lhe contou que vinha de uma família pobre, em sua terra natal e, se estava ali, era graças a um padrinho que lhe financiava o pensionato misto, onde vivia e os custos da faculdade particular. Nunca conseguira passar no vestibular da Federal, pela falta de conhecimentos suficientes em matérias como física, química e matemática, exigidas para qualquer curso.
Conseguiu aprovação nesse curso, em faculdade paga, por ser exigido como conteúdo de prova uma redação, onde pôde demonstrar bom desempenho, vindo de um treinamento desde novinho, estando agora com 30 anos. Seu desejo de ter como profissão a condição de escritor sempre foi inabalável desde aquela época e, enquanto esperava a oportunidade, dava aulas particulares de português e em um colégio recém aberto, onde ainda não era exigida a documentação necessária
Por ser meio tímido, apesar de lecionar, Silvia foi, de pergunta em pergunta, arrancando sua história pessoal, como forma de evitar contar a sua para um estranho, não deixando que ele parasse. Ela o achava esquisito com aquela barba descuidada, umas roupas de moda antiga e eternamente com o mesmo tênis, a não ser que tivesse dois ou mais do mesmo tipo, o que não era provável. Apesar de sua aparência suja, ele não fedia, pelo menos na distância cadeira a cadeira em que estavam e parecia ter uns quarenta anos, apesar de bem mais jovem, com o rosto sempre crispado, a testa franzida, como se fosse acometido por grandes aborrecimentos. Andava sozinho pelos corredores da faculdade e quase ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser um professor ou algum funcionário que lhe despejava um “bom dia” displicente.
Quase onze horas da manhã, Cauê apareceu deixando a prancha no corredor, o cabelo desalinhado e um pouco sujo de areia, na bermuda longa e na camiseta sem mangas, vazada nos ombros. Todo só desculpas, em seu palavreado de gírias, muito respeitoso, dirigindo-se a Sílvia, como se prestasse contas à mãe. Era uma sexta-feira e ela se sentiu dirigindo o pequeno grupo, ao propor outra reunião em sua casa no outro dia pela manhã, como fazem, principalmente, jovens, que são acostumados a receber, para fazer trabalhos, sem ao menos conhecer direito seus colegas. Trocaram telefone e endereços e como a faculdade ficava perto de um shopping, ela foi fazer umas compras, em uma livraria distribuidora nacional.
Gostava de ler à noite, na calma de sua poltrona no escritório, um telefone sempre perto, para atender aos filhos e netos. Dificilmente, via a televisão à sua frente, a não ser que passasse um bom filme de arte, que ela via na programação do seu notebook. Acostumara-se a fazer quase tudo pelo computador, dedicando-se a se atualizar com as notícias, algumas horas por dia. Nada encontrara de substancioso na livraria e fora para casa pesquisar nas lojas virtuais algum livro que fosse pertinente ao assunto do trabalho escolar, mas não resistiu e entrou no google onde encontrou uma multidão de textos sobre os primórdios da literatura nacional. Fez cópias do que lhe interessou como subsídio e ficou pensativa, elucubrando sobre sua vida, naquele aconchego da alma, tão comum em pessoas sensíveis.
Sentindo-se jovem, apesar de ter passado dos cinqüenta, olhou seu corpo sentado, vestido apenas com a calcinha, na poltrona e se lembrou do sexo aguado que praticava com o marido, principalmente nos últimos anos. Não havia mais novidade alguma, perfazendo um caminho, quase sempre o mesmo, até chegar ou não ao orgasmo, a conversa posterior envolvendo a situação dos filhos e nada mais sobre eles mesmos, como se aquilo fosse fazer uma refeição à mesa, quase mecânica, polvilhada de comentários e fofocas sobre o trabalho de cada um. Depois a doença dele, sofrida e cansativa, coroando um final de vida em comum de forma grosseira, estúpida, quase impessoal, até que contratou uma enfermeira para ajudá-la, enquanto ia ao trabalho. Com o sexo, praticamente, morto, a não ser uma apalpada que ele se atrevia em dar no seu corpo, cada vez mais rara, ficava, também, impedida de ir a um aniversário, uma festa, um teatro, a ter encontro com os amigos, que nessas horas desaparecem, salvo aqueles mais chegados, que telefonam ou visitam com pouca freqüência.
Apesar de estar na menopausa, não sentia com rigor os seus efeitos, de vez que aceitara fazer a reposição hormonal e sentia falta de carinho masculino, do cheiro agridoce, misturado com desodorante ou colônia, dos apetrechos de fazer barba, do outro lado do guarda-roupa. Gavetas cheias de cuecas e das camisas e ternos pendurados, como se esses acessórios todos fossem um todo que anunciava a presença de homem em casa.
Procurava manter a rigidez do corpo com caminhadas matinais, em volta do quarteirão de seu apartamento, odiando sempre as academias, onde freqüentara umas duas vezes e sempre achando estúpido ficar naquela sala bem iluminada, quase sem janelas, quando podia desfrutar da natureza, sem precisar daqueles aparelhos artificiais, mas sentindo o cheiro da manhã. Em São Luís, um cheiro característico de árvores pequenas nas calçadas, naquela região, um restinho de orvalho, sem o cocô de cachorrinhos pra atrapalhar. Os empregados dos prédios faziam a limpeza da frente dos respectivos prédios toda manhã.
Naquela noite de sexta, sairia com casais amigos para jantar em um restaurante novo que inaugurara na semana anterior e seria divertido experimentar pratos com a incerteza da garantia de um sabor conhecido, encontrando prazer na novidade, mesmo que não fosse de seu agrado a iguaria. Ela se sentia como quem conhece um mundo novo, naqueles três anos de viuvez, grande parte entregue a lembranças, a ajustes, a processo judicial de inventário, a um resguardo íntimo, onde tudo em volta desaparece, até a libido fica mais inibida, no recolhimento de sentimentos, que passam a ser selecionados, permitindo-se sentir somente alguns sonhos.
Depois de falar sobre variedades com os dois casais, já no final do prato principal, ela não se lembra como, mas a conversa se voltou para a violência e o terrorismo. Inevitavelmente, veio Ozama Bin Laden, o 11 de setembro nos Estados Unidos e as FARC, sendo taxada quase por todos como um grupo de narcoguerrilheiros que eram revoltados com a situação política da Colômbia e se tornaram bandidos, ao longo do tempo, financiando suas operações com narcóticos e seqüestros.
Apesar de já ter viajado para o exterior, em período de férias com o marido, sempre ia às cidades e paises de um roteiro tradicional, como Paris, Roma, Portugal, Espanha, Alemanha e nos locais cartão-postal, conhecendo futilidades, comprando lembrancinhas características ou algum artigo de indumentária em lojas famosas. Não sentia o local, captando apenas a atmosfera passageira, enlevada pelos lugares que antes via nos filmes e agora estavam à sua frente, com alguns detalhes, mas sem conseguir com uma realidade do cotidiano. Pior do que isso, sentiu a Colômbia como algo distante, perdido na mata amazônica, na proximidade dos Andes, ao se referirem a ela, naquela conversa.
Seu espírito mais refinado, centro de seu domínio das coisas, não conseguia visualizar cidades desenvolvidas com prédios, avenidas largas, centros de lazer e outros complementos das grandes cidades. Assim como acontece com os sulistas em relação ao nordeste e norte, no Brasil, que vêem pela televisão apenas índios, matas, miséria, estradinhas de terra batida, casebres, gente sofrida e desgastada pela vida que levam. A Colômbia, para ela, era apenas isso, lacuna de leitura e de vivência, além do que não fosse o círculo da classe média alta, em que vivia.
Ouvindo os outros falarem na comparação com traficantes do Rio de Janeiro e São Paulo, sentiu-se frágil naquele seu mundinho, sem uma visão mais ampla das questões reais. Lamentou o tempo que perdera, pensando comandar uma repartição pública, embora ganhando muito bem para isso, acreditando conhecer os embates da vida. Mas, agora, com mais leitura, que faria no curso, de forma sistematizada, orientada, poderia adquirir um raciocínio de configuração abstrata e complexa, embora não tivesse a noção de que certas lacunas não preenchidas no momento certo, jamais o seriam, por mais vivência ou leitura que tivesse.
No dia seguinte, apesar de sábado, levantou-se às 6.30, fez a higiene matinal e, quando se preparava para tomar o café da manhã, ouviu a campainha da porta principal e mandou a empregada ver quem era. Para sua surpresa, foi anunciado Alex, que viera para fazer o trabalho. Pediu que aguardasse na sala dupla de estar e olhou apenas as manchetes dos jornais sobre a mesa, voltando ao quarto para se vestir como aluna universitária.
A conversa inicial entre eles foi com frivolidades, como ele ter chegado cedo e a crença de que Cauê não apareceria, que aquela era hora de pegar onda no mar. Alex elogiou o apartamento, não deixando esconder seu deslumbre por algumas obras de arte, estrategicamente, dispostas pela sala ampla, a gosto do marido morto e eles começaram a falar sobre ele, que era médico cardiologista clínico e um grande apreciador de artes plásticas, principalmente, esculturas.
A conversa foi se encaminhando para a saudade, a falta da presença dele, quando Alex perguntou se ela não sentia vontade de se casar de novo. Passando a mão pelos cabelos, que começavam a crescer e com um meneio de cabeça, Sílvia ruborizou pela falta de proximidade em conversar isso com ele e disse apenas “não sei”. Aquela pergunta disparara o alarme do desnível social, na busca de uma intimidade rápida.
Eles continuaram conversando no mesmo sofá, na sala de estar, ela mandou servir mais um cafezinho, que ele quis somente preto, acendendo logo um cigarro, para o desagrado contido de Silvia, que suportava o cheiro de interior da pessoa, na fumaça fumada e o odor do que ficava no cinzeiro. Chamou a empregada e mandou providenciar um, que na sala não tinha, desde a morte do marido, que fumava muito. Ela olhou para o relógio de pulso e constou quase oito e meia, sendo bem incisiva: “vamos começar, que o Cauê não vem mesmo, com esse sol todo. “. Alex a olhou com um sorriso irônico e começou falando bem baixo: “ Você não pensa que eu acredito que o Cauê vinha e que nós íamos fazer trabalho”. Ela se empertigou no sofá e, antes que pudesse dizer algo, ele completou: “ Vamos lá, me dê um beijo, você, ainda, é bem bonita, parece que não foi muito usada por seu marido” e se jogou em cima dela, deixando suas tralhas caírem no chão.
De um salto muito rápido, Sílvia se pôs em pé com o braço e o dedo indicador esticados, na direção da porta lateral. “Pra fora”, disse ela concisa e decidida, tremendo um pouco, ao mesmo tempo em que foi se formando em sua cabeça um discurso enorme sobre dignidade humana, falta de caráter e fazer-se respeitar como visita acolhida de bom grado. Mas lembrou-se que conviveria com ele o ano inteiro na mesma sala e não queria trazer pra ela essa angústia, esse sofrimento, principalmente, pelo entusiasmo com que entrara na faculdade, desafiando a todos em sua família.
Ele se levantou com um sorriso cínico, resmungando: “ Não entendo essas coroas grã-finas, trazem a gente pra casa delas e na hora do bem bom, não querem nada”. Ela permaneceu em pé, no meio da sala, com as duas mãos ostensivamente na cintura e os braços formando arcos. Alex juntou seus papéis e livros e continuou falando baixo, saindo pela porta.
Na segunda-feira, antes de começar a primeira aula, ele vinha saindo da sala e ela entrando. Ele a cumprimentou com um balanço de cabeça e disse, entre dentes: “bom dia”, sem olhar para o rosto dela. Sílvia retribuiu o cumprimento em voz alta, o rosto fechado, séria e esperou ela sair pela porta, para ela entrar.



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