Na tentativa de ser escritora, ela produzia, diariamente, textos de começos de Romances e os abandonava uma semana depois, no mais tardar, porque perdia o interesse pela história ou se entediava com a possibilidade de nunca ser lida. Nada, ainda, publicara, sob a forma de livro tradicional, de papel ou mesmo pela internet, com livre acesso, alimentando um sonho de ultrapassar a fase das editoras, como intermediárias, no que desejava produzir.
Sempre que tinha tempo livre, sentava-se ao computador e começava a escrever, não levando em conta o que seu companheiro falava sobre a inutilidade daquilo. Os dois eram novos, chegando aos 30 e ela, com o rosto desiludido, aproximara-se dele, quando eles eram professores; Silvana, ensinando literatura e Pablo, Física em uma Universidade particular. Nessa época, saíram para uma noitada de final de ano, para comemorar com alguns alunos, em um bar. Era a tradicional despedida do curso, em que foram celebrar o final do relacionamento em sala de aula. Pablo, ao final de tudo, na saída do bar, foi dormir no apartamento de Silvana e foi ficando, até ele se mudar de vez, passando a morar juntos. Ele não valorizava o trabalho dela e não gostava muito de seu cabelo ruivo natural, mas sentia atração por seu corpo e por sua atitude independente, de uma pessoa, que, desde cedo, habituara-se a se virar sozinha. A união deles estava naquelas fases ruins, com brigas silenciosas e quase nenhum sexo. Estavam se aturando, por um hábito que começaram a adquirir por morar juntos e nenhum dos dois tinha interesse em terminar essa relação.
Marcelo havia recebido como tarefa um trabalho de outro professor sobre a Criação Literária, o ato em si de criar, sem se referir especificamente a qualquer escritor. Procurou Silvana para ajudá-lo, mas não sendo seu aluno, ela ficou temerosa de dar palpite no que ele havia já escrito como introdução; e ele foi em busca de sua ajuda por ter tido a referência de um conto dela, mostrado em uma aula e que sempre circulava no curso, como exemplo de coisa bem escrita .
Marcaram um encontro semi-profissional na casa de uma colega dele, interessada em suas explicações e fontes bibliográficas. Nós, brasileiros temos esse hábito, nada salutar, de pedir ajuda profissional gratuita, em nome, no caso, nem de uma amizade anterior, mas apenas de uma referência. Alguns elogios, uma “submissão” como cartão de visita e a ajuda vem de graça.
No dia marcado, ela, Silvana, com uma lista de autores que falavam em criação literária, foi à casa de Ângela, às quatro da tarde e Marcelo já estava lá, de bermuda e tênis, uma camiseta da moda e seu ar de menino grande. Cumprimentos, apresentações, um gosto amargo do desconhecido e começaram a trabalhar sobre a estrutura do trabalho, a partir do que Marcelo e Ângela tinham esboçado. Pareceu a Silvana bastante pobre a abordagem, fixando-se em autores que falavam muito da emoção do escritor e sua tendência de colocar suas emoções no que fazia. Uma velha concepção que Silvana abominava, porque acreditava na imaginação do artista, para criar fora de seu mundo, como que um nada mágico, inexplicável, apenas fruto de sua observação e estudo da natureza humana.
Silvana começou, com delicadeza, a ir mudando os tópicos do trabalho, sempre repisando que a apresentação que lera estava boa, embora necessitasse de alguns ajustes. Justamente na parte do valor atribuído à emoção do escritor. Houve uma reação inicial, por parte dos dois, citando autores e mostrando trechos de livros. Ela permaneceu inabalável, percebendo que eles, tanto Marcelo, quanto Ângela não alcançavam o que ela dizia.
Com muito esforço, Silvana conseguiu chegar a um consenso , cada um cedendo um pouco, embora ela tivesse a autoridade de professora. Eram já 7 da noite daquele sábado e pediram uma pizza, na pausa que fizeram. Ângela morava só no pequeno apartamento de estudante, mantida por pais com condição financeira para isso, e que moravam no interior do Estado. Marcelo morava com os pais e trabalhava em uma construtora, na parte administrativa, com Recursos Humanos. Encarrega-se da correspondência comercial e do atendimento aos empregados, funcionando como se fosse uma espécie de psicólogo, nas desavenças nas obras e em outras com a empresa, antes que o caso fosse parar na Justiça do Trabalho, onde era o preposto da empresa.
Até antes da pizza, Silvana pensava que se tratava de namorados, mas isso foi desfeito na conversa descontraída, enquanto comiam. Ângela era noiva de um empresário de concessionária de automóveis e Marcelo um free-lance de namoricos, ficadas, beijadas e amassos, nas baladas, raves e shows. Os dois não eram nada um pro outro, apesar da embolada em que ficaram, numa noite de chuva, em que ele foi estudar lá no apartamento dela. Coisa de momento, sem conseqüência alguma. A coisa antiga de homem e mulher juntos e isolados, onde, às vezes, se esquece da amizade.
Lá pelas 10 horas da noite, Silvana, já cansada, mas satisfeita por fazer o que gostava, falou em ir embora e Marcelo se apressou em desejar uma carona com ela pra ficar no centro da cidade. Mas Silvana não queria ir pra sua casa, queria perambular por bares, ouvir música brasileira ou jazz, blues, algo que lhe acalmasse o espírito daquela convivência com Pablo, como uma fuga repentina e fugaz.
No caminho para o Centro, de repente dobrou uma rua que os levaria à orla marítima e convidou Marcelo para bebericar e conversar. Desceram a ladeira para a praia e ela entrou em uma estradinha cercada de mato alto que os levou a um bar-restaurante. Tinha um avarandado enorme e o piso de areia fina e alva, com casais de senhores grisalhos com mocinhas, espalhados pelas mesas, a música suave, na voz de Maria Bethânia, em uma lamento de amor.
Ela desligou o carro e disse: “Aqui que venho me esconder, quando estou aflita, mal humorada ou com aquele terrível sentimento de desilusão. Fico bêbada sozinha e vou pra casa dormir”. Marcelo riu desajeitado, olhou para seus cabelos ruivos e seu colo com sardas, os seios suculentos e apenas acrescentou que hoje ela não estava só e podia se embebedar à vontade. Saíram rindo do carro e foram para uma mesa no canto do lado esquerdo. Ela pediu meio litro de campari, aqueles que vêm com uma tira de papel na lateral, com a marca graduada do que foi consumido. Ele pediu um chope e perguntou, de sopetão, porque ela não escrevia um livro. Vira seu conto e ficara entusiasmado com a estrutura e a construção das frases e ela respondeu: me beije primeiro.
Ele a beijou na face, temeroso de ser mais audaz e ela reclamou que queria um beijo na boca, bem forte. Eles se entreolharam e as lágrimas começaram a sair dos olhos dela, antes de qualquer gesto. Depois de um breve tempo, ela pediu desculpa, chamou aquilo de brincadeira, passou os dedos indicadores curvados pelos olhos e respondeu: não sei, acho que preguiça! Ou falta de mais sofrimento, de aventuras, de desejos incontidos, de um passado leviano e bobo, de um real sofrimento de amor.
Marcelo a agarrou pelo rosto com as duas mãos e lhe deu um beijo na boca chupado, com língua, ambos intumescidos e tensos de tesão. Ela respirou fundo, baixou os olhos, como resquício de uma timidez que não tinha mais, e apenas disse que estava com calor, embora soprasse um vento forte, ondulante, como o que acabara de acontecer.
* * *
terça-feira, 14 de abril de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário