<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667</id><updated>2011-04-21T21:54:31.623-07:00</updated><title type='text'>LIVROS SARAIVA 23</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>10</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-8740869571640568162</id><published>2009-04-14T06:49:00.001-07:00</published><updated>2009-04-14T06:58:31.763-07:00</updated><title type='text'>SELENA</title><content type='html'>Um balcão e a máquina industrial de fazer pipoca, a chapa quente para fazer os sanduíches e os bicos de sair refrigerante. A moça negra, magra e com um boné na cabeça compondo a farda, parecia distante daquele lugar, uma ante-sala dentro de um cinema grande, com muitos locais de projeção. Era uma pessoa calma, indiferente a tudo, como se pertencesse a outro mundo, mas não no sentido de seu nome Selena, relativo à lua, distraída e sem compromisso com nada. Ao contrário, sentia no seu âmago que não se enquadrava na sua pobreza, na batalha escravizante de um trabalho repetitivo e menosprezado por todos. Mas ficava alheada, como meio de não se entregar, contraditoriamente, a devaneios, a seus sonhos esfuziantes e sofrer.&lt;br /&gt;Tinha sonhos de bailarina, freqüentava a escola de dança clássica no morro, nos seus dias de folga no trabalho, mesmo percebendo que os frutos dali colhidos de pouco adiantariam se quisesse seguir uma carreira. Concebia-se uma pessoa realista e sabia que só sairia de sua posição atual, por essas reviravoltas retumbantes, alucinantes, que não acontecem amiúde. &lt;br /&gt;Preparava e servia os alimentos, além tomar conta do caixa, tendo certo cuidado em suas tarefas, para atender bem ao cliente e não perder o emprego. Vivia do salário mínimo que recebia ali e das raras gorjetas que ganhava. Morava com sua avó, uma senhora idosa e cheia de sabedoria, em uma casa de madeira, de um cômodo, um cubículo espremido entre duas casas, onde deveria ser um muro e o fundo dava para um barranco cheio de mato.&lt;br /&gt;Selena, que, na verdade era Selena Hortência, uma disputa entre a avó e sua mãe, que evaporara no mundo do álcool e da droga, nunca se dera bem em seu emprego e onde morava, com medo de que esses ambientes a contaminassem de alguma forma, colocando-lhe uma espécie de tatuagem. Não que fosse por soberba ou prepotência, mas sabia que aqueles lugares evadiam-se em seus sonhos, como inexistentes no que desejava para si.&lt;br /&gt;Nunca conseguira desfilar em uma escola de samba, nem ia aos ensaios, sempre achando que aquela dança não casava com a melodia da música, embora seguisse o ritmo frenético e ensurdecedor da batucada, sem se poder apreciar o acompanhamento, a harmonia função decisiva para a evolução de uma dança. Alguns diziam que era a melodia que embalava a dança, mas ela sempre discordou, ao ser dançado o clássico, onde a melodia e a harmonia se invadem e se estendem na beleza dos gestos suaves e refinados, leves e acariciantes. &lt;br /&gt;Mas a cliente diante dela não pensava nisso, mas em como emagrecer, ir a passear e se divertir, vendo a comédia bem hollywoodiana que estava passando nas telas. Queria, com seu marido e filhos, quatro pipocas gigantes e o mesmo número de refrigerantes. Pagou a despesa, de pequeno valor, com cartão de crédito, que a máquina insistia, nas três vezes que passou o cartão, em anunciar que “ o crédito não foi autorizado”. Selena passou mais uma vez e comunicou à senhora quarentona o resultado da operação. A mulher olhou para ela com um ódio intrínseco.  Em volta várias pessoas conversavam, esperando na fila com um vozerio, formando um ruído alto, e a mulher perguntou “o quê?!” com um tom de quem não havia escutado, misturado com incredulidade. &lt;br /&gt;Selena voltou a repetir os termos escritos da máquina, com a voz mais elevada. “ Que é isso, sua negrinha de favela? Você nem sabe mexer nessa maquininha. Volte pra favela... ah!”. Há uma espécie de susto coletivo, o vozerio diminui, acompanhando aquele entrevero, na mais autêntica curiosidade sobre a agressão. Ana Cristina que estava aos berros, como fazia na produção de seus eventos, continuou insultando Selena, que aguardava, na sua postura ereta, olhando acima do nariz, como fazem as bailarinas e sem dizer mais uma palavra. Estava habituada a humilhações desse tipo, embora,  na academia improvisada em que dançava, fosse tratada com respeito e admiração pelo seu talento. &lt;br /&gt;A robusta Ana Critina continuou: “...diga alguma coisa, sua negrinha. Vou bater em ti” e tentou pular o balcão, passando com a mão perto do rosto de Selena. Foi contida pelas pessoas em volta que falavam em crime de preconceito, quando o marido dela falou ao jornalista: “ Chamar uma negrinha de negrinha, um crioulo de crioulo é crime? Como eu diferencio? Isso é síndrome de novela...”.&lt;br /&gt;A polícia chegou e Ana Cristina desafiou os guardas com desaforos e foi levada para a delegacia com quatro testemunhas, inclusive o jornalista, todos perdendo o filme O Caçador de Pipas a que iam assistir.&lt;br /&gt;Saiu, no dia seguinte, uma pequena nota no jornal, falando que a  agressora ficou detida para investigação.&lt;br /&gt;       &lt;br /&gt;                         * * *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-8740869571640568162?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/8740869571640568162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/simone.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/8740869571640568162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/8740869571640568162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/simone.html' title='SELENA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-8914636820336130155</id><published>2009-04-14T06:49:00.000-07:00</published><updated>2009-04-14T06:50:43.867-07:00</updated><title type='text'>SILVANA</title><content type='html'>Na tentativa de ser escritora, ela produzia, diariamente, textos de começos de Romances e os abandonava uma semana depois, no mais tardar, porque perdia o interesse pela história ou se entediava com a possibilidade de nunca ser lida. Nada, ainda, publicara, sob a forma de livro tradicional, de papel ou mesmo pela internet, com livre acesso, alimentando um sonho de ultrapassar a fase das editoras, como intermediárias, no que desejava produzir.&lt;br /&gt; Sempre que tinha tempo livre, sentava-se ao computador e começava a escrever, não levando em conta o que seu  companheiro falava sobre a inutilidade daquilo. Os dois eram novos, chegando aos 30 e ela, com o rosto desiludido,  aproximara-se dele, quando eles eram professores; Silvana, ensinando literatura e Pablo, Física em uma Universidade particular. Nessa época, saíram para uma noitada de final de ano, para comemorar com alguns alunos, em um bar. Era a tradicional despedida do curso, em que foram celebrar o final do relacionamento em sala de aula. Pablo, ao final de tudo, na saída do bar, foi dormir no apartamento de Silvana e foi ficando, até ele se mudar de vez, passando a morar juntos. Ele não valorizava o trabalho dela e não gostava muito de seu cabelo ruivo natural, mas sentia atração por seu corpo e por sua atitude independente, de uma pessoa, que, desde cedo, habituara-se a se virar sozinha. A união deles estava naquelas fases ruins, com brigas silenciosas e quase nenhum sexo. Estavam se aturando, por um hábito que começaram a adquirir por morar juntos e nenhum dos dois tinha interesse em terminar essa relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo havia recebido como tarefa um trabalho de outro professor sobre a Criação Literária, o ato em si de criar, sem se referir especificamente a qualquer escritor. Procurou Silvana para ajudá-lo, mas não sendo seu aluno, ela ficou temerosa de dar palpite no que ele havia já escrito como introdução; e ele foi em busca de sua ajuda por ter tido a referência de um conto dela, mostrado em uma aula e que sempre circulava no curso, como exemplo de coisa bem escrita .&lt;br /&gt;Marcaram um encontro semi-profissional na casa de uma colega dele, interessada em suas explicações e fontes bibliográficas. Nós, brasileiros temos esse hábito, nada salutar, de pedir ajuda profissional gratuita, em nome, no caso, nem de uma amizade anterior, mas apenas de uma referência. Alguns elogios, uma “submissão” como cartão de visita e a ajuda vem de graça. &lt;br /&gt;No dia marcado, ela, Silvana, com uma lista de autores que falavam em criação literária, foi à casa de Ângela, às quatro da tarde e Marcelo já estava lá, de bermuda e tênis, uma camiseta da moda e seu ar de menino grande. Cumprimentos, apresentações, um gosto amargo do desconhecido e começaram a trabalhar sobre a estrutura do trabalho, a partir do que Marcelo e Ângela tinham esboçado. Pareceu a Silvana bastante pobre a abordagem, fixando-se em autores que falavam muito da emoção do escritor e sua tendência de colocar suas emoções no que fazia. Uma velha concepção que Silvana abominava, porque acreditava na imaginação do artista, para criar fora de seu mundo, como que um nada mágico, inexplicável, apenas fruto de sua observação e estudo da natureza humana.&lt;br /&gt;Silvana começou, com delicadeza, a ir mudando os tópicos do trabalho, sempre repisando que a apresentação que lera estava boa, embora necessitasse de alguns ajustes. Justamente na parte do valor atribuído à emoção do escritor. Houve uma reação inicial, por parte dos dois, citando autores e mostrando trechos de livros. Ela permaneceu inabalável, percebendo que eles, tanto Marcelo, quanto Ângela não alcançavam o que ela dizia. &lt;br /&gt;Com muito esforço, Silvana conseguiu chegar a um consenso , cada um cedendo um pouco, embora ela tivesse a autoridade de professora. Eram já 7 da noite daquele sábado e pediram uma pizza, na pausa que fizeram. Ângela morava só no pequeno apartamento de estudante, mantida por pais com condição financeira para isso, e que moravam no interior do Estado. Marcelo morava com os pais e trabalhava em uma construtora, na parte administrativa, com Recursos Humanos. Encarrega-se da correspondência comercial e do atendimento aos empregados, funcionando como se fosse uma espécie de psicólogo, nas desavenças nas obras e em outras com a empresa, antes que o caso fosse parar na Justiça do Trabalho, onde era o preposto da empresa.&lt;br /&gt;Até antes da pizza, Silvana pensava que se tratava de  namorados, mas isso foi desfeito na conversa descontraída, enquanto comiam. Ângela era noiva de um empresário de concessionária de automóveis e Marcelo um free-lance de namoricos, ficadas, beijadas e amassos, nas baladas, raves e shows. Os dois não eram nada um pro outro, apesar da embolada em que ficaram, numa noite de chuva, em que ele foi estudar lá no apartamento dela. Coisa de momento, sem conseqüência alguma. A coisa antiga de homem e mulher juntos e isolados, onde, às vezes, se esquece da amizade. &lt;br /&gt;Lá pelas 10 horas da noite, Silvana, já cansada, mas satisfeita por fazer o que gostava, falou em ir embora e Marcelo se apressou em desejar uma carona com ela pra ficar no centro da cidade. Mas Silvana não queria ir pra sua casa, queria perambular por bares, ouvir música brasileira ou jazz, blues, algo que lhe acalmasse o espírito daquela convivência com Pablo, como uma fuga repentina e fugaz. &lt;br /&gt;No caminho para o Centro, de repente dobrou uma rua que os levaria à orla marítima e convidou Marcelo para bebericar e conversar. Desceram a ladeira para a praia e ela entrou em uma estradinha cercada de mato alto que os levou a um bar-restaurante. Tinha um avarandado enorme e o piso de areia fina e alva, com casais de senhores grisalhos com mocinhas, espalhados pelas mesas, a música suave,  na voz de Maria Bethânia, em uma lamento de amor.&lt;br /&gt;Ela desligou o carro e disse: “Aqui que venho me esconder, quando estou aflita, mal humorada ou com aquele terrível sentimento de desilusão. Fico bêbada sozinha e vou pra casa dormir”. Marcelo riu desajeitado, olhou para seus cabelos ruivos e seu colo com sardas, os seios suculentos e apenas acrescentou que hoje ela não estava só e podia se embebedar à vontade. Saíram rindo do carro e foram para uma mesa no canto do lado esquerdo. Ela pediu meio litro de campari, aqueles que vêm com uma tira de papel na lateral, com a marca graduada do que foi consumido. Ele pediu um chope e perguntou, de sopetão, porque ela não escrevia um livro. Vira seu conto e ficara entusiasmado com a estrutura e a construção das frases e ela respondeu: me beije primeiro.&lt;br /&gt;Ele a beijou na face, temeroso de ser mais audaz e ela reclamou que queria um beijo na boca, bem forte. Eles se entreolharam e as lágrimas começaram a sair dos olhos dela, antes de qualquer gesto. Depois de um breve tempo, ela pediu desculpa, chamou aquilo de brincadeira, passou os dedos indicadores curvados pelos olhos e respondeu: não sei, acho que preguiça! Ou falta de mais sofrimento, de aventuras, de desejos incontidos, de um passado leviano e bobo, de um real sofrimento de amor. &lt;br /&gt;Marcelo a agarrou pelo rosto com as duas mãos e lhe deu um beijo na boca chupado, com língua, ambos intumescidos e tensos de tesão. Ela respirou fundo, baixou os olhos, como resquício de uma timidez que não tinha mais, e apenas disse que estava com calor, embora soprasse um vento forte, ondulante, como o que acabara de acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                      * * *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-8914636820336130155?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/8914636820336130155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/silvana.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/8914636820336130155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/8914636820336130155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/silvana.html' title='SILVANA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-7164577102886796126</id><published>2009-04-13T05:53:00.000-07:00</published><updated>2009-04-13T05:57:45.410-07:00</updated><title type='text'>SÍLVIA</title><content type='html'>Viúva, com 54 anos, a alma magoada pelo tempo, até os netos terem crescido - alguns já adolescentes - possuía, ainda, em seu interior a inquietação dos jovens, misturada com a maturidade das experiências de vida e dos sofrimentos de perda. Esse sentimento de potencialidade interior que a impulsionava para além da pieguice de mãe e avó tradicional, ela se roubava , usando um tempo escondido para si, a fim de aplacar a alma, na luta diária, construindo uma família, onde as buscas intelectuais se dissolvem nos afazeres do cotidiano. Nesses momentos escondidos, ia e colocava no papel suas inquietações, em forma de poesia e depois em prosa, mas nada que se parecesse com um diário. Odiava diários e as bobagens neles contidas.&lt;br /&gt;Trabalhara em uma repartição pública, emitindo pareceres administrativos e redigindo textos oficiais, sem a perspectiva de transgredir, de criar e se dedicar a especulações abstratas, filosóficas e sociológicas. Aos poucos seus filhos foram se mudando para o Maranhão, atraídos por salários de uma multinacional e condições de qualidade de vida melhor e ela foi ficando só em Salvador, em seu apartamento, freqüentando academias de ginástica e fazendo aqueles tradicionais curso de pintura e artesanato para idosos.&lt;br /&gt;Um estilo vida cada vez mais vazio, para quem se sentia saudável, cheia de pendores e com um caminho ainda a percorrer, apesar de aposentada. Para não ficar sozinha na capital baiana, vendeu o apartamento e comprou outro em São Luís, uma ilha aprazível, capital do Maranhão. Foi morar no Renascença II, um bairro nobre, próximo a tudo, a shoppings, padarias, supermercados e a dois Centros Educacionais Universitários. Ouvindo falar do Curso de Letras, na televisão, fez o vestibular e passou. Os filhos acharam um absurdo, somente a nora Flávia, mulher do mais novo, entendeu a necessidade de continuar uma vida saudável e ativa, depois dos 50 anos.&lt;br /&gt;Vencida a guerra familiar, Sílvia foi para o primeiro dia de aula com um caderno, duas canetas novas e uma lapiseira com borracha na ponta contrária, acomodados esses objetos escolares em um estojo comprido com zíper. Com o coração saltitante, acomodou-se logo em uma carteira de frente para o professor e viu, em volta, somente jovens, em seus 18, 19 anos de idade e sentiu o olhar deles, entre a desaprovação e a indiferença.&lt;br /&gt;Ela gostava de usar terninhos, resquícios dos tempos de funcionária pública com chefia, mas se sentiu deslocada com os trajes descontraídos de seus novos colegas. Fez uma promessa a si mesma de, naquela tarde, comprar calças jeans, sandália com saltinho e blusas com ar mais jovem. Queria, à sua maneira, ser um deles, sem cair no ridículo da juventude forçada. E deixaria seu cabelo curto, pintado cor de mel, crescer até os ombros de seu corpo magro e enérgico, com uma barriga emergente, disfarçada pelas blusas usadas para fora da calça.&lt;br /&gt;Nesse centro universitário, não havia aquela modorra do 1º dia, com visitas inúteis às instalações, nem a conversa fiada dos professores apresentando o plano de curso para o semestre, já em poder dos alunos, com uma exposição enfadonha para quem não conhecia o conteúdo. Era aula mesmo e a primeira foi de literatura brasileira, sendo apresentado um histórico do conteúdo da disciplina, as produções, o autores, desde o início, o polêmico início, até o movimento modernista de 1922. Ela anotava tudo, datas, nomes, fatos importantes, particularidades, como o esboço de um dossiê, apesar do professor pedir que não anotassem, mas prestassem atenção ao que falava.&lt;br /&gt;Foi logo passado um trabalho em grupo para o fim do mês e os alunos deveriam se dividir em cinco equipes. Após a aula, os grupos foram se formando, automaticamente, e ela e dois rapazes não conseguiram se encaixar em nenhum deles, como que formando um sexto grupo, que Silvia passou a chamar de “os excluídos” ou “os Sem Grupo”. &lt;br /&gt;Era uma pessoa alegre, comunicativa, habituada ao comando, com liderança, mas, por se conhecerem anteriormente das festas, dos cursinhos, dos shoppings, o restante da turma não prestou muita atenção nela, nem nos outros dois “desgrupados”. Um deles, era um rapaz de Teresina, capital do Piauí, com barba serrada, franzino e se chamava Abel. Andava sempre com livros em baixo do braço e se isolava em sala, para ler, nos intervalos das aulas. O outro, ao contrário, com o cabelo parafinado dos surfistas, carregava sempre uma prancha, que deixava encostada na parede do fundo da classe, onde costumava sentar-se. Tinha o nome Carlo Alberto, mas era conhecido como Cauê e possuía uma linguagem indecifrável para Silvia, como se falasse em código e vivia olhando para o tempo, em buscas de ondas na ilha.&lt;br /&gt;No da seguinte, Silvia de calças jeans, viu-se assombrada com suas coxas grossas, ainda rígidas e moduladas, destacando-se na nova vestimenta, apesar da idade e os seios pequenos, comportados na blusa branca sem mangas. Achou-se um pouco ridícula junto às suas colegas, continuando a sentir-se deslocada. Não queria ser uma mocinha de faculdade, nem uma velha atrapalhando o aprendizado dos colegas. Esse meio termo, difícil de conciliar. &lt;br /&gt;Ela gostaria de ter cursado Letras Bacharelado, que tem como função formar escritores, mas só era oferecido o curso de Letras Licenciatura, pra formar professores de língua portuguesa e uma estrangeira. Queria, concluída uma etapa de sua vida, iniciar outra, dedicada a escrever livros, contar histórias, que as tinha muitas, provindas de toda esse emaranhado de situações que viveu e que gostava de inventar por escrito. &lt;br /&gt;Seu lado afetivo ficou adormecido, com a morte do marido há quatro anos, não por fidelidade póstuma ou por falta de apetite para convivência íntima com homens, mas pelo deslumbramento de ser dona de sua vida, sem tutela, mesmo que indireta de maridos e filhos. Era seu momento, egoisticamente buscado, perseguido antes em seus esconderijos, quando casada, que agora podia desfrutar, abertamente, sem prestar contas a ninguém de suas ausências, que não eram mais ausências, mas o conforto espiritual de estar consigo própria. Não se sentia solitária, porque tinha uma solidão acompanhada, por seus pensamentos, suas escrevinhações, suas leituras, suas refeições fora de horários rígidos, seu levantar tarde pela manhã, dando folga ao espírito e ao corpo. &lt;br /&gt;Na primeira reunião dos “sem grupo”, Alex, o piauiense já estava esperando por ela na biblioteca e começaram a conversar, esperando Cauê, o surfista, que estava bem atrasado. Alex lhe contou que vinha de uma família pobre, em sua terra natal e, se estava ali, era graças a um padrinho que lhe financiava o pensionato misto, onde vivia e os custos da faculdade particular. Nunca conseguira passar no vestibular da Federal, pela falta de conhecimentos suficientes em matérias como física, química e matemática, exigidas para qualquer curso.&lt;br /&gt;Conseguiu aprovação nesse curso, em faculdade paga, por ser exigido como conteúdo de prova uma redação, onde pôde demonstrar bom desempenho, vindo de um treinamento desde novinho, estando agora com 30 anos. Seu desejo de ter como profissão a condição de escritor sempre foi inabalável desde aquela época e, enquanto esperava a oportunidade, dava aulas particulares de português e em um colégio recém aberto, onde ainda não era exigida a documentação necessária&lt;br /&gt;Por ser meio tímido, apesar de lecionar, Silvia foi, de pergunta em pergunta, arrancando sua história pessoal, como forma de evitar contar a sua para um estranho, não deixando que ele parasse. Ela o achava esquisito com aquela barba descuidada, umas roupas de moda antiga e eternamente com o mesmo tênis, a não ser que tivesse dois ou mais do mesmo tipo, o que não era provável. Apesar de sua aparência suja, ele não fedia, pelo menos na distância cadeira a cadeira em que estavam e parecia ter uns quarenta anos, apesar de bem mais jovem, com o rosto sempre crispado, a testa franzida, como se fosse acometido por grandes aborrecimentos. Andava sozinho pelos corredores da faculdade e quase ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser um professor ou algum funcionário que lhe despejava um “bom dia” displicente.&lt;br /&gt;Quase onze horas da manhã, Cauê apareceu deixando a prancha no corredor, o cabelo desalinhado e um pouco sujo de areia, na bermuda longa e na camiseta sem mangas, vazada nos ombros. Todo só desculpas, em seu palavreado de gírias, muito respeitoso, dirigindo-se a Sílvia, como se prestasse contas à mãe. Era uma sexta-feira e ela se sentiu dirigindo o pequeno grupo, ao propor outra reunião em sua casa no outro dia pela manhã, como fazem, principalmente, jovens, que são acostumados a receber, para fazer trabalhos, sem ao menos conhecer direito seus colegas. Trocaram telefone e endereços e como a faculdade ficava perto de um shopping, ela foi fazer umas compras, em uma livraria distribuidora nacional. &lt;br /&gt;Gostava de ler à noite, na calma de sua poltrona no escritório, um telefone sempre perto, para atender aos filhos e netos. Dificilmente, via a televisão à sua frente, a não ser que passasse um bom filme de arte, que ela via na programação do seu notebook. Acostumara-se a fazer quase tudo pelo computador, dedicando-se a se atualizar com as notícias, algumas horas por dia. Nada encontrara de substancioso na livraria e fora para casa pesquisar nas lojas virtuais algum livro que fosse pertinente ao assunto do trabalho escolar, mas não resistiu e entrou no google onde encontrou uma multidão de textos sobre os primórdios da literatura nacional. Fez cópias do que lhe interessou como subsídio e ficou pensativa, elucubrando sobre sua vida, naquele aconchego da alma, tão comum em pessoas sensíveis.&lt;br /&gt;Sentindo-se jovem, apesar de ter passado dos cinqüenta, olhou seu corpo sentado, vestido apenas com a calcinha, na poltrona e se lembrou do sexo aguado que praticava com o marido, principalmente nos últimos anos. Não havia mais novidade alguma, perfazendo um caminho, quase sempre o mesmo, até chegar ou não ao orgasmo, a conversa posterior envolvendo a situação dos filhos e nada mais sobre eles mesmos, como se aquilo fosse fazer uma refeição à mesa, quase mecânica, polvilhada de comentários e fofocas sobre o trabalho de cada um. Depois a doença dele, sofrida e cansativa, coroando um final de vida em comum de forma grosseira, estúpida, quase impessoal, até que contratou uma enfermeira para ajudá-la, enquanto ia ao trabalho. Com o sexo, praticamente, morto, a não ser uma apalpada que ele se atrevia em dar no seu corpo, cada vez mais rara, ficava, também, impedida de ir a um aniversário, uma festa, um teatro, a ter encontro com os amigos, que nessas horas desaparecem, salvo aqueles mais chegados, que telefonam ou visitam com pouca freqüência.&lt;br /&gt;Apesar de estar na menopausa, não sentia com rigor os seus efeitos, de vez que aceitara fazer a reposição hormonal e sentia falta de carinho masculino, do cheiro agridoce, misturado com desodorante ou colônia, dos apetrechos de fazer barba, do outro lado do guarda-roupa. Gavetas cheias de cuecas e das camisas e ternos pendurados, como se esses acessórios todos fossem um todo que anunciava a presença de homem em casa.&lt;br /&gt;Procurava manter a rigidez do corpo com caminhadas matinais, em volta do quarteirão de seu apartamento, odiando sempre as academias, onde freqüentara umas duas vezes e sempre achando estúpido ficar naquela sala bem iluminada, quase sem janelas, quando podia desfrutar da natureza, sem precisar daqueles aparelhos artificiais, mas sentindo o cheiro da manhã. Em São Luís, um cheiro característico de árvores pequenas nas calçadas, naquela região, um restinho de orvalho, sem o cocô de cachorrinhos pra atrapalhar. Os empregados dos prédios faziam a limpeza da frente dos respectivos prédios toda manhã. &lt;br /&gt;Naquela noite de sexta, sairia com casais amigos para jantar em um restaurante novo que inaugurara na semana anterior e seria divertido experimentar pratos com a incerteza da garantia de um sabor conhecido, encontrando prazer na novidade, mesmo que não fosse de seu agrado a iguaria. Ela se sentia como quem conhece um mundo novo, naqueles três anos de viuvez, grande parte entregue a lembranças, a ajustes, a processo judicial de inventário, a um resguardo íntimo, onde tudo em volta desaparece, até a libido fica mais inibida, no recolhimento de sentimentos, que passam a ser selecionados, permitindo-se sentir somente alguns sonhos.&lt;br /&gt;Depois de falar sobre variedades com os dois casais, já no final do prato principal, ela não se lembra como, mas a conversa se voltou para a violência e o terrorismo. Inevitavelmente, veio Ozama Bin Laden, o 11 de setembro nos Estados Unidos e as FARC, sendo taxada quase por todos como um grupo de narcoguerrilheiros que eram revoltados com a situação política da Colômbia e se tornaram bandidos, ao longo do tempo, financiando suas operações com narcóticos e seqüestros.&lt;br /&gt;Apesar de já ter viajado para o exterior, em período de férias com o marido, sempre ia às cidades e paises de um roteiro tradicional, como Paris, Roma, Portugal, Espanha, Alemanha e nos locais cartão-postal, conhecendo futilidades, comprando lembrancinhas características ou algum artigo de indumentária em lojas famosas. Não sentia o local, captando apenas a atmosfera passageira, enlevada pelos lugares que antes via nos filmes e agora estavam à sua frente, com alguns detalhes, mas sem conseguir com uma realidade do cotidiano. Pior do que isso, sentiu a Colômbia como algo distante, perdido na mata amazônica, na proximidade dos Andes, ao se referirem a ela, naquela conversa. &lt;br /&gt;Seu espírito mais refinado, centro de seu domínio das coisas, não conseguia visualizar cidades desenvolvidas com prédios, avenidas largas, centros de lazer e outros complementos das grandes cidades. Assim como acontece com os sulistas em relação ao nordeste e norte, no Brasil, que vêem pela televisão apenas índios, matas, miséria, estradinhas de terra batida, casebres, gente sofrida e desgastada pela vida que levam. A Colômbia, para ela, era apenas isso, lacuna de leitura e de vivência, além do que não fosse o círculo da classe média alta, em que vivia.&lt;br /&gt;Ouvindo os outros falarem na comparação com traficantes do Rio de Janeiro e São Paulo, sentiu-se frágil naquele seu mundinho, sem uma visão mais ampla das questões reais. Lamentou o tempo que perdera, pensando comandar uma repartição pública, embora ganhando muito bem para isso, acreditando conhecer os embates da vida. Mas, agora, com mais leitura, que faria no curso, de forma sistematizada, orientada, poderia adquirir um raciocínio de configuração abstrata e complexa, embora não tivesse a noção de que certas lacunas não preenchidas no momento certo, jamais o seriam, por mais vivência ou leitura que tivesse.&lt;br /&gt;No dia seguinte, apesar de sábado, levantou-se às 6.30, fez a higiene matinal e, quando se preparava para tomar o café da manhã, ouviu a campainha da porta principal e mandou a empregada ver quem era. Para sua surpresa, foi anunciado Alex, que viera para fazer o trabalho. Pediu que aguardasse na sala dupla de estar e olhou apenas as manchetes dos jornais sobre a mesa, voltando ao quarto para se vestir como aluna universitária. &lt;br /&gt;A conversa inicial entre eles foi com frivolidades, como ele ter chegado cedo e a crença de que Cauê não apareceria, que aquela era hora de pegar onda no mar. Alex elogiou o apartamento, não deixando esconder seu deslumbre por algumas obras de arte, estrategicamente, dispostas pela sala ampla, a gosto do marido morto e eles começaram a falar sobre ele, que era médico cardiologista clínico e um grande apreciador de artes plásticas, principalmente, esculturas. &lt;br /&gt;A conversa foi se encaminhando para a saudade, a falta da presença dele, quando Alex perguntou se ela não sentia vontade de se casar de novo. Passando a mão pelos cabelos, que começavam a crescer e com um meneio de cabeça, Sílvia ruborizou pela falta de proximidade em conversar isso com ele e disse apenas “não sei”. Aquela pergunta disparara o alarme do desnível social, na busca de uma intimidade rápida.&lt;br /&gt;Eles continuaram conversando no mesmo sofá, na sala de estar, ela mandou servir mais um cafezinho, que ele quis somente preto, acendendo logo um cigarro, para o desagrado contido de Silvia, que suportava o cheiro de interior da pessoa, na fumaça fumada e o odor do que ficava no cinzeiro. Chamou a empregada e mandou providenciar um, que na sala não tinha, desde a morte do marido, que fumava muito. Ela olhou para o relógio de pulso e constou quase oito e meia, sendo bem incisiva: “vamos começar, que o Cauê não vem mesmo, com esse sol todo. “. Alex a olhou com um sorriso irônico e começou falando bem baixo: “ Você não pensa que eu acredito que o Cauê vinha e que nós íamos fazer trabalho”. Ela se empertigou no sofá e, antes que pudesse dizer algo, ele completou: “ Vamos lá, me dê um beijo, você, ainda, é bem bonita, parece que não foi muito usada por seu marido” e se jogou em cima dela, deixando suas tralhas caírem no chão. &lt;br /&gt;De um salto muito rápido, Sílvia se pôs em pé com o braço e o dedo indicador esticados, na direção da porta lateral. “Pra fora”, disse ela concisa e decidida, tremendo um pouco, ao mesmo tempo em que foi se formando em sua cabeça um discurso enorme sobre dignidade humana, falta de caráter e fazer-se respeitar como visita acolhida de bom grado. Mas lembrou-se que conviveria com ele o ano inteiro na mesma sala e não queria trazer pra ela essa angústia, esse sofrimento, principalmente, pelo entusiasmo com que entrara na faculdade, desafiando a todos em sua família.&lt;br /&gt;Ele se levantou com um sorriso cínico, resmungando: “ Não entendo essas coroas grã-finas, trazem a gente pra casa delas e na hora do bem bom, não querem nada”. Ela permaneceu em pé, no meio da sala, com as duas mãos ostensivamente na cintura e os braços formando arcos. Alex juntou seus papéis e livros e continuou falando baixo, saindo pela porta.&lt;br /&gt;Na segunda-feira, antes de começar a primeira aula, ele vinha saindo da sala e ela entrando. Ele a cumprimentou com um balanço de cabeça e disse, entre dentes: “bom dia”, sem olhar para o rosto dela. Sílvia retribuiu o cumprimento em voz alta, o rosto fechado, séria e esperou ela sair pela porta, para ela entrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 ***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-7164577102886796126?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/7164577102886796126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/silvia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/7164577102886796126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/7164577102886796126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/silvia.html' title='SÍLVIA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-1301073043110983530</id><published>2009-04-13T05:38:00.002-07:00</published><updated>2009-04-13T05:49:44.916-07:00</updated><title type='text'>12 - SÔNIA</title><content type='html'>Chego à beira e, mais uns passos, estou com 60 anos. O retrospecto é inevitável, neste final de tarde de domingo, deitada na rede, fumando um cigarro sem gosto. Aniversário na segunda, sem festas, nem dobrados, como um dia comum de horizontes vazios.&lt;br /&gt;Aposentada, morando só, apenas com a lembrança dos carinhos dos homens, alguma coisa fiz de errado, lutando por uma liberdade pessoal, na dengosa e inesperada aventura de ser feliz, enquanto se pode. Um modesto apartamento, com escritura em cartório, bem simples, como meu desejo pela vida. A um canto da sala de estar, um mini-escritório com um computador atualizado, impressora, livros, papéis soltos, textos escritos nos arquivos e a eterna esperança de escrever um livro, apenas um que fosse, que pudesse entreter, comover e ter a simpatia de um público leitor. Eu me sinto uma contadora de histórias dos outros e quero contar a minha, não muito relevante, mas minha, aviltada pelo desejo de um sucesso, mesmo que pequeno. Nada do grande Romance, mas uma história, pelo menos lida, sem o anonimato do meu jornalismo diário. Com capa e tamanho compatível com mãos interessadas no assunto.&lt;br /&gt;Seria minha vida, sem as desonestidades e o vangloriar-se dos fatos positivos, mas contando, também, as derrotas, as decepções, o lado triste das coisas. Começaria pelo meio, no fulgor da carreira, escrevendo reportagens mais densas e a época em que tive muitos homens jovens, sendo eu jovem, nas deslumbrantes ocasiões, fugidias, intensas e fortes, altaneiras e devassas. A conjugação desses dois aspectos, compensaria os desvarios e explicaria a monotonia de um casamento marcado pela presença dos compromissos tatuados no cotidiano de pagamentos, filhos, apenas três e outros adereços incômodos. Há, ainda, as reuniões em família, sempre com disputas de cunhados e cunhadas, na ostentação de bens materiais ou na maledicência de comentários íntimos da vida de cada um.&lt;br /&gt;Talvez, começasse o livro pelo que de interessante há no jornalismo, uma vida sempre atenta, sagaz, cheia de ávidas ambições por prêmios e um papel destacado na redação. Um trabalho que não escolhi, mas fui exercendo nas noites insones, na máquina de escrever, na própria sala dos repórteres, com certo preconceito por ser mulher, junto com colegas que liam muito, mas foram péssimos alunos na escola. Sabíamos escrever com o autodidatismo das leituras assistemáticas de autores famosos, clássicos da literatura, com a capacidade de observação e uma tremenda preguiça para as atividades presas a escritórios, com paletós e gravatas, sob a batuta de um patrão austero, cobrando horário de chegada e de saída. Éramos os escrevinhadores de jornais o que, para muitos, significava não dar para nada, não ter uma profissão, mas passar as noites nas farras boêmias dos bares ou nas conversas, em torno de bebidas, sobre assuntos do cotidiano, incluindo questões filosóficas intermináveis, quando não as religiosas.&lt;br /&gt;Essa era uma fase de aprendizado, em que os mais novos ficavam apenas ouvindo os tarimbados e experientes expulsarem seu conhecimento das particularidades da vida e do trabalho, além da sabedoria contida nas observações, nos conselhos e nas análises de fatos históricos. Os jovens, começando pelos classificados e pelas notas de falecimento e efemérides, ficavam calados, jamais ousando fazer uma pergunta sequer, àqueles senhores astutos, elevados a um pedestal simbólico, pela competência e pela capacidade de liderança.&lt;br /&gt;Não sei se vou começar, mas, se o fizesse, poderia ser com as primeiras escolas de jornalismo, depois chamadas de comunicação, como se, onde há mais de um, não houvesse comunicação, até na incomunicabilidade entre eles, de vez que tudo é comunicação. Esses cursos que levaram às redações estagiários, despreparados até para serem estagiários. Irreverentes, resmungões, mimados, inventando moda, sentindo-se livres até no modo de vestir, sem terem conhecido a liberdade fora dos Manuais de Redação. &lt;br /&gt;Se os leitores atuais apenas se interessam por textos curtos, descomplicados, sem erudição, com análises reais dos fatos apresentados, não há mais necessidade de jornalistas profissionais. Bastam, apenas, os diletantes, sem compromisso, que catam notícia na internet ou entrevistam políticos da corrente que o jornal defende ou fazem marketing disfarçado, falando de um campo de trabalho e citando frases do empresário sobre o assunto, com o linguajar das redações, chamado de comunicança de escrevrio e com fotos da empresa.&lt;br /&gt;Se escrevesse sobre isso, poderia insinuar que resisto ao novo, mas o novo verdadeiro, o contemporâneo mesmo, que chega e se impõe, sem sérias contestações. Não relataria esse passado, nem minhas passagens com o advento dos cursos de jornalismo, nem com a tranqüilidade da informática, a não ser como ponto de partida histórico.&lt;br /&gt;Teria, nesse livro, alguns capítulos dedicados ao futuro/presente, que é o jornalismo digital, com outra estrutura, nessa fase de transição do papel para a tecnologia eletrônica. Esse jornalismo novo me interessa, dinâmico, sempre atual, 24 horas por dia, com notícias e comentários novos a cada dois minutos, não mais a notícia impressa no dia anterior.&lt;br /&gt;Não sei se começaria pelas minhas relações com os homens, sempre egoístas, com um leve toque de escândalo, tão do gosto dos jornalistas, como forma de atrair leitores incautos. Não sei se colocaria aquelas informações-fofocas, do agrado das biografias de personalidades conhecidas, desde que revelem os fundilhos de suas vidas, para a glória de fãs das superficialidades.&lt;br /&gt;Não sei se abordaria relações, ora vadias, ora construtivas, que há homens incríveis, inteligentes, pecaminosamente doces, mas firmes em seus propósitos.&lt;br /&gt;Não sei, não sei mesmo, se alimento esta preguiça insana ou começo amanhã meus 60 anos, novamente, com uma vida mais ativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            ** *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-1301073043110983530?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/1301073043110983530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/12-sonia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/1301073043110983530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/1301073043110983530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/12-sonia.html' title='12 - SÔNIA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-1277464553242890807</id><published>2009-04-13T05:38:00.001-07:00</published><updated>2009-04-13T05:42:54.794-07:00</updated><title type='text'>13 - SOPHIA</title><content type='html'>A incerteza do valor das comissões, no fim do mês, fazia dela uma pessoa que temia o futuro, nos seus 42 anos de idade. Trabalhava, em casa, para um escritório de corretagem de imóveis, montando os folders, pop-ups e banners, das casas e apartamentos, para vender ou alugar e os enviava à gráfica ou para a internet, mesmo sem a aprovação de seu chefe. Apesar de ser um homem rígido, austero, o Sr. Francisco, como ela o chamava - sem jamais se atrever, como faziam os demais integrantes da equipe, em dirigir-se a ele como Chico – tinha bastante confiança no trabalho dela. Era primoroso e profissional, com textos enxutos e elucidativos, ao mesmo tempo em que cooptantes, passando uma aura de comodidade e conforto, onde nem sempre existia. Mas, nada apelativo ou enganoso, apenas discreto e sutil, ao chamar a atenção para detalhes a que muitas pessoas dão valor.&lt;br /&gt;Essa sua habilidade em escrever e saber dispor das fotos, em lugares estratégicos, vinha de seu treino em saber lidar com as palavras. Fazia, também, traduções do inglês para algumas editoras e qualquer tipo de trabalho que envolvesse o ato de escrever textos. Sentia-se escritora, tendo produzido dois Romances e um livro de Contos, ainda inéditos, por falta de interesse das editoras em se arriscar com uma desconhecida no mercado ou cobrar muito caro por uma edição independente.&lt;br /&gt;Sophia era o nome pelo qual era conhecida, embora se chamasse Maria das Graças Dias Nunes, que adotou esse pseudônimo profissional de Sophia Nunes, usado, também, em seus escritos. De vez em quando, escrevia crônicas e as colocava no site de um amigo ou mandava para os jornais locais, onde, dificilmente, eram publicados.&lt;br /&gt;Ela era paraplégica, movendo-se em uma cadeira de rodas e sofrera um acidente vascular cerebral, que a deixou com um braço imóvel, sem poder mover as rodas da cadeira. O trauma foi tão forte com o acidente de automóvel, que lhe adveio essa isquemia cerebral, por não suportar, tão nova, ainda, nos seus, então 16 anos, uma mudança radical em sua vida, em seus planos e no redirecionamento de seus sonhos.&lt;br /&gt;Morava em um apartamento de um prédio com elevador - fruto de muita pesquisa - e o comprara com a indenização que recebera do acidente. Nessa época, seus pais ainda eram vivos e tinham uma noção de futuro bastante nítida, para investir o dinheiro ganho e por saberem que não estariam sempre por perto. Graças a essa lucidez, mais tarde, pôde comprar seu cantinho, dividindo-o, eventualmente, com outro cadeirante, que conhecera na internet e que cuidava dela. Eles levavam uma vida de casal, embora ela nunca saísse de casa.&lt;br /&gt;A impossibilidade de andar não lhe tirara a libido, nem a capacidade de sentir seus órgãos genitais e de fazer sexo com prazer. Ela conhecera Celso pelo chat e nenhum dos dois revelou sua situação física, até que foram para o MSN, onde a intimidade é maior e passaram a usar a webcam para seus encontros “pessoais”. Faziam tudo por lá. Nessa época ela morava com uma tia idosa, que mais tarde falecera.&lt;br /&gt;Celso não lhe contou de uma vez que era casado e tinha uma filha e ele e a sua mulher trabalhavam. Era contador, mas tinha sua empresa na cidade vizinha, onde Sophia morava. Passava mais tempo por lá, morando com ela, do que em casa, por não se dar bem com sua mulher. Ela o tratava como a um aleijado, embora ele tivesse uma mobilidade de razoável a normal, em sua cadeira de rodas. Tinha vergonha de sair com ele e nem mais faziam sexo. Ele gostava era de Sophia, com seu cabelo curto, bem negro e liso natural, em sua pele de mulata faceira e carinhosa, íntegra e cúmplice.&lt;br /&gt;O sonho dela era publicar um de seus livros e poder viver de literatura, sendo conhecida como escritora, escrevendo suas crônicas para jornais e revistas, enfim, que pertencesse ao meio das Letras. Havia um concurso da Fundação Nacional do Livro, com boa premiação em dinheiro, publicação do livro e a divulgação e o referencial que esse fato dava aos vencedores. Era conhecido como a “cadeira de ouro”. &lt;br /&gt;Ela modificou alguns dados e burilou o segundo Romance “ Areia Movediça” e se inscreveu no concurso. Celso a apoiava nessas iniciativas e providenciava tudo o que dependesse de coisas na rua, também, com a ajuda de seu office-boy. Ela não sentia falta de contatos pessoais com outras pessoas, além de Celso, mantendo-se, sempre, bem informada, pela internet ou pela televisão.&lt;br /&gt;Ao lhe ser conferido o segundo lugar no concurso literário, tendo à sua frente um veterano das letras de nome nacional, sentiu-se como se tirasse o primeiro lugar e começou a ser assediada pela imprensa, não pelo prêmio, mas por ser uma cadeirante mulata, com um só braço funcionando. Esse enfoque a desagradou, quando foram à sua porta fotógrafos e repórteres de diversas revistas e jornais, para noticiar o exótico, sendo chamada no telejornal de A Cadeirante Negra Premiada, embora sem sua foto estampada, mas seu nome e seus dados de deficiente ressaltados. &lt;br /&gt;A notoriedade não era para a escritora, mas para a aleijada e negra. As perguntas que lhe fizeram foram sobre suas limitações e não pelos seus dotes literários, na exploração da notícia fácil, esquecida no dia seguinte à publicação. Ela teve um acesso de choro, que foi interpretado como emoção pelo sucesso, mas, na verdade, era a vergonha, a repulsa por ser sua condição física mais importante que a intelectual. Celso retirou todos da sala, porque entendeu seu choro e foi, também, muito fotografado, como o cadeirante companheiro da cadeirante.&lt;br /&gt;Depois que ele a aninhou em seus braços, com as cadeiras de rodas bem juntas, ela falou, ainda soluçando:&lt;br /&gt;─ Sempre quis ser escritora e sou vista como um animal no zoológico fazendo estripulias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; * * *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-1277464553242890807?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/1277464553242890807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/13-sophia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/1277464553242890807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/1277464553242890807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/13-sophia.html' title='13 - SOPHIA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-960197903251126156</id><published>2009-04-13T05:38:00.000-07:00</published><updated>2009-04-13T05:39:39.360-07:00</updated><title type='text'>14 - STELLA</title><content type='html'>- Vc acessou a livraria hoje, Stella?&lt;br /&gt;- Não, não deu tempo, tive que fazer compras, entrando no site daquele supermercado mais barato, amiga. A conexão não tava boa...&lt;br /&gt;- À noite vou assistir a um filme... vc quer assistir comigo, Stella? Baixei ontem da internet...coloco a webcam na tela de 42 polegadas, pra você ler bem as legendas.&lt;br /&gt;E, assim, a conversa continuou pelo msn, do computador ligado 24 horas por dia. Em casa, no agasalho do próprio medo, as pessoas só se comunicavam pelos meios digitais.&lt;br /&gt;Lá fora, um micróbio poderoso – uma cepa do staphylococcus, - que é transmitido pelo contato pessoal, atemorizava a população de todo o Estado. Esse bichinho maldito transforma as infecções cutâneas menores em graves problemas de saúde. Causa necrose – morte – na pele, produzindo uma eliminação do tecido, ao matar as células. Essas infecções penetram na corrente sanguínea e causam a morte.&lt;br /&gt;Aliás, a morte das pessoas nas casas, todas trancadas e lacradas, estava sendo um problema resolvido de forma radical. Faziam o enterro no piso, escavando o chão, depois tapando, sem se preocupar em reconstituir o local, onde quer fosse, na sala, nos quartos, banheiros, por todo lugar. Pareciam grandes chagas pelo assoalho, na assombrosa combinação de sujeira, lâmpadas ligadas o dia inteiro, e mais nenhuma possibilidade de ir à rua.&lt;br /&gt;As contas eram pagas pele internet e quase tudo que se podia fazer era usando tecnologia digital. A palavra virtual desapareceu, envolta na praticidade do dia-a-dia, na necessidade de convivência humana, de olhar outras pessoas pela webcam e não só aqueles rostos habituais, pálidos e abatidos pelo medo.&lt;br /&gt;Os pedidos eram feitos e entregues por automóveis ou motos, por pessoas mais corajosas, que se aventuravam, vestidos com roupa de isolamento, tipo astronautas. Basicamente comida e material de higiene e de limpeza. O trabalho era feito pelo computador de casa e, quando quebrava, era abandonado e comprado outro. O pagamento, também, era on-line e não circulava dinheiro, da forma anteriormente conhecida, mas valia o crédito que a pessoa possuía no banco.&lt;br /&gt;Muitos empregos desapareceram. Até os bancários, bem poucos, moravam no próprio banco, que se adaptou a isso. O valor das mercadorias se modificou, assim como o sistema de troca voltou a existir. Os computadores passaram a ter preço muito baixo, pela enorme oferta e procura e roupas perderam quase totalmente o valor. O setor imobiliário desapareceu. Muitas atividades lucrativas se adaptaram à nova realidade.&lt;br /&gt;Em cada casa havia um cômodo com um computador, uma webcam e um microfone e, quem não tinha sua mulher ao alcance da “mão”, namorava e fazia sexo, on-line, trancado nesse cômodo.&lt;br /&gt;Stella era solteira e dava aulas de literatura latino-americana pelo computador, no que foi a aula presencial, na Universidade Federal. Arranjou um namorado, em um encontro de professores por vídeo-conferência. Ele era um tipo baixo, que a webcam ainda não mostrava direito. Usava de estripulias para esconder esse seu lado, mas não conseguia fazê-lo com seu caráter. Eles fizeram sexo algumas vezes, mas ela descobriu que ele havia falado isso a colegas de universidade.&lt;br /&gt;Uma amiga de Stella havia sabido da notícia por seu namorado, a quem Otávio contara, sem conhecer a ligação entre os envolvidos. Ela estava em dúvida se o desmascarava ou, simplesmente, terminava o namoro.&lt;br /&gt;Otávio chamou-a pelo msn:&lt;br /&gt;- E aí amoreco, como vc tá?&lt;br /&gt;Ela fingindo segurança, mas, por dentro, bem angustiada, resolveu, naquele instante, apenas terminar com ele.&lt;br /&gt;- Tou bem. Onde vc andava, grrrrrrs – ela disse , tentando disfarçar.&lt;br /&gt;- Tava fazendo pesquisa no google, pra preparar aula.&lt;br /&gt;Ele ensinava matemática superior nos curso de matemática e de física. Não gostava de literatura e odiava arte, principalmente, pintura, balé e música clássica, dizendo ser coisa de veado, de boiola. Ele dizia que veado era o bicho, o animal e que viado era a bicha, o homossexual e morria de rir disso.&lt;br /&gt;- Sabe, tive pensando, talvez fosse bom a gente dar um tempo. Assim, vc sabe... um tempo... tenho muita coisa pra estudar, tem autor novo nos e-books, preciso ler e analisar...&lt;br /&gt;- Que isso, amoreco, sei do que vc precisa, vamos lá pra sala reservada, vc pode ficar nua e...sabe... fazemos uma transa gostosa, vc se toca gostosinha, vê meu cacete... tou no ponto.&lt;br /&gt;- Não dá Otávio. Quero parar. Além disso, a sala tá ocupada.&lt;br /&gt;- A gente espera, ô queridona, tou a fim...&lt;br /&gt;Enchendo-se de coragem e indignada com a atitude dele de contar os detalhes das relações sexuais deles, ela foi ríspida:&lt;br /&gt;- Não me procura mais, não quero mais saber de vc, pra sempre.&lt;br /&gt;- K que é isso?, pensa bem...&lt;br /&gt;Ela, num impulso, apagou a tela do computador. Mais tarde, fez uma nova conta de msn.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 * * *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-960197903251126156?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/960197903251126156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/14-stella.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/960197903251126156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/960197903251126156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/14-stella.html' title='14 - STELLA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-6582694928846780682</id><published>2009-04-08T22:22:00.000-07:00</published><updated>2009-04-08T22:24:18.215-07:00</updated><title type='text'>LIVRO DE CONTOS I</title><content type='html'>SARAIVA 23&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                                   UMA SIMPLES HISTÓRIA SUJA&lt;br /&gt;                                                 (Contos)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                       &lt;br /&gt;                                                     2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APRESENTAÇÃO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A prática do autor na arte de escrevinhar vem de longo tempo, desde sua adolescência, quando cometia  suas poesias e alguns de seus contos, na sôfrega inquietação de suas madrugadas. Com muitas leituras e a vontade ferrenha de ser escritor, perseguia fórmulas, imitava autores famosos, até encontrar seu próprio estilo literário.&lt;br /&gt;A reunião destes contos em livro com o nome de um deles: Uma Simples História Suja, tenta retratar uma época recente, a que vivemos, preocupando-se em salientar a realidade social que nos cerca  e os desdobramentos daí advindos. Procura, também, evidenciar um pouco do fedor comportamental, inerente à natureza humana, que fede desde a fralda à mortalha, nos percalços que a vida apresenta, principalmente, o seu lado sórdido.&lt;br /&gt;Sordidez não do submundo, que sempre é caricata, mas a que é praticada no dia-a-dia, como forma corriqueira de agir e que traduz a podridão de atos humanos, na sua essência, quase sempre, com a aparência de banalidade, com plena aceitação pela sociedade. Um agir imoral ou ilegal, que é tratado como pequeno deslize ou chegando a ser ignorado por todos, como uma coisa normal.&lt;br /&gt;Estes contos, também, procuraram, sempre que possível, trazer um pano de fundo de cunho político econômico ou meramente de costumes, de vez que as histórias policiais se repetem, salvo exceções, e a realidade fantástica, o terror e a ficção científica dão sinais de cansaço. Os costumes, aquelas atitudes diárias, são sempre atuais e atualizadas pelas mudanças freqüentes, chegando ao nível de ruptura histórica, como é o caso das novas tecnologias.&lt;br /&gt;Por outro lado, as histórias curtas, como os contos, se adequam mais aos novos tempos, que, pela falta de tempo para a leitura, já não comportam a forma literária do romance, embora ela ainda tenha o seu lugar, quando as pessoas, em situações especiais, podem se dedicar à sua longa leitura. Acompanham, assim as tramas das histórias paralelas e se deleitam com um enredo mais complexo.&lt;br /&gt;Contos, como histórias curtas, são cortes que se fazem na realidade, evidenciando aquele momento, chamando atenção pra certos detalhes da vida, sem chegar a formar quadros psicológicos dos personagens, apenas sugerindo esse aspecto, sem se preocupar com finalizações da história contada, assim como, no cinema, os curtas-metragens.&lt;br /&gt;Como primeiro livro publicado sem a escravidão das editoras, há a esperança de que sua releitura agrade, de vez que foram publicados on-line de forma esparsa.&lt;br /&gt;                                                                         O AUTOR &lt;br /&gt;                                                             São Luís, MA,17/01/08&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUMÁRIO&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;1 – A Co-Piloto de Certo Automóvel&lt;br /&gt;2 – Uma Simples História Suja&lt;br /&gt;3 – Os Seios de Medeia&lt;br /&gt;4 – O Encontro Fatídico&lt;br /&gt;5 – Uma Agência&lt;br /&gt;6 – O Quadro na Casa&lt;br /&gt;7 – Uma Entrevista Coletiva&lt;br /&gt; 8 – Calados, no Silêncio&lt;br /&gt; 9 -  O Blog de Marina&lt;br /&gt;10 – Uma Terça-Feira&lt;br /&gt;11 -  O Homem que não Conseguia Le3u em Papel&lt;br /&gt;12 -  Um Bar, Uma Noite&lt;br /&gt;13 -  Ouvi Dizer…&lt;br /&gt;14 -  O Esquecimento&lt;br /&gt;15 – A Viagem da Doida com Don Quixote&lt;br /&gt;16 – Os Saltos Altos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CO-PILOTO PARA UM CERTO AUTOMÓVEL&lt;br /&gt;                        &lt;br /&gt;A viagem era premente. Ele achava que poderia ser a sua última, vivo, diante da doença degenerativa, há quinze anos, atormentando seu autocontrole, sua paciência e seus sonhos perseguidos.O Mal de Parkinsons não se apresentara, ainda, galopante, mas caminhava sorrateira e silenciosamente, ostentando pequenos sintomas, que a sua atenção redobrada descobria e  assinalava. Depois de dez anos dessa dolorosa revelação, aos quarenta e um anos de idade, foi detectada, em rotineiros e incômodos exames, a sua gelatinosa evolução e a incrível e insuportável possibilidade, também, de vir a ter o Mal de Alzheime. Era a derrota final! Não havia tempo algum a perder! Precisava viver com lucidez por mais algum tempo e ter a mobilidade suficiente para apreciar e participar de tudo. Com seu espírito cauteloso espicaçado, desejava os momentos mais belos, a pujança de abraçar a vida, cobri-la de beijos apaixonados. Veio, então, a idéia da viagem.&lt;br /&gt;                    Pensara, primeiramente, em um barco, um veleiro, com certo conforto e tecnologia avançada. Logo nas primeiras pesquisas de preço, a idéia alagou, violentou, afundou qualquer possibilidade de levar o projeto em frente. O custo financeiro seria tão grande que, mesmo utilizando seus acreditados bens mais valiosos, ainda que acima do preço de mercado, não seriam suficientes para alimentar essa paixão antiga: navegar pelo mundo, sem amarras, âncoras e portos. Sucumbiu no desvão, no vácuo odioso de não poder concretizá-la.&lt;br /&gt;                    A compra ou aluguel de um avião, e teria de ser a jato, não havia necessidade de projeto, planejamento, nada. Estava fora de questão! Descartava esse pensamento, colocando defeitos inexistentes: era rápido demais; não haveria o apreciar, o integrar-se à paisagem e aos lugares visitados; pareceria um simples turismo de despedida, frio, calculado e inútil, para seu objetivo.&lt;br /&gt;                   Sobrou o automóvel. Seu automóvel! Um carro pequeno, um ponto zero, , embora tivesse ar condicionado, vidro elétrico, trava nas portas, película e um som de certa qualidade. Bem conservado, mas um carro pequeno, de conforto duvidoso, até para uso urbano. Imagine por esse Brasil afora, com estradas esburacadas, roteiros de piçarra, quase sem sinalização … Não parecia atraente, principalmente, sozinho. E se a ou as doenças se acelerassem? Alguém para servir de companhia … Quem? Sua ex-mulher ou aquelas com quem costumava sair, embora com certo afeto, no carinho de momentos, por mais completos, nunca inteiros?&lt;br /&gt;                  Teria de ser uma pessoa que entendesse de viagem por terra, conhecesse estrada, sinalização diurna e noturna. Antes de tudo, soubesse dirigir com desembaraço por caminhos, que nem sempre o mapa era fiel. Teria de conhecer certos atalhos de vida, para tolher sofrimentos físicos e até morais. Saber improvisar, na falta de peças para conserto do carro. Teria de possuir magia, conduzir a ousadia, sem ser temerária. Haveria de ser de uma competência, magnitude e vivência, à beira da perfeição. Existiria? Por definição do ser humano, não!&lt;br /&gt;                  Mas o premente, agora, era mostrar, a quem quer que tivesse a coragem de acompanhá-lo, algo concreto. Um meio de transporte seguro, confortável, na medida do possível, e, sobretudo, pronto. Retomou a pesquisa de preços: folha de duratex, ripas de dez centímetros de largura e dois metros de cumprimento, pregos, parafusos e muita disposição para montar tudo. Seria o fundo do automóvel, na parte que se chama mala e ficaria suspensa onze centímetros. Ali, caberiam materiais de cozinha alternativa, para comida semi-pronta, rápida, um café, um água fervida e outra utilidade, vinda de um pequeno fogão, talvez a gás ou a álcool; alguma roupa, material de higiene pessoal e outros cacarecos. Na parte restante, entre esse fundo e a capota, com os alto-falantes, colocaria o órgão japonês, paraguaio de distribuição, a sacola ou mala da acompanhante – já seria  certa forma de saber quem realmente era a pessoa – e qualquer outra coisa comprada pelo caminho.&lt;br /&gt;                                        ******************&lt;br /&gt;                  Ao empilhar a madeira e o duratex, em um canto da sala, em seu acanhado apartamento, pensou novamente em sua doença. Ultimamente vinha sendo uma constante. Todo o esforço que fazia para esquecer, afugentar qualquer idéia de incapacidade, redundava em reforçar a condição animal do Homem. Sua prevalência sobre a mente, por mais privilegiada que fosse!… Comer, dormir, fazer sexo, claro que retirando a parte do afeto, do aconchego, do carinho, representavam um ser humano macaco evoluído – os verdadeiros macacos são mais humanos! Pobres símios, tão incompreendidos!  O animal feroz residindo no ser, dito pensante, capaz até de matar os da sua própria espécie, sem motivo qualquer, vaidoso, preguiçoso e corrupto… Um objeto animado, com o insuportável poder de escolha, inclusive de desejos inconfessáveis, necessitava de controle, educação – educare: desentortar o que está torto – corrigir rumos, para não ferir a si próprio e aos outros.&lt;br /&gt;                Nesse momento, ficou mais nítido ainda que não poderia viajar só. Teria de escolher alguém como co-piloto. E gostaria que fosse mulher: UMA CO-PILOTO!. Mas que mulher? As que conhecia, e poderiam ter o espírito nômade, não se enquadravam em seus requisitos. Como encontrar alguém disponível, para viajar com rumo certo, mas sem horários, imposições de comportamento e manias esdrúxulas? Não uma aventureira, com os percalços da irresponsabilidade, inerentes a essa maneira de ser.&lt;br /&gt;                Ele começou, então, a observar as mulheres, por onde andava. Procurava, em suas atitudes, geralmente, a distância, adivinhar como seriam viajando, sacolejando por inóspitos lugares para um urbano. Chegou a conversar com algumas, mas nunca encontrou oportunidade para tocar no assunto da viagem.  Para elas, viajar significava hotéis cinco estrelas, passeios a lugares estampados em folders de agências de viagem, roupas novas,  clima, mesmo gélido, mas agasalhado, e , preferencialmente, praia, muito sol controlado, jantares com mêtres e garçons com luvas, fotografias, muitas fotografias, documentando a aventura, para mostrar aos parentes, amigos, conhecidos ou ter a satisfação de guardá-las em álbuns, mofados pela crueza do cotidiano e pelo tempo. Ele tinha outra concepção e, por sua condição física, outro objetivo.&lt;br /&gt;                Ao saber de sua doença, fez planos para um breve futuro. Planos bem mais condizentes com a sua posição social classe-média e dignos, perante a sociedade do senso comum. Nada de conhecer o litoral do nordeste brasileiro, partindo de São Luís do Maranhão, em direção a Fortaleza, no Ceará. Nem pensar em enfrentar estradas-caminhos,  próximas ao mar. Esses planos, tidos como loucura, não obtinham a benevolência,  nem a permissão do consenso social. Mas fazer uma viagem a trabalho, para, talvez, ter o reconhecimento da direção geral da empresa, seria uma atitude gloriosa, cheia de coragem e audácia, ao enfrentar uma doença dessa natureza. Não seria um derrotado, um fracassado, sucumbindo à sarjeta, como diziam quase todos os seus conhecidos, ao saberem da planejada viagem ao nordeste. Para ele, seria gozar um resto de vida bem junto a ela, entranhada que é na natureza.&lt;br /&gt;                Trabalhava no setor de informática de uma multinacional de renome, onde estava implantando um projeto, que considerava revolucionário: abandonaria os programas e sistemas informatizados, baseados no raciocínio burocrático vigente, como e-mails,  utilizados como memorando interno, planilhas de contabilidade, baseadas nos tradicionais “dever” e “haver” e toda uma “tralha”, como ele dizia, onde era transportado para o computador o fixado antes em papel; o que era pior, ainda: faziam-se cópias, em papel A-4, de quase todo os arquivos dos CPUs. Isto representava um custo adicional exorbitante e inútil. Ele sempre afirmava, de forma contundente e agressiva:“Se não confiam na informática ou mesmo no computador, não usem”. O projeto foi aceito pela matriz, mas necessitavam de uma explanação, ao vivo, - esquecendo-se, de novo, da tecnologia das teleconferências. Não é a mesma coisa? É só uma questão de saber usar… A resistência ao novo …&lt;br /&gt;                 Ele, no seu trabalho, era considerado um excêntrico, um metido a besta, pedante, assustadoramente perigoso, apenas por se restringir a dar o “bom dia” tradicional e trancar-se em sua sala. Não freqüentava as happy-hours das sextas-feiras, ficando até mais tarde, entre números e outros apetrechos de última linha, para a formação de seus programas revolucionários. Não era visitado e também não o fazia a nenhum colega de trabalho, evitando a cordialidade quase sempre necessária, para quem vive em sociedade. Amigo, considerava apenas três, que conhecera ainda na época do vestibular e raramente se encontravam, apesar de manterem uma aproximação virtual.&lt;br /&gt;                    Dessa sua maneira de ser no trabalho, não escapou a estagiária de pernas compridas, olhos quase como duas linhas, nariz diferenciado e o nome incomum: Anim, com quem teve um caso.&lt;br /&gt;               A tradicional festa de fim de ano, antes do Natal, o prolongamento da comemoração em um bar, com vários outros colegas e a promessa bêbada de se encontrarem no dia seguinte, que foi levada sério por ela. Até hoje, ele não sabe bem o porquê.&lt;br /&gt;               Ao tocar da campainha, André teve um sobressalto ressacado e se levantou resmungando pelo pequeno apartamento, fruto de suas incontáveis separações conjugais. Ela entrou, olhou em volta e coube-lhe apenas fazer o costumeiro pedido de desculpas pela bagunça. Não se lembrava por que ela estava ali, no que deveria ser entre doze ou treze horas, vestida com roupa esportiva, os cabelos soltos, longos, bem lisos e de uma negritude&lt;br /&gt;asiática. Leve e falante, diferente de como se comportava no trabalho, sentando-se logo no sofá estreito, cheio de roupas usadas, cruzando as pernas e acendendo um cigarro. Os olhos dele estavam tão abertos, quanto a fuga repentina  de sua sonolência e seu incorrigível mau-humor, pela manhã. Movimentou-se com uma rapidez espantosa, para quem era acostumado a se espreguiçar bastante, mesmo depois de levantado.&lt;br /&gt; Saíram para o café da manhã dele e o almoço de Anim. Foi a primeira vez que ela ouviu aquela história estapafúrdia de viagem pelo litoral do nordeste. Riu, um riso de canto de boca, como quem escutava uma velha piada sem graça. Ele falava tão seriamente e com tanto entusiasmo, que a deixou confusa e tratou de terminar logo sua refeição. Mas aquele alucinado de idéia fixa se tornou logo um galanteador tão estranho, como foi a transformação que ele havia percebido nela, ainda há pouco, em seu apartamento. Aproveitou a florista, carcomida em perceber oportunidades de venda, e ofereceu-lhe uma rosa. Não usou palavras adocicadas, nem o galanteio fácil e horroroso dos habituais conquistadores. Disse apenas que era um agradecimento por ela lhe ter acordado, naquela manhã de sábado, com sua presença alegre e bem disposta, em contraponto a seu modo característico de se levantar todos os dias. Não foi nem necessário convite, para retornarem ao apartamento. Os passos pela calçada retomaram o caminho de volta, com a naturalidade de um inexistente acordo prévio. Fizeram amor, como se há muito se conhecessem e a despedida foi com a tranqüilidade informal de antigos amantes.&lt;br /&gt;                 Depois daquele dia não se falaram mais, nem aquele assunto de percorrer parte do litoral nordestino em seu automóvel, nem qualquer outro. Quatro dias depois, ela mudou de Departamento, ao ser contratada em definitivo, recebendo, logo em seguida, uma promoção para subchefe. Ele não se sentiu usado, até porque não contribuíra em nada, para que isso acontecesse. Mesmo sendo estagiária em seu Departamento, se houvesse algum elogio ou interferência por parte dele, não ocorreria qualquer conseqüência, dado a seu comportamento esquivo e de muito pouca ressonância. Não se sentiu escada, pneu estepe ou  teve qualquer outra reação, atribuindo o acontecido ao que realmente observara: tratava-se de uma pessoa de reconhecida competência, disponibilidade e bom relacionamento com todos. Trocavam apenas cumprimentos nos corredores, nas reuniões, como sérios  e compenetrados colegas de trabalho. Nada de olhares insinuadores ou qualquer outra demonstração de que algum dia houve um relacionamento breve e íntimo entre eles.&lt;br /&gt;                                     ********************&lt;br /&gt;                    E a procura por uma co-piloto continuou, para a viagem. Uma companheira, um agasalho que não gruda, mas aquece e disposta, com determinação para enfrentar qualquer dificuldade, mesmo a mais tormentosa. Foi quando, no estalo de um fim de tarde, as tarefas cumpridas, sem disposição de prolongar o expediente e voltar para casa, lembrou-se de Anim. Por que não Anim? Solícita, envolta pela capa da subchefia e não mais de uma simples subalterna, talvez cedesse a seus argumentos ou lhe retornasse um NÃO diplomático, bem urdido, como sempre se mostrara, para resolver situações difíceis. Foi até a sala onde ela estava e encontrou-a no computador. Pensando tratar de assunto de trabalho, logo abandonou os olhos da tela e voltou o rosto para ele, uma face mansa e agora bem cuidada, a mesma morenice, parecendo de mormaço e não de sol, angular, não deixando os olhos negarem os seus genes.&lt;br /&gt;                   - Sim, algum problema? Posso ajudá-lo, disse, em seu característico tom, um misto de presteza e profissionalismo.&lt;br /&gt;-                                                  Acredito que sim. Mas não me é fácil tocar no assunto. Sei que as chances&lt;br /&gt;são mínimas – fez uma pausa titubeante e completou – Vou falar!…&lt;br /&gt;-                                                  È aquele seu projeto de desburocratizar programas? Não estava tudo&lt;br /&gt;resolvido? A viagem à Suíça, a oportunidade de falar diretamente com os chefes da matriz e tudo o mais …&lt;br /&gt;-                                                  Não aquilo não foi resolvido. Desisti, diante da má vontade de todos …&lt;br /&gt;-                                                  Mas a minha, não! Dei-lhe meu apoio em reunião, apostei na idéia, fiz pareceres favoráveis … não posso ser acusada de má vontade ou, como você diz, saudosista,, retrógrada e de me acomodar ao que levei anos para aprender… É, na verdade, um avanço, que, talvez por comodismo, bem poucos aqui na filial viram com bons olhos. Mas a matriz aceitou, pelo menos conversar e até dispensou os olhos eletrônicos da vídeo-conferência, para vê-lo diretamente nos seus. Realmente, uma chance que bem poucos perderiam.    &lt;br /&gt;                   - Não é isso, é algo mais pessoal, talvez mais íntimo, como se tivesse de tirar a pele e mostrar a parte asquerosa, que é nosso corpo por dentro.&lt;br /&gt;                   - Não me diga que é uma recaída saudosista, por aquela manhã de sábado, que nem chegou a ser um relacionamento! Com toda a franqueza, admiro seu trabalho, suas idéias, invenções, opiniões, mas daí a ter um relacionamento afetivo … Faz tempo que não me envolvo emocionalmente com ninguém. Não sinto falta… Os carinhos e outros desejos os resolvo em ocasiões seguras e, por isso, sem conseqüências – e imediatamente, em palavras mais rápidas, sobrepujando certo embaraço, continuou – Se você veio aqui para isso, deixe eu terminar o relatório. Tem prazo apertado para entrega …&lt;br /&gt;                   - Não, não é nada disso! … – e maneou a cabeça, como um incompreendido contumaz – Acredito ser algo maior ..                  &lt;br /&gt;                   -  Casamento?! Nem pensar …&lt;br /&gt;                   - Não!!! Deixe –me falar um pouco, apesar de seu tempo curto. Sei que um último convite para uma bebida quente, um chope, um café, poderia ter o cheiro uma cantada insistente, repetida e sei que não aceitaria. Mas eu  espero você terminar o texto, sentado aqui neste sofá, quieto, sem dar uma palavra, tentando não lhe atrapalhar, apesar de minha presença parecer coercitiva. É que o assunto, talvez fuja à sua compreensão, de imediato, o que acho difícil, mas lhe garanto que é delicado e vexatório para mim.&lt;br /&gt;                   - Sente-se, então, naquele sofá, na outra sala e não durma. Não demorarei muito!&lt;br /&gt;                   Mas a demora foi de quase de meia hora. Parecia de propósito. Esse tempo ajudou-o a ensaiar o começo do que iria dizer e ficou pensando em outras partes soltas. Não gostaria de falar de suas doenças, poderia até ser mórbido, mas havia necessidade, para que ela entendesse os motivos de sua escolha, pelo roteiro e por ela. Procurou se lembrar de outra pessoa para ir com ele, como a Nilda, a morena baixinha, simpática e quase servil, na sua tarefa de assessorar a Diretoria. Mas ele achou complicado. Além de tudo demonstrava distribuir atabalhoadamente seu tempo e não possuía a frieza suave de resolver situações de aparente caos.  Apesar da ansiedade dele, em momento algum se sentiu levando “um chá de cadeira”. Conhecia a meticulosidade e sua pertinácia de Anim, em fazer algo bem feito.&lt;br /&gt;                          Repentinamente, ela cruzou a porta, com a bolsa a tiracolo, de acabamento perfeito, nada parecido com as tradicionais bolsas executivas. Uma quase bolsa comum de mulher. Sempre esbelta, elegante, o caimento correto da roupa e a altura dos saltos dos sapatos adequada para um dia de trabalho cansativo. Olhando Anim em pé, percebeu que houve mudanças na sua visão estética de mulher bonita, boazuda: fêmea bunduda, coxas grossas, culotes condizentes com o todo. Nada disso!&lt;br /&gt;                          Com a necessidade de tomar remédios, houve uma inibição de sua ereção, mas não da libido e a beleza da arquitetura corporal feminina se alterou. Em vez de massa muscular bem colocada, um corpo magro não esquelético, a área do púbis curta, próxima ao umbigo. O volume da bunda não teria mais a forma de duas bolas cheias e macias, mas continuando rijas… Desapareceria esse volume para encher os olhos masculinos de volúpia, excitando, desenvolvendo a libido.&lt;br /&gt;Essa nova visualização do corpo de mulher se adequava a sua nova forma de fazer sexo. Para isso, aprendeu a usar o tato, através dos dedos, da língua, substituindo o visual exuberante. Interessava o prazer proporcionado na troca de carícias e não mais sexo de introdução. O braço, o cotovelo e outras partes do corpo, antes impensáveis, como, por exemplo, a fricção das bochechas da bunda ou o esfregão leve, com toque lento e suave, permitiam o prazer dos parceiros. Anim se enquadrava, perfeitamente, na forma atual de seu corpo esbelto.&lt;br /&gt;Com ares de quem está com muita pressa, ela disse:&lt;br /&gt;                          - Vamos, desculpe pelo atraso, mas… você sabe…&lt;br /&gt;                    - É! Eu sei. Tem de sair à beira da perfeição – e num gesto conciliatório disse: - sem preconceito.&lt;br /&gt;-        Não é isso!!! Apenas mantendo a qualidade – disse rindo, como se saísse alegra da beira de uma piscina – Não quer ir logo adiantando o papo? O café fica logo ali…&lt;br /&gt;-                    Prefiro sentado, olhando em seu rosto as reações. O que vou falar não é muito agradável, acredito, e, por isso, não espero piedade.&lt;br /&gt;-        Que tom mais macabro!… – sorriu, buscando descontrair o ambiente – Então vamos sair.&lt;br /&gt;                                                 &lt;br /&gt;                                **************************                                                                                   &lt;br /&gt;                   -   Um café forte e uma vodca com limão e muita soda, ela comandou ao garçom do restaurante.&lt;br /&gt;-        É! Essa vodca talvez combine com o que vou falar… Não é mistério algum. Só não me parece consistente e necessário enfrentar, agora, as feras lá na Suíça. Não se trata de querer  elogio seu ou qualquer outra coisa…  &lt;br /&gt;                    De repente, ele parou. Um silêncio alheado, as mãos passando constante e rapidamente pelos cabelos, como se quisesse retomar a conversa. Seu rosto foi ficando transtornado pela angústia. Um suor repentino salpicou sua testa de bolinhas d’água e seu olhar foi se voltando cada vez mais para longe do fim do restaurante. Ela percebeu o estranho da situação, mas também permaneceu calada. Sabia somente que havia algo errado…          &lt;br /&gt;                  Como se ele retomasse de um longo caminho, retomou, abruptamente, a conversa, pedindo:&lt;br /&gt;-                                                  Vamos viajar juntos pelo lado direito do litoral do nordeste, saindo daqui do Maranhão até o Ceará e suas praias?&lt;br /&gt;O susto inicial deu a ela a presença de espírito, para levar na brincadeira.&lt;br /&gt;-        Você já me propôs isso há muito tempo. Éramos mais jovens, afoitos e eu achava que estava apaixonada por você, mas, mesmo assim, não aceitei. Era e é uma loucura!&lt;br /&gt;                   - O carro está todo pronto.              &lt;br /&gt;                   - Que carro, pronto como?&lt;br /&gt;                    - Tipo uma casa ambulante, com aparência externa de um automóvel. Preciso de uma co-piloto competente e sagaz, como você.&lt;br /&gt;                   Novo silêncio, desta vez mais longo e atemorizante, pelo inusitado da parada brusca. Algo não estava certo, havia algum problema, ela confirmou mentalmente. Uma procura rápida por uma doença qualquer a fez atinar de que se tratava. Teve vontade de se levantar, como nas cenas cinematográficas, típicas de mulher zangada, que deixa o parceiro no restaurante.&lt;br /&gt;                    Estava zangada mesmo, mas por não saber do que se tratava: se era apenas uma farsa ou se um grave problema estava presente. Como quem acorda de um sonho profundo e esquecido, até de qualquer pesadelo, ele não resistiu à aflição estampada no rosto de Anim:&lt;br /&gt;                    - Estou doente. Não há doença melhor ou pior  - falou com uma lucidez altiva e perfeita que a fez duvidar do que ele dizia agora – Tenho Mal de Alzheime e essa pequena tremedeira não é nervoso, mas Mal de Parkinson controlado.&lt;br /&gt;                    Os olhos dela, em vez de ficarem arregalados com o horror da revelação, tornaram-se semicerrados, como quem analisa um pânico profundo, dos outros, é claro!. Novamente teve vontade de sair correndo, na dúvida entre uma verdade cruel e uma realidade ilusória, como se aquele momento não existisse ou nunca tivera existido. Foi sua vez de ficar propositadamente calada, recompondo o conjunto de palavras, que lhe pareceram estúpidas r atrozes.                    &lt;br /&gt;                      - Você tem certeza?!  Isso que acabou de acontecer com você, esse alheamento, faz parte do quadro? &lt;br /&gt;                         - Infelizmente, me esqueço de muita coisa para minha idade e deixo de fazer algumas bem importantes, para a sobrevivência de qualquer ser humano. Por isso quero fazer essa viagem, como se fosse a última…&lt;br /&gt;                               - Você ouviu algumas opiniões de especialistas…&lt;br /&gt;                               - Todos os que conheciam e os que me indicaram.&lt;br /&gt;                               - Então essa viagem é um sonho, uma fantasia, uma fuga para o nada, uma            &lt;br /&gt;      mania, como se diz em psiquiatria?  &lt;br /&gt;                        O mutismo voltou e ela teve de pagar a conta e levá-lo pelo braço, até a sua própria casa, ali perto. Acomodou seu pesado corpo na cama, junto a sua camisola, passou a mão por sua cabeça, que tanto lhe ensinara, até a viver melhor, e, enquanto ele permanecia imóvel, com os olhos abertos, em uma paralisia esdrúxula, ela foi até a cozinha, fazer para si, um chá de erva cidreira.&lt;br /&gt;                         Ele passou dois dias lá, quase na mesma posição. O quadro clínico se agravou e ela o internou no hospital. Ficou sabendo pelos colegas diretos de trabalho que ele andava muito estranho ao retornar dias depois ao trabalho. Seu automóvel, cuidadosamente preparado para a grande viagem, estava em frente a seu apartamento, com o motor estourado. Soube, depois, que ele havia sumido e que o defeito no automóvel ocorrera por falta de água e troca de óleo no motor. Puro esquecimento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA SIMPLES HISTÓRIA SUJA&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;                         O livro de Henry Miller, um da trilogia, aquietou-se na mesa de cabeceira. A lembrança da última cena jogou-a na excitação dos famintos de sexo. Perambulando pela madrugada, caminhou até a geladeira, sentindo falta de uma presença masculina, mesmo a do ex-marido, desleixado e fanfarrão. Deveria deitar-se agora, quieta, relaxada, para na manhã seguinte, bem cedo, cobrir a cerimônia de assinatura do contrato de construção do Centro Administrativo estadual. Mas estava ativa, agitada, desperta demais para se preocupar com uma tarefa rotineira como essa, às primeiras horas da manhã.&lt;br /&gt;Trabalhava no mesmo jornal desde o início da carreira, há mais de uma dezena de anos, o que é raro. A princípio, para ajudar nas despesas  domésticas e, não muito depois, pelo conforto de ser reconhecida como pessoa capaz e independente. Sentiu-se vitoriosa ao ser promovida para a editoria de política. Outra coisa não muito fácil, sendo mulher.&lt;br /&gt;Seu porte altivo, pescoço longo e cabelos bem cuidados,  abriam portas e instigavam confissões que, nem sempre, somente a competência profissional favorece. Tinha consciência dessa sedução canalha, mas superava o uso de sua imagem, produzindo textos com mordacidade e esperteza, para não ofender governantes, nem desinteressar leitores. O cargo de chefia lhe garantia a estabilidade financeira para uma vida de apartamento próprio e carro novo na garagem, sem precisar da ajuda do ex-marido.&lt;br /&gt;Tivera, com a separação, a rotina dos divorciados. Chegou a se envolver temporariamente com um colega de jornal, de olhar insistente nas suas pernas grossas e na sua disponibilidade. O interesse dela desapareceu, quando os corpos ficaram nus e satisfeitos, no vazio de uma conversa inexpressiva, até chegar a pequenos desentendimentos e a um silêncio sem eco. Para não circular, de braço em braço, entre os amigos e conhecidos, impôs-se um convívio masculino mais íntimo apenas nas viagens freqüentes, no tempo em que era repórter. Acalmada a fúria do prazer imediato, procurou selecionar e até se abster, para não criar situações embaraçosas com a sua posição no jornal.&lt;br /&gt;Andando pela casa, envolta na madrugada, alimentava a saudade do filho com um sorvete em pote, enfiando colheradas automáticas, como ele gostava de fazer. Viajara há uma semana, sentindo-se orgulhoso e dono de si, ao ganhar do pai uma excursão para Orlando.&lt;br /&gt;A insônia e a necessidade de gozo completo tiravam-lhe o ânimo para uma masturbação menor, mesmo com o vibrador. De volta à cama, acomodou-se,  encolhida sob o lençol, apertando as mãos juntas entre as pernas. No sono, ainda distante, quase início da manhã, colocou o relógio para despertar e chamou o rádio táxi para as nove em ponto. Acordou com a buzina do carro lá em baixo e se vestiu apressada. Por pouco, não esquecia a pasta executiva com o nome Norma Abranches, gravado na chapinha de metal.&lt;br /&gt;                   Na solenidade de assinatura do contrato, encontrei Norma, logo na entrada do Palácio. Saltava de um táxi, sempre atrasada. Com um sorriso cordial, quase lhe entreguei o braço, como antigamente. Trazia consigo a elegância habitual: o desalinho arrumado de quem sabe se preparar à última hora.&lt;br /&gt;Subindo a escadaria larga para o salão principal, ficamos algum tempo com os rostos virados uma para o outro, formando ainda um casal aceitável, para nossa idade e compostura. Nossos pedaços repartidos, na conversa sobre seu trabalho, ficaram mais pedaços e mais partidos, quando ela me parabenizou pelo projeto rentável daquele dia.&lt;br /&gt;No topo da escadaria, desdobrei-me em cumprimentos, no meio daquela pequena multidão de peitos estofados e sorrisos hipócritas. A tônica das conversas era o recente pacote econômico do governo federal. Mais um choque arrasador, deixando à deriva toda a população, diziam os espíritos mais exaltados. Para meu escritório de arquitetura e também para outros empresários, obras do poder público, eram a única alternativa de sobrevivência, naquela avalanche de incompetência e tortura econômica. Talvez por isso estivesse ali expondo meu lado sociável no contato com políticos e administradores.&lt;br /&gt;Por todo o salão enorme, pequenos grupos decidiam, comentavam ou simplesmente eram presença. Circulavam entre murmúrios, cochichos e possíveis encontros posteriores, alheios a tudo em volta, como acontece nas missas de sétimo dia.&lt;br /&gt;Na praça em frente ao Palácio, como plataforma inferior à sacada onde iriam discursar os políticos, um ajuntamento disforme de pessoas: da palidez desdentada à curiosidade insolúvel e alienada. Mais adiante, brincantes de bumba-meu-boi aqueciam os tambores, em uma disputa surda com a banda local de reagge, em sua parafernália eletrônica.&lt;br /&gt; Não tive a ilusão de que ela viera a essa “festinha”, como chamava esses cerimoniais, por ser a assinatura do contrato com meu escritório. Naquele local, pontilhado por um coquetel generoso, estava um covil de notícias e o prumo para suas decisões sobre o quê publicar. Não seria meu desgastado charme quarentão que a fizera vir pessoalmente!&lt;br /&gt;                         O começo de nossos desencontros foi também por interesse profissional. Ficamos descompromissados sem perceber. Nessa época, a flauta que eu tocava quase todas as noites, antes de dormir, como exercício e simples prazer, foi aos poucos substituída pelo empenho nos encontros sociais, que resultariam em mais lucros. Nesses contatos acumulavam-se vantagens como o reconhecimento público e galanteios ao bolso. Um vício nada fácil de abandonar! Houve um final de expediente em que não estava prevista qualquer saída com clientes, em potencial ou não. Habituado a não voltar para casa e com o vazio de uma solidão insolente, convidei Carlos, meu assistente, pra tomar umas cervejas, desdobradas em jantar e uma esticada, deixando-o orgulhoso e prestigiado, como se tivesse sido promovido. Ela se empenhava no novo cargo de editora de política. Nosso filho se apascentava, cada vez mais, nos cuidados da babá.&lt;br /&gt;Enquanto o Governador discursava na solenidade, ela ficou um pouco à minha frente e pude perceber que passei muitos anos sem observar seu rosto e cobiçar seu corpo. Talvez porque estivesse muito perto e tivesse esquecido do que gostava nela. Mas amadurecera bonita, com a mesma plasticidade de gestos fortes e paciência soberba com que ouvia a falação.&lt;br /&gt;Os discursos acabaram. Lá fora, os batuques exaltados dos tambores assanhavam meu contraditório lado crítico, inconformado com aquela pantomima financiada com dinheiro público. Era uma sensação espalhafatosa, principalmente diante de minha participação no enredo. Mas as cinco doses de uísque importado justificavam a aceitação daquele momento. E mais outras doses, ainda passando nas bandejas, haveriam de acalmar meu ânimo falso-moralista, nesse encontro tumultuado de vida profissional e realidade.&lt;br /&gt;Afastei-me de um grupo que planejava a subempreitada de um outro contrato de obras. Falavam claramente em não deixar de fora  alguns amigos do peito. Fui então deliciar-me com uma conversa sarcástica de jornalista, atraído pela presença de Norma. O sorriso inicial com que me recebeu se desfez com minha primeira intervenção no bate-papo. O cheiro forte do uísque chegou primeiro do que qualquer argumentação lógica ou da piada sobre o recente plano econômico. A reprovação no franzir da testa acordou em mim um desprazer, velho conhecido. Nesse momento, quase senti sua mão, apertando meu nó afrouxado da gravata. Mas, contraditoriamente, trazia consigo, intato, um copo de uísque cheio e, para quem não bebe em ocasião alguma, principalmente àquela hora da manhã, foi um alívio ao terminaram meus temores de ser censurado, com o meu copo quase vazio.&lt;br /&gt;                        Entre os “administrativos”, do outro lado do salão, estavam dois grandes olhos azuis de uma não-sei-o-que-adjunto . Brilhantes e iluminados, eles pareciam olhos de quem estava atenta à conversa, sem esconder, nas bochechas tensas e nas leves rugas da testa, um distanciamento interessado. Era uma visão diferente, no seu moreno forte, circundado por cabelos pretos bem lisos. Quase uma índia de olhos azuis. Impossível não notar. Vez por outra, ela olhava para os lados, com seus olhos escondidos no amendoado do corte, sobreposto por sobrancelhas finas, como quem prestasse a atenção às coisas ao redor. Em uma espécie de pacto de múltiplos olhares, estabelecemos um diálogo de conversas muitas. Norma me interrompeu, entregando um uísque renovado, como nunca fizera, quando éramos casados. Naquele final de manhã, era a segunda vez que agia assim.&lt;br /&gt;                    Depois disso, Norma passou a me relatar suas desventuras no jornalismo. Procurei pelos olhos azuis e notei que essa busca interferia em nossa conversa. Convidei-a para uma sala menor, ao lado, mas, como era uma das estrelas principais da festa, não conseguimos ficar a sós. Permaneci cercado por pessoas que não se cansavam de me cumprimentar pela “vitória” de ter ganho a licitação, como se tivesse recebido um prêmio, pelos reais méritos de meus conhecimentos sobre arquitetura. Achegavam-se com um riso prêt-a-porter, de lábios escancarados, como o  estandarte do sorriso falso, com os dentes expostos, para uma alegria lambuzada de inveja ou de bajulação. Apertos de mão à moda dos políticos – em que as mãos se encontram e, imediatamente, sobem à altura dos ombros, para favorecerem o encontro das barrigas – com direito a tapinhas nas costas, num movimento esbaforido de puro protocolo. Depois, vinham as manifestações de pieguices, aquelas babosas apelações baseadas em falsos valores dominantes na sociedade, como religiosidade, maternidade, capacidade pessoal …&lt;br /&gt;O próprio Governo era motivo quase exclusivo dos comentários. O boato do dia era a saída de um secretário de Estado. Afirmavam que caíra em desgraça, por não atender a um comando do primo do Governador, com gabinete particular junto ao do parente poderoso. A própria eminência parda. O portador do boato trazia o nome do substituto par o cargo de secretário: era um ex-prefeito de uma dessas cidades do interior, com denominação indígena, perdida em algum escaninho de uma estrada de terra. Sua credencial maior era ser familiar próximo à mulher do Governador, além do escândalo na prestação de contas de sua gestão.&lt;br /&gt;                        Na sala menor, apareceram os olhos azuis, conversando com Carlos. No intervalo que me deu Norma, sem quase sair de perto, perguntei para Carlos, com o rosto virado para o outro lado:&lt;br /&gt;- Aquela morena com quem você tava conversando… é… já fizemos contato com ela?&lt;br /&gt;                        - Que contato? - respondeu Carlos, lacônico.&lt;br /&gt;                        - Profissional, é claro! Ela trabalha no Governo? – não sei porque o meu pudor, na discrição de não sermos ouvidos por Norma, se estávamos divorciados.&lt;br /&gt;Com um sorriso largo, na malícia de quem sabe das coisas e um triunfo eufórico, por estar bem mais informado do que eu, disse com voz sussurrada, como a revelar um terrível segredo:&lt;br /&gt;-                                                         Ela é a nova secretária-adjunta, da Secretaria de Desportos e Lazer. É um pedaço… nós até que tamos encaminhados…&lt;br /&gt;                              Para disfarçar uma intimidade de colegas de escritório, que não desejava demonstrar naquele momento, procurei mudar de assunto:&lt;br /&gt;                          - Pode parecer besteira, mas até aonde minha compreensão chega, essas atividades de desporto e lazer são de iniciativa da sociedade e não do Estado. Tem alguma coisa errada…&lt;br /&gt;-                         - É! Chefe Anderson, isso é interessante, mas o que importa mesmo é uma informação quente, de que há vários estudos em andamento, para a construção de estádios e quadras de esporte em vários municípios. Coisa bem grande, com verba da Secretaria, recebida do Governo Federal. Ela mesma me soltou essa… sigilosamente, é claro!&lt;br /&gt;                      Ainda em tom de segredo, entregou-se à descrição do apartamento de cobertura, que ela possuía, em área relativamente nobre. Continuou a falar de sua admiração sobre a aparelhagem de som, que tomava uma parede inteira do apartamento, em sala reservada. Não poupou elogios também ao sistema de vídeo, com as últimas inovações, adquirido em sua recente viagem ao exterior. Fingi não me interessar em como ele tinha conhecimento disso. Os grandes olhos azuis se penduravam em mim, com a entrega dos desfalecidos.&lt;br /&gt;                        Levei Norma para sua casa, ao final da cerimônia. Enquanto olhava com mais atenção o ambiente da sala, ela foi para sua mesa de computador preparar, rapidamente, a matéria para o jornal. Da cozinha, transmitiu, pelo telefone, ordens e providências à sua secretária na redação, talvez para não deixar por escrito, no e-mail, rastros de sua ausência, por mais tempo que o necessário, ela como chefe.&lt;br /&gt;                        O ambiente da sala estava reformulado, desde minha última visita, quando fui levar as passagens, para os Estados Unidos. A sala em preto e cinza, com as paredes branco-gelo, móveis tubulares de ferro, um tapete bege, com bordas e desenhos acinzentados abrigou o lanche rápido, para complementar os salgadinhos da festa. Os sapatos saíram dos pés e a camisa sem gravata ficou aberta até o umbigo. Norma retornou do banheiro com um vestido longo bem fino, que evidenciava a calcinha e a falta de sutiã. Sem querer me precipitar em algumas conclusões, apenas constatei que ela não tinha o hábito dessas “provocações” comigo, quando marido.&lt;br /&gt;Liguei uma FM no aparelho de som às minhas costas e fiquei olhando o suco de tomate que nos separava. Enquanto vínhamos no carro, ela falava alto, ria bastante e gesticulava, como acrescentando mais palavras do que devia às suas idéias. O suco de tomate e o sanduíche não mudaram muito seu ânimo. Continuou falante, apenas com a cabeça levemente inclinada sobre um dos ombros e os olhos brilhantes, sublinhando uma meiguice inesperada.&lt;br /&gt;Na minha segunda garrafinha de cerveja, para tirar o travo dos uísques, o impulso do sexo entre minhas pernas garantia uma virilidade bem-vinda, na minha idade, bebedeira e cansaço. Não demorou muito para ficarmos nus e exaustos no tapete. Então confirmei com os olhos a afirmação do tato: Uma enorme cabeleira encaracolada se impunha, como porta de cofre arrombada, sobre o começo de suas coxas. Entre risos e  certo desconcerto, ela apontou para meu capinzal, mostrando um pau babado, como pescoço de pavão morto, com a cauda em leque. Recompondo-me do silêncio presente, perguntei onde havia uma tesoura média. Comecei por um corte de cachos melados, deixando a um competente tintureiro a tarefa de tirar os restos mortais de nossas cabeleiras pubianas, enrugados no tapete.&lt;br /&gt;Nossa intimidade nessa brincadeira, a princípio relutante por parte dela, foi passando a se tornar erótica, porque aprendemos, desde o início de nossa relação, a conservar com a maior higiene nossos órgãos sexuais. Essa coisa de higiene era quase um estandarte nosso contra doenças e a favor de peripécias, nas reviravoltas de invenções e artifícios, em noites inteiras acordados. Mas, depois de descabelados, tornamos a nos enfiar, perdurando a sensação de certa desconfiança, pelos anos afastados um do outro.&lt;br /&gt;Antes de sairmos definitivamente do tapete, fiquei observando seu corpo deitado no chão, com aquela tarja negra recém aparada e com as laterais definidas pelo barbeador, que peguei depois. Segurei, então, cuidadosamente a tesoura e com a ponta fui desenhando a inicial de meu nome, como numa talha em baixo-relevo. Ela se moveu rapidamente ao contato da lâmina, pelo temor de um corte inesperado. Depois, levantou-se com a letra enorme entre as pernas e me fez deitar, para colocar seu “N “.&lt;br /&gt;Banhados, passamos o resto da tarde entre esfregões e pequenos gozos, sucos de laranja e bolachas com queijo. A luz acesa da sala deu passagem às vertigens do lusco-fusco. Deveríamos estar cansados, mas nossos músculos distendidos e aquecidos pelas massagens dos carinhos, deixaram-nos bem despertos para uma noite sem horas e sem desgostos.   &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;*********************&lt;br /&gt;                            Norma não o viu sair, na manhã seguinte, antes de clarear. A sala  agora ruborizada pelo raiar de um novo dia , testemunhava os pedacinhos de cada um, espalhados entre gosmas secas e farelos de bolacha. Nua, no banheiro, tentou alcançar seu conhecido interesse pelo trabalho, mas se limitou a sentar no vaso. A mão tocou a inicial gravada e seu primeiro impulso foi raspar tudo, para que o tempo, mais uma vez, não tornasse Anderson mais distante, esquivo e amado. Questionou sua independência, esbofeteou seu ego e teve certeza de que os olhos azuis seriam mais um exótico aliado de sua rotina de solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ENCONTRO FATÍDICO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                     Eles se conheceram da forma mais usual possível. Em uma longa fila de caixa eletrônico, na sexta-feira, pela manhã, início de um feriadão até segunda. Muita conversa para passar o tempo, principalmente sobre o avanço tecnológico, como o fim do microcomputador, a evolução do celular, substituto de vários aparelhos, inclusive o controle remoto. A revolução tecnológica era o único assunto e chegava, segundo eles, a impensáveis concretizações, embora, às vezes, inúteis…&lt;br /&gt;                    A palavra fácil, um discurso corrente, coerente e atraente, informação atualizada e uma compreensão mútua, deixava-os fora do mundo e esqueceram até que estavam na fila. Foi só, então, que se dando as mãos formalmente, para se despedirem, disseram seus nomes. Ficou o convite dele para se encontrarem à noite, em um barzinho calmo, onde pudessem continuar a conversa.&lt;br /&gt;                   Bruno chegou dez minutos adiantado, da hora marcada, à portaria do prédio de Bruna. As piadinhas com seus nomes não puderam ser deixadas de lado.&lt;br /&gt;                  Tomadas as medidas de segurança, pelo interfone, ela desceu logo em seguida e ficaram se atropelando em assuntos diversos, sem definir em que carro iriam. Sentiam-se como velhos conhecidos e essa definição era lógica. Comportavam-se casualmente e com muita conversa a ser atualizada.&lt;br /&gt;                   O barzinho escolhido por ele era mesmo calmo, aconchegante, de aparência bem cuidada, localizado em uma das barracas rústicas na Avenida Litorânea, em São Luís do Maranhão. A noite se acomodava tranqüila sobre a tênue luz  da praia, fazendo aparecer apenas a orla de espuma do mar.&lt;br /&gt;                   Ela pediu um martini seco e Bruno uma cerveja em latinha, enquanto  decidiam sobre uma refeição. Pediram um de tira-gosto de camarão ao alho e óleo que iam, bem devagar, descascando com talher.&lt;br /&gt;  - Sabe, Bruno, com a MP3, outras possibilidades, além da música, podem chegar gratuitas pela Internet.&lt;br /&gt;  -  Você diz como o livro, por exemplo. Mas as experiências até agora são bem negativas… Bem eu sei que é só o começo… não se pode prever qualquer coisa. Não vou repetir o velho raciocínio dos saudosistas ou dos que nada entendem de informática. O livro, no formato atual, acho que jamais acaba! No campo virtual, sem a necessidade de empacotar ou aprisionar em CD ou em papel, como livro, nunca se sabe… Essa é uma coisa tão inovadora e grandiosa que não se pode imaginar o que vai acontecer. Acho que nem  as próprias pessoas que inventaram e inventam programas, ships etc. Talvez aconteça, como no caso do cinema: no início do século XX, quase todo mundo dizia que a invenção do cinema não iria prosperar…Como aconteceu, também, com a televisão: iria matar o cinema! E os dois convivem muito bem… Se acabar a necessidade de película, passando a ser virtual, pela Internet ou outro mecanismo mais simples… aí mesmo é que essa invenção vai crescer!&lt;br /&gt;                   Enquanto Bruno falava esse palavreado todo, ela observava seu rosto, seus olhos, os gestos, suas mãos, a linguagem, tudo. Sentia-se protegida pelas palavras dele, sem perguntas, como se estivesse por trás daquele vidro das salas de interrogatório, dos filmes americanos. Sabia que, do outro lado, havia o espelho de seu raciocínio e o cuidado com o que dizer. Bruna estava vestida com uma roupa “vamos-a-qualquer-lugar”, de vez que ele não dissera onde era o barzinho. Vestia uma camiseta entre chique e despojada e uma calça comprida de linho, totalmente social. Um sapato salto alto, que logo abandonou, para pisar na areia fina, nenhuma bijuteria, com o cabelo abaixo dos ombros, cobrindo as orelhas. Não usava brincos, pois sabia que não se davam bem com seus óculos.&lt;br /&gt; - É, Bruno, você tem razão! E há mais: a venda de cds, as gravadoras, as fábricas de cd virgem, de aparelhos de som… tudo isso será peça de museu … Aliás, estou lendo um livro sobre MP3 que traz curiosidades históricas sobre a trajetória da música. Coisas bem interessantes! E até meio poético, como o nome do primeiro capítulo “A Alma”. Diz que a música voltou a ser dona de sua alma. Ela não está mais presa a um invólucro, onde várias empresas lucram demais e até controlam, com poder excessivo, o tipo de música a ser ouvida. Forjam a preferência por alguns cantores ou compositores e chegam ao cúmulo, no caso das gravadoras maiores, de inventar cantores, grupos de pagodes, dupla sertanejas, de música baiana, etc., para funcionar apenas por alguns meses e depois, abandonadas, somem do mercado.&lt;br /&gt;Bruno estava encantado com os longos e finos dedos de sua parceira se movimentando lentamente e com sua voz suave, quase melódica, som que não pôde apreciar na fila, onde se conheceram. O rosto fino, a cabeça de formato comprido e o cabelo bem liso se aclopavam com a precisão de um computador ao nariz exótico, revelando um estimulante encanto. Ele não se cansava de olhar seu rosto. Do corpo, percebera apenas esfumaçados contornos ao entrarem e saírem do carro, para não parecer grosseiro insistente ou, talvez, lascivo. Sabia que aquela noite morreria na conversa gostosa, em possíveis olhares denunciadores ou não e em uma agradável companhia. Não que fosse adepto da ridícula convenção de que, na primeira saída juntos, não haveria sexo ou beijo arrojado. Isso era de uma hipocrisia sem limite, mesmo para pessoas que não se conheciam antes. Nestes tempos de ficar ou de ir beijando enquanto passa, nas festas, a intimidade muda de sentido. A sofisticação de Bruna, pela simples postura ereta e casual, sugeria um relacionamento inicial obsequioso, mas sem extremos.. Ela era uma pessoa saudável, viva, inteligente, bem apessoada, bonita mesmo e parecia uma parceira. Em outras circunstâncias, tinha certeza, ela jamais ao menos o notaria. Ficaria com o nariz empinado, como a encontrara inicialmente na fila do caixa eletrônico, olhando por cima do ombro, fingindo estar sozinha naquele lugar. Mas ela era, como se costuma dizer, uma pessoa diferenciada!&lt;br /&gt;Bruno ainda se referiu a outras possibilidades de virtualidade, a um futuro de certa forma totalmente imprevisível, se a longo prazo ou imediato, dado os crescentes avanços da tecnologia. Falou alguma trivialidade leve, como seu trabalho com informática, seu sonho de fazer Direito e outras pequenas preferências, principalmente na gastronomia.&lt;br /&gt;Bruna escutou muito pacientemente , educada e pertinente, até para ser bom ouvido e revelou poucos sonhos, como viajar pela Europa inteira, conhecendo museus e igreja, como obras de arte e a parte leste, para ver como ficou depois da queda do muro de Berlim. Concordou com alguns aspectos da comida local e mostrou um entusiasmo esfuziante por sua nova coleção de cd’s  de música clássica.&lt;br /&gt;─ Foi um verdadeiro achado! Uma coleção inteira, a preço baixo, boa qualidade de som e as mais famosas e renomadas orquestras filarmônicas, sinfônicas e de câmera… de tudo um pouco… uma versão bem diferente, constante em um catálogo. Depois que comprei, nunca mais vi anunciada.&lt;br /&gt;Ele escutou em silêncio e prometeu apanhar a coleção, no dia seguinte, alguns exemplares, na portaria do prédio dela. Gostava muito de música clássica e tinha o dom de ter um ouvido privilegiado. Devolveria no domingo, pois já tinham agendado uma praia em hora de sol fraco, pela tarde.&lt;br /&gt;O mesmo barzinho, agora usando as barracas de lona na praia, uma cerveja e o camarão ao alho e óleo. Enrolada na canga, revelou um corpo desejável, em suas formas não propriamente exuberantes, mas bem ao gosto de um braço, atraente para um carinho mais ousado e, para ele, o tamanho dos seios perfeitos. Uma pessoa completa, na conjunção de corpo e cabeça arejada, de fazer inveja aos mais esclarecidos.&lt;br /&gt;Ele colocou a sacola pequena sobre a mesa e não se conteve e comentou o conteúdo, a qualidade a remasterização pouco saudável dos cd’s que ela lhe em prestou pela manhã e que agora estava devolvendo. Não havia falado a Bruna que era músico amador, mas estudioso como um profissional ao piano e que tinha ouvido absoluto. Era capaz de identificar qualquer tom musical, mesmo em um ruído que fosse. A harmonia da música era sua especialidade, esquecendo-se mesmo até da melodia, o que era difícil em música clássica, onde as duas se confundem de tal forma, que apenas os conhecedores conseguem identificá-las e separá-las.&lt;br /&gt;A reação de Bruna não foi das mais agradáveis. Deixou de lado a sofisticação e passou a acusa-lo de não saber ouvir música clássica, talvez por ser um grosso que gosta apenas de lambada; que seu aparelho de som era uma porcaria, um traste inútil de contrabando do Paraguai. Fingia que gostava desse tipo de música apenas para conquistá-la e um monte de outros absurdos que fez Bruno desconhecê-la.&lt;br /&gt;E nunca mais se viram, nem falaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA AGÊNCIA&lt;br /&gt;                     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A situação não era agradável. Aquele clima de juizado de família, com os rostos enroscados em si mesmos, o azedume da separação enchendo o ar, como volumosas nuvens de fumaça, oprimia os presentes. Roberto, sério, mas até certo ponto aliviado, tinha como companhia seu amigo Carlos e o advogado, um rapaz jovem, responsável pelo divórcio. Depois de um bom tempo de espera, Helena, a sua ex-mulher, do outro lado do corredor, lançava olhares de uma raiva mansa, contida, aquela  raiva onde o ódio se esconde entre a ternura e a morte,  transmitindo uma mensagem nada recomendável. Mas  o divórcio foi consensual, apesar das brigas na hora da partilha extra-oficial, com solavancos, coisas atiradas em direção a Roberto, mas, por fim, conciliadas as divergências, o pedido foi assinado. Mais de uma hora depois, veio um rapaz avisar nova data, justificando que naquele dia não era possível ser realizada a audiência. Essas coisas confusas de Direito, fazendo com que o casal não entendesse o motivo de tanta burocracia para desfazer um casamento. Só faltava o juiz assinar a sentença, mas tinha que ser na presença dos dois. O divórcio mesmo já estava decidido.                             &lt;br /&gt;Roberto e Carlos foram a um bar em frente ao tribunal, onde tomariam alguns drinques, para espantar o estresse da espera e falar mal da burocracia na aplicação do Direito. Carlos falava, então, do casamento de um amigo comum, que seria no fim de semana e de como era simples conseguir os papéis e difíceis os preparativos para a festa. Nesse momento, chegou Cássia, ainda vestida de branco, vinda do consultório ali perto. Inteirou-se do assunto e, ao ouvir festa de casamento, ficou pensativa. Carlos e Cássia tinham uma relação de entrosamento. Isso aproximava os dois, até mesmo na cama, em momentos de carência mútua, o que vinha se tornando cada vez mais freqüente.&lt;br /&gt;                           Mas Carlos continuou recordando o que a noiva do seu amigo tinha que fazer para a festa de casamento e lembrou, falando, despretensiosamente, depois de cinco doses de uísque:&lt;br /&gt;                           ─ Se descasar é tão difícil, por que não há uma festa também? É justo que, depois de tanto esforço para a separação, não haja uma baita comemoração? – todos riram, mas Cássia logo ficou séria e disse:&lt;br /&gt;                           ─Poderíamos criar uma Agência para promover essas festas. Ganharíamos uma grana. Mais do que eu no meu emprego no SUS e no meu consultório. Seria uma festa com o desfazimento do casamento. Como um filme voltando ao contrário – e Carlos emendou:&lt;br /&gt;    ─ Sabe que é uma boa idéia?! Tou cheio de ser contador naquele escritório. E jamais ficarei com uma boa grana ali. Poderíamos experimentar com a separação de Roberto, cada um bancando um pedaço. Teremos de convencer Helena a participar, pra ser realmente interessante. Quem iria falar com ela?&lt;br /&gt;─ Eu falo, disse Cássia, mulher se entende melhor e ela não ia pensar que era deboche. Pode deixar, a gente vai bolando devagar até sair a certidão do divórcio.&lt;br /&gt;─ Isso demora muito. É, depois da sentença, vai pro cartório… muita burocracia! –  falou Roberto entusiasmado com a idéia – Podíamos fazer no domingo. Sábado tem o casamento de nosso amigo e no domingo a festa do meu descasamento.&lt;br /&gt;─ E como seria? Perguntou Cássia.&lt;br /&gt;─ Será assim: - completou imediatamente Carlos – o casal vem da porta da antiga casa onde morava e entra na igreja junto. Isso depois da festa …&lt;br /&gt;─ Não, pera aí, vamos organizar melhor: - Cássia falou apressadamente – Começamos pela festa. O conjunto tocando música agitada, todo mundo dançando e bebendo…&lt;br /&gt;─ Eu passando a mão na sua bunda gordinha e macia – falou Carlos, depois de sua sétima dose.&lt;br /&gt;─ Nesse começo, o bolo tá todo repartido, só tem alguns pedaços. Sim, a gente faz isso. Com o que retiramos do bolo,  os ex-casados o completam, até deixá-lo inteiro. Depois dançam uma valsa, tem os discursos, improvisa-se o altar em outro ambiente, os ex-casados entram de braço dado e devolvem as alianças para um “padrinho”. E voltam todos pra festa.&lt;br /&gt;─ Não, tem muita cerimônia – disse Carlos – e isso dá muito trabalho, precisaria até de um roteiro. Nada disso. Contratam-se drags e umas mulheres espertas com as bundas de fora, de fio dental, muitas bebidas, muita sacanagem e vamos até enquanto agüentarmos. &lt;br /&gt; ─ Mas por que drags? – disse Roberto -  eu não vou contratar drags.&lt;br /&gt; ─ Mas tem gosto pra tudo e tem muitos casamentos que acabam porque as mulheres pegam os maridos com homens. Lá, vale tudo, nesse tipo de festa e sem preconceito – sugeriu Cássia.&lt;br /&gt;O dia já ia fugindo pela barra do horizonte, as luzes do bar se acenderam e entrou Helena, acompanhada de uma amiga. Os três as chamaram para sua mesa e Cássia, como havia prometido, contou a idéia para Helena. Ela deixou sua pasta de executiva sobre uma cadeira vazia ao lado, pediu uma vodka com gelo e dois camparis ao mesmo tempo, um para a amiga e outro para ela tomar com a vodka. Tomou um gole grande, olhou para Roberto com um ar atrevido, e disse:&lt;br /&gt;─ Agora que posso beber à vontade, sem vigilância, concordo com a idéia, mas sem a cerimônia ridícula. Minha amiga Carla tem a casa dos pais na praia e podemos fazer a festa lá – em seguida, pediu outro campari duplo.&lt;br /&gt;─ Então, estamos acertados, nesse domingo agora, cada um convida seus amigos, compramos as bebidas e os salgadinhos e contratamos dois garçons. Eu posso fazer isso – comandou Cássia&lt;br /&gt;─ Ótima idéia! As bebidas deixem comigo, não quero miséria, quero muita  e da melhor, nada de cerveja. Eu e o Roberto faremos uma festa de acabar casamento acabado.  Vamos deixar todo mundo rolando no chão e nos quartos – e Helena foi desfiando detalhes cada vez mais picantes, à proporção que as doses de campari e vodka iam chegando à mesa e uma música suave invadia o ambiente. Foram pedidos mais tira-gostos, a clientela foi mudando de happy-hours para casais que tomavam drinques e jantavam, quando Helena falou eufórica e convincente.&lt;br /&gt;─ Quer saber, festa boa é a que se faz na hora. Nada de programar. Vamos agora lá pra casa, já que a casa ficou comigo, cada um telefona pra seus amigos, a gente pede bebidas e comidas no DRINK ´S BAR 24 HORAS e eles ainda mandam copos, pratos e talheres de plástico duro e inauguramos a AGÊNCIA DE FESTAS DE DESCASAMENTOS é logo. Como disse antes, nada de deixar pra depois. Os ânimos ficam frios… vamos pedir a conta aqui.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, no alvorecer de estômagos vazios, Carlos e Cássia foram se levantando do sofá na sala e havia de tudo espalhado pelo chão: de camisinhas a vômitos, de restos de comida  a  corpos seminus. Carlos subiu com dificuldade as escadas para o segundo andar e foi procurar Roberto, naquele local, onde havia três quartos com banheiros. No quarto de casal encontrou Roberto e Helena nus, de costas e a cama com  os lençóis e cobertores no chão.. Fechou a porta e deu de encontro com Cássia que vinha do andar de baixo.&lt;br /&gt;─ Vamos sair daqui, a festa foi de recasamento! – e saíram rindo, abraçados, naquele meio-dia de sol a pino, suados e felizes pelo que fizeram durante a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUADRO NA CASA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                        O quadro parecia ingênuo e até mesmo infantil. Traços grossos curvados dispostos ao longo de uma tela deitada, com um céu sem nuvens, em tom violeta claro e, embaixo, um verde vivo, quente, verde musgo, atenuado pelo branco, em sua mistura. O traços curvos, ora pareciam a estilização de raios, ora viadutos superpostos, ora simples  riscos grossos e finos que santificavam a inocência.&lt;br /&gt;Colocado, há muito tempo, atrás de um guarda-roupa antigo, surgira na casa de Marçal, na arrumação de uma mudança que sua família fez, por causa da venda do imóvel. Fora alugado pelo seu pai, quando este ainda trabalhava e tivera o contrato sempre prorrogado, à base da palavra dada. Nada escrito, nem o documento inicial..&lt;br /&gt;Fora no início de uma das ditaduras brasileiras, em março de 1964, que a família ali se instalou, pela proximidade do trabalho de seu pai, o seu Alberto. Ele era revisor de um jornal, aliás função muito respeitada na época, que ficava na Rua de Santana e se chamava O Dia. Seu Alberto também escrevinhava comentários sobre livros, filmes e exposições de artes plásticas, num período em que a televisão ainda não chegara a São Luís do Maranhão. Essa novidade só veio a acontecer quase no final de 1965 e não havia as redes nacionais.&lt;br /&gt;A casa era cheia de quartos, com um corredor longo que dava, de uma lado, para o pátio interno com um jardim mal cuidado e de outro, para as portas desses quartos. Era uma casa antiga, necessitando de reparos de conservação que a mantivesse ungida pelos doces prazeres de um visual mais limpo e decorativo. Os poucos quadros que se diluíam nas paredes eram retratos de família em molduras ovais, retocados à mão ou, então, estampas de paisagens longínquas de ambientes europeus. Não havia dinheiro para pendurar telas, nem de artistas locais, da incipiente produção artística da cidade.&lt;br /&gt;Enquanto em Brasília era entronado um general como Presidente da República, seu Alberto passava as madrugadas revisando as notícias para imprimir nos linotipos e, acanhadamente, nos intervalos, rabiscava comentários artísticos, que não poderiam ser chamados de crítica de arte.&lt;br /&gt;A uma exposição que fora, em um final de tarde, ante de ir para o trabalho, encontrara o artista plástico - por estas bandas ainda se chamado de pintor - e cenógrafo Jorge Dennies, que teria o seu evento dentro de poucos dias. Eles combinaram uma crítica favorável ao pintor e no dia seguinte o artista levou um quadro na casa de seu Alberto, para que ele tivesse uma noção do que seria apresentado na ocasião e solicitasse ao editor-chefe uma notinha sobre o vernissage.&lt;br /&gt;O quadro, segundo Dennies, pertencia ao movimento pictórico Expressionismo Abstrato, surgido no pós-guerra  e chegado ao Maranhão nos anos 60, atrelado à onda beat e hippie, de então. Para seu Alberto eram simples pinceladas ao acaso, como se provenientes de uma loucura temporária. Nada representava para ele, a não ser o espaço de um pincel louco e uma falta de tema. O autor chamara o quadro de “Ligações Desligadas”, mas, para o crítico, não passava de coisa desligada da realidade, embora tivesse que tecer elogios à obra.&lt;br /&gt;Durante muito tempo, o quadro perambulou pela sala, em cima de móveis ou no chão, encostado à parede, até que, em uma grande faxina, ele foi parar atrás do enorme guarda-roupa do quarto do casal. Marçal, a essa época um adolescente, começava a cometer suas poesias desencontradas e a se interessar pela estética, pensando, no futuro, buscar uma carreira artística. Olhara o quadro, antes de seu encafuamento, e , quase lamentando, comentara com o pai:&lt;br /&gt;─ Quadro bonito, esse aí! – e para demonstrar algum conhecimento de arte, acrescentara – Pinceladas fortes, cores vibrantes, parece uma arte nova que não se copia.&lt;br /&gt;Seu Alberto, na sua incredulidade pela linguagem do filho, cansado das atribuições diárias, das desventuras da profissão e com a visão formada pelos ditames da arte européia, desdenhara:&lt;br /&gt;─ Nada disso! Isso é porcaria de pintor da terra que quer inventar coisas…  – e não falou do comentário escrito que tinha feito.&lt;br /&gt;Após a morte de Seu Alberto, próximo ao início do novo milênio, Marçal, já engenheiro de uma construtora, iria sair da casa, a pedido do dono  e se mudar para um apartamento na parte nova da cidade, em um prédio para o qual contribuíra na construção. Fora uma concessão da empresa onde trabalhava, para ajudar seus funcionários, diminuindo o preço final e dividindo em várias prestações.&lt;br /&gt;Com o quadro na mão, procurou um pano umedecido em água e começou a tirar as teias de aranha e aqueles flocos de caruncho em tiras, que ficam atrás dos móveis. À medida que limpava, olhava com maior clareza para as formas e as cores e se encantava com a criatividade do artista.&lt;br /&gt;Como tudo na vida, o momento histórico é decisivo para a definição de valores. Comentou, então, com a esposa:&lt;br /&gt;─ Este quadro,  há quase quarenta anos, não valia nada. Representava uma loucura do pintor, um verdadeiro disparate e, hoje, dependendo do artista, vale uma fortuna.&lt;br /&gt;Ela o olhou emburrada, sem entender muito o que ele dizia e falou:&lt;br /&gt;─ Mas você não vai botar essa besteira aí na parede do nosso apartamento, vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA ENTREVISTA COLETIVA&lt;br /&gt;  A sala repleta de jornalistas exalava uma expectativa sobre aquela entrevista com uma pessoa fisicamente desconhecida, mas de fama universal. Alguns profissionais haviam preparado um questionário caprichado, outros se entregaram a uma pesquisa, baseada em critérios científicos, esotéricos, espíritas e de crenças africanas, além de um longo histórico.&lt;br /&gt;                        Ninguém conhecia a entrevistada pessoalmente, apenas por suas realizações e faziam dela, ora uma imagem aterradora, ora a de uma espécie de  intermediária ou quase uma promoter de eventos.&lt;br /&gt;                         Permeava na sala um burburinho de inquietação, como se o alvo daquele encontro de trabalho fosse uma pop star. O ambiente fora decorado com longas cortinas de parede inteira e tiras enormes de fazenda, em forma de redes armadas sob o teto, em cor branca, dando maior claridade ao recinto. Alguns repórteres, fotógrafos, iluminadores, câmeras-man, formavam grupinhos, onde a ansiedade se mostrava em cada cigarro sorvido com avidez ou com o remexer sôfrego e contínuo dos cabelos femininos.&lt;br /&gt;                        A hora marcada avançava, aumentando o sofrimento dos interessados, alguns porque tinham outro compromisso, outros pela curiosidade em conhecer personalidade tão temida e cheia de mistérios, chegando mesmo a exasperar os mais afobados ou a desacreditar em sua vinda, os destemidos e tímidos.Alguns já pensavam em desistir, com o ânimo de que ela não viria se expor de forma tão contundente.&lt;br /&gt; Inesperadamente, ela surgiu pela porta lateral, sozinha e vestida de branco, decepcionando a quase todos, por terem dela a imagem de uma mulher vestida de preto, com capuz e sempre acompanhada por um séqüito de acontecimentos, como se chegasse sempre em entrada triunfal. Tímida, bem magra, com roupas esvoaçantes, sentou ao meio da mesa principal, em forma de linha reta, em uma cadeira de espaldar alto, parecendo um trono. A seu lado, outras cadeiras comuns e vazias compunham um quadro de isolamento, sem a presença de um assessor, de um ajudante ou mesmo de um segurança.&lt;br /&gt;Aparentava um ser frágil, mulher com rosto masculino, de idade indefinida, como algumas pessoas que têm um trabalho árduo e diuturno, com afazeres repetitivos. Sentada ali, em seu encolhimento e até certa generosidade, não demonstrava os transtornos que causava às pessoas e a malquerença que despertava, até nos ânimos menos revoltados. Era admitida por várias religiões, que a tratavam de forma diferente, mas, sempre, com um sentimento de perda, não importava que papel desempenhasse.&lt;br /&gt;Os profissionais da imprensa voltaram-se imediatamente para ela, cada um buscando suas anotações ou enquadrando o melhor ângulo de imagem. Ela abriu os braços em um gesto, como a dizer perguntem, satisfaçam sua curiosidade; depois juntou as mãos uma sobre a outra, aguardando ser inquirida, quando, imediatamente, levantou-se uma jovem afoita, que aparentava não ter trinta anos e, com a voz trêmula, perguntou de chofre, sem ao menos se identificar:&lt;br /&gt;- Porque a Senhora se chama Morte?&lt;br /&gt;Com uma calma inquietadora e um silêncio repentino, ela se ajeitou na cadeira, colocou uma das mãos no queixo e relaxadamente respondeu:&lt;br /&gt;- Não sei. Sempre foi assim, em todas as línguas e considero quase um apelido. Não me incomoda. Esse nome vem do latim vulgar e se incorporou à vida das pessoas, quando elas deixam de existir. Acho que assumiu uma conotação pejorativa demais, para uma coisa tão comum e normal, na própria vida. Mas assim sou conhecida e levo a fama, muitas vezes, por atos praticados pelas próprias pessoas, como se eu fosse a causadora de tudo de ruim que acontece. Já imaginaram como seria o mundo, se eu não existisse? O acúmulo de pessoas no planeta, gerando um verdadeiro caos, como bem expôs o escritor português José Saramago, no seu livro “As Intermitências da Morte”?&lt;br /&gt;A resposta não satisfez plenamente a todos e pareceu mais um pedido de desculpa, uma justificativa por sua existência. Cochichavam alguns entre si que ela nada dissera e continuaram frenéticos em suas perguntas:&lt;br /&gt;- Por que a Senhora é sempre representada por um esqueleto humano, armada com uma foice?&lt;br /&gt;- Não sei, acredito que vem da crendice popular e já faz muito tempo, quando era muito comum utilizar-se da foice para ceifar a colheita ou cortar capim e outros vegetais. Hoje, aqui no Brasil, ainda é usada no campo e em movimentos de Sem Terras, mas não tem a mesma repercussão de outrora. A maioria das pessoas que vive em centros urbanos desconhece uma foice. Quanto ao esqueleto, é o que nos tornamos mais dia menos dia, até ele mesmo desaparecer. A morte é um símbolo que parece cruel, mas retrata a verdadeira face da vida, perdoem o trocadilho, na sua essência mais pura, mesmo que possa parecer dolorosa. Não há no mundo animal ou vegetal quem não se torne esqueleto, na sua simplicidade e vínculo estreito com a vida. Com os outros animais e plantas há uma serventia real para a vida, mas com os humanos, ora causa terror, ora é objeto de veneração, como se fosse um “alimento” espiritual. Serve até para cultos considerados heterodoxos, com sua simbologia própria, dependendo do credo É, como disse, um símbolo. Como os ícones das igrejas, o emblema de um time de futebol ou qualquer outro, embora as pessoas o tratem com desprezo e asco.&lt;br /&gt;Fez-se um silêncio na sala, como se um absurdo acabasse de ser dito e as canetas começaram a escrever rapidamente, antes que outra pergunta surgisse. O clima de pasmo, porém, não se dissipou de imediato. A entrevistada parecia segura em suas declarações, o que causou certo intimidamento nos jornalistas, nada que atrapalhasse o lado profissional. Como em uma entrevista com uma pessoa acusada de corrupção, em que há provas contestáveis contra essa pessoa, não deixa de causar certo mal estar em quem pergunta ou registra a imagem, como se esses soubessem que era mentira, mas sem condições de colocar o entrevistado contra a parede.&lt;br /&gt;Passado o primeiro impacto, logo veio a terceira pergunta, feita por um senhor grisalho, com a expressão descrente e um sorriso irônico:&lt;br /&gt;- Por que, quando a Senhora aparece, sempre leva alguém consigo?&lt;br /&gt;Ela suspirou fundo, como se contivesse uma irritação, abaixou a cabeça para ajeitar a roupa, abaixo do pescoço e empinou o nariz, em sua altivez e segura do que iria falar:&lt;br /&gt;-  Não vou dizer que é porque chegou a hora. Seria muito determinismo para um fato tão comum. Se houvesse uma hora para cada um, seria admitir que existe um ser superior que determina essa hora, como se o mundo fosse organizado por alguém, por sinal muito incompetente, pelo que se vê na vida. Conceber que as relações sociais são conflituosas, por natureza, é admitir que a própria existência humana é contraditória e que a chamada paz e harmonia são  uma utopia, incapaz de se concretizar. E isso me parece óbvio… É claro que algumas pessoas têm que acreditar que não é isso ou enlouquecem, criando-lhes um vazio existencial, por não haver alguma outra oportunidade de compreender a vida. Mesmo aquelas  que se dizem intelectualizadas, mas não o suficiente para irem além de sua profissão e conseguirem processar o conhecimento, a informação. Essas repetem a forma como foram educadas. Não  questionam nada, não tem a curiosidade saudável e bem vinda, quando se tem a mente irrequieta e ávida por processar os conhecimentos, fazendo as ligações necessárias entre o que aconteceu e o que está acontecendo, entre o que se aprendeu e sua mutabilidade, entre o presente e as possibilidades futuras. Enfim, raciocinar com os dados conhecidos e com os que estão surgindo. Na verdade, levo a fama por algo que necessariamente acontece ou irá acontecer, sem que para isso contribua em nada. Sou mais um símbolo, escudo de verdades que não querem ou não podem ser ditas, por isso não levo ninguém.&lt;br /&gt;Dessa vez, a sala ficou alvoroçada todos fazendo comentários paralelos, com perguntas várias ao mesmo tempo, enquanto a entrevistada, em sua calma permanente, aguardava que a exaltação diminuísse. Ficou calada por um tempo, acendeu um cigarro e soltou uma baforada com gosto. Sentiu-se como se estivesse superpondo-se àquela camarilha de sequiosos por um sensacionalismo barato. Essa matéria que atende à demanda de leitores e telespectadores, atraídos por fatos magníficos ou degradantes. Isto sem cumprir não especificamente sua função de informar ao público, mas de realmente enchê-lo de fatos bizarros e esdrúxulos, próprio de mentes ávidas pela desgraça dos outros, pelo desastre, pelos atos inconcebíveis, mas sem relevância alguma.&lt;br /&gt;Ao terminar o cigarro, uma voz se sobrepôs às outras, em tom quase histérico e descrente, afirmando: mas a Senhora fuma, não tem medo de morrer? Ela se conteve, num sorriso discreto. Acolheu a pergunta como se fosse uma piada e respondeu:&lt;br /&gt;- Quem disse que o cigarro industrializado mata? Pesquisas científicas? Essas pesquisas foram feitas em todos os diversos biotipos humanos? Impossível. Não haveria uma outra “indústria”, bastante lucrativa, por trás dessa informação? Como se justificaria a existência de pessoas que fumaram a vida toda e morreram velhinhas, de causas naturais? Como você encara os congressos e encontros médicos sobre o tema, onde informações do malefício do cigarro são repassadas a esses profissionais da saúde, e são promovidos e custeados pela indústria farmacêutica internacional? Você não é ingênuo a ponto de pensar que quem combate o “mal” não se beneficia dele?&lt;br /&gt;Interrompendo a entrevistada, como costumam fazer os jornalistas, logo outra pergunta surgiu e interessou mais a ela:&lt;br /&gt;- A Senhora leva as pessoas para onde?&lt;br /&gt;- Meu jovem rapaz, você não está acompanhando bem meu raciocínio. Eu não levo ninguém, sou só um símbolo. E para onde iria levar? Além do cosmo, nada existe de concreto, onde se possam depositar pessoas ou almas, como você quiser. Senão haveria um outro lugar concreto onde esses entes ficariam. É imaginação demais!!! Acreditar numa vida posterior à vida física é uma forma de consolo pessoal de que alguns necessitam, para suportar a dor da perda de um ente querido. Conceber a existência desse lugar ideal torna a lembrança mais vívida, mais real mesmo. É uma confusão de conceitos com os quais se tem que aprender a conviver…&lt;br /&gt;- A Senhora falou em perda, como sinal de destruição, dor, partida para sempre. O que isso significa para a Senhora?&lt;br /&gt;- Minha amiga, se posso chamá-la assim, você é uma pessoa madura, já deve ter tido experiências de vida suficientes, para sentir essa dor, essa perda. No ciclo da vida está incluída a morte, embora alguns não se conformem com isso. As religiões pregam vida além túmulo, uma passagem, um outro modo de existir. Exclui-se da vida a morte. Se existimos, morremos, não como algo separado, fora da vida. A Morte é intrínseca à vida. Lembra a frase “tudo que tem começo, tem fim”? Exatamente porque tem começo.&lt;br /&gt;A entrevista foi ficando cada vez mais filosófica, o que não interessa à imprensa. Não vende. Os jornalistas foram saindo apressados, e, quando uma jovem se aproximou da mesa principal, para cumprimentar pessoalmente a entrevistada, não havia ninguém sentado lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CALADOS, NO SILÊNCIO&lt;br /&gt;Sempre que aquele assunto surgia, por qualquer motivo, Natam se lembrava do dia em que fizera amor com a mulher de seu cunhado. Lembrança antiga, de uma época em que tinha mais ou menos 35 anos, mas que ficara presente, pela forma inusitada como ocorrera.&lt;br /&gt;Às vezes, em rodas de cerveja, em finais de semana, alguém se referia a  traçar a cunhada gostosa, como forma de afirmação de masculinidade e sempre lhe perguntavam se ele ainda não havia feito. Resultava sempre em uma negativa peremptória, mesmo porque o que acontecera não fora bem com a cunhada, a não ser que queira se considerar o parentesco por afinidade realmente como uma ligação de família.&lt;br /&gt;Foi em uma manhã de segunda-feira, por volta das dez horas da manhã, que Natam se dirigira ao apartamento do cunhado, em um conjunto de sete blocos, cercados por muro, para levar uma encomenda . Era um pacote em forma de livro, desses que se recebe via postal, endereçado à sua casa, mas com o nome de Isolda Alves dos Santos, a mulher do cunhado.&lt;br /&gt;Ele saíra de seu trabalho, no Ministério da Agricultura, onde era chefe de uma Divisão, com essa incumbência, pois há três dias o embrulho estava em sua casa e sua mulher todo dia lhe lembrava da necessidade da entrega. Ele só não entendia por que estava com seu endereço, em vez do próprio da destinatária.&lt;br /&gt;Bateu à porta e foi atendido por uma mulher alta, de cabelos compridos e loiros, os olhos azuis, coberta por um roupão de banho. Ela lhe sorriu e ele entregou o pacote, sendo convidado a entrar. Ainda quis rejeitar, mas ela foi tão gentil com seus gestos de mão, que não houve como recusar. Àquela hora da manhã, em um apartamento de fundo, todos no trabalho, as crianças no colégio, o cinzento do céu, ela sozinha em casa, estava implantado um silêncio que agasalhava segredos e abordava inferências.&lt;br /&gt;Ele se sentou no sofá, abriu o paletó e ela começou a lhe fazer gestos como se lhe agradecesse a entrega. Natam sabia que ela era surda e muda, trauma de um estupro que sofrera há dois anos, quando chegava em casa da faculdade. Nunca fora descoberto o autor, mas ela ficara com uma seqüela maior: o desprezo do marido por seu corpo.&lt;br /&gt;Naquele silêncio interior no apartamento, não havia muito o que falar. Ele não entendia a linguagem dos sinais e mesmo não havia assunto comum, nem os comentários triviais habitualmente usados nessas situações. Calados, um olhava para o outro entre aqueles móveis antigos e bem conservados. Natam colocou a mãos no joelhos para tomar impulso e se levantar, quando ela ficou em sua frente, por trás da mesinha de centro e abriu o roupão, escancarando o corpo todo nu, com os seios empinados e a penugem loira no seu sexo, contornados por curvas sensuais e sem qualquer vestígio de barriga.&lt;br /&gt;De olhos arregalados, recostou-se no sofá, sem esboçar qualquer gesto, estupefato, quando ela tirou por inteiro o roupão, deixando-o cair no chão e colocou as mãos na cintura, encarando-o com um sorriso nos lábios. Os olhos pareciam mais azuis, com um brilho especial, contrastando com sua nudez. Era algo gratuito, pois jamais ela demonstrara qualquer interesse por ele, nem esboçara qualquer gesto que pudesse sugerir algo mais íntimo, como um olhar furtivo ou um sorriso mais acolhedor.&lt;br /&gt;Ela era professora universitária, no tempo em que essa função representava uma posição de destaque na sociedade, através de boa remuneração e guardando uma dignidade imposta por um concurso público que poucos se atreviam a fazer, pela dificuldade de obter êxito. Não havia universidades particulares na cidade, aviltando a atividade de magistério, por uma seleção ineficiente e capenga e um salário degradante. Como professora do Curso de Direito da Universidade Federal, tinha como colegas de trabalho pessoas representativas da sociedade, como desembargadores, advogados famosos e assessores jurídicos de renomadas instituições públicas, dando credibilidade ao corpo docente. As faculdades da Universidade funcionavam em prédios distribuídos pela cidade, sem aquela idéia de vulgaridade do campus, como uma comunidade isolada, confinada aos muros da intransigência e do descaso do poder público.&lt;br /&gt;Ser professor universitário conferia à pessoa a respeitabilidade de um ser diferenciado, conhecedor de sua atividade profissional. Não era apenas um emprego, mas o coroamento de uma carreira, um destaque profissional e isso em plenos anos 70 do século XX, quando a massificação do ensino superior ainda não tinha implantado suas garras ferozes da avalanche de incompetências e falta de recursos.  Quando uma base teórica sobre o Direito, por exemplo, ainda consolidava carreiras brilhantes, no aconchego das arcadas do saber.&lt;br /&gt;Ela, cônscia da posição que desempenhava, jamais poderia imaginar que seria atacada, de forma tão covarde, dentro de sua própria casa, ampla e confortável, antes de ter de se mudar para aquele apartamento de classe média, como que clamando por segurança. Até então, sentia-se incólume a essas práticas que, para ela, constavam apenas da seção policial dos jornais populares. Isso, antes de o sangue e a desgraça alheia ser o objeto primordial do jornalismo, que hoje ainda se diz informativo, mas que destaca apenas a comezinha miséria de uma sociedade sustentada por um consumismo doentio.&lt;br /&gt;Desde a época do estupro, ela ficou tão perturbada, que teve que se aposentar por invalidez, por perturbação mental. Freqüentou sessões de psicanálise, vendeu a casa luxuosa e foi morar com o marido no apartamento em que estava. A princípio, não tolerava qualquer contato físico, uma abraço que fosse, e foi se distanciando do companheiro de estripulias sexuais, até que ele arranjou amante, que depois se tornou fixa. Ele não admitia que sua mulher tenha sido usada por outro homem, principalmente da forma grosseira e violenta como acontecera. Recusava-se a aceitar que ela não havia provocado ou insinuado, na sua ignorância de machão, ao chegar a casa e vê-la semi-nua, sendo possuída pelo invasor. Seu raciocínio estreito não concebia que se tratava de um estupro. Sua cegueira de homem que se sente traído, impedia de ajuda-la a se recompor emocionalmente, dando-lhe o desprezo de uma infratora.&lt;br /&gt;Ela, a partir de então,depois de certo tempo, se ocupava escrevendo um livro sobre Direito Penal, que nunca terminava, entremeando essa atividade com crises existenciais, depressões profundas que os remédios não combatiam. Saía de casa muito pouco, nos seus momentos de euforia, para fazer compras no supermercado próximo ou ir a um shopping center olhar vitrines ou fazer um lanche leve e perambular pelos corredores e escadas rolantes&lt;br /&gt;Com ela nua à frente de Natam, o silencio se tornou malicioso e um péssimo aliado, com eles calados, um olhando para o outro. Ele se levantou e, de imediato, abaixou-se para juntar o roupão e cobri-la, quando ela se abraçou em volta de seu corpo, de modo ávido e pungente e contrariando a sua mudez de quase dez anos, disse em seu ouvido baixinho :”faça amor comigo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O BLOG DE MARINA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                         A idéia surgiu, para Marina, como um protesto. Depois que inventaram blog na internet, todos se acharam literatos, mesmo em forma de diários insípidos de adolescentes. E esse recurso de informática criou má fama. Uma leva de textos açucarados ou simplesmente sem nexo  fez pedir silêncio, como se estivéssemos não em frente à tela do computador, mas se pudéssemos estar em alguma biblioteca de autores consagrados e aparecessem baderneiros. Esse grito de alerta aconteceu, realmente, em Curitiba, na Revista Oroboro, dizendo um  basta a CDs, blogs e festivais.&lt;br /&gt; Em meio a essa confusão, Marina, que fazia poesias,  criou um blog no provedor Terra, para divulgá-las. Não pôde colocar seus contos, porque não cabiam no formato. Tomou-o como um despretensioso espaço para suas angústias literárias, sem o alarido ou a grandiosidade de um site. Tinha em mente que era esse o futuro próximo e mais difundido de nova configuração do livro, como coisa concreta e não mais a ditadura das editoras e todo o processo dolorido de feitura de um, em suas fases, desde a aceitação pela editora até à noite de autógrafos, incluída a distribuição. A divulgação via informática seria natural pelo processo de busca, com o apoio de banners ou cookies, desde que, para o livro sair grátis para o usuário, houvesse um ou alguns patrocinadores. Essa seria a remuneração do autor, como nos livros encomendados por empresas.&lt;br /&gt;Não via necessidade do conhecido chavão de que era preciso pegar, guardar, acariciar o papel, naquela relação sentimental e nostálgica das bibliotecas particulares e públicas. Continuariam os bibliófilos, mas sentados em suas confortáveis poltronas, lendo ou armazenando seus livros em arquivos de computador. Para os mais renitentes, que os copiassem na impressora e os mandassem encadernar, obedecendo ao feitio original. Assim, não haveria carência de espaço físico, nem a conservação e manutenção dos livros, como não o há para criá-los. Bastaria um computador de última geração, talvez na forma de um celular ou algo semelhante, uma tela e a rede mundial de computadores, que talvez não se chamasse mais internet.&lt;br /&gt;Com essas idéias na cabeça, seus sonhos e fantasias à mão, começou a postar poesias e a saborear os comentários, inicialmente de amigos, escritos logo abaixo de cada texto. A cada dia Marina se empolgava com a idéia de ruptura com o antigo formato do livro e foi escrevendo no tempo livre do seu trabalho e dos afazeres domésticos, fazendo crescer seu blog nas madrugadas, com uma velocidade assustadora.&lt;br /&gt;Sua luta individual em tirar a mediocridade dos blogs foi se espalhando pela própria internet, na base do teclado a teclado e passou a ser não só entre amigos. Foi assim que chegou ao conhecimento de Marcelo essa espécie de pacto revolucionário. Ele pesquisou com amigos o MSN dela  e, com a maior desfaçatez, apresentou-se também como poeta e contista. Tiveram uma conversa formal de artistas, mas, desde o início, instalou-se um respeito recíproco, principalmente quando ela usou uma expressão poética de  conteúdo forte e ele respondeu com outro verso e, de frase em frase, fizeram, sem pretensões, um poema em co-autoria.&lt;br /&gt;Como se novos cânticos surgissem, emoldurando encontros, estabeleceu-se uma amizade que foi se transformando, paulatinamente, em sonoros arroios de amor, na urdidura de momentos fugidios e horários carcomidos. Ela era casada, mãe de duas filhas e um pouco mais velha do que ele. As intermitências do amor foram gerando ousadias que não se permitiam vulgares. Eram bem qualificadas para um amor a distância, onde a palavra escrita substituía os cinco sentidos tradicionais, em descrições que geravam emoções, na dosagem de um sentimento idêntico ao presencial. Os eflúvios da pujança do amor foram modificando e substituindo a conversa inicial, ficando sempre presente a caracterização do blog ou do site como uma nova forma, a longo prazo, talvez, de se apresentar o livro.&lt;br /&gt;A inconveniência dos horários em que se falavam via internet foi sendo substituída por outros momentos menos impiedosos com o estado civil dela. Não ficava muito confortável jogar beijos e fazer outros gestos carinhosos para a web cam, como se fossem para o nada, em pleno dia, com pessoas passando pelo studio dela.&lt;br /&gt;Os blogs cresceram, sempre com a troca de poemas entre eles como comentários, entretanto,  o tempo amoleceu a paixão. Vieram os sites e os livros eletrônicos de cada um, formulando vidas literárias próprias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA TERÇA-FEIRA&lt;br /&gt;  Naquela manhã, eu completava 54 anos e acordei vazio, desgostoso mesmo  com o encontro da noite anterior. Minha cama ainda exalava, em um canto, o cheiro do perfume da mulher cheia de classe, que estivera comigo.&lt;br /&gt;A boca estava amarga, pelos cigarros e pela bebida. Eram mais de dez horas de uma manhã de sol forte, como as desta ilha de São Luís do Maranhão. Comecei a pensar no inusitado de ter ficado com aquela mulher, daquela forma intelectualmente abrupta, conversando sobre filosofia e política, basicamente, quando poderíamos estar curtindo as delícias do sexo sem compromisso, como qualquer casal. Mas percebi que ela não era uma pessoa comum, daquelas que tratam a vida como simplesmente uma seqüência de momentos. Havia questionamentos em suas preocupações e uma pessoa assim não se leva inexoravelmente para a cama, sem certo preâmbulo.&lt;br /&gt;Nesse momento, interrompendo meus pensamentos e suposições, meu filho telefonou, avisando que ligasse, naquele instante, a TV, porque os Estados Unidos estavam sendo invadidos por terroristas. Pensei em repreendê-lo, pelo absurdo da idéia, mas um cansaço mental me fez agradecer e expressar-me com um simples OK.&lt;br /&gt;Liguei a TV e, por milhares de vezes, as torres gêmeas do Word Trade Center eram atacadas por aviões e caíam aos pedaços. Esse jornalismo exaustivo, massacrante e sem nenhuma criatividade, tão comum nos dias de hoje. Acredito que vi apenas umas duas vezes e depois fiquei ocupado, fazendo um nescafé e pensando em Lorna, na noite anterior.&lt;br /&gt;A maneira como nos conhecemos era pouco recomendável. Saí na véspera, em plena noite, tomando goles de uísque, até encontrar um bar que me agradasse. No terceiro barzinho, com música ao vivo, na orla marítima, pedi uma cerveja no balcão. A meu lado, uma pessoa muito branca, de cabelos louros compridos e soltos, tomava um refrigerante e me olhou como se eu não existisse. Fiz um cumprimento de cabeça e, não sei porque, disse: “ Olá, como vai?” Ela voltou a me olhar, como faróis focados de longe, e respondeu simplesmente: “tudo bem”, de uma forma bem solta, como se a retribuição do cumprimento fosse sugado de dentro de si.&lt;br /&gt;─Isto aqui tá meio fraco… intervalo da banda, música mecânica… calor… Qual é seu nome?&lt;br /&gt;─Lorna.&lt;br /&gt;─Lorna? Um pouco estranho, para esta ilha estranha, embora eu seja daqui.&lt;br /&gt;─Neta de estrangeiros…&lt;br /&gt;─Não se ofenda, nem considere uma cantada, mas ficar aqui, em pé… nesse calor … &lt;br /&gt;─Que estrangeiros – resolvi perguntar, sentindo que o rumo da conversa a desagradava.&lt;br /&gt;                   Ela era alta, para a estatura média de São Luís, o cabelo fino, alva, olhos pretos, um corpo apreciável, mas algo a tornava diferente das outras pessoas. Ela não estava ali como todos nós, para arranjar companhia, mas, também não consegui, de imediato saber bem do que se tratava. Era uma segunda-feira morna, com pouco movimento na rua e eu apenas saíra mais para comemorar meu aniversário, embora achasse que esse tipo de comemoração era apenas uma data de calendário que, depois dos cinqüenta, não se comemora mais.&lt;br /&gt;─Estrangeiros, você quer dizer suecos, italianos… &lt;br /&gt;─Os dois. Como você adivinhou? Já sei… meu tipo físico… - acrescentou&lt;br /&gt;─Você é turista ou…. &lt;br /&gt;- Vim visitar uma amiga. Ela está com o namorado, na terceira mesa à esquerda. Eles tão lá namorando… sabe como é!&lt;br /&gt;Pela forma de falar soube logo que era brasileira, mas não desta Ilha. Havia um certo e leve sotaque nordestino. Convidei-a para ir lá fora tomar um ar, mas ela negou, dizendo que gostaria de terminar seu refrigerante ali mesmo. Sua idade era meio indefinida, mas parecia jovem, de uns trinta a trinta e cinco anos. Insisti mais duas vezes e fomos nos encontrar perto dos carros, no estacionamento. Ela perguntou se não era perigoso e eu disse que achava que não. O local era bem iluminado e nos encostamos à frente de um carro antigo.&lt;br /&gt;─Não sei porque vim até aqui com você. Não é bem essa coisa toda de paranóia de violência… é que falta alguma coisa. – ela disse, sacudindo o cabelo, para se livrar do vento.&lt;br /&gt;─Você quer dizer um papo mais intelectual, sem essas besteiras que se fala nessas horas?&lt;br /&gt;─É, não sei… nossa evidente diferença de idade… você uma pessoa desconhecida… eu acho que estou meio perdida. Talvez fosse melhor eu voltar e ficar com meus amigos – a relutância me parecia sincera, mas, o fato de ela estar fora do barzinho comigo sugeria  certo ar de aquiescência, então resolvi insistir:&lt;br /&gt;─Engraçado! A pessoa que sai à noite para estes barzinhos, geralmente procura se divertir, encontrar pessoas e você está me parecendo ao contrário.&lt;br /&gt;─Não, não é isso …&lt;br /&gt;─Eu sou velho, chato e estou longe de ser uma boa companhia… - acescentei&lt;br /&gt;─Não, não é…&lt;br /&gt;─Está bem! Volto para dentro, peço mais uma cerveja e deixo você em paz. está bem assim?&lt;br /&gt;─Não, eu não quero magoá-lo. Mas é que estou com essa amiga e ela achou que não deveria me deixar só em casa. Ela queria sair…o namorado… sabe como são essas coisas…&lt;br /&gt;─Tudo bem. Então para você não dizer que está com um desconhecido, meu nome é Pedro Rafael de Sousa Oliveira, sou jornalista institucional, quer dizer, funcionário público, acabo de me aposentar e não sei o que fazer da vida – saiu tudo como uma metralhadora atirando, porque me parecia que havia algo nela que me agradava e que não se parecia em nada com aqueles tradicionais encontros da noite. É como se tivéssemos estabelecido uma conecção que nos atraía um para o outro, sem que isso estivesse muito claro. Não era uma simples atração física que se resolve na cama, rapidamente. Ela me parecia com a alma recheada, com algo a acrescentar e não simplesmente um corpo atraente. Resolvi perguntar:&lt;br /&gt;─E você? &lt;br /&gt;─Bem, eu sou Lorna Watviskova da Silva e também trabalho para o governo, no Ministério da Educação. Estou há alguns dias de férias nesta ilha maravilhosa e o resto dos detalhes fica para depois, se houver depois…&lt;br /&gt;-      Vamos sentar naquela mesa vazia ali fora e conversar mais um pouco.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                              ************&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Levantei com os olhos ardendo, naquela terça-feira conturbada, a cabeça doía um pouco, enquanto fazia bem lentamente o nescafé e tentava deglutir aquelas imagens da televisão. Não é que o mundo fosse acabar naquele dia, nem os Estados Unidos estivessem sendo invadidos. A TV  falava  muito em terrorismo, mas uma sensação estranha me fazia sentir que havia algo mais. Talvez uma reforma geopolítica no mundo, depois do fim da guerra fria – aliás, essa expressão é bem esquisita… as palavras não combinam! Mas Lorna não me saia da cabeça, por tudo o que nos havia acontecido na véspera. Havia deixado apenas o telefone da casa da amiga.&lt;br /&gt;Senti, então, uma espécie de impulso para lhe telefonar, e depois,  quando ela chegasse, abrir uma garrafa de vinho, cortar em pedacinhos uma porção de queijo  tipo suíço, e conversar mais, estar junto  dela. Falar sobre aquele momento especial de mudança do mundo, esquecendo o sentimentalismo das perdas irreparáveis, os traumas, a violência e a estupidez daqueles atos. Lembrei-me de que ela saíra de minha casa quase amanhecendo, na noite de segunda-feira e que não toparia um programa desses. Talvez ainda estivesse dormindo.&lt;br /&gt;Na véspera, depois de convencê-la, na mesa lá fora do barzinho, a ir até minha casa, que ficava próxima, ficamos conversando sentados na cama, vestidos, como chegamos. Eu tomando uma cerveja e ela água mineral com gás, que sempre tenho, para minhas ressacas.&lt;br /&gt;Fomos, aos poucos, nos descontraindo, pelo menos assim eu senti, com aquela filosofia banal, que somente certas dores provocam. Falamos do que faziam  trilhões de pessoas no mundo, naquele exato segundo, e uma lista enorme foi surgindo aos poucos e se acelerando com as inúmeras possibilidades. Conversamos sobre probabilidades de encontros e desencontros e foi nesse momento que propus abrirmos minha única garrafa de vinho do porto, guardada para ocasiões especiais, como estava sendo nosso descompromisso. Para meu espanto, fomos deglutindo pequenas taças daquela maravilha portuguesa. Ela estalava os lábios a cada gole esporádico e não cabia, naquela celebração, abraços e beijos, da paixão do álcool.&lt;br /&gt;Sentei-me no chão, tirei os sapatos e conversamos sobre a ordem do mundo, os vulcões dos sentimentos e as intempéries das relações sociais, sem que deixasse de notar as belas pernas longas junto a mim, nos eflúvios de meu lado animal.     &lt;br /&gt;                            **************&lt;br /&gt;                        A televisão me fazia sentir pelos outros, de tabela, naquela terça-feira pela manhã o oco dos solitários, quando resolvi ligar para Lorna. Para minha surpresa, foi ela mesma que atendeu, fazendo mudar minha estratégia, para convida-la:&lt;br /&gt;- Como vai Lorna? Você já soube da notícia do dia ?&lt;br /&gt;- Coisa horrível! É uma resposta bastante atrevida para os Estados Unidos – respondeu sem voz de sono, ativa como se tivesse dormido a noite inteira.&lt;br /&gt;- Você quer conversar mais sobre isso? Eu estou em casa, acordei agora, mas gostaria de conversar mais sobre isso. Trocar umas idéias…&lt;br /&gt;- Há um programa aqui para ir à praia. Mas não gosto de praias, minha pele… – sorriu desejeitada&lt;br /&gt;- Então venha aqui.&lt;br /&gt;- É eles já vão sair e aproveito a carona.&lt;br /&gt;Meu bairro era na chamada zona nobre, um grupo de prédios novos e grandes, encastelados no Renascença II. Minha casa pequena fica espremida em uma das ruas do miolo dos prédios. Era uma casa  em estilo americano, com uma sala em “L”, como dizem as imobiliárias, a cozinha dando para essa sala, através de um balcão pequeno e um quarto. Como eu não preparava comida em casa e não havia possibilidade de expansão do cheiro de coisas cozinhando, coloquei meus livros em estantes de ferro, daquelas que se compram para armar, que tomavam todas as quatro paredes, com mesa redonda e quatro cadeiras e um sofá a um canto. Parecia uma mini-biblioteca malajambrada. Tinha mais um note–book sobre a mesa, um pequeno aparelho de som e uma TV 20 polegadas, sempre ligada, além de um grande pufe velho, em couro cru,em estilo poltrona, companheiro de minhas leituras.&lt;br /&gt;Enquanto esperava Lorna, a lembrança dessas leituras me fizeram recordar a noite anterior, quando falamos da Escola de Frankfurt, Adorno, Habenas e do existencialismo de Sartre e ela quis se localizar, historicamente, sobre o surgimento das teorias desses autores, a influência, nos anos de 1960, do existencialismo de Sartre e Adorno com sua “Teoria Crítica”, na segunda guerra mundial. Conversamos sobre a palidez das teorias, mesmo as mais novas, para enfrentar os problemas atuais e nos perdemos nos desvarios da própria maneira do homem de se comportar nos dias de hoje, onde não há mais tempo para espantos.&lt;br /&gt;A campainha tocou. Saí daquelas lembranças e da letargia inicial que  me causou a notícia daquela manhã e comecei a atentar para seu real significado. &lt;br /&gt; - E aí, você tá com sono?  Cansada? – Ela surgiu na porta com uma saia larga, uma camiseta de manga cavada e o cabelo esvoaçante e desalinhado. Tinha um ar refrescado de quem passara a noite dormindo, o que não era o caso.&lt;br /&gt;Não. Eu gosto da noite, ela me anima. Dormi um pouco, mas tá bom. E você? Ta firme ou se fazendo de forte? – ela me perguntou em tom de brincadeira.&lt;br /&gt;- Aturdido! Essas notícias deixaram minha cabeça moendo coisas…&lt;br /&gt;- Que coisas?&lt;br /&gt;- A primeira que me veio à mente é que nós, latinos e acho que o resto dos subdesenvolvidos, temos a impressão de que os Estados Unidos são os defensores do mundo e, como nas histórias em quadrinhos, são inexpugnáveis. Essa foi uma prova de que não são. Ah! Desculpe, você não quer sentar, beber, comer alguma coisa?&lt;br /&gt;- Água. – ela respondeu seco.&lt;br /&gt;- Eu só tenho com gás…&lt;br /&gt;- Tudo bem! É eu sempre achei que terrorismo é uma palavra muito pesada, quando se trata de liberdade. Por que os mulçumanos têm de ter uma democracia, como a ocidental? Os modelos de democracia no mundo – ela parou para beber água – são uma droga. Grupelhos, verdadeiras gangs, como nos próprios Estados Unidos, onde Bush filho roubou ou roubaram para ele a primeira eleição. Aliás, um sistema fajuto de eleição indireta, contagem de votos primitiva, em um país de tecnologia avançada.&lt;br /&gt;- Isso me faz lembrar a velha e quase eterna guerra cristãos x mulçumanos, cada um querendo impor seus costumes, sua religião e, sobretudo, seu poderio econômico. O que as pessoas fingem ou não notam mesmo é que está havendo uma mudança colossal no mundo, em todos os campos. Veja o caso das meninas grávidas na adolescência.&lt;br /&gt;-Ah! Esse assunto me interessa muito, mas estou com calor – disse Lorna, interrompendo a conversa abruptamente e sacudindo a camiseta, com as pontas dos dedos nas alças.&lt;br /&gt;- Bem, só há ar-condicionado no quarto, tudo bem?&lt;br /&gt;- Tudo bem. – e ela foi caminhando, enquanto eu fechava a porta  e ligava o aparelho e o ventilador, para esfriar mais rápido. Ela sentou na cama soprando o ar dos pulmões e dizendo que não se acostumava à temperatura desta cidade. Eu estava com outro ânimo, diferente do que acordara e, em pensamento, deu-me vontade de pedir-lhe que tirasse toda a roupa, mas o nível do relacionamento não permitia.&lt;br /&gt;- Veja o que há com as adolescentes grávidas – ela passou a comandar a conversa. O volume de garotas grávidas é muito grande neste final e começo de século. Mas tudo é uma questão de costume e esse número enorme não é só no Brasil ou países do terceiro mundo. Acontece que nos países mais ricos esse problema é absorvido pelos setores de saúde pública e, nos Estados Unidos, não se olha o que se passa nos cinqüenta Estados, apenas chamam mais atenção as cidades mais conhecidas e famosas ou parte dessas cidades, como é o caso de New York, em que se vê apenas Manhattan e suas delícias cosmopolitas. As pessoas vão para a televisão e para os jornais, “os especialistas”, e dizem que deve ser combatida a gravidez na adolescência, que essas mocinhas perdem sua juventude, por falta de informação e outro monte de bobagens. O que eles não vêm é que os jovens estão cada vez mais jovens. Uma menina de 10, 12 anos sabe mais das malícias da vida do que suas reprimidas e desorientadas mães e netas, filhas dos anos 60. A vida está começando mais cedo para todo mundo e ainda há a balela de que os velhos estarão ficando mais velhos, se alterarem seus hábitos de vida.&lt;br /&gt;- Alguém já disse, não me lembro quem, que a gente deveria  nascer velho e ir ficando mais novo com o passar do tempo, até chegar a bebê e morrer… – falei apenas como um bobo complemento.&lt;br /&gt;- É um pouco disso! Eu que lido com o setor do ensino fundamental, no Ministério, posso te afirmar que esse conceito de adolescência, ao mesmo tempo em que vai até em torno dos trinta, nas classes média-alta e alta, começa, às vezes, aos oito nas classes baixas. A adolescência não é mais “aquela” de nosso tempo, quase uniforme,  Mudou e ainda ninguém encontrou o conceito.&lt;br /&gt;- Gostei de “no nosso tempo” – disse rindo, com certo sarcasmo – Vamos abrir um vinho… nacional, que esse papo tá bom.&lt;br /&gt;- Você, hem?! Tem um bom estoque de bebidas! Mas não, prefiro água.&lt;br /&gt;- Bom, eu vou abrir, se você quiser depois…&lt;br /&gt;- Mas sim, voltando ao que falava – ela dominou inteiramente a conversa, empolgada com seu discurso, enquanto eu começava a olhar seu cabelo louro alvoroçado, a fresta de sua camiseta na altura do seio e a saia demarcando suas coxas. Eu não me sentia mais solitário, com os dois copos de vinho tomados seguidamente, como a espantar meus fantasmas – Como eu dizia – salientou ela - assim são outros assuntos. Não há mais tempo para espantos. É preciso falar uma outra linguagem teórica, principalmente na educação.&lt;br /&gt;- E na política partidária também – complementei. Depois fiquei olhando para ela,  fitando olho no olho, e eu disse, para tirar o ritmo sério da conversa: - Mas você, hem! Tá com a corda toda!&lt;br /&gt;- Eu ando com isso engasgado um tempão e não tenho com quem falar. As pessoas não querem saber disso: só de consumo e de ganhar dinheiro.&lt;br /&gt;- E sua amiga e o namorado ou suas colegas de serviço?&lt;br /&gt;- Eles acham que isso é conversa intelectual, nada prático e, além de tudo, não alcançam certo nível de abstração. Não têm opinião própria, só repetem o que vem nas revistas semanais e nos telejornais. Não tiram suas conclusões. Minhas colegas fazem aqueles projetos idiotas, que nunca funcionam, repisando teorias antigas, maquinalmente, como se fosse uma fórmula … Não dá pra conversar…&lt;br /&gt;- Sobre isso que nós estamos falando, eu vejo a questão de forma mais ampla: está chegando o momento, sempre adiado, de se encontrar um modelo mais atual de maior confiança e maior eficácia do que a democracia. O exercício do poder também tem de ser repensado. A representação falhou e feio.  Eu não sei qual é esse modelo, mas deve existir. As formas atuais de governar ainda são do século XVIII, da revolução francesa. Os temas também: igualdade, fraternidade e liberdade. Não dá mais para conviver com isso. É muita falta de imaginação! – houve uma pausa um pouco longa com minha empolgação e perguntei:&lt;br /&gt;- Não vai nem um vinhozinho?&lt;br /&gt;- Você que me tornar alcoólatra!… – ela riu&lt;br /&gt;- Um pouquinho só…&lt;br /&gt;A conversa foi se desinflamando e, como no alvorecer do dia anterior,  parecia a hora para uma separação. Mas ela se chegou a mim e, abruptamente, nos beijamos.&lt;br /&gt;A televisão da sala ficou repetindo a queda das torres gêmeas do Word Trade Center, com os tradicionais comentários dramáticos, enquanto nos enroscávamos cada vez mais na cama fazendo o que não havíamos feito na noite anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O HOMEM QUE NÃO CONSEGUIA LER EM PAPEL&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não era analfabeto. Hamilton tinha doutorado em Ciências Sociais e uma graduação em Sociologia. Não tomava medicamentos que pudessem turvar sua concentração e visão, nem sofria de  Distúrbio de Déficit de Atenção. Mas não conseguia ler nada em papel, revistas, livros, jornais, nada que, também, tivesse um conjunto de palavras ou períodos muito longos. Nem bula de remédio. Uma situação desagradável, para quem ministrava a disciplina Relações de Classe Social, no Mestrado da Universidade Federal de sua cidade natal.&lt;br /&gt;Hamilton se sentia amputado nisso que, a princípio, considerou uma deficiência  e chegou a consultar diversos médicos e a fazer vários exames, físicos e psicológicos, mas nada fora encontrado que justificasse seu “problema”. Aceitava, sem desconforto, ler artigos breves na tela do computador, redigir mensagens e conversar no MSN. E assistia a filmes com legendas.&lt;br /&gt;Nos romances de costumes e livros científicos, de que tanto gostava, que iam se amontoando sobre sua mesa de trabalho, em casa, porque ele os comprava com freqüência  e se forçava a ler, dificilmente passava da terceira ou quarta página. Um espécie de idiossincrasia se instalara em sua mente e, por mais que insistisse,  acomodando-se em sua poltrona predileta, terminava logo por fechar o livro e a deter-se em pensamentos de outra ordem, embora ligados ao tema.&lt;br /&gt;Considerava-se uma pessoa voltada para o futuro, com pensamentos criativos sobre novas formas de relações sociais, que iam além da globalização e do consumismo da sociedade capitalista atual. Não tinha a desculpa para seu comportamento, que aos outros parecia estranho, como a interrupção de mulher e filhos, de vez que era divorciado e morava sozinho., produto da distância de seu curso na França, antes da transformação por que passou esse país, com a emancipação das colônias, principalmente as africanas.&lt;br /&gt;Não conseguia entender o avanço tecnológico em tantos campos do conhecimento e, ao mesmo tempo,  a mesmice burocrática em certos comportamentos na relações sociais, onde os benefícios da informática não eram utilizados, principalmente no Brasil e, pior, em sua ilha aconchegante, São Luís, capital do Estado do Maranhão. Só as contradições inerentes à natureza humana poderiam explicar.&lt;br /&gt;O controle social dos serviços públicos, na nossa sociedade de massa, praticamente não existia, embora, em alguns órgãos, tivesse a presença de computadores em rede, como símbolo de desenvolvimento de certas atividades. Nem sempre esses computadores eram usados e, quando isso acontecia,  o usuário adotava o mesmo raciocínio e procedimento da época do papel, sem se adaptar, realmente, a uma gestão operacional informatizada. Algo que dispensasse os famosos arquivos de aço ou as pastas em material plástico, que substituíram aquele calhamaço mastodôntico de A a Z, com a parte frontal preta.&lt;br /&gt;Havia uma justificativa impiedosa para tal procedimento e sempre  há para a acomodação. Não se rompe impunemente com o passado. O argumento era de que os computadores não eram confiáveis: havia queda de energia; eram frágeis e deterioravam seus componentes com a maior facilidade: e existiam limitações quanto a programas para fazer determinadas tarefas, como confrontar dados. Enfim, eram quase um acessório, auxiliando no trabalho diário. Essa ingenuidade escamoteava o poder dessas máquinas e demonstrava a preguiça mental em encontrar caminhos de execução, que substituíssem programas inexistentes e  a falta de corrente elétrica podia ser eliminada com a instalação de no break, sem que nenhum desses fatores pudesse gerar a perda de arquivos no processador. Além do que podiam se guardadas as informações importantes em CD ou equivalentes, sem presença de grandes locais de armazenamento, sua conservação e manutenção e com a facilidade de proceder a cópias, com a maior facilidade.&lt;br /&gt;Em um recente curso de aperfeiçoamento que fizera na Universidade de Havard, utilizava seu note-book para todas as atividades escolares, de simples anotações em sala de aula a trabalhos e pesquisa. Havia colegas seus que faziam isso por meio de celulares avançados, sem que uma folha de papel fosse usada. Sobre o balcão de atendimento, havia um pequeno computador em que qualquer pessoa preenchia formulários ou simplesmente fazia sugestões ou reclamações ou agendava entrevistas com os professores em seus gabinetes, se não estivesse ali com o seu instrumento de informática.&lt;br /&gt;Hamilton não se conformava com os textos longos, com a ausência de síntese. Apreciava a concisão da poesia. Na fase de sua dificuldade, chegou ao absurdo de pensar em contratar uma pessoa, uma leitora, mas viu a inconveniência em distrair-se com outros pensamentos e perder seu tempo, além de querer discutir o que era lido, se a pessoa tivesse condição para isso. E, se fosse mulher… outras distrações poderiam surgir, na saudável atração que deve haver entre os sexos.&lt;br /&gt;Conformado com o que chamou de sua deficiência, utilizava-se do que lhe oferecia a cada vez mais ampliada rede mundial de computadores, sem mais questionamentos ou reclamações. O mesmo acontecia com suas companheiras de Chat e de MSN.&lt;br /&gt;Hamilton era definitivamente um ser do novo século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM BAR, NA NOITE…&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A companhia era agradável, temerosa, pela amizade recente, expandindo olhares, sorriso inseguro, sondando odores. Nossa atitude, em forma de calma controlada, cheia de propostas de diversão, para aquela noite, foi abalada e quase destruída, no Bagdá Café, na Praia Grande, na província provinciana, de São Luís do Maranhão, entre o  norte e o nordeste, do Brasil.&lt;br /&gt;                   O histórico patrimônio, restaurado a custos muito, mas muito, elevados, pelo poder público (dinheiro público, o nosso! ) acentuava o bar-restaurante, nas cores vivas e no toque rústico colonial. É, também, a testemunha e o testemunho passivo do horror de nossa perda, de nossa derrota, de nossa escravidão, de nosso fracasso. Torna-se a imposição contundente de uma arquitetura portuguesa dos séculos XVI para XVII. Gritava, aos olhos mais esclarecidos, a nossa origem humilhada, subalterna, no servilismo do conquistado, colonizado e não rebelde: a maioria da população.&lt;br /&gt;                   A parede de pedra jacaré, presa com barro e cimento,  esqueceram-se da cal, compunha o cenário por  trás da nossa mesa, ao som bem feito, do imitador de Raul Seixas, chamado Wilson Zara, executor, também, de composições de outros autores, integrantes de uma vívida e vivida época, em nossos cabelos embranquecidos.&lt;br /&gt;                   O primeiro contato com esse bar, nessa quase madrugada, foi externo, na conservada rua de paralelepípedos. O nome Bagdá Café lembrou o livro, não sei se existe e não importa, e, obviamente, o filme, candidato ao Oscar. Alegrou nosso espírito, perseguido por diversão. O segundo, foi sentado, na parte de dentro, à mesa redonda, logo atendida por um dos donos, mais  cara de gerente, gordo, aparentando estar abatido pelo cansaço do descanso, o tédio inigualável dos imbecis, dos puxa-sacos, dos ávidos por clientela, a qualquer preço.&lt;br /&gt;                   Após, o pedido minguado: uma cerveja pequena, um tira-gosto de carne de sol com macaxeira e uma garrafinha de água mineral. A música de outros tempos acudia nossa conversa tateante, permeada por comentários maldosos sobre os outros frequentadores, palavrões rechaçados por ela e nosso evidente desconforto, entre um “você é um chato, exigente” e outros  julgamentos, censurando atitudes ou ilações inadvertidas dela.&lt;br /&gt;                   Exigência havia, diante da preguiça dolorosa, travestida de malemolência. A malemolência, de saudável malandragem e esperteza esperta, existente só em baiano, mas empunhada, desajeitadamente, pelos garçons. E não havia qualquer resquício da presença de  baianos! O atendimento a um pedido de sal, ao dono, com cara de gerente entediado, nos aniquilou, com um recipiente vazio (AO DONO!). O saleiro foi trazido à mesa e substituído, a duras penas, por um cheio, de onde nada saía. Depois, veio a sequência sofrida, fustigante, desanimadora, para quem buscava, apenas, o divertimento simples de um barzinho, músicas agradáveis, em um momento de chuva forte, mas esparsa.&lt;br /&gt;                   Feito, agora, outro pedido, um garfo e uma faca, a um jovem garçom, dos dois que se ocupavam com o salão. Esse garçom parecia na dependência da fabricação, dessa parte do talher, tanto foi a demora. O tira-gosto não demorou muito e sobrevoou,  pousando à mesa, enfeitado com alface e rodelas tristes de tomate, afrontando com o que parecia ser sua única e exclusiva função: a de esconder a carne dura, sebosa e a macaxeira velha, também dura, insossa, daí o pedido de sal. O afastamento imediato do prato, praticamente intocado, quis ser uma silenciosa e inútil forma de protesto, apesar de algumas teimosas tentativas.&lt;br /&gt;                                   O festival de desacertos culminou com minha necessária presença, quase constante, ao balcão de atendimento aos garçons e ao do caixa, onde se escondia, em uma cadeira baixa, o outro dono do lugar, mulher de feição azeda. Apenas por ter de solicitar algo desejado, os garçons não atendiam, fui  levado a esse comportamento, inclusive, para o pedido de fechamento da conta. Isso, sem mencionar a mesa suja, pelo início de nossa frustrada degustação, molhada por nossa bebida e gordurosa, com o passar do tempo. Nós mesmos limpamos, com guardanapo de papel liso, sedoso, umedecido na água mineral, da garrafinha. Que tempo levaria, se solicitássemos aos garçons indolentes! Esse bar, muito mal um Bar, mais do que o Bagdá Café do filme, era a própria Bagdá, destes novos tempos de dificuldades, restrições e sofrimentos, na outra guerra, no início de 2003. E na ocupação anglo-americana, em seguida, indevida, insolente, atrevida, terrorista, repressiva, petulante, pedante, agressiva, própria de um louco, alcoólatra, dislexico, filho de ex-presidente dos USA, George W. Bush e o ávido por firmar-se, politicamente, o inglês Tony Blair. &lt;br /&gt;                    Essas atitudes dos anfitriões desse bar, desta esquecida cidade, representam a tradicional, perversa e estúpida enganação brasileira ao turista.  Um verdadeiro tiro no pé, como se diz, principalmente, para um aprazível local, de belezas naturais incríveis e que deseja ser polo de turismo. E nós não éramos turistas! Estes, geralmente, possuem a definição de o imbecil, o idiota, o beócio, que visita um lugar desconhecido, ou retorna a este, para ser guiado, como automóvel velho, enganado nas indicações de endereços ou nos locais onde se aloja e explorado nos preços dos produtos consumidos.&lt;br /&gt;                   Um quase falso sono providencial surgiu e foi a deixa, para fugir desse ambiente, insalubre de aconchego, e, cada um, retornar ao que acreditávamos ser o sossego, um recolhimento saudável, depois dessa mini e desagradável aventura. Ah! Faltou citar a promessa firme, honesta e inabalável, de que não voltaríamos mais àquele ataúde insólito, para quem se propõe ser um Bar-Restaurante, de respeito, dignidade e obediente aos princípios de bom atendimento. Outra coisa importante: o aqui descrito parece invenção de escritor, de fértil imaginação, atribuindo a um fato criado, laivos, de verdade concreta. Mas há testemunha presencial, ocular e degustativa!&lt;br /&gt;                   Desculpe-me a companhia agradável, mas não poderia perder  esta oportunidade!&lt;br /&gt;OBS: Baseado em fato real&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OUVI DIZER…&lt;br /&gt;                                     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na sala miúda a luz da televisão prateava os ouvidos de Osmar. O telejornal inteiro transbordava o sensacionalismo da votação do impeachment do Presidente. Aquelas notícias vinham se infiltrando em seu cotidiano há alguns meses, mesmo durante os intervalos da programação. Não havia como escapar! Todos os canais repetiam entrevistas com políticos, empresários, advogados de defesa e acusação, sem contar os comentários de especialistas em política. Após o comercial de refrigerante, entrou a vinheta e o rosto sóbrio e confiável do apresentador. Depois veio o repórter, com o pano de fundo da capital federal, anunciando o dia da votação final. Não se conteve em expelir a notícia e acrescentou que a escolha daquele político corrupto ocorria porque o povo brasileiro ainda não sabia votar.&lt;br /&gt;A porta do apartamento se abriu e ela foi entrando com um pratinho de sobremesa. Sua vizinha sempre lhe trazia esses agrados, na proximidade do porta a porta no corredor. Sentado na cadeira de rodas, Osmar pensou em comentar com ela a afirmação do repórter, que lhe cravou fundo no embuchamento de sua incompetência também. Como se não bastasse o corpo mutilado pelo acidente de moto, ainda era obrigado a encapuzar , como todos os votantes, a alienação e a culpabilidade de escolher dirigente inadequado. Ela mesma se adiantou em seu tradicional short curto:   A votação do impeachment já tá marcada. Será que ele vai sair mesmo? Esse negócio de política… são todos iguais!                       &lt;br /&gt;Por não concordar, ele resolveu dar sua opinião contrária, mas sem magoar a vizinha. Afinal ela era quase sua única fonte diária de contato com o exterior. Tirando a televisão e a assinatura da revista semanal, não havia como se comunicar com as pessoas e as coisas a seu redor. Lenita lhe falava das fofocas do prédio, das notícias da cidade e até de certas peculiaridades das mulheres, nas conversas entre elas no supermercado e pelos corredores. De seu marido, queixava-se das viagens freqüentes e de algumas ausências prolongadas, sem descer a detalhes comprometedores, como fazia com suas amigas mais íntimas..                      &lt;br /&gt;Logo que eles se conheceram, Osmar chegou a pensar que ela era apenas um caso daquele “marido” ausente. Nessa época, ele alugara o pequeno apartamento com a ajuda da irmã. Depois de um ano internado, não se sentia bem na casa dos pais. A forma carinhosa e o excesso de piedade doíam-lhe mais do que a perna direita cortada abaixo do joelho e a esquerda amputada no osso do tornozelo. Quando saiu do hospital, tentou andar de muletas, para facilitar a locomoção e dar menos trabalho. Não conseguiu. Era como se o pé e a perna ainda estivessem ali, levitando, sem poder se apoiar no chão. Conformou-se inteiro à cadeira de rodas, empurrada pela irmã. Aprendeu a sair e voltar com destreza para seu refúgio ambulante, apoiando-se nos braços e nos joelhos. Foi quando decidiu morar só, mesmo com a aposentadoria encabulada de funcionário público. Apresentou como argumento à família a necessidade de se tornar independente, fazendo as coisas para si, em um ambiente onde prescindisse da participação dos outros. As ressalvas de que não abandonaria os pais e de que, de forma alguma, sentia-se tolhido em casa, venceram a resistência inicial, mas não esconderam uma desconfiança sutil nos sorrisos amarelos de aceitação. Mudou-se e apenas pediu carona à irmã, dispensando qualquer outro tipo de ajuda. Comprou à prestação uma daquelas cadeiras motorizadas, com assento estofado, embora houvesse a oferta dos pais. Usava as duas cadeiras, alternadamente: a manual e a motorizada. No íntimo, sabia que sua bunda, agora descarnada, não teria a mobilidade toda apregoada por essa tecnologia. Seu ânimo se ajustou à nova situação, embalado pela esperança de não ser mais um estorvo.                       &lt;br /&gt;Lenita apareceu em um estágio de plena adaptação. Não havia o que acrescentar, com ajuda física ou até psicológica, a uma pessoa que se movimentava impune aos gracejos carinhosos das crianças e à curiosidade alheia. Ela não lhe fez concessões, nem se atordoou com seus requebros de aleijado. Foi aceita também como a vizinha amiga, que compartilhava os mesmos problemas do bairro, do prédio e do ódio ao síndico, generalizado entre os moradores.                       &lt;br /&gt;Uma única vez, sentiu todos os seus nervos e a pele se levantarem. Foi quando ela se sentou retorcida no sofá, assomando-lhe as bordas internas de coxas e o perfil dos beicinhos íntimos, apertados pela calcinha azul. Ela não percebeu seu transtorno, encarando-o como outra mulher. E mudou de posição apenas quando foi apanhar o cinzeiro na mesinha ao lado. Dois dias depois, deixou de vê-la em seus sonhos e nas fotografias das mulheres peladas das revistas masculinas.                         &lt;br /&gt;Lenita voltou a ser novamente a amiga, no que ele acreditava ser uns vinte e cinco anos de pura espontaneidade e compreensão rasteira da vida. Era uma pessoa cooperativa e sem os grandes tumultos da ambição por dinheiro, poder ou diversão. Seu cabelo louro, no rosto fino sem pintura, transmitia uma aparência de desleixo asseado, sem o cheiro forte das épocas calorentas. Era quase uma visão ideal de mulher-companheira, não fosse uma irritação intrínseca, que aparecia nos músculos, visivelmente tensos, saltando dos ombros e na má vontade externada sem pudor, com quem não simpatizasse por qualquer motivo.                           &lt;br /&gt;Ela lhe serviu a sobremesa, estendendo-lhe um garfo. Alguns talheres, pratos e panelas circulavam nos dois apartamentos com a sem-cerimônia de ficarem meses em cozinhas diferentes. Ele não agradeceu o pudim, pelo hábito dessa troca de pequenos favores. Queria mesmo era conversar sobre política nacional, mas terminou falando dos seqüestros e assaltos, em plena luz do dia, a prédios das redondezas. Era uma forma de generalizar seu próprio caos, diante da perplexidade do país. Ao sair, ela insistiu na sua descrença da saída do Presidente. Osmar pensava diferente, baseando-se nos comentários da revista e nos escândalos que chegavam aos borbotões, uma palavra antiga que ele gostava de usar  com as imagens diárias, não deixando dúvidas a qualquer telespectador.                          &lt;br /&gt;Alguns dias depois, no fim da tarde, entediado com a televisão e sem nada agradável a fazer, lavou o pratinho e resolveu levá-lo a Lenita. Saiu pelo corredor estreito e acionou o trinco da porta, sempre sem a chave passada, para facilitar-lhe a entrada ou qualquer pedido de socorro. Esse lado preventivo ela nunca deixou bem claro, apenas era aspergido levemente com um “ qualquer coisa tô bem aí do lado”.                          &lt;br /&gt;A porta abriu. Na sala à sua frente a luta continuou entre os dois, com os corpos rolando no chão. Um homem a segurava pela garganta e com a outra mão segurava a camiseta comprida de malha, alcançando a calcinha já no meio das coxas. A presença abrupta de Osmar lhe deu a vantagem de poder atirar o pratinho, que bateu, como um cascudo forte em criança peralta, na cabeça do intruso. Ele largou Lenita e avançou rapidamente em direção à cadeira de rodas. Ainda surpresa, ela se levantou com um grito rouco. A televisão transmitia a parte preliminar da sessão de julgamento do Presidente, pelo Congresso Nacional. O dia inteiro daquela lengalenga não adocicava mais os ouvidos. Aguardava-se apenas o resultado final.                          &lt;br /&gt;Na penumbra da luz prateada na sala, Osmar conseguiu distinguir o revólver na mão que se aproximava. Estranhamente, o homem parou, deu um passo atrás e engravatou Lenita, com a arma próxima à sua cabeça. A blusa-vestido levantou até quase à cintura, no esforço que ela fazia para se livrar do braço sufocante. Não era momento para isso, mas Osmar não deixou de perceber o centro de penugens finas alouradas e parcialmente cobertas, no levanta-abaixa dos esfregões para se soltar. Na tentativa de superar o desespero, ele arremessou sua cadeira sobre as pernas do homem. E, na velocidade de braços fortes acostumados a grandes impulsos, levou a mesa redonda pela frente, conseguindo imprensar o atacante contra a parede. Travou a cadeira e ficou observando o revólver 38 deslizando pelo chão, rumo a Lenita, paralisada pela novidade da manobra. Enquanto ele gritava para que ela apanhasse a arma e começasse a atirar, o intruso se recompôs e foi arrastando mesa e cadeira, até se livrar da imobilização provisória. Com os olhos arregalados diante da indecisão por trás da arma apontada e, na dúvida, fugiu correndo pela porta.                       &lt;br /&gt;Ficou um silêncio de corredor comprido, invadindo a sala abobalhada. Ela começou a soluçar, arrumando a roupa no corpo e tentando puxar a mesa para o centro. Parando a andança do móvel e escapulindo hábil de seu retiro de rodas, ele se sentou escancarado com o que tinha de pernas. Abraçou-a de encontro ao peito. Foi inevitável. Os soluços aumentaram junto com uma tensão permissiva. A ereção se fez presente e seu tremor se envolveu à angústia, no simples contato das mãos atracadas à cintura firme, com o resto do corpo entre seus pedaços de pernas.A bermuda molhada no zíper denunciou a umidade escandalosa e distorcida, que os afastou rapidamente. Ela parou de chorar e passou a costa da mão no nariz pingando. E, com os olhos baixos, o rosto invadido de espanto, virou-se, bem devagar, na direção de seu próprio alarido. Osmar, extenuado por toda a emoção, retornou à cadeira e saiu do apartamento.Na sua poltrona escavada pela sua impossibilidade, ele devia também se sentir na comemoração do plenário do Congresso. A luz prateada também se rejubilava com o Brasil inteiro pela saída desvairada do Presidente. Ainda abalado, ele não viu, mas, de certa forma, sentiu-se entre alegre e humilhado.                       &lt;br /&gt;A convivência solidária de corpos distantes vivendo em espaços pequenos deu a Osmar a sensação de trair um compromisso. Ter se desmanchado sem penetração e, naturalmente, contra o desejo dela pareceu-lhe o desastre maior. Habituado ao seqüestro da solidão, percebeu-se mais distante do mundo lá fora, como ficam as pessoas isoladas em seus apartamentos, em noites de telenovelas e cansaço abalroado pelo tédio.                       &lt;br /&gt;No outro dia, pela primeira vez, ela bateu na porta antes de entrar. Furtiva e cerimoniosa, chegou ao centro da sala para espanto e constrangimento de Osmar. Na cadeira de rodas, olhava pela janela, que mostrava apenas parede e um resto de final de tarde Depositou o quadro e o revólver que trazia nas mãos sobre o móvel entre a cama e a mesa de jantar. Ainda não abandonara a idéia de ser pintora. Borrava telas e pedaços retangulares de duratex com a desfaçatez audaciosa de uma abstração sem sentido. A combinação de cores berrantes não justificava aquele espasmo artístico. Chegara a comentar, certa vez, que não queria filhos, para não atrapalhar sua futura carreira. Ela acreditava em um talento que talvez nunca pudesse ser levado a sério.                        ─ Trouxe este quadro pra você. Terminei ontem à noite. E queria que guardasse aqui esta arma - falou, apontando para a peça envolta em uma toalha pequena.O modo carinhoso como foi tocado no rosto, afiançou-lhe a certeza de estar sendo seduzido. A intimidade que os havia envolvido no dia anterior permanecia naquele momento. Ele encostou a cadeira na cama e lentamente deitou-se para recebê-la, sem aleijume, frustração ou timidez. Os tocos das pernas pontilharam no lençol o balé folgazão de esfregões e gozos, sem o constrangimento de culpas.&lt;br /&gt;A tarde finalizara com um café requentado e comentários desajeitados sobre sua pintura. Nada muito contundente, que pudesse magoá-la. O marido apareceu de repente na porta, ainda com a maleta de viagem na mão. A euforia com que Osmar rapidamente se empenhou nos argumentos sobre pintura deu-lhe a impressão de estarem falando sobre a situação política do país. O convite para os três jantarem mais tarde foi imediato. Com a mulher, nada de beijos calorosos. Parecia um reencontro fraterno de quem se vê muito. &lt;br /&gt;À mesa de jantar, a indignação do marido se juntava ao arrependimento de ter votado no Presidente. Sua revolta comandou a refeição improvisada. Osmar e Lenita se entreolhavam contrafeitos pela tarde relaxada. Nada de trágico poderia acontecer. Osmar tinha a insuspeita posição do mutilado, com corpo transparente e sentimento assexuado.&lt;br /&gt;A dor no seu desejo por Lenita residia na dúvida se foi uma entrega por simples agradecimento ou pior, se essa relação iria adiante. Não acreditava que se repetissem a suavidade dos gestos e o êxtase compartilhado naquela tarde, mas parte de seus sonhos deixaram de ser sonhos por ouvi dizer, alcochoando o universo de sua solidão. Com um novo Presidente empunhando o país!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ESQUECIMENTO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                    Naquela época, aos quase completos vinte e cinco anos, a perspectiva de vida era outra. Maria dos Remédios - a Dinha, como era conhecida no trabalho, retomando um apelido de infância, na sequência: Remedinho, Remedinha, Dinha - tinha dois objetivos definido: construir uma casa e ascender no emprego. Mais exatamente, refazer sua casa,  especada por pedaços de madeira de mangue, onde morava com a mãe. Para conseguir o segundo, teria de adquirir conhecimento instrucional, dignidade e alto confiança suficientes, para impor respeito a todos e ser reconhecida como uma pessoa trabalhadora, tenaz e capaz de ter a própria identidade. Feliz e sonhadoramente romântica, pleonasmo de reforço apenas, gostaria de obter independência, por inteiro, inclusive para a sua preferência sexual. Sem que qualquer pessoa, por mais qualificada que fosse, afrontasse seus desejos de lésbica, como uma doença, um desvio de comportamento ou, o pior, o latente e, ao mesmo tempo, exposto, preconceito ao dizer que não tem preconceito. Quem não o tem, verdadeiramente, nem toca no assunto. Jamais fala que é normal ou que nada tem contra… É corriqueiro, comum demais, como o tomar o café da manhã ou o estresse ao fim de cada dia de labuta…&lt;br /&gt;                   Perseguindo esse caminho, Dinha se interessou em buscar uma promoção no emprego público federal. Mas, era necessário fazer um curso, em outro Estado, para alcançar o passo seguinte. Teria de deixar a mãe sozinha, idosa e com pequenos achaques verdadeiros, além de outras doenças fundamentadas por uma hipocondria desesperada e escravizante. Haveria, também, o afastamento físico e talvez emocional, da colega-amante, na regional do, então, Ministério da Saúde. Sandra, essa colega, foi, praticamente, convencida, seduzida, envolvida com armadilhas sentimentais, sentimentaloides e disponibilidade excessiva.  Presentes caros e despropositados, ajudaram a levá-la para a cama com Dinha. Era uma loirinha de corpo frágil e debilidade maior nos sentimentos.&lt;br /&gt;                   A vontade de… a força, o ímpeto, a audaz ferocidade para ter sua vida desvencilhada de qualquer empecilho, impulsionaram seu desejo de possuir o suporte financeiro e o ego ainda maior, para conseguir sua finalidade. Ela foi para Campinas, na grande São Paulo, cursar as 550 horas de atividades, constantes da grade curricular, o que lhe daria o direito de exercer o cargo de Supervisor de Fiscais de Mata-Mosquitos, do Departamento de Parasitologia e Epidemiologia Urbana, conhecido como DPEU ou, abreviadamente, DPU. O cargo podia ter nome insólito, mas a remuneração era atraente.&lt;br /&gt;                   O sofrimento pessoal, a carência emocional contida, na ausência de afeto e recursos financeiros, foram mais um motivo, para enfrentar o desafio à sua frente. A bolsa de estudos,  beirando o ridículo: apenas o valor de pouco mais do salário mínimo, além de perder a gratificação, por exercer uma função de chefia, a nível funcional bastante subalterno. Ficou o puro salário-base e o complemento irrisório da bolsa, sustentando-a lá, com um custo de vida escorchante e a casa de sua mãe, em São Luís do Maranhão.&lt;br /&gt;                   Ao chegar a Campinas, procurou logo uma pensão com mensalidade bem barata, mista e condições de conforto mínimo. Era o jeito! Teria, ainda, de economizar, para soerguer a casa, em São Luís do Maranhão. O perigo de desabar, literalmente, causava-lhe uma preocupação constante. Uma vida difícil! Um sacrifício costurado e pregado pela satisfação pessoal, de fugir dos tradicionais padrões de mulher solteira, morando com a mãe, com a idade de então, naquele tempo de, quase unicamente, mulher-dona-de-casa. Além de tudo, sustentando-se com um empreguinho mequetrefe de funcionária pública. Funcionária pública, sim, mas perseguindo remuneração condigna!&lt;br /&gt;                   Esse sofrimento, em cidade estranha, se prolongou por longos dez meses, duas blusas, duas calças compridas, um sapato achinelado e amarfanhado , apostilas, uns poucos livros de bolso, em papel jornal, pechinchados nas bancas de revista. Era seu divertimento: esses inexpressivos livros, lidos e relidos, várias vezes, e as renovadas apostilas, a cada quinzena, aprofundando o conteúdo ministrado. Nas avaliações, prova oral ou escrita, , sempre tirava o conceito máximo. Essas conquistas eram desconsideradas pelos colegas, atribuindo seu sucesso no curso a uma dedicação insana, quase doentia e impossível de ser seguida por um ser humano, dito normal. Representava, para seus companheiros, a loucura, a mais profunda insanidade. E isso não tinha mérito algum! Apresentava-se como a excentricidade de mais uma maluca, conhecida lá, como Remédios do Maranhão.&lt;br /&gt;                   Ao final de todo esse esforço, um histórico escolar invejável e sofrido, para quem conhecesse os meios e os motivos, para sua obtenção. Chegou, por fim, o dia de receber o Certificado de conclusão do Curso. Para ela, sem poder, ao menos, exercer a sua sexualidade, a ausência de uma conversa, apenas mais sincera e com certa intimidade verbal, esse pedaço de papel, representava o passaporte para um novo cargo. Tinha o peso de uma vitória, com milhões de toneladas.&lt;br /&gt;                   A festa de entrega oficial, uma solenidade, no acanhado auditório da sub-regional de Campinas, foi enfadonha e teve, para ela, logo ao chegar ao local, o sabor de uma inesquecível humilhação. Todos os seus colegas portavam um crachá, com o Estado de origem, em caixa alta e o nome da pessoa, em letras um pouco menores. Interessava à política do Ministério mostrar à mídia a intensa qualificação de recursos humanos, no Brasil inteiro,  e não apenas parcial, para alguns Estados. Daí o crachá, escrito dessa forma.&lt;br /&gt;                   E não havia crachá escrito ESTADO DO MARANHÃO  -   Maria dos Remédios Braga. O choque foi tão grande, que ela ficou estupefata, ao contrário do habitual esbravejamento, da gritaria quase histérica, do formular de raciocínio contestador, raivoso e de agressão verbal. Ela entalou e, calada, olhou para os lados, para o peito dos colegas e sentiu um suar frio congestionante, um faltar de chão, uma paralisia atroz e inoperante. Todos os , agora ex-colegas, alegres, satisfeitos, eufóricos, portavam a representatividade bairrista de seus Estados, estampados na parte superior dos ternos e vestidos de noite. Ela, vestida com a menos escandalosamente inapropriada, das duas blusas, era o próprio lixo, desnorteada, mais solitária do que nunca, abandonada, impotente e, pela primeira vez, insegura.&lt;br /&gt;                   A solenidade começou e terminou com um discurso frágil, cheio de lugares-comuns, filosofias e psicologias atribuídas às mesas de bar, em uma seqüência aborrecida de vinte minutos de enfado. Ao final, como sempre acontece nessas reuniões formais, foi facultada a palavra a “quem dela quisesse fazer uso”. Apenas para obedecer a  uma demonstração de educação inútil e reconhecida como nunca usada.&lt;br /&gt;                   Mas, lá de trás, da última fila de cadeiras do auditório, Dinha se levantou e caminhou pelo corredor, no meio da sala, formado pela disposição das cadeiras. Poucas cadeiras de madeira pura, reservadas para concludentes e algum outro interessado ou curioso de última hora. Os olhares a sua volta eram de reprovação, de censura agoniada. Culminaram com a surpresa boquiaberta do sub-delegado regional, que presidia a seção. Mas nada podia ser feito! Era esperar, para ver o que aconteceria.&lt;br /&gt;                   Dinha se dirigiu à mesa solene, pegou o microfone curto, fez bastante ruído, ao desembaraçar o fio elétrico e começou a falar:&lt;br /&gt;                   - “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá” - falou, enfática e emocionada, o começo do poema de Gonçalves Dias. Sentindo-se mais aviltada, disse:&lt;br /&gt;                   - Esqueceram do meu crachá, com o nome do meu Estado querido e saudoso. E do meu nome, também! - a imprensa voltou a única câmara, a da TV Educativa, de propriedade do governo e outras câmaras fotográficas começaram a clicar. Jornalistas mantidos por obrigação de ofício, cumprindo pauta indigesta, espertaram, retomando seus caderninhos de notas, atentos, espantados e prevendo um escândalo. A futura notícia passível de um colorido sensacionalista  , carregada de mexerico, matéria ao gosto da grande maioria dos leitores, poderia surgir. Certamente, retirada, na edição, para os incertos telespectadores do jornal da TVE - Ela continuou:&lt;br /&gt;                   - O sabor de arroz de cuchá, das delícias de um bumba-boi diferenciado e autêntico, a macaxeira de minha terra não pode, jamais, ser esquecida! O meu esforço pessoal, a parte da federação que represento, não será jogada ao esquecimento, como camisinha usada, largada ao lado da cama - o nível do discurso foi se tornando mais contundente, na concomitância do aumento do tom de sua voz, da sua ira incontida, do seu desespero e no nada a perder: o Certificado já estava em suas mãos!&lt;br /&gt;                   - A insensatez dos que organizaram esta malcheirosa entregada de Certificado chegou ao cúmulo de desconhecerem a geografia de seu próprio país. O Estado do Maranhão existe! Faz parte do Brasil! Sua grandeza está na intelectualidade pura e espontânea de seus filhos, na poesia de suas belezas naturais, no existir, para ser reconhecido, como fonte de cultura, como o zeloso curador da originalidade da língua portuguesa, utilizada em nosso imenso território, essa Língua tão distorcida e afrontada, pela nação brasileira. Não poderia deixar passar em branco este esquecimento sem qualificativos, acredito que propositadamente esquecido. Muito obrigada!&lt;br /&gt;                   Depois, muitos anos depois,  o sonhado objetivo desfeito, aposentada no cargo em que saiu do Maranhão, para fazer o curso, e recontratada, em condições funcionais precárias,  tudo se modificou … E modificou, mesmo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS SEIOS DE MEDÉIA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Seios ao vivo eu já havia visto: pontudos, em forma de lágrima, totalmente caídos e das formas mais estranhas que alguém possa imaginar. Nos maus catorze para quinze anos, visitava frestas de portas entreabertas, entradas inesperadas nos quartos de minhas irmãs e praticava atos voluntários e solitários, sem esquecer dos seios semi-cobertos de minha vizinha. Há sempre a avezinha de uma vizinha, nem que seja no recôndito da alma dos adolescentes, barbados ou imberbes, até mesmo nos de idos anos, já babando ou nos que têm os acalentados braços de uma esposa. O que é certo  é a existência de um belo espécime de mulher, que pelo avantajado de suas formas ou pela doçura de seus gestos chama a atenção de todos os homens, na convivência mais próxima de uma rua ou de um prédio. Acredito que isto haja também para as mulheres, no saudável encontro dos sexos.&lt;br /&gt;Morava naquela idade, em um condomínio fechado de apenas um prédio e observava as entradas e saídas da vizinha, sempre acompanhada, na chegada, de sacolas de butique. Achava estranha a forma que os seios dela adquiriam, dependendo do tipo de roupa que vestia. E não conseguia, por mais que me esforçasse, atribuir na memória uma forma definitiva para aqueles seios. Ora assumia o molde e o tamanho do decote, ora de um acinturado em baixo dos seios – aliás, já falei muito em seios, talvez pudesse chamar de peitos, mas me parece muito grosseiro para uma parte do corpo tão delicada, sutil na sua movimentação e nada agressiva, na sua aparência externa.&lt;br /&gt;Não sei como chamar a essa parte do corpo de uma mulher, que tem a  aparência de não fazer parte do todo feminino, como para os quadris, as ancas, numa linguagem mais pornográfica. É algo que se sobrepõe, é uma afetação, mas não agride e, ao mesmo tempo, a estética sente sua falta.&lt;br /&gt;A dona desses seios era uma senhora, variando pelos trinta e cinco anos, que sempre estava às turras com o marido, dando ordens ou exigindo alguma coisa. Certa vez, no estacionamento do prédio, onde brincava com outros colegas, fui convocado com certa rispidez, para ajudá-la com algumas sacolas. Ela se curvou para pegá-las e minha dúvida aumentou sobre a conformação daquelas duas formas de exuberância. Com o corpo ereto, as formas se modificavam, de tal maneira, que nada tinham da forma anterior. Aquilo ficou em minha cabeça, dando voltas, fazendo com que cada vez mais eu especulasse como seria mesmo o formato daqueles seios. É claro que qualquer parte do corpo se altera, conforme a postura e a roupa que se usa. Mas não daquela maneira tão abrupta e radical. Na porta de seu apartamento, fui exonerado de minha função de carregador, sem a menor cerimônia, como se fosse uma obrigação minha.&lt;br /&gt;Eu não conseguia conversar com meus colegas de prédio ou de escola sobre essas dúvidas. Os do prédio, pareciam intimidados pelas glorificantes pernas grossas, bunda volumosa e os compridos cabelos louros, tudo envolvido pela aspereza com que tratava as pessoas, principalmente o marido e os menores. Eu também me sentia pouco à vontade e estudava com muito cuidado, para não ser pego nessa curiosidade, que aproveitava para compor meus desenhos em um caderno próprio, muito bem escondido de todos. Na escola, não adiantaria falar sobre o assunto, porque meus colegas não conheciam a indigitada e, além disso só se interessavam pelas revistas de mulher pelada, onde tudo estava bem defino e concluso.&lt;br /&gt;Procurei, então, fazer amizade com um rapaz do prédio, que tocava violão. Com a desculpa de aprender a tocar o instrumento, enfiei-me em seu apartamento, no mesmo andar da vizinha, que dava os fundos para o de trás, exatamente para uma janela de um quarto. Todo esse trabalho, porque achava os seios a parte mais difícil do corpo, para desenhar. Havia muitas nuances a serem levadas em consideração: os seios da mulher são vida, equilíbrio, beleza, simetria, luzes deslumbrantes de dois bicos incandescentes e a maestria das curvas. Dos que já conhecia sem adereços ou vislumbrados através de tecidos ou bugigangas de carnaval, nenhum deles me intrigaram como os daquela medéia. Nos corredores ou na garagem, apresentavam-se cada vez mais de forma bem diferentes: longos, afunilados ou cheios e voluptuosos ou ainda pequeninos e discretos, como se merecessem uma plástica, para adquirirem sua integridade com o resto do corpo. Era como se a cada dia tomassem forma diferente. Naquela época ainda não havia os recursos plásticos de hoje, pelo menos que eu soubesse, trazendo-me mais estranheza para tantas facetas.&lt;br /&gt;Os longos cabelos louros faziam uma espécie de contratempo àqueles seios multiformes e lhe emprestavam uma graça, que o rosto de lábios grossos, visto separadamente, não aparentava. Tinha uma expressão sisuda, zangada mesmo, como se a vida lhe fosse um eterno estorvo. Nunca a vi sorrindo, a não ser de sarcasmo, mesmo que a testa estivesse desanuviada. Era um tipo de esfinge de cara dura, lá no alto, gestos abruptos e uma leveza espantosa para tanto corpo. Causava certa estranheza entre os demais moradores, pelos seus modos, traduzidos por uma indiferença, como se a raça humana não passasse de uma fratura no processo evolutivo da espécie. Era o tipo de mulher vistosa, vista de longe, que poderia ser chamada de “uma chata”, por quem a visse de mais perto.&lt;br /&gt;Apesar de toda a rejeição que provocava, compunha também minhas fantasias, na hora de um alívio solitário, até porque a garota da minha idade, que eu considerava a mais bonita do prédio, fugia-me da mente, como uma criatura normal e eu não conseguia captura-la dentre meus fantasmas eróticos. Essa garota era o intocável, dentro da represa judaico-cristã de minha formação e de meus sonhos.&lt;br /&gt;Esgotava-me em visitas a meu amigo tocador de violão e não conseguia ver meu objetivo se concretizar. Até que um dia, no final de uma manhã, a cortina do quarto estava aberta e ela entrou encoberta por uma toalha de banho. Olhei para os seios e eles estavam achatados pela pressão do tecido. Até hoje, não pude terminar o desenho que fazia dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VIAGEM DE D. QUIXOTE COM A DOIDA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                         No glossário ideado de minhas aventuras, há um verbete, com muito poucas palavras, que diz: A viagem da doida com D.Quixote. Especifica apenas que encontrei uma mulher que se dizia doida e que andava com o cavaleiro dos moinhos de vento. Lembrei-me disso agora pela saudade que sinto do que ela chamava de ilusões, fantasias, porque viajávamos pela internet, na ternura de doces palavras e imagens e na voz encantadora, pelo celular.&lt;br /&gt;Encontramo-nos em um Chat de idades, acima dos 40 e conversamos sobre poesia, contos, crônicas e idéias foram surgindo como olhos d´água, em um tom sério, quase acadêmico, evoluindo para uma conversa com imagens pelo MSN. Trocamos nossas poesias, desilusões e desejos, na fartura de decepções que o cotidiano nos oferece. Morávamos em pólos opostos do país, mas nos sentíamos juntos, na mais íntima das intimidades: a intelectual. A proximidade física, também, foi se fazendo presente, até no cheiro do perfume que ela me dizia usar, nos olhares angustiados, nos sorrisos fortuitos, na leveza ardente do desejo, na necessidade  urgente de nos tornarmos mais do que uma imagem. Foi quando resolvi atravessar o Brasil inteiro para ir a sua cidade. Seria uma loucura minha, mas ela achou interessante, apesar de ser casada e morar com marido e filhas. Tenho a impressão de que não acreditava que pudesse fazer isso.&lt;br /&gt;Foi aí que se chamou de doida ao aceitar minha proposta de nos encontrarmos fisicamente. E, também, me chamou de D. Quixote, porque iria combater moinhos de  vento. Não se achava atraente o suficiente, para tão inusitada aventura pelo país afora. Essa modéstia que algumas mulheres têm, quando estão cientes das limitações que a vida nos impõe, a todos nós, mesmo os que se acham bonitos. Mas ela não era feia, ao contrário, possuía uma beleza não convencional, mas não fazia disso seu objetivo de vida. Cabelos compridos, um rosto expressivo, um torcer de lábios não correspondendo ao que dizia, um busto farto, mas não exagerado, a tristeza dos artistas e era tudo que a câmera on-line permitia ver.&lt;br /&gt;A preparação para a viagem foi tumultuada. Tinha que inventar desculpas no trabalho e em casa, mas consegui me desvencilhar, inventando um Congresso de Psiquiatria, em Porto Alegre. Algo assim como “Os aspectos Fármaco-Psiquicos na Psiquiatria do Século XXI”, que falaria sobre a influência da neurologia sobre a psiquiatria, no que dizia respeito à estabilidade de doenças crônicas. Um assunto atual e convincente para meus pacientes, para a família e para o hospital onde trabalhava. Fui tão convincente, no hospital, que ganhei da Diretoria as passagens aéreas para Porto Alegre. De lá, seguiria para meu destino, uma cidade ao norte do Rio Grande do Sul.&lt;br /&gt;O mês de março caminhava sempre lento, em todos os aspectos, desde o retorno real às atividades produtivas no país  ao esticar do salário do trabalhador, para totalizar o mês de 31 dias, com compromissos a pagar com as despesas  do carnaval. Em minha cidade, no nordeste, chovia, mas não fazia frio, mas tive que colocar na mala casacos, jaquetas e roupa grossa, para não ter um pequeno choque térmico.&lt;br /&gt;Passeei, dentro de um avião por este país inteiro, com troca de aeronave duas vezes, até chegar à capital gaúcha. Foram muitas horas de viagem com a expectativa e a ansiedade dos vendavais, das tumultuadas fustigações da mente, sem saber o que me esperava, como seria recebido, que impressão causaria e qual a que sentiria, quando chegasse à cidade de minha amada virtual. Tudo parecia uma loucura que eu comparava com a dos antigos descobridores, no século XV, incluindo o sofrimento físico e a tensão dos aventureiros, embora a minha aventura tivesse cinto de segurança, em todos os sentidos.&lt;br /&gt;Fui de Porto Alegre, POA, como é conhecida, até à cidade de meu encontro amoroso, sentindo a brisa fria do ônibus e apreciando a paisagem, que cada vez mais se tornava agrícola, sob a névoa de um dia cinzento. Vesti um casaco grosso desde o aeroporto e me sentia estranho com aquela roupa grossa, um visual diferente, dando-me a sensação de um estrangeiro nos pampas, o que não deixava de ser.&lt;br /&gt;Na rodoviária, tomei um táxi e indiquei o endereço do trabalho dela, na parte central da cidade. Deixei o táxi e subi uma pequena escada larga, naquele prédio de estilo arquitetônico duvidoso, mas bonito e imponente e andei pelos corredores procurando por Alicia Chavez, até me indicarem que era no segundo andar, a segunda sala à direita. Abri a porta, olhei em volta da sala e ela estava escrevendo no computador a um canto. Fiquei à sua frente, ela levantou aqueles olhos tristes e, como se não tivesse surpresa, disse apenas:&lt;br /&gt;─ Você chegou, que bom!&lt;br /&gt;Ela era exatamente como aparecia na câmera do meu computador, mas estava alegre e sorridente, sem aquele ar sofrido que me aparecia todos os dias na telinha. Tomou a minha mão  beijou discretamente e falou:&lt;br /&gt;─ Vamos sair daqui – e foi me levando pelo braço, como se deixasse tudo para trás, dirigindo-nos ao estacionamento.&lt;br /&gt;Dentro de seu carro, beijei-a com mais força do que devia, com uma avidez de quem não se beijava há muito tempo e que, na verdade, nunca havia beijado. Eram dez e meia da manhã, fomos ao colégio de suas filhas, colocando-as no carro e fomos até sua casa, onde ela e as filhas fizeram as malas. Chamamos um táxi, enquanto ela  rabiscava um bilhete na sala, que eu acreditei ser para o marido e fomos ao aeroporto. Fretei um bimotor e voltamos para POA, quando ela me perguntou no ouvido:&lt;br /&gt;─ Para onde vamos, o que direi às meninas? – vi suas coxas grossas no vestido largo, seu jeito cheinho e sexy, sua mão sem aliança, passei a mão na cabeça das meninas e disse:&lt;br /&gt;─ Vamos para minha cidade, minha ilha querida e aprazível, onde não há moinhos de ventos, nem manicômios e diga a suas filhas que você tem um novo amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS SALTOS ALTOS&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                        Ele estava com o corpo moído, literalmente até a medula, a cabeça pesada, não tanto que não pudesse escutar os saltos altos da vizinha de cima. Começou a imaginá-la loura, volumosa, grande, morando sozinha, quando, em certa noite, na sua insônia persistente ouviu o bate de duas portas de automóvel, na garagem do prédio. Minutos depois, ouviu novamente o ruído dos saltos de sapato, o mesmo som de quem faz o percurso da sala ao quarto, nos apartamentos médios e iguais, em que moravam no prédio. Caiu o primeiro pé do sapato e ele ficou, como na piada, esperando cair o seguinte. A demora lhe pareceu longa demais. Ficou a imaginar que, não estando ela sozinha, o outro sapato demoraria muito a cair e, talvez, não caísse sobre piso.  A cena foi se formando em sua cabeça, com o zíper de um vestido preto, sendo abaixado até a cintura, aparecendo uma pele de neve, camuflada por uma penugem loura, como se fosse o cetim da poltrona antiga em seu quarto. Imaginou carícias preliminares, um resfolegar lento e encadeado, o restante das roupas se desprendendo atônitas dos corpos, na volúpia ensandecida dos amores contidos. E nada do outro pé de sapato cair, Talvez estivesse ainda calçado ou desprezado  a um canto da cama, enquanto beijos e carícias se desprendiam da avidez de querer mais e cada vez mais o prazer. Ou, simplesmente, o sapato foi tirado com a lentidão de um coquetismo e pousado levemente no chão.&lt;br /&gt;                        ******************&lt;br /&gt;                    Em sua fase terminal da doença, se deixava levar por esses eflúvios de lascívia e languidez, quando a dor não o estava atormentando. Sentia e participava do mundo pela televisão, esse espelho falante, sempre ligado, trazendo-lhe uma realidade distorcida em atos e fatos de uma vida, que não correspondia às verdadeiras relações entre as pessoas. Só ouvindo, pois a cabeça afundada na perplexidade, visualizava contextos , em sua prodigiosa imaginação. Impossível vê-las por algum tempo. A brutalidade de atentados e guerras, como a segunda dos EUA contra o Iraque lhe parecia um jogo de vídeo game, com um aparato tecnológico sufocando uma população, esmagada pelo medo, mas, ainda assim, resistindo à intromissão indevida. Até certo ponto o controle da produção de petróleo era o real motivo daquela insanidade, em nome da democracia. Como sua doença, todos sabiam que o Iraque, não teria a menor condição de resistir, apesar dos esforços terroristas do lado islâmico. Outras aberrações faziam parte de seu cotidiano, vindas da tela pumblea, como a putrefata  corrupção no governo Lula, de consistência maciça, que atordoavam sua consciência de cidadão e não se comparavam, nem de perto, com sua doença degenerativa, certa e irreversível. Mas isso não lhe havia tirado ainda a inconformação e o desejo de ser gente, mesmo atirado, permanentemente, a uma cama. Assim, procurava distrações extras, como a vizinha de cima.&lt;br /&gt;Os movimentos dos saltos no andar superior, em horário certo, eram a certeza de que ainda estava vivo, consciente, apesar das desgraças do mundo lá fora. Uma forma de vida vivida, pois todas as suas lembranças eram um passado/presente sempre revivido. O ruído de calçar os sapatos, empurrando as pernas para um lado e para o outro, até que se acomodassem por inteiro, faziam-lhe ver um corpo ereto, sustentado por coxas e pernas grossas e uma bunda condizente, como se ela estivesse nua e ele pudesse ver de baixo sua genitália, assim como quase todo o seu corpo, até a ponta dos seios. Pelo som da movimentação, era como se ela estivesse sobre ele. Mas, ao perceber que ela se movimentava pelo apartamento, parecia-lhe que sua vagina se contorcia, protegida por uma calcinha fina e desejável.&lt;br /&gt;No meio da tarde, passos infantis marcavam, como um bunbo fora de compasso, uma batucada insólita. Logo em seguida, os saltos altos eram calçados por pés que ele sentia afrouxados, em outra marcação, parecida com as das matracas.&lt;br /&gt;Esse sonho, alimentado dia-a-dia, era uma espécie de morfina sexual, pois sua situação de  quase imobilização não permitia torna-lo realidade, com seu corpo praticamente morto pela leucemia. Talvez, por isso, ele se dava ao luxo de vê-la também morena, de uma cor especial, um lusco-fusco entre mulata clara e mulher do oriente, como as de Taiwan, Cingapura, Filipinas e outros países próximos. Uma morenice diferenciada.&lt;br /&gt;Coxas volumosas, roliças e firmes, em um arcabouço de um metro e oitenta, sustentado por saltos não muito finos e altos, nem da largura de um começo de rolha de garrafa de champanhe fechada, nem fino como o bico de aves. O cotidiano tradicional de pernas grossas, de executivas de trailer, cabelos encaracolados e presos apropriadamente para o trabalho. Era assim que a imaginava morena.&lt;br /&gt;Loura, morena, não importa em seu sonho. Tinha a vantagem de serem duas, pelo menos. Via-as sempre com um corpo perfeito, cheio de desejo, como sua mente vivia, mas com o correspondente sexual mais morto do que ele.&lt;br /&gt;Essa rotina de ruído de saltos altos alimentava seu espírito, como se levasse uma vida normal. Acompanhava os horários de sua dona, como se ele também trabalhasse e, nos fins de semana, saísse para se divertir.&lt;br /&gt;Lembrou-se, então de outra vizinha, logo que a doença se instalou em seu corpo e ele se locomovia de cadeira de rodas. Era porta a porta, o marido dela viajava muito e, em sua comedida e controlada solidão, encontraram-se, certa noite, na cozinha do apartamento dela. Ele sentado sobra a pedra da pia e os dois fazendo amor, de forma desenfreada, agônica, erótica e muito cheia de prazer. Mas essa é outra história.&lt;br /&gt;Os ruídos dos saltos altos desapareceram, na noite de mais um atentado em Bagdá. Ouvindo notícias estranhas a toda hora, pela televisão sempre ligada, sentiu falta dos toc-toc costumeiros. Dois meses depois, fora de qualquer hipótese de férias da dona dos saltos, nunca mais ouvira outro salto de sapatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                   *       *        *&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-6582694928846780682?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/6582694928846780682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/livro-de-contos-i.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/6582694928846780682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/6582694928846780682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/livro-de-contos-i.html' title='LIVRO DE CONTOS I'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-6239799266270739082</id><published>2009-04-08T22:18:00.000-07:00</published><updated>2009-04-08T22:20:49.025-07:00</updated><title type='text'>LIVROS SOBRE ARTE</title><content type='html'>ESTÃO POSTADOS 2 LIVROS SOBRE ARTE: FIAPOS DE ARTE E FILOSOFIA   DA ARTE&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-6239799266270739082?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/6239799266270739082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/livros-sobre-arte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/6239799266270739082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/6239799266270739082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/04/livros-sobre-arte.html' title='LIVROS SOBRE ARTE'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-2138903369526393114</id><published>2009-02-20T23:55:00.000-08:00</published><updated>2009-03-16T06:19:44.969-07:00</updated><title type='text'>FILOSOFIA</title><content type='html'>SARAIVA 23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIAPOS DE ARTE&lt;br /&gt;(Temas sobre Filosofia da Arte)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 0 0 9&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meus pais, pela integridade&lt;br /&gt;cultural que me proporcionaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às reviravoltas da vida que&lt;br /&gt;independem de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meus pais, pela integridade&lt;br /&gt;cultural que me proporcionaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às reviravoltas da vida que&lt;br /&gt;independem de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos que não conheço,&lt;br /&gt;que não sei se ainda me pertencem&lt;br /&gt;e de que cor são.&lt;br /&gt;O AUTOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;S U M Á R I O&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1- APRESENTAÇÃO ...............................................................................&lt;br /&gt;2 - O SENSO DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA.......................................&lt;br /&gt;3 – GRAFITAGEM E PICHAÇÃO...........................................................&lt;br /&gt;4 – A GRAFITAGEM NA MISTURA DE ESTILOS...............................&lt;br /&gt;5 – ALEGORIAS DO AMOR NA PINTURA...........................................&lt;br /&gt;6 – SÉRIES PICTÓRICAS......................................................................... 7 – ARTE, CIÊNCIA E TECNOLOGIA....................................................&lt;br /&gt;8 - UMA EXPOSIÇÃO E UM MUSEU TEÁTICO..................................&lt;br /&gt;9 - ARTE: UM MUNDO FECHADO........................................................&lt;br /&gt;10 – UM OUTRODUCHAMP.................................................................... 11 - O CONCEITUAL NA ARTE COMTEMPORÂNEA (I)....................&lt;br /&gt;12 - O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (II)...................&lt;br /&gt;13 - O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPURÂNEA (III)..................&lt;br /&gt;14 - O ENGODO DA FOTO, O CINEMA E A PINTURA........................&lt;br /&gt;15 - O ESTILO NA PINTURA E NAS ARTES.........................................&lt;br /&gt;16 - A MESCLAGEM DA TEMÁTICA ABSTRATA COM FORMA FI-&lt;br /&gt;GURATIVA.........................................................................................&lt;br /&gt;17 - EMPREENDEDORISMO E MARKETING NA ARTE.....................&lt;br /&gt;18 - CINEMA DE ARTE............................................................................ 19 - O CURTA-METRAGEM NO CONTEXTO DA ARTE....................&lt;br /&gt;20 - LITERATURA PARA E-BOOKS.....................................................&lt;br /&gt;21 - O CONTO E O CURTA-METRAGEM.............................................&lt;br /&gt;22 - AS PALAVRAS NA ARTE...............................................................&lt;br /&gt;23 - O PURISMO DA LÍNGUA NA ARTE.............................................&lt;br /&gt;24 - ARTE E CRIME................................................................................&lt;br /&gt;25 - O PONTO CEGO E A ARTE............................................................&lt;br /&gt;26 - OBESIDADE NA ARTE...................................................................&lt;br /&gt;27 - A VIRTUALIDADE..........................................................................&lt;br /&gt;28 - O NOVO............................................................................................&lt;br /&gt;29 - O QUE SERÁ DE MINHA PINTURA?...........................................&lt;br /&gt;30 - A ARTE DESPROTEGIDA..............................................................&lt;br /&gt;31 - POLLOCK: UMA EFICIENTE BRUPTURA ABSTRATA............&lt;br /&gt;32 - PINTURA: MÃE DAS ARTES?......................................................&lt;br /&gt;33 - SERÁ ARTE? O QUE SERÁ?.........................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APRESENTAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carência de trabalhos que enfoquem a Arte Contemporânea como a arte do final dos anos 90 em diante é extrema, havendo sempre uma confusão quanto aos períodos históricos em que se dão os últimos movimentos da arte, principalmente da pintura. Há autores que até confundem obras do período modernista e pós-modernista com arte contemporânea, como se encontram estampadas na maioria dos atuais compêndios sobre arte.&lt;br /&gt;A finalidade deste trabalho, como consta, também, do nosso primeiro livro “Filosofia da Arte:A Pintura e o Método do Materialismo Dialético”, é trazer temas complexos sobre arte de uma forma simples, acessível na linguagem, para que entendidos e leigos possam debater ou interessar-se por um conteúdo artístico. Com o enfoque sempre na pintura, são tratados, porém, outras questões relativas às artes, de um modo geral, assim como o entrosamento teórico sobre elas, sempre em busca do pulsar criativo que as faz existir.&lt;br /&gt;A preocupação maior na exposição dos temas é com a arte contemporânea, a forma como se apresenta e a concepção volátil de seu conceito ao longo da história. O que hoje é arte contemporânea amanhã levará um rótulo referente à sua época e passará a surgir nova arte contemporânea.&lt;br /&gt;Muitos estudiosos da arte não conseguem visualizar essa forma evolutiva do caminhar no mundo artístico, principalmente no que diz respeito à produção contida nos anos 50, 60, até 80 ou 90. Fazem uma enorme confusão do pós modernismo com arte contemporânea, de vez que usam um critério temporal dessa arte.&lt;br /&gt;Essas e outras questões estão em pauta neste livro, buscando suscitar discussões. O método encontrado para isso foi não procurar esgotar os temas levantados, mas apenas fazer sugestões, como deve fazer a literatura para e-books, com textos breves, degustáveis, sem referencial no pensamento de outros autores.&lt;br /&gt;Deixa-se para o possível leitor de tela a criatividade e a iniciativa de buscar outras fontes de pesquisa e estudo, levando em conta as assertivas aqui emitidas, como fonte primeira de um trabalho de fôlego. É mais um livro na internet, se não esclarecedor, mas que sustenta sua validade pelo que possa inquietar e remexer em conceitos tradicionais e sedimentados em Escolas de Arte, contribuindo com outra visão do fenômeno artístico.&lt;br /&gt;Em fevereiro, 2009&lt;br /&gt;Saraiva 23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SENSO DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em qualquer forma de expressão artística sempre está presente a questão relativa à hora de parar e dar por concluído o trabalho. Para isso é preciso ter o senso de composição da obra, na arte em geral, antes esboçada ou mesmo criada ao longo do processo de execução, para se ter a noção exata de acrescentar, excluir excessos ou deixar de colocar a quantidade correta de tintas e formas, notas musicais, passos coreográficos, etc.&lt;br /&gt;No caso específico da pintura, em especial na abstrata, aquilo que se chama de dom ou talento reside nesse fato de saber a hora de para ou continuar um trabalho, tanto nos traços, como na hora da colocação da tinta, tendo sempre como pressuposto o todo, ou seja, a composição da obra. Essa composição não é aleatória ou casual, mas obedece a padrões de formação de um sentido de unidade, sem que, para isso, haja uma fórmula pré-determinada.&lt;br /&gt;Daí, dizer-se que a arte não pode ser ensinada, mas apenas a técnica e os métodos das artes, embora estas sejam condições importantes para a elaboração de uma trabalho artístico ou para a apreciação de obras dessa natureza. Jamais alguém pode construir um conteúdo a ser passado a outrem, estabelecendo regras ou sugestões da hora de para o trabalho, dando-o como concluído. Isso é tarefa do artista e só dele.&lt;br /&gt;A composição da obra artística é, inclusive, muitas vezes, o aspecto definidor do estilo do artista, ou seja, o seu diferencial, sua marca. A obra de Jackson Pollock, na sua action painting, foi rotulada, no início, pelos críticos como lama de tinta, mas depois sendo entendida e aceita como o ponto alto do expressionismo abstrato, no início dos anos 50.&lt;br /&gt;Esse ponto sensível da produção artística, estabelecer a composição, configurar a própria definição da obra, varia de artista para artista, o que faz com que se fixe o seu estilo, a sua característica. Para o autor, há a sensação exata de falta ou excesso, ao produzir o trabalho, mas isso é adquirido ao longo de anos de uma labuta diuturna e séria, imbuída de compromisso com a própria arte.&lt;br /&gt;Muitas vezes, o artista abandona seu esboço inicial ou modifica-o e chega até a desistir da proposta, em nome do resultado, se este não alcança o senso de composição. E é o senso de composição, portanto, que dá sentido à objetividade da obra e integra, com destaque, o processo de criação.&lt;br /&gt;Não apenas o excesso de tinta, a distorção no contraste de cores e formas compõem o conteúdo desse senso, mas algo que vem de dentro do artista e vai fluindo para o seu trabalho, gerando a composição.&lt;br /&gt;Outra questão importante que está dentro do senso de composição é a intencionalidade do ato criativo. Alegam os detratores da arte contemporânea – como aconteceu desde o impressionismo e passando pela arte moderna e pós-moderna – que qualquer outro animal, não só os homens, pode praticar atos relativos à criação pictórica. Vários animais são citados, como macacos, cavalos, elefantes, cachorros, etc. como operadores dessa tarefa, se colocados diante de uma tela, junto com pincéis e tintas, sendo capazes de produzir trabalhos abstratos iguais aos quadros dos humanos.&lt;br /&gt;Observa-se que, nesses casos de pintura abstrata, não há a intencionalidade da composição e muito menos o sentido de cópia, para os quadros figurativos, clássicos ou não, de vez que falta o senso de composição. O mesmo acontece com crianças muito pequenas, até seus cinco anos que, podendo ter um talento latente, ainda não são capazes de expressar a vontade do senso de composição, pela ausência de um raciocínio mais apurado.&lt;br /&gt;É importante ressaltar, também, que os problemas relativos ao enquadramento do que vai ser pintado, hoje, já não obedece a critérios rígidos, como no passado, podendo ser criados fragmentos, pedaços de um todo que não aparecem na tela, tanto no figurativismo, quanto no abstracionismo. Prevalece a tese do senso de composição, recaindo sobre este toda a carga criativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do desse senso, mas algo que vem de dentro do artista e vai fluindo para o seu trabalho, gerando a composiç&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GRAFITAGEM E PICHAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pintura contemporânea, tanto a grafitagem quanto a pichação, vêm se tornando uma via de acesso ao reconhecimento de trabalhos e de pessoas, como objetos de arte produzidos por artistas, mesmo no meio acadêmico, com restrições, e fora dele, na comercialização dos trabalhos em galerias e por outros meios particulares. A lei brasileira ainda criminaliza, de forma indiscriminada, essas duas maneiras de atuar na arte, quando a ação se dá nas ruas, em muros e prédios, sem autorização do proprietário, vandalizando o patrimônio público ou privado.&lt;br /&gt;A questão essencial não está na criminalização ou não desses atos, mas no discernimento sobre a representação do ato de pichar ou grafitar, podendo ou não tornar-se um objeto de arte. A distinção entre a grafitagem e a pichação e os tipos desta, já se acha esclarecida para os entendidos, embora, a grosso modo, não seja do conhecimento da maioria das pessoas, fato que influencia tanto no julgamento da criminalização, quanto na visualização de novos horizontes para a arte contemporânea e seus desdobramentos subseqüentes.&lt;br /&gt;Em função disso, necessário se faz insistir na distinção, em primeiro lugar, da grafitagem e da pichação. A grafitagem tende ao figurativo e é sempre um produto artístico com melhor acabamento, usando-se as técnicas tradicionais do desenho e da pintura, apesar de existir grafitagem enquadrada em outros movimentos artísticos, como, por exemplo, o surrealismo e até o abstracionismo.&lt;br /&gt;A pichação que tem o caráter aparente de vandalismo, mas, se realizada sob a forma de composição artística, usando ou não as tradicionais técnicas de pintura, passa a ser arte. Mas aquela em que o pichador, sem idéias, passa apenas para o âmbito de um lambuzador gráfico, sem o sentido da composição, torna-se um vândalo de suportes virgens, sem nenhum significado atrelado à arte.&lt;br /&gt;A composição, tanto na pichação, como na arte em geral, é aquela que encerra um sentido de expressão no todo compondo uma obra, criando uma unidade, interligando formas expressas e demonstrando um sentido, mesmo que não figurativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a pichação com composição passa a ser entendida como a feição abstrata da pintura de rua e se iguala à grafitagem, sendo esta, em geral, mais figurativa. Para melhor esclarecimento, basta olhar com alguns colecionadores e nos ateliês de alguns artista mais jovens, tanto em espírito, como na idade cronológica, para que se encontre uma forma diferente de pintar, com riscos de aparência aletória, mas que formam uma composição: arte.&lt;br /&gt;Estas pinturas-pichação não tem ainda, como o grafite, o reconhecimento do “status quo” artístico e não invadem galerias e assemelhados, com plena aceitação, sendo relegadas, junto com a pichação sem composição, aos desvãos trashs da pura contravenção penal. Há arte na pichação, desde que haja composição, o sentido último da expressão artista pictórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A GRAFITAGEM NA MISTURA DE ESTILOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a atual mistura de estilos na decoração de interiores, sem a permissividade agressiva dos anos 90, onde se “atulhavam”, no mesmo ambiente, móveis, quadros e objetos decorativos de personalidades ambientais díspares, o grafite das galerias vem se impondo na composição de ambientes. Não mais aquela grafitagem com tendências ao vandalismo, na impunidade de traços e frases, mas um estilo mais refinado, proveniente da intermediação de galeristas, que procedem a uma seleção previa.&lt;br /&gt;Há nesses novos quadros uma tendência do retorno ao figurativismo, ora explicito, ora cravejado com os eflúvios do abstracionismo e, principalmente, uma predominância do modelo das histórias em quadrinho, tanto as puramente infantis, como aos mangás, contundentes e extravagantes, confundindo-se com uma espécie de arte gráfica. A anterior prevalência da pintura abstrata estava dando lugar a um abstracionismo sem critério, pintado sem uma temática definida, simples garranchos ou borrões, sem atender ao mínimo de uma metodologia pré-estabelecida.&lt;br /&gt;Qualquer pessoa, que estivesse na frente de uma tela em branco e se achasse pintor artístico, colocava, no suporte, rabiscos ou aleatórias manchas de tinta, sem atentar para pressupostos técnicos, como contraste, sombras ou luzes e a composição, fazendo com que pessoas sem talento chegassem ao limiar de artista plástico ou pintor artístico. Essa confusão foi gerando um desconforto no mundo da arte pictórica, criando modismos sem substância na decoração de interiores, fazendo com que esses quadros fossem, mais tarde, trocados por outros mais consentâneos com o que se conhece por arte da pintura.&lt;br /&gt;Entraram, então, os quadros de grafiteiros, principalmente a partir dos anos 2000 e foram ganhando credibilidade no mercado, acomodando-se ao gosto de um público novo e evoluindo para as salas de visita dos endinheirados. Com isso, foi se formando uma outra mistura de estilo, não mais a tresloucada mélange do rústico com o antiquado, de séculos anteriores, mas uma mistura de estilos de aparência mais conservadora e sóbria.&lt;br /&gt;Certos objetos, imitando os do século XIX ou início do XX, aqueles leves, retorcidos, estilo Luís XIV/XV ou os pesadões de madeira maciça, já convivem, com conforto artístico, com telas de grafiteiros de estilo contemporâneo, coadjuvados por objetos decorativos de leveza, como o aço escovado ou a porcelana fina em pequenas esculturas abstratas. Sabe-se que quem determina o estilo do ambiente é o que está nas paredes, ao contrário do que muitos pensam, acreditando serem as últimas coisas a colocar ou a escolher, quando, na realidade, é o inverso. Constata-se isso pelo modo de olhar, de imediato, de quem entra em um ambiente, fazendo uma panorâmica com os olhos, primeiro no que está ao nível destes, as paredes, baixando-os depois para os móveis e os objetos colocados embaixo, vindo, posteriormente, o piso, para poder caminhar sem esbarrar nas coisas. Essa ordem de observação advém da necessidade de localização da pessoa no ambiente, antes de dar qualquer passo em frente, fazendo com que os quadros sejam os primeiros a serem observados.&lt;br /&gt;Misturar estilos é uma arte, assim como compor ambientes, não obedecendo apenas ao “bom gosto”, mas, acima de tudo, a uma técnica, a qual se aprende, hoje, em cursos superiores específicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALEGORIAS DO AMOR NA PINTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema amor sempre esteve presente nas artes e, no caso da pintura, manifestou-se através de alegorias ou símbolos concernentes a cada época da história da humanidade. As metáforas do amor, que são conhecidas até hoje, como o coração, a flecha de cupido ou as chamas, representando amores ardentes, são apresentadas por pintores famosos em uma exposição que ocorreu em Kiel, no extremo norte da Alemanha.&lt;br /&gt;Entre os artistas mais famosos que foram expostos no Museu de Arte de Kunsthalle Kiel estão Gustav Klimt, Albrecht Dürer e Edvard Munch, tendo como obra mais antiga “O Triunfo do Amor”, de Anne Polignac, que data do ano de 1500. Segundo os organizadores, uma das grandes inspirações para os artistas de todas as épocas foram os poemas do italiano Francesco Petrarca, do século XIV.&lt;br /&gt;Conforme pensam alguns, essas alegorias do amor não foram uma invenção da publicidade moderna, mas remontam ao início da cultura ocidental, a partir, basicamente, do Renascimento. Os artistas mais modernos mostram a comercialização do amor, que já foi exibido como uma emoção divina e perfeita, durante vários séculos.&lt;br /&gt;A Exposição que se chamou “True Romance” ou o Romance Verdadeiro, em uma tradução livre, tem grande importância conceitual e histórica, pois mostra como os artistas de várias épocas visualizavam o amor, usando os hoje famosos clichês, em suas obras. Essa importância conceitual e histórica foi um dos motivos de relembrá-la aqui, de vez que essa mostra terminou dia 9 de setembro, de 2008, acrescentando-se que, infelizmente, não foi exposta em outras partes do planeta, privando os interessados em arte de conhecer essa forma visual de ver e sentir o amor.&lt;br /&gt;A arte pictórica e suas mais diversas manifestações de visualização gráfica do amor têm uma importância crucial para a teoria da arte, por se tratar de uma temática abstrata demonstrada, em grande parte, de forma figurativa, mesclando dois estilos, de forma criativa e suntuosa e fazendo mais uma “leitura” da história da arte. Essa mistura do abstrato temático com o figurativismo gráfico vem ganhando força, atualmente, em obras recentes, não apenas em retrospectivas como a de Kiel, mas assumindo ares de um trabalho consistente com o traslado da grafitagem para as galerias, movimento que vem ganhando força, como em telas de Titi Freak, nas suas exposições em New York.&lt;br /&gt;Na busca de rumos para a arte deste III Milênio, esse é um caminho bem interessante, considerando que a arte abstrata sempre recebeu nomes figurativos, com raríssimas exceções contrárias, referindo-se a temas da realidade concreta. Vem agora a contrapartida da arte figurativa com temas e nomes abstratos, que no passo ocorreu de forma pálida, com uma revitalização bem expressiva, de vez que mistura o abstrato com o figurativo na mesma obra de arte, dissolvendo essa dicotomia que no Brasil se deu com o modernismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÉRIES PICTÓRICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na opinião de diversos filósofos da arte e de alguns entendidos, como críticos e pessoas envolvidas na promoção e divulgação da arte, o artesanato não é considerado objeto de arte. Os critérios usados para essa afirmação estão na constatação de que, no artesanato, há repetição do objeto, sempre com as mesmas características fundamentais; são produzidos, com pequenas modificações não essenciais, em série; e tem definida uma utilidade prática no cotidiano das pessoas, que está longe de ser a utilidade de um objeto de arte.&lt;br /&gt;Há certa dúvida se seriam as séries de quadros sobre o mesmo tema uma forma de artesanato, considerando que algumas características se enquadram nos critérios para definir o artesanato. Pode-se notar que não há termos de comparação, observando os artistas plásticos, os pintores artísticos, que, ao longo do tempo, fizeram séries, como Monet e seus nenúfares, Picasso e suas séries azul e rosa e muitos outros que produziram séries.&lt;br /&gt;Existe, nas séries de quadros com repetição temática, uma variação de ângulos e possibilidades com uma outra leitura e esses quadros não se repetem em seus múltiplos, como no artesanato. Parece ser uma linha tênue que separa a forma de se apresentar a arte, da simples imitação de arte, que repete apenas fórmulas práticas de reproduzir objetos de utilidade doméstica, mas essa distinção é bem clara.&lt;br /&gt;Não é todo tema que se presta à produção de quadros temáticos em série, de vez que, dependendo do tema, pode cair na reprodução de regionalismos populares, descambando para o artesanato. Esse tipo de cuidado é importante na produção artística, pois traduz um diferencial valorativo no mercado das artes, tornando-se aconselhável que essas séries sejam elaboradas, quando os artistas já tenham um nome destacado no mundo das artes.&lt;br /&gt;Para os iniciantes, recomenda-se a busca de um estilo próprio ou de alguns pontos que identifiquem seu trabalho, cabendo, até, uma variação de temas e que se possa dizer que certa pintura é de autor definido, mesmo sem que seja preciso colocar o seu nome no quadro. Esse ponto ou pontos identificadores são da maior relevância na criação de uma individualidade do artista, mas têm que trazer uma variação, como nos quadros de Volpi que sempre pintava bandeirinhas, formando composições nos quadros, cada uma com uma disposição e um formato diferente.&lt;br /&gt;No caso de Jackson Pollock, com sua action painting, depois de 1946, diferente de todos os outros pintores de sua época, ocorre que, hoje, identifique-se uma pintura sua, sem nenhuma dificuldade, pela originalidade e superação do que, até então, fazia-se em arte pictórica. Parecia série, mas não eram e é um bom exemplo a ser seguido.&lt;br /&gt;Não é série, porque se trata apenas da mesma técnica, mas o que é representado é diferente, não se tornando composições em seqüência, mas ampliando, cada vez mais, a gama de plasticidade visual, sem que se esgotasse a fonte criativa do que se expunham nas telas. A série para o pintor artístico é uma proposta perigosa, podendo cair no âmbito do artesanato ou esgotando-se, na impossibilidade de criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARTE, CIÊNCIA E TECNOLOGIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O binômio Arte e Tecnologia vem aparecendo, nos últimos tempos, com uma enorme força de criação, devastando conceitos tradicionais e provendo a humanidade com novos modelos artísticos. Da pintura digital ao laser como grafite, passando pelas sofisticadas elaborações em vídeo, a arte vem se modificando e, como em todo processo de mudança, sujeita a exageros e espantos.&lt;br /&gt;Essa renovação constante da arte pela tecnologia acontece todo ano, como no maior festival de arte e tecnologia da América Latina, o File 2008 – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, constando de instalações, jogos, performances, palestras e vídeos, com cerca de 300 artistas, de mais de 30 nacionalidades, sendo composto de grupos, coletivos e trabalhos individuais. A afluência do público é grande e demonstra o interesse de milhares de pessoas por avanços tecnológicos, que vão influir, mais tarde, na vida das pessoas.&lt;br /&gt;É uma oportunidade para o grande público freqüentar uma enorme gama de inovações tecnológicas, de forma gratuita e mostrando uma variedade de opções de consumo fácil e atrativo, na medida em que se trata de uma mostra que não exige do público um repertório muito sofisticado, ao contrário das exposições tradicionais.&lt;br /&gt;Passa a ser uma espécie de vale tudo, nesse tatear inicial de toda nova forma de arte, onde cabem todas as tendências, na busca de um caminho seguro para encontrar a essência do senso artístico. A verdade, no caso brasileiro, é que o domínio da nova tecnologia é para um grupo bem restrito de artistas, que se aventura nesse mundo digital e virtual, mesmo com falta de acesso aos meios eletrônicos e de formação adequada para nossos criadores.&lt;br /&gt;Trata-se de uma tentativa a mais de inserção da arte no mundo tecnológico, que, de forma irreversível, veio para ficar e se acha enfronhado em todas as atividades humanas. A grande questão é se o modo tradicional de fazer arte continuará ou não a ser produzido: o pincel, a palheta, a tela e o cavalete, a pedra bruta ou a tora de madeira , o cinzel, a espátula e a argila, ainda, vingarão frutos, para a grandeza de nossas sensações. Essa convivência do tradicional com o inovador permanecerá, ainda, por muito tempo, até mesmo entrecruzando-se, para satisfação tanto dos aficionados da arte, quanto aos da tecnologia.&lt;br /&gt;É importante notar que a ciência está presente nesse processo, sob a forma de tecnologia. A posição da ciência e de seu ramo tecnológico e o caráter na inovação merecem um estudo mais acurado, para que não se caia na armadilha do senso comum, verdadeiras crendices, que acredita que a ciência é apolítica, neutra e as inovações tecnológicas são sinônimo de progresso. Esse entendimento afasta o conhecimento das necessidades sociais e o glorifica, com um endeusamento sem base teórica.&lt;br /&gt;Dois conceitos fundamentais estão imbuídos nessa idéia do senso comum, que são a neutralidade científica e o determinismo tecnológico, representando um obstáculo para a ciência democrática, capaz de melhorar a sociedade. Idéias como essa são absorvidas em países desenvolvidos ou não, que não buscam a origem e os significados da tecnociência.&lt;br /&gt;Há, neste caso, o envolvimento questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo está virando uma área política. Seria interessante um estudo específico sobre o assunto, tomando como ponto de partida essas três vertentes do conhecimento. Essa questão da política na arte, na ciência e na tecnologia está centrada no que se chama de Código Ético.&lt;br /&gt;Essa concepção se traduz, na prática, em que um eletrodoméstico qualquer, um automóvel, etc. encerra em si todo um contexto de sua concepção e está ligado a determinadas estratégias. Essas estratégias representam interesses corporativos ligados ao consumismo tecnológico. Cada projeto de um novo produto já traz embutido o seu fim, quando sairá de linha, sendo o que se chama de obsolescência programada. Para que a pessoa consuma mais é preciso incutir a idéia de que a aquisição de novos produtos tecnológicos devem ser entendidas como progresso: o consumidor deve acreditar que está progredindo e tendo um aparelho melhor, de última tecnologia, embora o aparelho antigo possa ter mais qualidade técnica ou uma arte progressista melhor.&lt;br /&gt;O trinômio: arte, ciência e tecnologia não fica adstrito a uma simples interação entre essas partes, mas pertence a um contexto mais amplo, atrelado ao que se deseja para nossa sociedade. Mas não se pode ficar adstrito ao determinismo tecnológico, ou seja, à crença de que o produto que acaba de ser lançado é, eventualmente, melhor, mais eficiente e desejável do que o anterior e à idéia de progresso embutida nos meios tecnológicos. Nessas condições, não cabe à arte apenas utilizar novos meios tecnológicos, sem criar esses meios de forma intrínseca, como arte, com suporte teórico e base concreta de objeto artístico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA EXPOSIÇÃO E UM MUSEU TEMÁTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Suíça, acaba de ser inaugurada uma Exposição que mostra a evolução da imagem feminina na arte, na cidade de St, Gallen, que se inicia desde o século XVII, quando a visão e as fantasias dos pintores homens dominaram a maneira como as mulheres eram retratadas nas artes plásticas. Isso só mudou, quando as próprias mulheres começaram a pintar retratos de seu cotidiano, séculos depois.&lt;br /&gt;Os clichês estão presentes nessas obras mais antigas, retratando as mulheres como santas, musas ou sedutoras, abordagem que só se modificou com a antecipação feminina e o próprio feminismo, aparecendo como temas a mulher independente e atuante na sociedade, a partir da arte moderna, pós-moderna e contemporânea. A Exposição documenta a emancipação artística das mulheres, quando mostra suas obras mais atuais, embora, desde o final do século XIX e os primeiros trinta anos do século XX, já anunciem uma nova maneira de retratar a mulher pela própria mulher.&lt;br /&gt;Na arte contemporânea, encontram-se em exposição obras feita por mulheres, como instalações de vídeos, performances e até uma ambulância com bancos e interior de pelúcia. Entre elas, destaca-se a obra da artista plástica Manon, com trabalhos desconcertantes, como uma série de cabeças de mulheres vivas, raspadas ou um vídeo que a mostra em uma jaula.&lt;br /&gt;Essa Exposição chama-se Ladies Only, Somente Mulheres, em tradução livre e tem o quadro mais antigo datado de 1679, do pintor holandês Michiel van Musscher, mas entre os artistas expostos mais conhecidos, estão Pablo Picasso, Max Liebermann e Sylvie Feury. Essa é uma prova, hoje incontestável, da capacidade da mulher em todos os campos de atividade, enquanto se pode observar a maneira como eram olhadas a partir dos séculos, formando um conjunto amplo de apreciação, também, da mulher através dos tempos.&lt;br /&gt;Por outro lado, em Berlim, capital da Alemanha, é inaugurado um novo museu dedicado ao Surrealismo, chamado de Coleção Scharf-Gerstenberg, mostrando mais de 250 obras de mestres do surrealismo e artistas que influenciaram um dos movimentos artísticos mais singulares de século passado. O Museu foi reformado e ampliado, pois até 2005 abrigava o Museu Egípcio, a um custo de 10 milhões de euros e seu acervo é baseado em uma coleção privada, cedida à capital alemã em regime de empréstimo permanente.&lt;br /&gt;O programa de inauguração inclui uma série de filmes, como o clássico “O Cão Andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dali, assim como películas contemporâneas de cunho surrealista. O surrealismo foi um movimento das artes, fundado pelo intelectual francês André Breton, em 1924, com seu Manifesto Surrealista, um estilo, privilegiando temas abstratos, fantásticos ou ligados aos abismos do inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARTE: UM MUNDO FECHADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as tentativas para desmistificar a aura que envolve a arte e os artistas têm sido em vão, mesmo que movimentos mais recentes como o pop art, as instalações, os ateliês abertos a visitantes, os vídeo arte, etc., que buscam a popularização da arte, tenham feito esforços de se aproximar do grande público. Por outro lado, os arte educadores têm seguido dois caminhos distintos para sensibilizar os jovens, ou tornando-os espectadores com mais acuidade para as nuances da arte, ou, ao mesmo tempo, procurando fazer com que esses estudantes se exercitem em algo de cunho artístico.&lt;br /&gt;Essas formas de fazer a compreensão do fenômeno artístico não atende à necessidade de todos os educandos, seja numa mesma escola ou mesmo em uma classe, seja em várias escolas do ensino público ou privado, pelo desnível social entre os alunos, que afeta o entendimento do cerne da arte. O que se consegue que seja captado pelo alunado é apenas uma visão ampla, conhecendo obras dos grandes artistas, com comentários ou não dos professores, sem que se possa chegar ao âmago da criação, do real significado da arte e da sua utilidade, principalmente, no mundo de hoje.&lt;br /&gt;O homem, neste nosso mundo, se impõe uma rotina estressante, sem hora para nada, sem pensar no trabalho que fazem, quando deveriam ocupar esses espaços de tempo, com trabalho criativo não devendo mais ser utilizá-lo como trabalho braçal, repetitivo, mesmo em uma atividade intelectual. Ao contrário disso, criam-se, mais e mais, tarefas burocráticas, emperramento do sistema de trabalho, dando a impressão de que quanto mais atarefado está o homem, mais ele trabalha e produz, enriquece e se realiza e nem sempre isso é verdade.&lt;br /&gt;Esse homem modernoso gera o embrutecimento da vida, sendo a escola responsável por isso, ao direcionar seu ensino para profissões específicas, não tendo o ser humano a oportunidade de entrar em contato com a cultura de um modo geral, com a informação, produzindo uma péssima comunicação. Isso impede seu entendimento para o cerne da arte, indispensável na vida de todos nós, e nesse cerne está a teoria da arte, que a explica, informa e subsidia, pois, sem isso, fica-se na apreciação da arte, de forma fútil e trivial, chegando-se a dizer que a pessoa não compra arte abstrata, ela mesma faz.&lt;br /&gt;Daí, como diz Domenico de Masi, como se vive em um regime capitalista pobre, tem-se que ter uma cultura para cada classe social e, logicamente, uma arte para cada camada da sociedade, de vez que aqui se tem a classe dos ricos, a média e a dos pobres e miseráveis, enquanto, nos países do primeiro mundo, apenas a dos ricos e a média, com um pequeno grupo de pobres, jamais miseráveis. Isso tem repercussões sérias nessa substância material e imaterial da cultura, que é a arte.&lt;br /&gt;Nessa ótica, a arte que se aproxima do povo, como, por exemplo, a grafitagem de rua, que em teoria seria para o povão, tem seu desejo intrínseco de ir para as galerias de arte, o que está acontecendo, aos poucos, transformando seus artistas anônimos em famosos, nesse desejo perene, de país subdesenvolvido, de subir, rapidamente, na escala social. Com isso, a arte dividida e valorizada por classes sociais, esse mundo artístico vai ficando cada vez mais fechado, não só como vedação ao acesso do artista, mas, de modo geral, como parte de nossa vida a ser compreendida.&lt;br /&gt;Fica, então, o mundo da arte entregue aos especialistas, aos artistas, aos críticos e, sobretudo, ao mercado. Quem vai entender de arte, em vez de todos, será apenas uma pequena parcela da sociedade, que poderá compreender o fenômeno diferencial do abstracionismo, as distinções de pinceladas cores e suportes, assim como a ocupação do espaço feita pelas instalações.&lt;br /&gt;No mais, é pura arte figurativa repetitiva, mimese, sendo ensinada aos pobres garotos nas escolas, ainda fazendo com que eles façam “releituras” grotescas, “coveres” ridículos de cantores e dançarinos, na ingênua intenção de que estão ensinando e colocando-os para fazer arte. Cada pessoa tem o seu limite de compreensão das coisas e, obedecendo a isso, é que deveria ser propagado o conhecimento artístico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM OUTRO DUCHAMP&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A História da Arte contempla Marcel Duchamp (1887-1968) agregado a uma genialidade que, mesmo na sua época, pode e deve ser questionada. Não é só o direito ao exercício mental do questionamento que está em jogo, mas o fato de ele ter passado por vários movimentos artísticos e, em todos eles, ter participado, na maior parte das vezes, de forma esdrúxula, l´enfant terrible, como muitos, porém mais como o “garoto travesso” que faz peraltices e os pais (o público especializado) aplaudem.&lt;br /&gt;Há muito de invencionice e não invenção na obra de Duchamp, que corre pelas beiradas do non sense, atribuindo-se genialidade, onde há muito mais esquisitice ou falcatrua de propósitos e quem lida com arte está habituado a coisas estranhas e estapafúrdias, mas não desse quilate e tão endeusadas. Quase toda a obra desse artista vem acompanhada de certo respaldo teórico, dado por ele, naquilo que acreditava ser teórico, com suporte suficiente para iniciar um novo movimento no mundo da arte.&lt;br /&gt;Alguns acham que ele revolucionou a História da Arte, ao negar o papel puramente visual de uma obra de arte e lançou princípios da arte conceitual, da pop, da minimalista, da cinética e das instalações. Isso em plenos anos 60, 70, pouquinho antes da forte linguagem visual que a nova tecnologia, a partir dos anos 80, trouxe consigo, de forma avassaladora já nos anos 90 e que negou, com atos e fatos, essa estranha posição teórica, a da desvalorização do visual.&lt;br /&gt;Onde está a genialidade disso? Talvez, em um tremendo engano de visão futura, que, quem sabe, possa ser atribuída à idade avançada em que se encontrava nessa época. A arte, principalmente, as chamadas Belas Artes, na sua essência, é, visceralmente visual e em qualquer outro campo artístico ela se apresenta bastante visual. Muito mais, ainda, com a avançada tecnologia do nosso tempo, onde, desde a pintura digital à coreografia da dança, faz-se através da informática, passando pela música, pelo canto, pela composição, pelo cinema, pelo vídeo, etc.&lt;br /&gt;Na verdade a arte, apesar de Duchamp, nunca deixou de ser visual, ainda mais neste início de milênio, mesmo com a arte conceitual e, necessariamente, com a nova arte conceitual. A Arte Conceitual da época dele era a expressão de um conceito alternativo, como nos ready-made ou com outra formas, aliás um modo de conceituar mal construído, pela visão teórica, de difícil compreensão, que, hoje, chamam de enigma de Duchamp, exatamente o que ele não queria.&lt;br /&gt;Ao contrário, portanto, do que ele propunha que era uma arte próxima ao público, desmistificada, de fácil aceitação pelo povo em geral, sua arte era e é fechada, precisa de explicação feita pelos críticos, de maneira literária e por ele mesmo em seus escritos. Nada a ver com a essência de uma arte Renascentista, que contava uma história e, se ele pretendeu isso, o fez do pior modo possível, contando histórias intrincadas, com um fio narrativo próximo ao inexplicável.&lt;br /&gt;O endeusamento desse artista está mostrado na Exposição a ser aberta no Museu de Arte Moderna de São Paulo, como parte das comemorações dos 60 anos da instituição. São 120 trabalhos, além dos ready-made, a parte mais conhecida de sua obra e incluem o urinol e o banquinho com roda de bicicleta, além de o “Grande Vidro”, uma réplica e mais três caixas de anotações sobre esse trabalho, espalhadas pelo espaço da exposição, como, também, outras obras famosas, como a “Caixa Valise”, trabalhos em miniatura e seu último projeto “Etant Donnés”, reconstruído através de desenhos e esboços.&lt;br /&gt;Todo um acervo que é odiado e amado, dependendo da ótica artística com que é observado e foi engolida pela Nova Arte Conceitual, como arte contemporânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (I)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte conceitual, na grande maioria das vezes, é colocada na categoria de arte contemporânea. Esta categoria de arte merece, entretanto, alguns esclarecimentos, pois é muito confundida pelos estudiosos e autores como arte pós-moderna e não é situada no momento correto e exato de sua existência.&lt;br /&gt;A concepção de arte contemporânea não está ligada a uma questão de tempo, embora ela aconteça, historicamente, em determinado tempo: não é a arte que se faz agora, nestes últimos anos, mas aquela que trata de um conteúdo desses últimos anos. Com o passar dos anos, sempre há nova arte contemporânea, de vez que o conteúdo muda ao sabor da história do homem e o que se chamava por essa categoria recebe outro nome.&lt;br /&gt;É o que acontece com a arte dos anos pós-II Grande Guerra até os anos 90 do século passado, a qual passou a se chamar de arte pós-moderna, sendo a arte contemporânea a dos anos 90 até nossos dias deste início de milênio. Nossa arte contemporânea tem como conteúdo o aquecimento global, a biocivilização, a escassez de alimentos, o biocombustível, a tecnologia da comunicação e da informação – TCI, a nova opressão do poder sobre certas minorias, principalmente, no caso das mulheres mulçumanas e outras minorias que surgiram.&lt;br /&gt;Assim, de tempos em tempos, surge uma nova arte contemporânea, considerando que o contemporâneo muda, quando os temas que foram tratados, em um período da história do homem, são substituídos por outros, pertinentes à nova realidade histórica. Alguns confundem a arte contemporânea com o que é realizado agora, não importa o conteúdo, podendo este ser, por exemplo, a pintura clássica, o cubismo ou a instalação.&lt;br /&gt;Nesse caminhar da história da humanidade, depois da arte moderna houve certa dificuldade em alojar no tempo os tipos de arte surgidos. Mas é importante que se fixem períodos, em função do conteúdo, para orientação dos estudiosos do assunto e do público em geral. A arte moderna, no Brasil, vai do ínício do século XX, com seu ápice nos anos 20/30, até meados dos anos 40.&lt;br /&gt;O pós-guerra foi um grande divisor de águas, de vez que mudaram os valores e os conceitos sociais, a humanidade se descobriu diante de nova realidade, como a Televisão – emissor de imagem e som - os aparelhos eletrodomésticos, a indústria e seus artefatos sendo elétricos e depois eletrônicos e muitas outras inovações. Pode-se dizer que nesse período, principalmente em torno dos anos 50, surgiu um novo processo de industrialização e a vida das pessoas mudou completamente, bem como os costumes, mais acentuadamente, a partir dos anos 60.&lt;br /&gt;A arte refletiu isso, com a ruptura pictórica de Jackson Pollock, por exemplo e o movimento do expressionismo abstrato, além de outras manifestações artísticas, como a pop art. A arte desse período, que foi contemporânea à época, depois foi considerada pós-moderna. Ela se estende até o final dos anos 80, tendo como conteúdo o experimentalismo, em todos os campos artísticos, inclusive a arte conceitual, com Duchamp sendo seu exponencial.&lt;br /&gt;No artigo seguinte, será feita a comparação dessa arte conceitual com o conceitual contemporâneo, elaborado com outro conteúdo e com outro invólucro teórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (II)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte conceitual dos anos 60 até final dos 80 - período pós-moderno – define-se como uma tentativa de revisão da noção de obra de arte arraigada na cultura ocidental. Circulam algumas versões sobre o surgimento do conceito e da expressão Arte Conceitual. Uma delas afirma que o seu uso popular se deu em 1967, depois que a revista americana Artforun publicou um texto com o nome de “Parágrafos sobre a Arte Conceitual”.&lt;br /&gt;Nesse artigo o artista minimalista Sol LeWitt organiza as reflexões já existentes na área sobre uma arte que se desenvolve somente no campo da idéias, abandonando o lado da materialidade da obra de arte. Por essa forma de expressão artística, as idéias, as reflexões e pensamentos do artista são mais importantes que o objeto de arte em si, como o caso da famosa tela pintada toda de vermelho, que não foi entendida como monocromática e sim como um suporte para as reflexões do artista sobre a violência e a angústia do mundo.&lt;br /&gt;Por esse modo de entender a arte, pode-se ter uma posição sobre o que seja a arte conceitual desse período, pois mais adiante na História, o período contemporâneo vem a ter outra definição e outro cerne. Na pós-modernidade, o conceito poderia ser aquele do movimento artístico que defende a superioridade das idéias veiculadas ou não pela obra de arte, ficando os meios usados em lugar secundário.&lt;br /&gt;Isto é a própria concepção da anti-arte, considerando que a arte plástica, principalmente, usa a plasticidade do objeto de arte para expressar idéias e conceitos, justamente o contrário do que pensavam nessa época. Na verdade, queriam artistas como Robert Rauschenberg, Marcel Duchamp, George Maciunas. Sol LeWitt e, mais recentemente, Yoko Ono, Lawrence Weiner e outros reagir ao formalismo da obra de arte, não criar objetos de luxo para a burguesia, voltando-se contra a rigidez do objeto, expressando idéias.&lt;br /&gt;Outros artistas buscaram diferentes meios de se expressar de forma artística como o vídeo, a fotografia adulterada, as instalações, as performances. Terminaram criando um “vácuo” na arte, em especial nas artes plásticas e qualquer um se sentia artista, bastando para isso que tivesse idéias, de vez que o objeto de arte pouco interessava, vinha em segundo plano.&lt;br /&gt;Essa arte conceitual não teve seu destino “consumível” pelo consenso da sociedade, em função da precariedade da maioria de suas obras e, por isso, não sendo bem visto, pelo mercado de artes. Foi uma época de busca constante por formas de se expressar, diante das idéias inovadoras provenientes das mudanças de costumes, que ficaram à frente do pop art, ainda voltado para a nova vida de produtos industrializados em si e seus ícones no mundo “pop star”, sem alcançar o cerne das idéias que motivaram isso.&lt;br /&gt;Diante da retração do mercado, os marchands se voltaram para a arte produzida nos moldes anteriores, fazendo pouco da arte conceitual desse período. Agora os curadores e os galeristas se voltam para a nova arte conceitual que foi aparecer mesmo, a partir do anos 2000, ficando a década de 90 enfronhada na arte tecnológica, nos vídeos e computadores, no começo da pintura digital e, ao mesmo tempo convivendo com certa tralha da antiga arte conceitual, sendo feita já de qualquer forma.&lt;br /&gt;Não se constitui, propriamente, de um período vazio, porque as outras espécies de arte como as instalações e performances, por exemplo, supriram com idéias inovadoras as artes plásticas que chegaram à beira do besteirol. Caminhando na banalidade irrisória, sem valor artístico, ou na repetição de movimentos pictóricos anteriores, quase todos baseados no figurativo, essa repetição do conteúdo de movimentos anteriores não é arte contemporânea, como já foi afirmado.&lt;br /&gt;Surge, então, um conteúdo atual, que se passa a chamar de Nova Arte Conceitual, com outro enfoque e sem radicalismo, devendo ser tratada na parte III desta série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/07/02/o-conceitual-na-nova-arte-contemporanea-iii/"&gt;O CONCEITUAL NA NOVA ARTE CONTEMPORÂNEA (III&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova arte conceitual foi surgindo, lentamente, a partir dos anos 2000, em meio ao vácuo artístico proveniente da arte conceitual anterior, dentro do que já se reconhece como Nova Arte Contemporânea, precedida pelo caos desmedido que começou nos anos 90, do século passado. Essa arte anterior, confusa e sem horizontes definidos, fez surgir o vídeo artístico, as instalações, as performances, etc. que passaram a ter vida própria dentro das artes plásticas. Apareceu, depois disso, uma nova forma de fazer arte.&lt;br /&gt;Nessa nova forma de fazer arte, a idéia está embutida no objeto de arte, ao contrário da anterior, que precedia este e, muitas vezes, estava fora do objeto. A arte, como a pictórica, em um misto de figurativismo e abstracionismo ou apenas um deles, se apresenta, então, fazendo uma reflexão, geralmente, crítica, adotando a conhecida postura contestatória da arte, dentro de seu espaço libertário.&lt;br /&gt;Nesse contexto, não reflete mais angustias existenciais, mas sim conceitos, em geral, mostrando contradições ou não, como as relativas ao meio ambiente, a comunicação e a informação, onde estão contidos problemas relativos a biocombustível, alimentos, aquecimento global, etc. Pode ser uma arte, também, que apenas demonstre conteúdo com situações de costumes com várias práticas sociais ligadas a um conceito, como a questão da lenta aceitação do homossexualismo, como a opressão, em termos de ser humano, das mulheres mulçumanas e vários outros assuntos, desde que não seja uma arte contemplativa, como flores, belos traços abstratos, paisagens bonitas, sem um compromisso com a conceituação de uma realidade.&lt;br /&gt;Quanto ao emprego da tecnologia na arte, em especial as artes plásticas, tem-se a pintura digital, que alguns chamam de virtual, além das instalações e performances com robôs, telas com enormes quadros virtuais de jardins que se movimentam e muitas outras inovações. A temática, porém, não é necessariamente conceitual, de vez que não se visualiza uma idéia ou um princípio, muito menos uma crítica, embutida, explicitamente, na imagem.&lt;br /&gt;Essa é a diferença da arte conceitual anterior, em que a idéia não precisava estar explicitada na obra, mas na cabeça do artista ou na ilação que podia vir a fazer o espectador. Na nova arte conceitual, a idéia, o princípio, a crítica estão compondo a obra de arte, há necessidade dela para que o artista venha a se expressar.&lt;br /&gt;Outro ponto importante é o título da obra, trazendo sempre a conotação abstrata, demonstrando sentimentos ou situações não palpáveis, como um complemento do expressado na obra e, por mais que ela seja figurativa, sempre há o viés do racional e abstrato. Essa é outra característica dessa nova forma de fazer arte, a espécie de título, na tentativa de superar, aos poucos, o desastre e a desilusão com a arte que vinha sendo feita, primeiro naquela busca desenfreada de criar um movimento após a pop art e depois no desandar frenético da busca por uma arte palatável para o mercado.&lt;br /&gt;A nova arte conceitual não busca, necessariamente, esses objetivos e, ao mesmo tempo, é satisfatória pra os artistas e para o mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ENGODO DA FOTO, O CINEMA E A PINTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotografia é momento, ângulo, luz e translucidez, tudo efêmero, contraditoriamente, fixado para sempre. Aquele instante em que se vira o rosto e é fotografado, espontaneidade instantânea ou pose estudada, no cuidado de expor e gravar por muito tempo o melhor, sendo sempre passageiro e nem sempre consentâneo com a realidade. Por tudo isso, toda foto é falsa, ao aprisionar um só momento, quando nós e a natureza somos feitos de muitos, no mesmo instante; é essa multiplicidade que nos faz ser único, desmancha-se na duradoura ostentação de uma versão fluida de nós mesmos.&lt;br /&gt;Uma foto engana a quem a aprecia, na sua versão parcial, pois, mesmo escolhida dentre muitas ou sendo só aquela tirada com base no instantâneo, não passa de uma foto, a tradução visual do apego ao momento, não importa se o cabelo comprido parecer curto, para trás, se a cor do vestido ou da calça não combinar com a multiplicidade da mistura de cores da máquina. Pouco interessa se o olhar parecer reflexivo ou ativo, no estardalhaço de uma alegria momentânea, sempre induz a uma interpretação da pessoa que pode ser errônea.&lt;br /&gt;Se o corpo aparece gordo ou magro, atrativo ou desqualificado, não importa a roupa, a composição que a pessoa faz, preparando-se para ser fotografada. Tudo não passa de um instante persistente na sua loucura de ser “aquele instante”e não a pessoa real, fisicamente, que a foto revela.&lt;br /&gt;E não se fala de photoshop ou qualquer outro software de tratamento da fotografia, que opera modificações magníficas, tanto para melhor ou para pior. Esse é outro departamento, aquele que trabalha a foto-matriz e a altera, ao sabor ou humor do técnico ou do fotógrafo artístico. Fala-se da foto-origem que engana os olhos, não das perfumarias de ilustrações trabalhadas pelo computador.&lt;br /&gt;Essa foto-raiz, a base conceitual da fotografia e que vai se tornar crua ou alterada, a foto a ser observada é que engana, porque pára um tempo, mesmo se o objeto está em movimento. Esse parar do tempo é uma pausa diferente do retrato pintado em um quadro, que pode não ser fiel ao original parado, mas dá margem a modificações da essência da coisa retratada e, quando abstrata, tem a liberdade maior de ter a sua própria essência, na pintura com abstracionismo.&lt;br /&gt;E a imagem em movimento, o cinema, engana? O cinema tem outra essência, que reside na dinâmica, na seqüência de fatos, mesmo se a câmara for fixada apenas no rosto de uma pessoa. A expressão dessa pessoa vai se alterando com o tempo, contando uma história, o que seria, aliás, um belo roteiro para um curta-metragem.&lt;br /&gt;No cinema, o corpo da pessoa ou os retalhos de natureza se alteram com o passar do tempo, mesmo que sejam segundos, o que não pode acontecer na fotografia. Ela fixa aquele momento e os subseqüentes que se danem, ensejando a inverdade de sermos um momento.&lt;br /&gt;Já a pintura, mesmo a elaborada de uma vez, fixa vários momentos, muitas expressões, por mais parado que fique o modelo ou a natureza transposta para uma tela. A luz se altera, a sombra, que não é artificial, modifica-se e nunca se pinta o que foi visto anteriormente. A pintura abstrata, que tem como modelo a mente do artista, é livre, não se acomoda ao pensar naquele instante, ao devaneio do agora, mas mistura lembranças, um histórico de vida com os sonhos de um futuro: é fluida, moldável e inconseqüente, como o próprio homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/06/18/o-estilo-na-pintura-e-nas-artes/"&gt;O ESTILO NA PINTURA E NAS ARTES&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ver a obra de arte e reconhecer o autor: esse é o sentido do estilo na arte, que define a marca própria do artista. A busca por esse estilo particular de fazer suas obras é o grande sonho de todo artista, em início de carreira. Encontrado esse estilo, que sempre está preso a uma determinada forma ou escolha de cores, na pintura, acaba por se tornar, ao longo do tempo, um pesadelo para o artista, ocorrendo a repetição cansativa de variações sobre o mesma tema.&lt;br /&gt;Embora o estilo marque a carreira do artista, ao identificá-lo, cria nele mesmo um sentido de repetição que cansa e inibe a criação. De um lado, trabalha, muitas vezes, com a mesma temática e, de outro, com o mesmo traço, as mesmas cores predominantes, a mesma pincelada característica de seu estilo, o mesmo acontecendo nas outras artes.&lt;br /&gt;Daí a necessidade de fases na carreira, onde se pinta à exaustão certo estilo e depois o abandona, em busca de nova maneira de pintar ou fazer arte. Essas fases, embora sejam como uma pausa de certa maneira de fazer arte, sempre guardam em si a definição daquilo que distancia certo artista do outros e o torna individual.&lt;br /&gt;Nessa hora surge “o branco”, a grande crise existencial do bloqueio do artista para criar, que, nem sempre acontece com todos, principalmente aqueles que têm a ousadia de mudar de temática e abraçar novos métodos e técnicas de pintura, indo em busca do desconhecido. Para um artista famoso, com clientela sistemática e um mercado favorável é um passo corajoso e no escuro, pelo desconhecimento da reação dos entendidos e do espectador em geral.&lt;br /&gt;Há sempre uma tendência na reação negativa a mudanças, coisa intrínseca do ser humano, sendo esse um dado de grande importância na tomada de decisão do artista ao mudar de estilo, podendo perder todo o seu prestígio. O espectador espera do artista que ele mantenha sempre um determinado estilo e, em geral, estranha ou repugna o novo.&lt;br /&gt;A mistura atual do figurativo com o abstrato, principalmente, a abstração na temática, a partir do nome do quadro, vem sendo, por constituir algo novo, absorvida aos poucos no mundo das artes, com certas restrições. Parece sempre ao espectador que se trata de quadros puramente figurativos, de vez que os nomes dos quadros, mesmo os abstratos, ao longo do tempo, sempre foram explícitos, de conotação figurativa e não eram levados muito em consideração.&lt;br /&gt;E, ainda hoje, isso acontece, até a existência dessa nova corrente que torna o tema abstrato, com nome abstrato, mesmo que recorra à representação figurativa. Buscar esse estilo novo, não contemplado, ainda, pela crítica especializada, requer que o artista acredite nessa forma híbrida, diferente de outras que já existiram, como o expressionismo, com seu figurativo distorcido ou o dadaísmo que alterava as cores dos objetos e seres, figurativamente, retratados.&lt;br /&gt;Esse novo estilo, ainda sem nome definido, presta-se muito para vislumbrar temas atuais, como o aquecimento global, as formas novas de matriz energética, a tecnologia da comunicação e da informação, enfim, a era da biocivilização e seu capitalismo bastante selvagem. Aliás, capitalismo que assume novas formas, parecendo englobar a questão ambiental e a humanitária, com mecanismos para auferir mais lucros, no seu “estilo” característico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A MESCLAGEM DE TEMÁTICA ABSTRATA COM FORMA FIGURATIVA&lt;br /&gt;Uma nova tendência que vem surgindo nesse final da primeira década do terceiro milênio, é a mistura da pintura e escultura abstratas com o figurativismo não muito bem delineado. A temática é abstrata, ensejando nome abstrato, e contendo traços do figurativo que não se parece com fotografia de registro.&lt;br /&gt;Essa tendência tem sua origem na grafitagem de rua que vai para as galerias com suporte de tela e integra exposições de sucesso, como é o caso, por exemplo, do artista plástico e grafiteiro Titi Freak. Das ruas de São Paulo à casa da Cantora Cristina Aguilera, esse descendente de japonês vem conseguindo fazer sucesso em New York, seguindo essa nova forma de fazer pintura.&lt;br /&gt;Depois de um longo período, a partir dos anos 70, em que houve uma predominância da arte figurativa, em especial as chamadas Belas Artes e uma ascensão posterior do abstracionismo, não entendido e aceito por todos, voltando-se ao figurativo, foi encontrada essa fórmula nova. Nela há duas formas: a representação figurativa transfigurada em abstrato, a forma em si, como nos quadros do artista citado.&lt;br /&gt;A outra forma, a da temática, que consiste em uma temática abstrata, por exemplo, em temas atuais, como “Liberdade Poluída” (quadro do pintor maranhense J.Saraiva ), sendo representado por um pequeno compartimento, com uma janelinha, onde entra um sol sujo, cheio de poeira, que se alastra pelo espaço, de forma abstrata. Tudo isso em uma combinação hibrida, na qual não há prevalência de nenhuma corrente pictórica ou escultórica. Na verdade, um meio termo plástico.&lt;br /&gt;Para que aconteça essa última forma há necessidade essencial de muita sensibilidade do artista e do espectador, para que não haja uma confusão de movimento pictórico existente, como o fauvismo, ou, se é o caso, de figurativo-abstrato, onde ficam separados, nitidamente, o figurativo e o abstrato. Deve-se procurar um meio termo, tanto na forma apresentada, quanto na escolha do título da obra, que comanda a condição híbrida, obedecendo a uma temática abstrata, assim como nas cores utilizadas na composição.&lt;br /&gt;Esse hibridismo acaba com o tradicional posicionamento dicotômico entre figurativo e abstrato, quando se convencionou atribuir ao figurativo uma forma menor de fazer arte, pela ausência de certa complexidade no entendimento da proposta da obra de arte. Posição injusta, mas predominante entre os entendidos, porque se apresenta sob a forma de desenho pintado, necessitando de espontaneidade na expressão da idéia que o artista quer expor.&lt;br /&gt;Essa forma híbrida entre o figurativo e o abstrato ainda não tem nome definido, mas vem sendo encontrada nos quadros contemporâneos, com certa insistência e não tardará, se não for apenas mais uma moda, a encontrar seu porto seguro na História da Arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/05/30/empreendedorismo-e-marketing-na-arte/"&gt;EMPREENDEDORISMO E MARKETING NA ARTE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grande moda atual nas teorias da administração, como já foi a teoria da qualidade total, é o empreendedorismo e o marketing, que, embora existindo há muito tempo, não tinham a capa teórica que recobre, hoje, esses temas. Com essa nova roupagem, a teoria do empreendedorismo, ainda, encara um fato obsoleto, o de que é possível qualquer pessoa gerir negócios, basta que aprenda passos e metas, para atingir um objetivo final, que é a gestão de uma empresa, não importa seu tamanho.&lt;br /&gt;Essa posição se torna ahistórica, atemporal e, com algumas adaptações devidas, vai se acomodando, teoricamente, no tempo e apresentando fracassos e falências, principalmente, nas mini e pequenas empresas. Isso significa que as questões maiores, como mudança no câmbio monetário, as oscilações de mercado, a instabilidade econômica e financeira, como a que está ocorrendo com os Estados Unidos neste final de mandato de Bush, nada disso acreditam que interfere, diretamente, na postura do empreendedor. Ele vai tocando seu negócio assim mesmo, bastando seguir os manuais sobre o assunto.&lt;br /&gt;Por seu turno, o marketing, no fundo, ainda obedece ao velho ditado de que “a propaganda é a alma do negócio” e procura estratégias, ajudada pela tecnologia crescente, para tentar inovar e tornar palatável a divulgação de produtos. Produtos, aqui, no sentido bem amplo, incluindo a arte, que, por ser vista como uma mercadoria, recebe o mesmo tratamento dos marqueteiros, sujeitando-se às mesmas regras de comunicação, como qualquer produto de uso como utilidade doméstica.&lt;br /&gt;A arte sempre teve uma aura de mistério, de adoração mística, de enlevo que os novos tempos vêm tentando desmistificar com a massificação do “produto”. Certos tipos de arte como a pintura e a escultura não se tornam objetos fáceis dessa manipulação, de vez que não são artes de performance, feitas na hora pelos artistas.&lt;br /&gt;Isso faz com que seja mais difícil gerir atividades empreendedoristas em ateliês, sendo voltadas essas estratégias aos galeristas e aos curadores de arte, que lidam com um grande volume de obras e procuram escoá-las pelo mercado. Fazer com que artistas e seus trabalhos apareçam, publicamente, depende de uma tarefa diuturna, colocando-os na mídia quase que no cotidiano, para que se tornem conhecidos e adquiram fama.&lt;br /&gt;Como acontece na mídia, hoje, qualquer passo que dê o artista é noticiado, mesmo que vá à praia com familiares, faça compras no supermercado ou cometa algum desatino, como embebedar-se e drogar-se. Um exemplo disso é Amy Winehouse que desaba pela rua com suas crises de droga e foi Britney Spear, que agora se acomodou, mas continua sendo notícia, por estar mais calma em seus acessos de droga e vida dissoluta.&lt;br /&gt;Empreender atividades artísticas é um ramo em que faltam profissionais qualificados nesse metier, de vez que as pessoas se jogam nessa atividade, atendendo apenas a seus instintos, ao bom senso e com algum conhecimento de história da arte. O mesmo acontece com a atividade desse marketing específico da arte, onde as agências de publicidade tratam por igual a arte e qualquer outro produto, sem considerar as especificidades desse fazer artístico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/cinema-de-arte/"&gt;CINEMA DE ARTE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma publicidade da própria TV a cabo que tem como slogan “canais de filmes existem muitos, mas de cinema, só no…..” e cita o nome do canal pago. À guisa de divulgar as qualidades dos filmes que apresenta, estabelece, de tabela, a distinção de qualquer filme para aqueles com um diferencial de qualidade que encarna a arte do cinema.&lt;br /&gt;Há essa distinção entre cinema e filme, sendo que o primeiro tanto pode ser a sala de projeção de filmes – cinema com “c” minúsculo - quanto a arte em película, chamada de Cinema de Arte. Essa expressão é pleonástica, porque todo cinema é de arte, mas nem todo filme o é. O filme, hoje em dia, pode ter como suporte a própria película, feita de celulose, o sistema de gravação para TV, em CD, como, ainda, pelo celular, através de sua câmera. O filme é o produto desse tipo de criação artística ou pode não ser de arte.&lt;br /&gt;O que diferencia o Cinema de Arte de um filme qualquer é a forma como é realizado, produzido, conduzido pelo réalizateur, como se chama na França o diretor de cinema ou cineasta. Muitas pessoas se interessam pelo filme, apenas em virtude do enredo da história contada, sem levar em consideração a forma como é contada, os cenários, a roupa dos personagens, chamada de figurino, a iluminação, mas, sobretudo, a maneira de contar a história em uma linguagem técnica, própria de cinema.&lt;br /&gt;No Cinema de Arte, também chamados de filmes de arte, para fazer a diferença de uma simples história contada, cheia de efeitos especiais, onde há um herói, que sempre se dá bem e fica com a “mocinha”, no final, não há esse tipo de enredo apelativo. Ou não há enredo significativo algum, como em alguns filmes de curta ou longa metragem, verdadeiras obras de arte.&lt;br /&gt;Há os filmes de entretenimento e os filmes de arte, estes com conteúdo que faz o espectador pensar, ao seu final, produzindo uma mensagem filosófica ou sociologica e não são feitos para um grande público. Quando se observar um filme com grande bilheteria, pode-se ter certeza que não é Cinema de Arte, mas filmes comerciais, produzidos por Hollywood, no estilo Harry Potter, exatamente, para terem grandes bilheterias e muitos lucros.&lt;br /&gt;A identificação de filmes como O Cheiro de Papaya Verde, Nenhum a Menos, Os filhos do Paraíso, O Vaso e o recente filme alemão Partículas Elementares, como Cinema de Arte, está na qualidade narrativa, na sua condução e no seu conteúdo que faz uma reflexão sobre algum tema de relevância para o conhecimento e o saber. São filmes que podem parecer monótonos e sem ação, como estão habituados a ver os aficionados por jogos eletrônicos e clips da MTV. Filmes no estilo Matrix, com sua parafernália de efeitos especiais e que, apesar da boa intenção, perdem-se na tradicional diferença entre o bem e o mal, como se esses comportamentos pudessem andar separados nas pessoas.&lt;br /&gt;O Cinema de Arte é sutil na sua mensagem, simples no seu enredo, mas profundo no seu conteúdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/29/o-curta-metragem-no-contexto-da-arte/"&gt;O CURTA-METRAGEM NO CONTEXTO DA ARTE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filmes de curta-metragem tiveram uma fase majestosa, com bastante intensidade, nos anos 70, início dos 80, ainda com as filmadoras Super-8, como instrumento amador de formação de uma carreira de cineasta e, também, muitos atores e atrizes foram acolhidos como futuros pleiteantes a profissionais. A bitola 8 mm e a pouca tecnologia da época não ensejavam filmes de qualidade técnica aceitável, nem para os padrões daquele tempo, passando-se para uma nova etapa no final dos anos 80 em diante, cada vez com tecnologia mais avançada.&lt;br /&gt;Caso seja feita uma análise rigorosa dos curtas, vai se notar que eles nasceram com a invenção do cinema, como meio de comunicação, usando-se o critério do tamanho da obra, em termos de minutos. Os primeiros filmes eram bem curtos e depois da profissionalização dos realizadores, com o cinema mudo, continuavam curtos, até, aproximadamente, o final dos anos 20. Com o cinema falado, tendo trilha sonora e sons pertinentes à ação, chamados de ruídos, na linguagem técnica, houve uma divisão, passando-se a considerar curtas os filmes de até 20 minutos de duração, os de média–metragem, até 80 minutos e os longas, em média, entre 100 minutos a duas horas de projeção.&lt;br /&gt;Se usado o critério do estilo ou do modo de contar histórias, ou realizar o filme, observa-se a maneira de evidenciar certos momentos da vida, não, propriamente, uma história. O final brusco, depois adotado pelos longas, interrompendo a ação do filme, depois de deixada a mensagem, entrando, imediatamente, os créditos finais, junto com o modo de contar ou demonstrar algo, são características bem mais marcantes dos curtas, mais do que o tempo de projeção.&lt;br /&gt;Esse modo peculiar de mostrar passagens e ocorrências, que, muitas vezes, parecem insignificantes no cotidiano, pode elevar o curta à categoria de cinema de arte, sem a preocupação do tempo escasso utilizado, chegando até mesmo a filmes de 1, 2 ou alguns minutos. O poder da concisão assemelha-se aos verdadeiros contos, os curtos, tendo os filmes a marca própria de roteiros enxutos, elaborados de forma diferente de qualquer outro tipo, como os de média e os de longa-metragem.&lt;br /&gt;Atualmente, chega-se a fazer cinema de arte com os curtas, com um enorme número de festivais especializados e prêmios diversos, inclusive o Oscar, assumindo um modo de ser independente e incentivando novos talentos. É de se notar que na publicidade esses filmes são muito utilizados, com design especiais, para a promoção de produtos e bastante criativos, havendo até premiação para enaltecer a capacidade de seus realizadores.&lt;br /&gt;O grande público, como o brasileiro, ainda despreza esse tipo de filme, mesmo o cinema de arte, mas é necessário ter a constância na sua elaboração, até que se crie o hábito de exibir em salas de projeção ou de colocar em um DVD vários curtas como acontece com filmes como Eu amo Paris e, agora, Eu amo New York, com vários diretores e histórias diferentes, em verdade, vários curta-metragem formando um longa.&lt;br /&gt;Desse modo é possível criar um público maior para os curtas, ainda, encarcerados nas fina teia dos aficcionados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/literatura-para-e-books/"&gt;LITERATURA PARA E-BOOKS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrutura dos livros disponibilizados para leitura na internet guarda aquela mesma dos que são editados em papel, publicados pela editoras tradicionais. São livros com muitas páginas, obedecendo a um sumário, onde se indicam longos capítulos, cujo manuseio na tela do computador, em suas mais diversas versões, torna difícil a leitura.&lt;br /&gt;Esse formato de livro, ainda, não se adaptou a uma literatura de e-books, como está acontecendo com os livros criados para mensagens de texto pelo celular, muito comum na França e no Japão. Os livros para computadores e seus semelhantes estão entre essa literatura de celular e o livro comum, ou seja, nem tão econômica como a dos aparelhos móveis, nem extensa demais, com um número de páginas enorme, dificultando seu uso pelo leitor.&lt;br /&gt;A literatura contemporânea não suporta mais aqueles tratados, chegando a minúcias sobre um mesmo tema, em volumes grossos com mais de 400 páginas, de vez que devido à escassez de tempo, mesmo as pessoas que se interessam por literatura de entretenimento ou especializada, não dispõem de folga em suas agendas, para passar mais de, no máximo, meia hora, dedicando-se a ler. É um jogo rápido, até mesmo nos relatórios empresariais, explicitando a que vieram, sem delongas, em apenas uma postagem.&lt;br /&gt;O e-book tem que ter, no limite, quarenta páginas, dividindo o conteúdo em capítulos pequenos, de uma folha e ¼, A-4, com um enorme poder de concisão e objetividade, mesmo que se trate de um texto literário, usando figuras de linguagem e uma beleza incomum, não encontrada nos escritos do mundo dos negócios. Necessita de um talento encaminhado para esse fim, cultivado de forma específica, como era feito, antigamente, para os textos longos, cheios de detalhes, nem sempre importantes.&lt;br /&gt;Podem ser capítulos seqüenciados e encadeados em seu conteúdo, como se fazia outrora e ainda faz nos livros em papel ou ter capítulos, aparentemente dissociados, mas que guardem uma unidade com o tema do e-book. Dessa forma, a pessoa pode ter mais comodidade, sem ficar presa a uma seqüência indispensável para o entendimento do tema, podendo este ser entendido, sendo colocadas temáticas correlatas, para proporcionar, também, uma outra forma de entendimento, que não seja a tradicional.&lt;br /&gt;Para isso é preciso talento, volta-se a frisar, para que não fiquem assuntos esparsos, sem uma unidade que os costure, imprescindível à compreensão do livro. Essa é uma forma nova de escrever a que os escritores consagrados e a maioria dos novos, que os imitam ou seguem suas trilhas, não estão habituados.&lt;br /&gt;Há que ser discutidos esses aspectos nos cursos de Letras, nos seminários e correlatos relativos à literatura. Existe uma forte tendência de que, aos poucos, vá existindo, no Brasil, como já acontece lá fora, o uso paralelo das formas tradicionais de suportes da literatura com os e-books e os de celular, devendo prevalecer estas duas últimas formas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/o-conto-e-o-curta-metragem/"&gt;O CONTO E O CURTA-METRAGEM&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura de ficção e o cinema, como formas de expressão artística sempre foram companheiros e amantes, nem sempre fiéis um ao outro, mas interagindo, de forma que ora um supera o outro em termos de arte. Há casos de filmes melhores que os livros adaptados, como Razão e Sensibilidade e livros melhores do que os filmes correspondentes, como A Casa dos Espíritos, de Izabel Allende, dependendo da capacidade do escritor ou roteirista e diretor, em saber contar uma história com criatividade e atrativos de cada arte.&lt;br /&gt;Com a morte em, 18/03/08, do escritor e inventor Arthur C. Clarcke, autor do conto A Sentinela, que virou o famosíssimo filme 2001: Uma Odisséia no Espaço,de 1968, bem vivo, até hoje, na lembrança e nas filmotecas pelo mundo, essa ligação cinema e arte ficcional perdeu um de seus grandes artífices. Aos 90 anos, em sua casa em Colombo, capital do Siri Lanka, o mundo das artes ficou menor com a ausência de um dos venerados mestres de literatura de ficção científica.&lt;br /&gt;Para quem não se lembra com exatidão do filme, basta lembrar de seus momentos de relevância, como o túnel das luzes, os 25 minutos iniciais do filme sem um diálogo e o escurecimento da tela por tempo mais longo do que o normal. Mas, acima de tudo, a descoberta por um primata da extensão de seu braço, com um osso na mão, destroçando uma ossada e depois seus semelhantes, constatando a superioridade de sua força física como potencial de destruição, de um modo geral.&lt;br /&gt;Essas cenas marcantes e fundamentais no enredo vêem reforçadas pela grandeza e plenitude da imagem, com inovações estarrecedoras para a época, graças ao diretor Stanley Kubrick. Nesse filme , assim como nos outros depois, que usou, pela primeira vez, a captação de imagem por vídeo, simultaneamente, à imagem da filmadora tradicional, houve um marco delineador de um outro modo de filmagem, trazendo uma nova linguagem para o cinema.&lt;br /&gt;Essa ligação literatura/cinema se faz sentir, com maior evidência, nos filmes de curta-metragem, onde verdadeiros contos são colocados na sétima arte, não como adaptação de contos para o cinema, mas como filmes com a estrutura narrativa de contos, como no curta Pequeno Círculo, a título de exemplo. Os curta- metragem, que não recebem o devido valor artístico, são a essência do cinema, acontecendo o mesmo com o conto, que no mundo da literatura ficcional, têm muito pouca procura e menos interesse ainda.&lt;br /&gt;As duas linguagens – conto e curta metragem – embora pertencentes a modos diferentes de fazer arte, têm vários pontos em comum, como a rapidez e a indefinição de seus finais, colocando o leitor/espectador para pensar, vindo daí, talvez, o seu desprestígio. Não há o entendimento fácil do longa metragem de entretenimento, nem a leitura leve do romance que só conta uma história, sem reflexões e aprofundamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/as-palavras-na-arte/"&gt;AS PALAVRAS NA ARTE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras em si já são uma arte, consagrada na literatura, em especial a literatura de ficção, onde o estilo e seu uso correto e no devido lugar, chama a atenção de apreciadores, mesmo que elas não venham carregadas de uma idéia forte, contundente. As palavras como instrumento artístico, podendo ser orais e escritas, sempre foram reconhecidas por seu valor de modificar as coisas, enaltecê-las, incentivá-las, de denegrir a auto-estima ou de criar uma aura de mistério e glamour.&lt;br /&gt;Quando a palavra é emprestada a outras formas de arte, para descrevê-las, anunciá-las ou comentá-las é que se pode perceber a real textura que elas criam, concedendo explicações para coisas, aparentemente, inexplicáveis, como na pintura, na música, na dança, contemporâneas, onde a compreensão do fenômeno ainda não está bem deglutida. Mesmo para os movimentos artísticos clássicos, há sempre um toque diferente, um ângulo novo, a ser contemplado por um comentário luxuoso, gerando imagens, como fotografias em letras, em frases e períodos de uma consistência ímpar.&lt;br /&gt;As explicações orais dadas pelos fotógrafos de Victória Beckham, ex-Spice Girl, hoje, casada com o jogador de futebol David Beckham, para uma sessão de fotos, onde ela aparece sem o habitual glamour, mas como uma boneca viva e feia, é um exemplo do que aqui se fala. Eles usaram todo um palavreado metafórico, para justificar a feiúra da mulher que atrai a atenção obsessiva da imprensa britânica, utilizando expressões como “um olhar visionário”, que ela é uma “verdadeira contadora de histórias ( fazendo propaganda de vestidos e bolsas) ou “fotos que emprestavam energia criativa a modelo”.&lt;br /&gt;Esse glamour das palavras serve de um suporte, até de conteúdo, para produções artísticas, com descrições enlevadas, concebendo uma atmosfera de beleza e da estética da feiúra, ensejando todo um clima de plenitude, que, muitas vezes, a obra em si, não consegue alcançar. O cultivo das palavras é, sempre, o horizonte infinito de latitudes inalcançáveis, a força motriz da energia da beleza, seja qual for a forma de arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PURISMO DA LÍNGUA NA ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma disputa pela imprensa, entre dois gramáticos, sendo um sociolinguista, Sírio Possenti e outro um purista, Luis Antônio Sacconi, através do Terra Magazine, no Portal Terra, sobre o uso ou não de estrangeirismos e a adoção da linguagem, foneticamente escrita. Esses questionamentos são antigos, a partir, basicamente, dos anos 70, mas refletem, de forma contundente, na estética da literatura, como arte, definindo a qualidade da obra, na apreciação de leitores voltados para a valorização de estilos, em textos como Romances, Contos e Poesia.&lt;br /&gt;A adoção de estrangeirismos acredita-se deva ser evitada, aportuguesando-se a palavra, salvo quando, de todo, for impossível, caso do termo “expert”, que jamais poderia ser entendido como esperto ou entendido, cujos sentidos, em português não são fiéis ao sentido original da palavra. A maioria das palavras estrangeiras são anglicanismos, pelo domínio do inglês no mundo, invadindo inclusive o francês, tradicional ex-exportador de palavras para a língua portuguesa.&lt;br /&gt;Há até mesmo uma lei inócua, na França, que proíbe o uso de palavras em inglês, de resultado pífio, principalmente, no setor de informática e dos nomes das casas de comércio. O domínio da língua inglesa, com prevalência da norte-americana, é incontestável, mas existem muitas palavras que podem ter o seu sentido adaptado para o português, como é o caso da palavra celular, para telefone móvel, download, para baixar programa e muitas outras.&lt;br /&gt;Existe, porém, certo “caipirismo” brasileiro, que prefere usar as palavras em inglês, como demonstração de sabedoria e pedantismo, na linguagem comum, tanto na oral como na escrita, como reafirmação de conhecimento e mesmo em artigos científicos e nos eruditos, sob a forma de citação no original, sem a devida tradução. Esse modismo, que vem se consolidando em um comportamento constante, amputa a língua portuguesa, sem que essa observação se constitua em exemplo de xenofobia. Em Portugal, a língua procura se manter íntegra, sem ser por lei, mas por uma questão de respeito ao modo de falar português, que, como José Saramago, não permite que, em seus livros, no Brasil, seja feita a adaptação para nossa língua.&lt;br /&gt;Quanto ao modo de falar e de escrever sem seguir as normas gramaticais constituídas, como acontece demais em chats e msns brasileiros, procurando-se imitar a fonética das palavras, jamais pode ser trazida para uma obra literária. Embora tenha a liberdade de uma obra de arte, possui as suas características próprias, que é o estilo e a linguagem usada. Esses dois pontos distintos e que, para o leigo, parecem se confundir, são o cerne da literatura arte, o que a distingue da literatura comum, como na pintura um traço aleatório, independente da vontade do pintor, com significado duvidoso, também, não induz à obra de arte.&lt;br /&gt;Esse mesmo caráter duvidoso, quanto à arte na literatura, é a linguagem fonética escrita, que se torna uma leitura enjoada, maçante e, em grande parte, sem poder de comunicação, que é o que mais importa na escrita artística e na comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/arte-e-crime/"&gt;ARTE E CRIME&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há o consenso de que a arte tem como função principal, além do encantamento que causa nas pessoas, o de transgredir normas, ser libertária e romper com os padrões tradicionais de conduta humana. Em função disso, começou dia 10/03 e se estendeu até o dia 15 desse mês, em Recife, o seminário Arte e Crime: insubordinações, com várias atividades tendo como foco as obras e ações artísticas que, devido ao seu caráter crítico, político e transgressor, situam-se no limite da ilegalidade.&lt;br /&gt;É interessante notar que a relação entre arte e crime pode ser dividida em dois grandes campos de reflexão: a arte como demolidora da prática de certos atos sociais, considerados ilegais, alterando os costumes, como a nudez em lugar público, o uso de substâncias ilícitas, nos filmes de drogados, etc. E, no outro campo, como crimes contra a pessoa, o patrimônio, material e imaterial, severamente, punidos com sansões mais pesadas.&lt;br /&gt;Ao ser tratada a relação arte e crime como insubordinação, tem-se em mente conceber a arte como veículo para fazer pensar certos limites e mecanismos de controle da sociedade. A arte como potência capaz de provocar revisões de pensamento, através de fotos, vídeos, pintura, escultura, intervenções urbanas que utilizam o caráter subversivo e transgressor inerentes à própria arte, no seu aspecto inovador.&lt;br /&gt;Nesse caso, a arte testa limites de ilegalidade, cometendo pequenos delitos, como, por exemplo, a nudez das mulheres em ambiente público, no caso dos desfiles das escolas de samba, durante o carnaval ou no desnudar de partes íntimas femininas, em desfiles de moda. Há um outro tipo de transgressão como a pirataria de obras de arte, o furto de quadros e idéias, onde se pode observar o papel e a perspectiva dos poder público, ora com inércia, ora com eficiência, dependendo da repercussão do caso.&lt;br /&gt;Há, ainda, a questão da considerada “oxigenação” que a periferia e a chamada “atitude” trazem para a sociedade. Nessa postura, a periferia não deseja mais ser espectadora, mas participante do processo criativo. Possui uma arte própria que se populariza nas diversas classes sociais, principalmente entre os jovens, como é o caso da moda, da música funk, etc. No passado, isso ocorreu através do samba de raiz, de fundo de quintal, hoje, bastante valorizado.&lt;br /&gt;Um problema que deve ser bastante discutido é o da qualidade artística no objeto de arte, para que não se queira incluir a pirataria (roubo) como forma de emancipação do extorsivo poder dos estúdios de gravação de filmes e música. Cada um que crie a sua arte, hoje com bastante facilidade pelo computador e a divulgue da forma que achar conveniente, inclusive pela internet, não usando, para isso, o talento alheio, na condição de simples atravessador, em uma concorrência desleal com o artista e feita por quem não o é.&lt;br /&gt;Crime no sentido de insubordinação diante dos costumes é diferente do crime que atinge terceiros, na sua integridade física, inclusive a criativa, que alcança seu patrimônio e rompe com as mais primárias formas de convivência em sociedade. A insubordinação tem seus limites, mesmo na posição de vanguarda, de visão de novos horizontes sociais, mas não pode ser confundida com a bandidagem, que tem que ser penalizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM PONTO CEGO E A ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um campo de visão é escondido por algum empecilho físico, eletrônico e de qualquer outra natureza, chamamos esse espaço não visto de ponto cego. É um termo comum na arquitetura, e nas artes em geral, mas que pode ser aplicado a qualquer ciência, inclusive as da área social.&lt;br /&gt;O mapa do Brasil lembra a forma de um coração e o do Continente africano o de um coração partido pelo braço de mar que separa a Arábia Saudita do lado do Oriente Médio e o Egito, o Sudão, a Eritrea e o Yemen de outro, na África. Esse é um dado constatado, fisicamente, na formação dos continentes, inquestionável por sua visível estrutura.&lt;br /&gt;Em termos sociais ou sociológicos, o coração partido ocorre de maneira real, muitas vezes como um ponto cego, pois só se enxerga no continente africano o país chamado África do Sul, bem ao sul mesmo e confunde-se esse país com o Continente: África. Esse continente de coração partido sofre o mesmo revés socioeconômico dos países que ficam voltados para o litoral, como Angola, Moçambique, Camarões, etc., de onde vieram, também, os escravos para o Brasil.&lt;br /&gt;Esses países citados e outros do litoral, junto com a África do Sul, conhecido pela atuação de Nelson Mandela, são pontos de referência, naquela região do planeta, para os brasileiros, de um modo geral. Tem-se, com isso, a impressão de que somente essas nações, sem contar a Líbia, o Sudão, o Chad, a República da África Central e outros não compõem o Continente.&lt;br /&gt;O mesmo destino de territórios colonizados, como o Brasil, têm, lá, os do litoral, mas os que estão no ponto cego estão atolados, também, na miséria e no totalitarismo, requerendo ação humanitária, de vez que estão afetados por doenças como a AIDS e assolados pela fome. Observa-se que, por serem os brasileiros descendentes, inclusive em sua grande maioria, de negros africanos do litoral, a eles estão ligados, culturalmente e mais próximos de seus problemas.&lt;br /&gt;É compreensível essa posição, mas quando se fala em raça negra, em raiz, há todo um conjunto de pontos comuns e referenciais com o resto do continente africano. O mesmo acontece na América do Sul, quando há a citação de latinidade, pois logo vêm à tona os países de colonização espanhola e descendência indígena, hoje já, definitivamente, chamados de ibero-americanos e se exclui o Brasil.&lt;br /&gt;A latinidade, porém, inclui o Brasil, mesmo que cada país tenha as suas características culturais próprias, mas o espírito expansivo, a alegria, a musicalidade, a afetividade “hospedeira” é comum em toda a América do Sul. O mesmo acontece com as características culturais do povo africano, seja do norte ou do sul, do litoral ou do centro, formando um todo que merece ajuda e atenção dos países em desenvolvimento e dos desenvolvidos, para que se efetue uma mudança efetiva no cenário “afavelado” daquele continente.&lt;br /&gt;Essa visão parcial da África têm muitos brasileiros. Isso atrapalha o entendimento socioantropológico de nosso povo e influencia de teses raciais e de miscigenação que determinam o preconceito, como o sistema de cotas no ensino superior, a negação peremptória desse preconceito contra o negro e muitas outros pontos de vista. É preciso enxergar o ponto cego do Continente Africano.&lt;br /&gt;Trazendo-se essa visão para a arte, observa-se que desde a época de Picasso e sua famosa influência africana, sem nunca ter ido à África, fica adstrita às máscaras e outras esculturas de rituais religiosos, necessitando até mesmo de um artesanato que se desprenda disso. A arte africana tem peças lindas, de valor artístico, mas sente-se que falta um liame com a arte ocidental e parte da oriental, ausência de ligação essa que torna limitado o conteúdo produtivo, ficando adstrito a um curral de idéias e de formas e cores, partindo-se para o repetitivo do artesanato.&lt;br /&gt;Já na música africana e na dança há mais amplitude em seus ritmos próprios, os quais a cultura negra de outros países cuida de acrescentar os elementos locais, enriquecendo a estética do negro e fomentando outros fundamentos de cunho social. Nesses locais, como o Brasil, a arte negra trouxe forte contribuição para a própria consciência negra, sua importância e seu valor estético, abandonando-se aquela postura antiquada de imitar o branco, na aparência, no vestuário e adereços e no modo de pensar e ser.&lt;br /&gt;Esse novo choque racial, se por um lado acirra preconceitos, tanto dos brancos, como dos próprios negros contra si, abre horizontes de amplitude incalculável para a renovação de todo um arcabouço social, com conseqüências imprevisíveis para as relações sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/a-obesidade-na-arte/"&gt;A OBESIDADE NA ARTE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos tempos, em função de revezes na vida de pessoas em busca de um tipo magérrimo, como a bulimia e a anorexia, as grifes de alto luxo e os organizadores de desfiles de moda estão abandonando tipos de modelos secas e de aspecto doentio. Outras aparências, não propriamente gordas, vêm surgindo, com um aspecto saudável, ressaltando um esplendor que combine com um look cheio de vida e formas.&lt;br /&gt;Na arte, principalmente na pintura, tem havido uma oscilação, desde os quadros de Rubens e outros artistas da época, com as mulheres rechonchudas, ostentando exemplos de beleza, até Fernando Botero, com seus quadros retratando as gordas, embora de forma infantil, com aspecto simples. Sendo quase um exemplo único no mundo atual, esse pintor tinha outros adeptos das mulheres obesas, como maneira de retratar, ora uma realidade inexorável do ser humano, quase sempre com a idade avançando, ora por encontrar algo de sutil em partes do corpo das gordas que os atrai e revelam em seus quadros.&lt;br /&gt;Recentemente, um quadro britânico pode ser o mais caro de um artista vivo, leiloado na casa Christie´s, em Nova York, do pintor Lucian Freud, sendo oferecido por até 35 milhões de dólares, mostrando uma operária obesa dormindo em um sofá. Os traços, que se parecem com os de desenho, são esquecidos, diante maneira como é retratada a mulher, com certo glamour, com força na expressão, fornecendo equilibrada distribuição das partes do corpo e pelas dobras que se encontram no sofá.&lt;br /&gt;Um dos pontos altos é a mão direita segurando um seio farto, bem guloso, enquanto o outro se deixa levar pela força da gravidade, assim como a barriga, que tapa a visão do sexo. As coxas volumosas guardam a forma apropriada da posição em que se encontra deitada. Isto sem falar nas cores utilizadas pelo pintor, com vários contrastes de bege e verde amarronzado, formando um todo de uma estética diferenciada, que não chega a ser o que, convencionalmente, chama-se de belo, nem de feiúra.&lt;br /&gt;Simplesmente, foge ao tradicional em termos de estética: um quadro diferente, que atrai a atenção dos apreciadores de arte pictórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/a-virtualidade/"&gt;A VIRTUALIDADE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo virtual é uma concepção que cria embaraço, má interpretação e certa confusão, na maioria das pessoas que lidam com conteúdo digital, qualquer que seja o meio de comunicação. A ausência de distinção entre o digital, o real e o virtual, tanto a nível teórico, quanto prático, leva até indivíduos esclarecidos, a achar que tudo em que está na internet é virtual e o real é somente o que está à sua volta, no corpo a corpo.&lt;br /&gt;O digital é o meio, o mecanismo, o instrumento utilizado para oferecer uma comunicação através da informática, como, por exemplo, os telefones, as televisões e os computadores. O real é tudo que utiliza a presença da pessoa, não apenas através dos cinco sentidos tradicionais, mas incluindo as sensações produzidas pela palavra e pela imagem que, nem sempre, estão diante dos ouvidos e da visão. Inclui-se, aí, a comunicação a longa distância, como é o caso da internet, onde essa presença constante de pessoas se conectando torna real a relação, embora não haja o cara a cara, como não há no telefone e outros meios digitais teleoperados, por quase todos no mundo inteiro.&lt;br /&gt;O conceito de virtualidade está ligado a uma realidade que não é a que se vive, mas à criada pelo homem, como nos filmes com efeitos especiais, jamais a realidade do chat, do msn, das comunidades sociais que são reais, tanto quanto as associações de bairro. Estar na internet não é ser virtual, como a maioria pensa. As pessoas que ali se comunicam são reais, apenas operam a distância um instrumento, hoje com a imagem do interlocutor, através das webcam´s, mostrando objetos, assistindo a filme juntas, fazendo troca de carinho, como beijos, não escritos ou falados, embora em locais diferentes.&lt;br /&gt;A virtualidade, também, por isso, não é a “desrealidade”, como querem alguns filósofos atuais, principalmente franceses, mas uma realidade diferente, a chamada realidade virtual, que implica a realização de conteúdos que jamais podem ser repetidos, na realidade comum, porque criados e existentes apenas dentro dos computadores. A confusão vem daí, em achar-se que a comunicação a distância, também, está, apenas, dentro dos computadores, aparecendo nas telas dos monitores e que uma conversa em chat é virtual por isso, esquecendo-se de que, por trás das telas, há pessoas com sentimentos, atitudes, etc., exercendo a sua realidade. Costuma-se dizer que a relação social estabelecida no chat é idêntica a uma conversa por telefones, com aparelhos próprios, entre os surdos, existindo através da linguagem escrita com seus códigos próprios para exprimir sensações e sentimentos.&lt;br /&gt;A realidade virtual não inclui o contato a distância real, como o vivido por pessoas que trocam informações pelo computador, seja pessoal ou de conhecimento. A virtual é a de algo inexistente em nossa realidade, inventada pelo homem e só existe na cabeça das pessoas. Está bem distante do ser humano, como as alterações que se fazem, através de softwares como o photoshop, em fotografias e imagens outras.&lt;br /&gt;Isso é virtualidade e não a comunicação no computador entre pessoas a distância. Até a televisão digitalizada e informatizada já produz virtualidade, quando se alteram os rumos de um filme ou de qualquer outro programa, colocando-se na forma desejada.&lt;br /&gt;Sem querer confundir mais, o virtual é real, mas o real não é virtual, mesmo no computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/o-novo/"&gt;O NOVO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra novo abrange vários sentidos, trazendo conseqüências distintas. Sempre guarda consigo a intenção de demonstrar o que acaba de surgir, mas não a garantia de que será permanente. As pessoas recebem o novo como modismo, como início de outro estágio na vida ou como algo de permanência mais duradoura.&lt;br /&gt;Há uma tendência dos conservadores, aqueles que ficam adstritos a princípios morais imutáveis de não aceitar a mudança e essa postura é, em geral, atribuída aos velhos, reconhecidamente, resistentes a modificações no seu modo de proceder, diante das coisas e encarar outros valores. Mas há jovens que se recusam a aceitar as premissas de uma nova forma de existência humana, que se resumem na globalização, no feminismo e no chamado capitalismo humanitário.&lt;br /&gt;No campo da produção cultural, as inovações se apresentam, no regime capitalista, como felicidade, amor e feminismo. São os três campos explorados no âmbito da cultura de um povo, neste tempo em que estamos vivendo. Através da dimensão que é dada a cada um desses elementos, pode-se verificar a existência do novo, não como vanguarda, mas como espectro do modismo do momento.&lt;br /&gt;Um exemplo claro disso é a reformulação do antigo como novo, sem que surja uma vanguarda que, efetivamente, venha mudar o panorama dos valores morais ou éticos. Morais, os valores estabelecidos e éticos, os que devem ser. No campo da vida moderna, as modificações e inovações tecnológicas continuam dominando o ranking das coisas novas, ao mesmo tempo em que o aquecimento global causado, em grande parte, por esse desenvolvimento tecnológico é a contramão desse caminho tortuoso, no qual trilhamos e estamos mergulhados em sua paisagem.&lt;br /&gt;O novo sempre tem dois lados: o presente e o passado, na perspectiva de construção de um futuro para a humanidade. Esses dois momentos são conflitantes e, ao contrário do que se pensa, não existe uma passagem tranqüila de um para o outro, ocorrendo contradições internas, na eterna luta da manutenção do que era com os valores morais que surgem de uma nova realidade.&lt;br /&gt;Esse tema filosófico tem aplicações práticas gritantes, no confronto diário e mais acentuado, em tempos recentes, no conflito de gerações. Mas isso não é retilíneo, como um comportamento esperado. Há parte das gerações novas que repetem o modo de agir anterior e a outra procura outras formas de se expressar, na descontração, na leviandade, no desleixo pessoal, em maneiras de chamar atenção, em uma sociedade cada vez mais massificada.&lt;br /&gt;O que se pode concluir é que o novo não é o diferente do anterior, no choque passado/presente, mas uma gama de pequenos detalhes, aos quais é preciso estar atento, para entendê-los e não é óbvio, como alguns podem pensar. O novo, nem sempre é novo por estar à frente, repete fórmulas, mas há o novo, realmente, inovador, a ruptura, a verdadeira vanguarda que rompe com o passado, nem sempre impunemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/o-que-sera-minha-pintura/"&gt;O QUE SERÁ MINHA PINTURA?&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sempre uma necessidade crescente dos críticos de arte e dos que produzem arte de enquadrar a produção artística em um movimento ou em uma tendência. Como, nos últimos anos, essa tarefa vem ficando mais difícil, passou-se a denominar os trabalhos por décadas, como pintura dos anos 80, 90, etc.&lt;br /&gt;A existência de movimentos pictóricos foi desaparecendo ao longo do tempo, pela falta de organicidade na maneira de fazer pintura. Cada artista, por sua própria conta e risco, fica atrelado a uma instituição ou indivíduo que faz seu marketing e o projeta no mundo das artes. Dependendo dessa pessoa, um curador ou marchand, como se dizia antigamente, o trabalho artístico estará em evidência no mercado certo, no momento apropriado.&lt;br /&gt;Com essa configuração atual, torna-se difícil para os historiadores de arte estabelecer padrões de compreensão didática, no enquadramento, sem falsas rotulações, dos objetos artísticos, no caso a pintura. Apesar de vivermos em uma sociedade massificada, cada artista, sozinho, procura sobressair no mercado e para a fama, o sucesso, sem haver uma troca de experiências ou uma causa, como aconteceu com os Impressionistas e bem posteriormente com os expressionistas abstratos, nos dois casos rejeitados, os primeiros no Salão de Paris e os segundos no Metropolitan Museum de New York. Em ambos os casos, pintavam de forma diferente do que habitualmente era exposto nos Museus e Galerias e ainda não haviam criado mercado para seus trabalhos.&lt;br /&gt;Essa rejeição os uniu, não importava, no caso dos expressionistas abstratos, o que pintassem, desde o figurativo até o intrinsecamente abstrato. Foi, então, que Jackson Pollock, pelo esforço de sua mulher Aka Lena Krassner - conhecida , artisticamente, como Lee Krasner - conseguiu atrair a atenção de Peggy Guggenheim e de críticos de arte, ávidos por novidades, projetando Pollock no mercado. Consigo arrastou uma série de outros pintores que tiveram o reconhecimento merecido, embora Pollock fosse o único que atingiu fama internacional, graças ao trabalho da Senhora Krassner, que, abandonando seu próprio trabalho como pintora, dedicou-se integralmente à carreira do marido.&lt;br /&gt;Essa atitude de congraçamento de artistas desapareceu. Surgiu um novo modo de vida que se instalou nos anos 60 e, contraditoriamente, dizendo-se de liberdade, paz e amor, esse comportamento - se é que foi realmente uma filosofia de vida - ao mesmo tempo em que lutava pela liberdade individual, reunia-se em comunidades. Isso gerou, mais tarde, o fenômeno da dicotomia indivíduo X massificação de forma bem acirrada e contundente.&lt;br /&gt;Com a massificação, daí advinda, hoje se pinta o que vende, desde a arte dos nativos das cidades históricas ao esgarçar dos histriônicos, nas grandes cidades como New York, Tóquio, etc.. E nem foi falada na arte puramente decorativa, dos pintores de flores e paisagens, dos cavalos e gatos, das pessoas e grupos, como se fosse uma foto mal tirada.&lt;br /&gt;E o que será minha pintura? Onde estaria “enquadrado” meu trabalho, como está registrado neste site, em Quadros Atuais e nos Arquivos? Seria um Livre Expressionismo, uma versão presente do Expressionismo Abstrato ou não seria nada, apenas mais uma galeria de quadros decorativos, sem valor artístico?&lt;br /&gt;Acredito na pintura como forma, ainda vigente, de expressão e continuarei pintando, porque, como disse Pollock: “Pintar é um modo de ser”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/page/2/"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ARTE DESPROTEGIDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte, no Brasil, é tratada, basicamente, como um subproduto de fachada de atuação governamental, sem políticas públicas de auto-sustentação, ficando a atuação nessa área à mercê do humor de governos e dos empresários mecenas. Ao centralizar no Ministério da Cultura os recursos para a enorme diversidade de arte que existe, além da cultura popular, fica evidente que muitas dessas artes ficarão de fora das asas protetoras (sic) desse órgão público.&lt;br /&gt;Não é desse jeito que se coordena o setor das artes no país, desmotivando pessoas e instituições que se interessam em atuar e promover o setor artístico nacional. A definição clara de políticas voltadas para a arte, seja como atividade empresarial, seja como atividade pública, torna inócua qualquer atuação do Ministério da Cultura nesse setor.&lt;br /&gt;Com os olhos voltados para a cultura popular, essa instituição governamental privilegia áreas desse tipo de cultura, tornando patrimônio cultural do Brasil comidas típicas, músicas, brincadeiras populares, que já fazem parte da história do país. É certo que desse campo deve cuidar o Ministério, porém, jamais, em detrimento da cultura erudita, jogada às traças nos escaninhos dos programas de computador, em arquivos nunca abertos, nem para consulta.&lt;br /&gt;Os mais recentes roubos nos museus brasileiros é uma prova cabal dessa desproteção material, locais onde não há segurança, sem detectores de metais, serviço de câmeras eficientes, em se tratando de prédios que têm um conteúdo bastante valioso, a preços de mercado. A não ser velhos vigias, na maior parte das vezes, sem uma arma, atrelados a um sistema de controle de visitantes, ficam os prédios entregues à vontade dos ladrões especializados.&lt;br /&gt;Sabe-se que o roubo de obras de arte ocorre no mundo inteiro, mesmo onde há respeito e diligência no serviço de segurança, sendo mais uma razão para que se implante um sistema eficiente de guarda, conservação e manutenção desse patrimônio. Mas a desproteção da arte está mesmo em um plano mais alto, mais abrangente, envolvendo a questão da produção, divulgação, fiscalização e orientação do setor artístico.&lt;br /&gt;Se o Brasil não conseguiu impedir a devastação da mata atlântica, não está impedindo o desmatamento da região amazônica, quer tratar o biocombustível, paralelamente, à produção de petróleo, sem dar prevalência ao primeiro, o que se pode exigir para a arte? Óbvio que não pode se exigir que o alimento da alma seja tratado com seriedade e vigor necessários ao seu desenvolvimento.&lt;br /&gt;Muitos acreditam, ainda, literalmente, que a arte é inútil. Mas essa visão estreita está contida, apenas, na concepção específica de um capitalismo que vê na arte, somente um produto mercadológico, sem atentar para o fato de que, mesmo em um capitalismo mais avançado e inteligente, é uma fonte de renda impressionante. O Brasil, como governo, não enxerga isso e fecha os olhos cegos para um setor dinâmico e enaltecedor do ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="permalink" href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/2008/04/27/pollock-uma-eficiente-ruptura-abstrata/"&gt;POLLOCK: Uma Eficiente Ruptura Abstrata&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde as tentativas para modificação da pintura renascentista, muitos movimentos se instalaram com esse propósito, como o impressionismo, no século XIX e outros anteriores, como o barroco, buscando inovar nos aspectos das técnicas e dos métodos. Essa busca constante pelo diferente não se dava no sentido consumista, do novo pelo novo, como hoje em dia, com o desrespeito da descartabilidade, do modismo, de vez que sempre havia o reconhecimento do tipo de pintura e mesmo de arte praticada anteriormente.&lt;br /&gt;Pode-se considerar o impressionismo como a primeira tendência de rompimento, realmente efetiva, com o figurativo tradicional, modificando os modos clássicos de ver uma realidade retratada.&lt;br /&gt;O surgimento, mesmo que rudimentar, na época, da fotografia impactou a visão que se tinha da pintura como elemento de reprodução, de cópia da realidade, da elaboração de retratos e pinturas de paisagens e naturezas mortas. A fotografia, ainda hoje, fixa momentos de uma realidade concreta, como as tiradas para álbuns familiares, viagens, todas de cunho pessoal, embora tenha alçado vôo ao status de arte, com os diversos trabalhos dos fotógrafos-artistas, que buscam uma realidade diferente da que é simplesmente captada pela câmera.&lt;br /&gt;Com o advento da fotografia, a busca por um pintar que rompesse com a tradicional forma de captar a realidade avançou bastante. Isso, em movimentos pictóricos vários, como o cubismo, o surrealismo, um pintar abstrato, com Kandinsk e muitos outros, o dadaísmo e todos os da chamada pintura moderna, mas, ainda, com laivos de figurativo.&lt;br /&gt;Com Edvard Munch, considerado o pai do Expressionismo, houve uma forma mais intimista e até mais conceitual de expressar um sentimento, uma emoção, por meio da pintura, mas com componentes ainda figurativos. Mas foi no pós- II Guerra que uma busca maior passou a interessar os pintores americanos, que desejavam se desvincular do estilo europeu, de vez que o centro cultural do mundo deixou de ser Paris e passou a ser New York.&lt;br /&gt;A mesma tendência de inovar, do início e primeira metade do século XX, agora, passou a ter outra preocupação, que era desvincular inteiramente o figurativo das pinturas abstratas. Muitas tentativas foram feitas, com forte interpretação psicológica do conteúdo dos quadros e, mesmo com formas abstratas, lembravam o figurativo, sem que a intenção fosse essa.&lt;br /&gt;Foi com Jackson Pollock que se atingiu o grau máximo de abstração, a fixação de um aparente nada, se pensado em formas figurativas, a concepção de uma nova forma, por intermédio de seu dripping, onde o figurativo desaparece. Um modo tão revolucionário que chegou ao patamar de uma ruptura com o que, até então, vinha sendo executado como pintura e elaborado de forma tão particular e própria do pintor, que não pôde ter seguidores, pois seriam meramente repetidores. Em todos os quadro de Pollock, dessa fase de dripping, observa-se a genialidade em não repetir conteúdo, embora a forma seja praticamente a mesma. Há uma variedade de composições com o mesmo tema, sem que exista a visão por um outro ângulo, sem necessidade de que a luz se desloque ( embora se desloque), mas isso é fundamental no figurativo, a exemplo dos quadros dos jardins, no impressionismo de Monet.&lt;br /&gt;Como não pôde haver seguidores, a morte prematura do pintor, por desvarios do alcoolismo, em um desastre de automóvel, encerrou praticamente uma fase grandiosa da pintura. Outros tempos chegaram, outra mentalidade passou a ver o mundo, como se ele fosse sendo descascado, fazendo surgir outros movimentos como o minimalismo, a pop art, tendência de um desfalecer inesperado com o mundo real da industrialização e da mudança de costumes.&lt;br /&gt;Realmente, Pollock criou o abstrato sem o resquício de figurativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PINTURA: Mãe das Artes ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira forma de expressão do homem se deu quando ele, ao tomar um pedaço de osso na mão, criou uma extensão de si mesmo e pôde combater os animais maiores, fisicamente, bem como o próprio homem. Enfim, pôde se defender e/ou atacar. A partir daí, vieram os objetos construídos por ele, como utilitários, que foram se aprimorando ao longo do tempo, até arquitetar formas consideradas artísticas, acima das outras artes.&lt;br /&gt;Foi, porém, com a pintura rupestre, não importando, aqui, a sua finalidade, se para simples controle de suas posses ou como forma de expressão do que o cercava, que se criou, ao longo dos anos, uma forma de fixação de uma realidade. Com o passar do tempo, veio a ampliação desse processo criativo e foram-se desdobrando formas e objetos criativos, a inclusão das cores, até chegar a este ponto que nós conhecemos, mas que sempre está em plena mutação, com a incorporação de tecnologias usadas como meio de comunicação. O processo criativo sempre caminha e, ao concluir um estágio, já está em busca de outro.&lt;br /&gt;Se levarmos em consideração que todas as artes, como a escultura, a dança, a música, a literatura, etc., têm os seus signos, que podem ser transpostos para um suporte, e, além disso, podem ser pintadas, de modo concreto ou abstrato, assim como podem ser dançadas, a pintura, a escultura, a literatura, etc., torna-se duvidosa a expressão: a pintura é a mãe das artes. Pode-se criar, por exemplo uma coreografia para uma escultura de Rodin ou para um personagem literário ou uma história contada por escritores e, assim, para todas as artes.&lt;br /&gt;Para os apaixonados pela pintura, não há outra arte igual a essa, uma que congregue e explicite, com clareza, amplitude e solidez, não só as outras formas de expressão artística, mas a realidade invisível e nada palpável dos sentimentos, da emoção sentida com, às vezes, apenas um traço feito com aparência aleatória, em um suporte que pode ser de papel, de madeira, de alvenaria, como os muros e as paredes internas de um prédio, o interior de uma galeria de esgoto, nos lençóis ou na tela. Não importa onde!&lt;br /&gt;Arte alguma tem esse privilégio de ser tão versátil em sua demonstração e ser expressa com um simples pedaço de carvão em qualquer lugar, até nos recônditos das antigas cavernas ou na mais sofisticada e cara galeria de arte. A pintura transcende, ultrapassa o tempo, tem uma noção diferenciada dele, assim como nos campos magnéticos, há intervalos de vazios do tempo, como o conhecemos.&lt;br /&gt;A pintura tem o moto-próprio de energia, jamais acaba, como pensaram alguns, ao se verem perdidos e sem horizontes de criatividade. Ela apenas se transforma e se adapta, como um camaleão atemporal; basta observarmos o caso da recente criação e execução da pintura virtual. Essa nova modalidade de pintura percorre outros campos criativos. Esquiva-se de seus suportes tradicionais, tendo o computador como máquina e o homem como seu condutor, ao fazer escolhas, criar combinações de cor impensáveis, que não dependem da iluminação do local, para quem as aprecia e externando formas, tanto figurativas, quanto abstratas.&lt;br /&gt;Por essa e outras razões, a pintura se situa em um plano, desmerecendo essas outras formas de expressão artística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SERÁ ARTE? O QUE SERÁ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma revista brasileira não especializada em arte, mas em assuntos para mulheres, traz uma pequena reportagem: “Arte sob Encomenda”, na qual relata experiências economicamente bem sucedidas de grafiteiros pintando paredes interiores, substituindo quadros, em hotéis e residências, inclusive fora do Brasil. São pinturas, na maioria figurativas, algumas misturando figurativo com abstrato, no estilo grafite.&lt;br /&gt;A mão de qualquer um apreciador de arte pegaria logo o cabo do carimbo com a tendência de afixá-lo com o termo modismo. Mas há algumas características que chamam a atenção na descrição da jornalista: “esses grafiteiros, com sucesso internacional, têm telas expostas em galerias de arte e trouxeram sua experiência da rua, lá onde a pintura se desmancha ou apaga pelas intempéries do tempo”.&lt;br /&gt;Nas paredes interiores, essa pintura se desgasta, também, com o passar do tempo, pelo cansaço de sua presença, com a possível postura efêmera de sua proposta e é apagada, propositalmente, para que seja colocada outra, como um artesanato com outro modelo e finalidade. Os murais e pinturas de parede, simplesmente, vêm desde Roma, mas auferiam o cunho de obras de arte e, até hoje, são admiradas dessa forma. Não há a eventualidade e a agilidade dos tempos atuais, quando se consegue vislumbrar a genialidade do artista, sua especificidade como arte, não importa qual o suporte artístico que foi utilizado. Sair da arte de rua parece sair de uma escola para uma pintura de grandes dimensões, de prevalência figurativa, para que todos a entendam, com traço específico e uma forma “berrante”, com cores quentes e condiz muito com os jovens que trabalham com arte, que, segundo a reportagem, são os maiores compradores da “parede com desenho pintado” ou site specific, como é conhecida nos meios artísticos.&lt;br /&gt;É uma “arte” feita por encomenda, de vez que o artista estuda o local e se prende a suas características, para produzir seu trabalho. Diferente do que acontece com o artista e sua tela ou seu muro, quando há o exercício de uma liberdade total para criar, mesmo que ele, também, estude a tela em branco, “namore”, embora haja arte em tela por encomenda.&lt;br /&gt;O que é importante fixar e entender é que esse tipo de trabalho, nas paredes interiores de moradias ou lugares públicos, é mais uma busca de um caminho para o futuro da arte pictórica e possui algo próprio, definido, incomum, principalmente nos trabalhos abstratos. O fato de estar na parede ou na tela se traduz em uma simples questão de suporte.&lt;br /&gt;Na pintura virtual, há telas em LCD que a pessoa enfia um chip e aparece o quadro pintado pelo artista em seu computador, ou aparece uma seqüência de quadros que ficam na parede, não necessitando da tela tradicional de lona. E isso já existe.&lt;br /&gt;Apregoar essa tendência do site specific, como modismo, pode ser perigoso, porque depende da qualidade da arte e dos novos pontos de apreciação que lhe são acrescentados. Isso o futuro nos dirá.&lt;br /&gt;O que é incontestável é que o estilo grafite vem se tornando uma marca própria de um período, como este início de milênio, não só pelo fato de entrar para as galerias de arte. O cinema animação vem adotando essas características, seja no futurismo do roteiro ou nas histórias mais convencionais. Essa aceitação do grande público e do grupo dos entendidos vem fixando um fazer artístico que deixou de ser marginal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-2138903369526393114?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/2138903369526393114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/02/saraiva-filho-fiapos-de-arte-temas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/2138903369526393114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/2138903369526393114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/02/saraiva-filho-fiapos-de-arte-temas.html' title='FILOSOFIA'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3552059319010853667.post-2902630933909094693</id><published>2009-02-15T11:20:00.000-08:00</published><updated>2009-03-16T06:21:59.997-07:00</updated><title type='text'>LIVRO FILOSOFIA DA ARTE (I)</title><content type='html'>SARAIVA 23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FILOSOFIA DA ARTE:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pintura e o Método do Materialismo Dialético&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copyrigth by Saraiva Filho&lt;br /&gt;saraivafilho23@hotmail.com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLOG : &lt;a href="http://semprepoeta.blog.terra.com,br/"&gt;http://semprepoeta.blog.terra.com,br/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;BOLG : &lt;a href="http://sempreescritor.blog.terra.com.br/"&gt;http://sempreescritor.blog.terra.com.br/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;FOTOLOG &gt; QUADROS&lt;br /&gt;&lt;a href="http://fotolog.terra.com.br/"&gt;http://fotolog.terra.com.br/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revisão Lígia Costa Saraiva&lt;br /&gt;Saraiva Filho, J&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filosofia da Arte: Uma Visão Dialética / J. Saraiva Filho – Maranhão. Brasil.2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. J. Saraiva Filho,1948 – Arte 2. Escritor Brasileiro – Século XX – Filosofia da Arte 3. Brasil&lt;br /&gt;CDD -&lt;br /&gt;CDU –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Lígia Saraiva, pelo incentivo, apoio, e revisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meuspais“in memorian,&lt;br /&gt;pelo que fizeram de mim e,&lt;br /&gt;em especial, pelo sentido de&lt;br /&gt;liberdade que me passaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUMÁRIO&lt;br /&gt;1 - Apresentação&lt;br /&gt;2 – Prefácio&lt;br /&gt;3 - A expressão Artista Plástico&lt;br /&gt;4 - Sobre alguns movimentos pictóricos&lt;br /&gt;5 - Idéias sobre Arte Contemporânea&lt;br /&gt;6 - A leitura de quadro abstrato&lt;br /&gt;7 – A liberdade na pintura&lt;br /&gt;8 - O livre expressionismo&lt;br /&gt;9 - Método spilled&lt;br /&gt;10 - Aguado com pincel&lt;br /&gt;11 - Método do materialismo dialético aplicado à arte&lt;br /&gt;12 - A teoria do conteúdo significante x a teoria do&lt;br /&gt;espectador&lt;br /&gt;13 - A idéia de Perfeição na arte&lt;br /&gt;14 - A pintura abstrata e seus movimentos&lt;br /&gt;15 - O figurativo e o abstrato na arte contemporânea&lt;br /&gt;16 - A aceitação pública da arte abstrata&lt;br /&gt;17 - A crítica de arte na pintura&lt;br /&gt;18 - O sentido de arte contemporânea&lt;br /&gt;19 - O nome dos quadros abstratos&lt;br /&gt;20 - Distinção entre arte decorativa e arte abstrata&lt;br /&gt;21 - Uma nova forma de pintura artística&lt;br /&gt;22 - Exposição virtual de pintura&lt;br /&gt;23 - A emoção do artista e do espectador da arte&lt;br /&gt;24 - A arte de rua&lt;br /&gt;25 - O sentido da palavra natureza nas artes plásticas&lt;br /&gt;26 - A finalidade da Arte&lt;br /&gt;27 - Democratização e Massificação da Arte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APRESENTAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O objetivo destes artigos, escritos ao longo de quase dois anos, é desmistificar concepções antiquadas sobre Filosofia e História da Arte, a partir de novos conceitos que fogem à ortodoxia dos manuais vigentes, tendo como eixo teórico-metodológico o método do materialismo dialético, apenas como método, sem adotar a teoria marxista. O enquadramento dos movimentos pictóricos obedece a uma visão nova de figurativo e de Abstrato, contrariando as existentes, geralmente empíricas, semióticas ou fenomenológicas, adotando-se uma perspectiva menos conservadora. Talvez sejam considerados textos esdrúxulos para os ortodoxos, mas a intenção, aqui, é visualizar o futuro, a partir da arte contemporânea.&lt;br /&gt;Não houve a intenção inicial de se tornar um livro, daí a diversidade de assuntos, aparentemente, não concatenados, mas que, no fundo, guardam certo entrosamento. Pode parecer que há repetição de temáticas, como, por exemplo, a arte contemporânea, mas com apresentação de enfoques diferentes.&lt;br /&gt;Os artigos não foram datados, apesar da presença de sua historicidade, para gerar, no leitor, a possibilidade de fazer interligação pessoal dos temas e, através da interação, participar de sua própria montagem mental.&lt;br /&gt;A finalidade do livro foi voltar-se para a pintura moderna, pós-moderna e contemporânea, de vez que, como pintor artístico, esse é o âmbito de interesse do autor.&lt;br /&gt;Saraiva 23 / abril de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PREFÁCIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com suas reflexões estéticas, calcadas em uma profunda visão crítica, o autor, pintor artístico (como ele próprio prefere nomear o artista plástico que exercita a arte da pintura), expõe-nos, através de uma delicada seqüência de artigos, suas observações mais apuradas sobre a produção artística, no campo das artes visuais, sem recorrer à utilização de uma linguagem estritamente acadêmica, o que permite alcançar um público mais amplo e heterogêneo.&lt;br /&gt;De grande valor analítico, a presente obra propõe-se, mesmo que despretensiosamente, auxiliar aqueles que têm dificuldade em entender uma fruição plena na apreciação de uma obra de arte.&lt;br /&gt;A leitura, aparentemente fragmentada, do presente livro poderá induzir o leitor mais distraído a questionar seu título e subtítulo, caso este não venha a compreender que não se trata aqui de uma Dissertação ou Tese sobre Estética, nem, tampouco, de um tratado sobre o método do materialismo dialético e, sim, um livro de conteúdo claro e bastante profícuo sobre esses assuntos.&lt;br /&gt;O que mais me impressiona neste livro é a fartura de análises sobre técnicas, movimentos e obras, de forma bastante clara, sem nenhuma pretensão didática, mas com uma linguagem que possibilita um entendimento bastante acessível, colocando, como que propositalmente, conteúdos com os quais se pode dialogar distintamente, no momento em que se precise recorrer ao entendimento de uma obra ou movimento em particular.&lt;br /&gt;Embora não seja minha área de conhecimento específico, sinto-me à vontade para tecer comentários sobre o livro de Saraiva Filho, colocando-me como apreciador atuante das artes visuais e por considerá-las de conteúdos colaborantes e imprescindíveis à cenografia, uma das linguagens cênicas, através da qual me comunico artisticamente.&lt;br /&gt;Parabéns, Saraiva, seu livro chega em muito boa hora.&lt;br /&gt;Tácito Borralho&lt;br /&gt;Dramaturgo e Professor de Arte da&lt;br /&gt;Universidade Federal do Maranhão -UFMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A EXPRESSÃO ARTISTA PLÁSTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há termos ou expressões, em pintura e escultura, que, também, ficaram defasadas ou mudaram de sentido com o tempo, como Belas Artes e mesmo a mais nova, Artista Plástico. Belas Artes prendia-se à noção de que o artístico tem que ser o Belo, o perfeito, referindo-se, naturalmente, à copia do que era transposto para o trabalho do artista.&lt;br /&gt;Quando outras formas de pintura, a bordo de novos movimentos artísticos, surgiram, surgiu a consciência de que há plasticidade no que se costuma chamar de pintura feia, não mais perfeita, como, por exemplo, as obras de Rothko, algumas de Picasso e outras de Munch. Coloca-se em destaque não mais a beleza, O Belo, mas a plasticidade da obra, tomando corpo a estética do feio. Feio, no sentido de o que a maioria das pessoas considera feio, não, simplesmente, algo ligado ao gosto pessoal.&lt;br /&gt;Essa plasticidade da obra fez surgir a expressão artes plásticas, referindo-se à pintura e à escultura. Daí, o termo artista plástico, para o realizador de trabalho nesse campo. Mas, com o passar do tempo, foram surgindo outras formas de plasticidade, principalmente com o avanço da tecnologia, como o web design, o vídeo artístico, a fotografia digital, a pintura virtual, a arquitetura, pós anos 60, no Brasil, bem como outros caminhos para o modo de expressão de uma realidade plástica.&lt;br /&gt;A atitude reacionária de continuar usando a expressão artista plástico, para os pintores artísticos e os escultores, faz com que fique abafada, contraditoriamente, menosprezada a questão da plasticidade, não se atribuindo essa qualidade a outros tipos de arte. Reduz-se seu âmbito, que é o de um gênero: Arte Plástica, com suas diversas espécies, inclusive o pintor artístico, que é adjetivado dessa forma, para que não haja confusão com os demais tipos de pintor, como o de paredes – não murais – o de automóveis ou móveis e outros.&lt;br /&gt;Assim, artista plástico é todo aquele que usa a plasticidade em sua arte. O conteúdo que encerra a palavra plasticidade é enorme. Inclui todo tipo de arte que usa a forma e a cor ou a não cor – preto e branco -, de forma fixa ou não, podendo tanto ser um quadro, uma escultura, como as imagens de cinema e vídeo, o balé, a arquitetura, etc. Há, também, uma espécie de plasticidade no som, na construção de uma frase por um escritor e em muitos outros meios de expressão artística.&lt;br /&gt;A pintura artística tem a sua forma de plasticidade própria, não importa o suporte, evidenciada no traço, na cor ou na expressão de uma idéia, no caso específico da pintura conceitual. Além disso, o conceito embutido na expressão pintor artístico diz mais de perto à sua atividade, a pincel, a tinta, a espátula, a tela, a painel... enfim, a um verdadeiro ato de criar livremente, sem as amarras de algo pré-estabelecido, como em algumas outras artes plásticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOBRE ALGUNS MOVIMENTOS PICTÓRICOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma mistura, na História da Arte, entre pintura e pintores modernos, pós-modernos e contemporâneos. Essa divisão, que não é estática, engessada, entrelaça-se, mas cada uma possui características próprias de cada movimento pictórico, mesmo que o artista esteja em épocas diferentes. Pode-se ter um pintor dos anos 80 ou do novo milênio fazendo sua arte com características de épocas anteriores, como, por exemplo, o cubismo.&lt;br /&gt;Isso não parece óbvio para o leigo e não acontece na classificação elaborada pelos chamados entendidos de arte que, por incrível que pareça, confundem a época em que foi feita a obra com o seu estilo. Com evidente incredulidade, essa posição foi observada ao serem pesquisados os trabalhos de artistas vivos, que pintam usando estilos de outra época, como o surrealismo, sendo a pintura catalogada como contemporânea.&lt;br /&gt;Essa confusão desastrosa nos remete a uma pequena análise dos três últimos movimentos, na pintura, em que esse conflito teórico-prático fica mais evidente. Primeiro o Modernismo: no caso do Brasil, implantado oficialmente em 1922, mas, no mundo, já evidenciado em outros trabalhos, desde o final do século XIX. Esse movimento pictórico (mais tarde retomado) conta com obras surrealistas, cubistas, dadaístas, fauvistas, impressionistas, expressionistas, abstratos e outros. Como, na História, não pode haver um período demarcado da produção dessas obras, entrelaçando-se um no outro, até hoje, ainda se produzem trabalhos com as características acima.&lt;br /&gt;No pós-guerra, com a desorientação mundial, foram surgindo movimentos centrados no abstracionismo, em que uma outra lógica se implantava, auxiliada por um corpo teórico da psicologia vigente à época. Foi um período fértil em produções, quando os norte-americanos queriam provar aos europeus a sua supremacia artística e, realmente, Paris deixou de ser o centro cultural do mundo, passando essa honra para Nova York. Muitos experimentos, na pintura, foram feitos nessa época, para que se desprendesse do ranço europeu.&lt;br /&gt;Alguns historiadores admitem que, aí, começou o pós-modernismo, com uma nova mentalidade capitalista e o esboço de um novo sistema de vida. Esse rompimento não significa que alguns artistas ainda continuem produzindo o que caracteriza o modernismo e até obras figurativas, que permeiam todos os momentos da história da pintura. Surge, então, o expressionismo abstrato, tendo como figura exponencial Jackson Pollock, com o seu dripping, que fez muito sucesso por, aproximadamente, dez anos, valorizando-se bastante, após a morte do artista - além de outros pintores com criações inovadoras, no campo da action painting.&lt;br /&gt;Instalavam-se, a partir dos anos 60, outras tentativas, como a pop art, de sucesso na área da pintura, assim como em outras áreas artísticas, revitalizando-se, com vigor, o pós-modernismo. Desse período do pós-guerra, até os anos 80 ou 90, convivemos com o pós-modernismo. Com a implantação definitiva e irreversível da informática, nos anos 90, até nossos dias, neste início do terceiro milênio, vem a arte contemporânea com muito modismo evidenciando-se, enquanto surgiam as instalações, as obras em vídeo, etc., fazendo com que as artes plásticas não ficassem aprisionadas à escultura e à pintura em tela, embora algumas dessas atividades não tenham conseguido o reconhecimento integral de sua plasticidade ou a durabilidade e a consistência necessária, para formar propriamente um movimento.&lt;br /&gt;Este poderá surgir em meio ao aparente caos em que vivemos, nessa busca constante, sem que ainda apareça um movimento plástico novo, eficiente e com certa durabilidade, sem modismos, mas, certamente, muito ligado ao consumismo e à globalização.&lt;br /&gt;Mas esse é o contemporâneo, onde não mais se busca uma corrente pictórica, mas cada artista, em sua área, por meio do marketing, nem sempre legítimo, usa a mídia para a promoção de seu trabalho, de forma individual, sem aquele espírito de aglutinação que houve, por exemplo, no impressionismo.&lt;br /&gt;Nestes anos que correm, em início do século XXI, a existência do artista torna-se mais importante que a sua obra, dando margem a muita autopromoção, mesmo que o trabalho artístico apresentado não tenha valor, como obra de arte, neste instante da História, podendo vir a ter em um momento posterior. Fatos dessa natureza têm exemplos demonstrados com o passar dos anos, em vários casos, como o próprio impressionismo, com a sua tradicional resistência, tanto dos próprios colegas de pintura, como do público em geral, assim como em cada movimento que surgia com características de rompimento com o passado, sedimentado pela tradição.&lt;br /&gt;Do mesmo modo, mas sem as características de movimento, cada artista, atualmente, busca, solitário e com o apoio da mídia, sua verdade artística na arte contemporânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IDEÍAS SOBRE ARTE CONTEMPORÂNEA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se fala em Arte Contemporânea, sempre está presente aquilo que foi produzido nos últimos vinte ou, no máximo, trinta anos. Tem-se sempre a concepção de alguma produção artística mais recente, mas não pressupõe, necessariamente, algo novo, existindo “nesse recente” - unicamente uma questão de Tempo - a cópia do que a natureza nos oferece, a mimese da arte clássica ou a do modernismo e pós-modernismo, a questão de Conteúdo.&lt;br /&gt;Assim, o real contemporâneo pressupõe que tenha existido uma evolução no campo da arte, que, por isso mesmo, adquire outro nome, passando a surgir outro contemporâneo. Nessa idéia de algo novo, em termos de criação artística, está contido o diferenciado do que até então vinha sendo produzido.&lt;br /&gt;Nesse contexto, bastante amplo, podem estar inseridas pesquisas experimentais, alguma loucura sem sentido ( porque há as com sentido), ou seja, uma idéia do gasto termo vanguarda – avant-garde, olho na frente, como relembra Alicia Ortiz, no seu livro sobre Dora Maar.&lt;br /&gt;Mas o que seria mesmo arte contemporânea, sob um ângulo mais profundo? Há algum tempo, certo Banco Comercial, em sua versão cultural, promoveu o levantamento de obras contemporâneas e a exposição dos artistas escolhidos. Catalogou, pelo Brasil inteiro, o que acreditava ser contemporâneo, de vez que utilizou, como critério básico, a produção artística dos últimos dois anos – no caso atual, obras a partir de 2003 - como um apanhado do que se fez nesse curto espaço de tempo, em termos de arte visual. Seria um critério primordial com outros suplementares ou um único, em essência? O que isso representa?&lt;br /&gt;É necessária uma pungente definição de atributos que já existem e cabe aos historiadores e filósofos da arte decidir isso. Não aqueles critérios vagos, delimitados pelo tempo, onde são produzidas formas e cores tendentes ao abstracionismo informal ou ao abstracionismo construtivista. É preciso, antes de tudo, saber que a produção de pintores artísticos vem crescendo nos dias atuais, no mundo inteiro, adotando formas pictóricas as mais diversas, inclusive utilizando movimentos de outras épocas. Não basta, como foi dito, o fator tempo - os últimos - pois ainda se produz muito, atualmente, a cópia, a imitação da natureza, conceito de pintura nascido, de forma mais abundante, no século XVI: uma flor, um casarão na rua, uma paisagem bucólica ou não, o folclore local, etc. Não que isso deixe de ser arte, mas, jamais, arte contemporânea, mesmo que tenha sido produzido ontem.&lt;br /&gt;Seria, então, a contemporaneidade na pintura a inserção de novas tecnologias vigentes? Isso, de afogadilho, como vem sendo feito, causa uma enorme confusão teórica, misturando-se arte gráfica por computador, grafismo, desenho, instalações, banners, pintura virtual, etc. Comporia, assim, uma espécie de democracia desavisada da arte pictórica: o vale tudo!? Seria a procura de novas técnicas, incluindo novos materiais, sem que estes buscassem o efêmero na natureza, para constituir quadros? Ou seria usar o papel como suporte da arte pictórica ou o paninho ordinário de algumas telas, atribuindo-se-lhes uma importância desabusada?&lt;br /&gt;O mais importante é identificar, nesse contemporâneo, o surgimento de posturas que possam caracterizar os primeiros anos deste novo milênio. E, não, simplesmente catalogar por catalogar baboseiras de vida efêmera, inovações sem espírito artístico, como costuma acontecer em início de século, as quais vão se depurando ao longo do tempo. Esperamos que, assim, venha agindo o mencionado Banco, mas falta mais alguma coisa: deveria ser fomentada a criação de grupos de artistas plásticos que comungassem da mesma corrente filosófica da Arte e que caminhassem para uma evolução ou mesmo uma ruptura dos movimentos artísticos tradicionais. Não que se quisesse revigorar ou reeditar uma Semana de Arte Moderna em nossos dias, o que seria de uma estultice sem precedentes. Mas o que se observa das exposições de arte, que tomam certas cidades, é a mesmice constante, com desculpas pouco lisonjeiras de que temos uma cultura regional forte, impedindo um avanço para o universal ou que já estamos produzindo arte contemporânea, mesmo aos poucos, fato não verdadeiro. Estas afirmações, expostas em jornais locais, principalmente a última, não têm a menor substância teórica, para constituir um conceito disso que se chama arte contemporânea, como acima demonstrado.&lt;br /&gt;Por outro lado, o desejo dos artistas é agradar o espectador e possível comprador com fórmulas fáceis. No caso das artes visuais, é mostrar a capacidade que tem o artista de imitar “ipsis litteris” o que existe na natureza, ou utilizar fórmulas alternativas da mesma temática, ainda que atribuam o adjetivo abstrato a seu fazer artístico. Assim, o espectador não precisa pensar, refletir, sobre o que lhe é exposto, apenas olhar e comprar.&lt;br /&gt;É hora de existir uma conexão com resto do mundo, mesmo que utilizando teóricos do passado como Mâtisse, Paul Klee e muitos outros, ainda mestres da pintura, que escreveram sobre arte e fizeram arte, para se iniciar os primeiros passos a caminho de uma pintura própria. O artista de nosso tempo não pode ser um epígono!&lt;br /&gt;É importante reafirmar, ainda, que a contemporaneidade nas artes plásticas não está diretamente ligada a uma questão de tempo recente, mas a uma tendência que vai se cristalizando ou não e pode se tornar um movimento pictórico. Nesse caso, assume o nome dado ao movimento e segue as vicissitudes de seu período histórico. Assim foi com o impressionismo, o dadaísmo, o cubismo o abstracionismo, etc. Perceber a formação dessa tendência, quando ela surge, é o que há de mais importante na arte contemporânea e define a necessidade de sua existência, dando evolução ao conhecimento artístico do homem, mesmo considerando a posição individualista da maioria dos pintores artísticos atuais.&lt;br /&gt;Quando não chegar a formar um movimento, uma tendência atual, é imperativo que se fomentem ações que devem surgir nos próximos anos do início deste milênio, ocorrendo buscas, através de técnicas novas, um novo traço, até se caracterizar como uma tendência.&lt;br /&gt;Espera-se por esse fato, como aconteceu no século passado, a partir dos anos 20.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A LEITURA DE UM QUADRO ABSTRATO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As primeiras perguntas que as pessoas fazem, quando estão diante de um quadro abstrato é: O que é isso? O que significa o que quer dizer? O que o pintor está representando? Não se dão conta de que estão diante de um quadro ou de uma escultura abstrata, significando esta uma idealização do artista, sem nenhuma conexão com o que existe na natureza ou foi criado pelo homem. E ficam essas pessoas procurando respostas, encontrando formas que não existem e nem são conhecidas pelo homem. Então, geralmente, chegam à conclusão de que nada representam e são apenas borrões de tinta ou traços alucinados de algum artista plástico louco ou sem talento, algum que chutou uma lata de tinta.&lt;br /&gt;Isto se dá, porque, quem não conhece história da arte ou sua filosofia, sempre esteve habituado a ver quadros e esculturas que os artistas fizeram, durante muitos séculos, representando coisas que existem na natureza. Mas, na pintura abstrata, o artista compõe quadros, com a mistura de formas e cores, com o objetivo apenas de expressar um sentimento, uma emoção ou a simples plasticidade, sem querer deixar um recado, uma mensagem explícita. Outras vezes, deseja imprimir uma idéia, por meio da arte conceitual.&lt;br /&gt;A apreciação do objeto de arte pressupõe a síntese do conhecimento humano, no que diz respeito ao campo científico: a física, a química, a biologia, a anatomia, a sociologia, a antropologia e demais ramos do que é conhecido como ciência exata ou não, embora sem um grande aprofundamento. Essa frase pode parecer absurda ou óbvia, pelo choque que pode causar em um primeiro momento, sem reflexão. Mas, para se valorizar e contextualizar a produção artística, é necessário, também, que se distinga o instrumento semântico a ser usado no entendimento da arte figurativa, como no da arte abstrata. A separação desse instrumental faz com que não se utilizem conceitos como luz, sombra, perspectiva e alguns outros na arte abstrata.&lt;br /&gt;A obra figurativa tem o seu instrumental próprio, onde se busca representação da natureza bem nítida, sendo que a forma, assim como a cores, tem uma significância fundamental, como, por exemplo, em um quadro de Vermeer, de Renoir ou na escultura de Rodin. No abstrato, nem sempre, a forma tem relevância, nem é determinante para o entendimento do que o artista quer transmitir e as cores assumem um papel primordial, em termos de contraste, jamais de luz e sombra. Utiliza-se outro instrumental teórico e semântico, como a perspicácia da pincelada, o expresso sem ser evidente e alguns outros.&lt;br /&gt;Há, no apreciador de arte, uma espécie de “cacoete” do figurativo, ao analisar a obra abstrata. Isso tem trazido grandes contratempos, quando são vetados objetos artísticos, por mentes arraigadas aos conceitos rígidos do instrumental clássico, ao verificarem, no abstrato, a ausência da técnica figurativa, que, por definição, não está lá. Muitos artistas de talento foram preteridos, a partir desse fenômeno, deixando de ser valorizado o seu trabalho, por existirem, ainda, apreciadores antiquados, que confundem os instrumentais semânticos.&lt;br /&gt;O clássico tem o seu lugar no mundo da arte com a sua beleza peculiar, as suas especificidades encantadoras, a sua magia e seu fulgor mágico. Já o abstrato, principalmente o Expressionismo Abstrato, tem o seu lugar na arte pós-moderna, assim como o Livre Expressionismo ou neo-pós-moderno não muito bem contemplado pelos críticos e pelos autores da História da Arte, que, em sua grande maioria, não passa da fase dos anos 60, do século passado para cá e nem alcançam a arte contemporânea, como já foi explicitada.&lt;br /&gt;O contemporâneo tem contra si o alegado período de distanciamento para a sua apreciação correta, mas a virada do século XXI traz um momento próprio e definidor que engole esse distanciamento, com a grandiosidade de novos conceitos ligados à tecnologia, onde se abandonam as concepções tradicionais, como é o caso do advento, por exemplo, da produção artística virtual com uma força nova, diferenciada de alguns arremedos cometidos na segunda metade do século XX.&lt;br /&gt;Esse novo mundo virtual, onde não há mais o quadro em seu aspecto físico tradicional, com ou sem a tela como suporte artístico, traz outra dimensão à apreciação da arte abstrata, com formas e cores novas. Isso pode assustar o expectador, pela falta de entendimento do novo, causando o usual medo do desconhecido, mas é uma arte que veio para ficar e se expandir. Pressupõe uma nova forma de liberdade na pintura!&lt;br /&gt;É conhecida a utilidade e indispensabilidade do computador, seja qual for a sua forma no mundo moderno. A arte criada e exposta no computador vem mexer com questões fundamentais no mundo da arte, como a necessidade relevante da existência de museus, a questão do preço da obra de arte e todo o glamour e mistério que envolve esse mundo próprio e fechado. Isto, sem falar na supremacia dos marchands e curadores, popularizando-se, sem massificar, as concepções da criação artística.&lt;br /&gt;Esse contemporâneo modifica totalmente a apreciação do objeto de arte e demanda um entendimento aberto, uma mente capaz de absorver essas mudanças, coisa que, contraditoriamente, não é fácil nos meios artísticos e nos meandros do trato com a arte. É preciso saber sentir e perceber esse futuro presente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A LIBERDADE NA PINTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não se costuma fazer, este artigo terá, logo no início, umas citações. A primeira, de 2003, de Alicia Dujovne Ortiz, escritora Argentina, em seu livro “Dora Maar – prisioneira do olhar” ─ da ed. Imago - que estabelece a forte diferença entre fotografia e pintura. Diz a autora: “ Curioso processo de uma arte relativamente nova, que liberou a pintura de sua obrigação de realismo e que, como se sua própria vocação não fosse suficiente, tentava copiar a liberdade da pintura”. A segunda, mais adiante, no mesmo livro, cita a famosa fotógrafa Tina Modotti, Ítalo-Mexicana, em 1929, quando esta diz: “ Eu me considero uma fotógrafa, nada mais, e se minhas fotografias se diferenciam do que geralmente é produzido nesse domínio é que eu não tento produzir arte, mas fotografias honradas, sem truques nem manipulações, enquanto a maioria dos fotógrafos ainda procura os ‘efeitos artísticos ‘. “Na opinião dela”, continua Alicia Ortiz, baseada no livro de Madotti, “ Sobre la fotografia “ - “ esses fotógrafos têm ‘um complexo de inferioridade,“não apreciam o que a fotografia tem de especificamente seu, de algo que lhe é muito próprio e preferem recorrer a toda espécie de imitações, de tal forma que suas obras dão a impressão de que, quem as faz, quase tem vergonha de dizer que faz fotografia”&lt;br /&gt;Essas idéias tocam na importância da fotografia, não como artes, o que não ocorre atualmente e, ao mesmo tempo, lembram a razão intrínseca da pintura que é a sua liberdade. Essa mesma liberdade que só se encontra, também, na escultura e em nenhuma outra forma de expressão artística ligada às artes plásticas. As artes gráficas e, não, a pintura no computador, não conseguem, por exemplo, dar o relevo real que se faz na tela, apenas aquele sugerido pela arte clássica, com a sombra e a luz ou com o claro e o escuro. Na pintura virtual, isso não ocorre.&lt;br /&gt;A fotografia tem o seu espaço, não somente nas festas de criança e nos casamentos. Ela vai muito mais longe. Chega a atingir o patamar de Belas Artes, como a pintura e a escultura. Mas lhe falta a liberdade integral, tolhida que é pelo objeto, por aquilo que lhe é dado, pelo modelo, humano ou não, mesmo fotografado em ângulos diferenciados, mesmo com o avanço tecnológico maior, assim como acontece com o computador. O instrumento, neste caso, apenas capta, cerceia a criação, o que não acontece na pintura, onde até as próprias mãos do pintor, embrenhadas nas cores, podem ser o instrumento e isso se consegue, também, na pintura virtual, com software próprio. A liberdade da criação é intensa e pode até não se estender ao simples âmbito de uma tela ou um painel. Não tem limite para seu suporte material. A liberdade da forma, na pintura, jamais se iguala à da fotografia, onde se necessita auferir algum tipo de imagem, montar ou ter um cenário, por mais esdrúxulo que seja, ou aproveitar a realidade existente. Depois que a pintura e a escultura se livraram da escravatura do modelo, da fidelidade ao real, do copismo e do colorismo, não há mais grilhões para sua criação. Esta, porém, é uma posição que pode estar sendo revista, dado o avanço tecnológico, embora não se produza fotografia do nada, como o pintor o faz na tela em branco.&lt;br /&gt;A arte, chamada de moderna e pós-moderna, ainda se fixou em algumas formas pré-existentes, como acontece no cubismo – formas geométricas existem há séculos - no surrealismo, no impressionismo e até no expressionismo e em tantos outros movimentos pictóricos do século XX. Isso não ocorre na arte contemporânea que procura se despregar dessas formas tradicionais e buscar cores e combinações de cores entrelaçadas, de tal forma, que criam uma unidade.&lt;br /&gt;Essa questão das cores é outro aspecto que a máquina não limita, na grande maioria dos casos, dependendo do software utilizado. E, hoje, com a fotografia digital e as ilhas de computação gráfica, fala-se apenas em informatização artística e não produção artística. Isso faz alguns pensarem, até, no fim da pintura em telas, em painéis, da forma como vem sendo feita há muitos anos, o que nos parece uma possibilidade, desde que a informática artística avance de tal maneira, principalmente no aspecto reprodução – novo tipo de impressora mais acessível economicamente - como vem fazendo, produzindo pintura com espátulas, pincéis e seus relevos, em camada alta e baixa. O mesmo aconteceu com as tintas feitas à mão, desde o século XIX, que foram substituídas por tintas feitas em laboratório e acondicionadas em tubos, o que deu maior liberdade ao pintor artístico. E, atualmente, o computador.&lt;br /&gt;Não se convencer disso seria negar a evolução histórica do ser humano, mas devemos chamar a atenção para o fato de este avanço tecnológico não desvirtuar a própria natureza humana, como já vem acontecendo, em nome da velocidade, da pressa, da quantidade, do capitalismo selvagem, que, por outro lado, cria o estresse, a vida atribulada e a ausência do homem como animal.&lt;br /&gt;Mas, voltando à fotografia e à pintura, a tendência é que estas operem uma fusão, como já existe em nossos dias, visivelmente, por exemplo, em camisetas e na web design e em exposições. O aperfeiçoamento tecnológico disto faz com que, tanto a informática, quanto a fotografia, numa espécie de terceiro gênero, criem juntas mais liberdade, sem atingir, porém, a da pintura, “pintando” em tecido próprio, a lona branca e vazia, sem nenhuma foto, em máquinas especiais operadas pelo homem, como se este estivesse com pincéis e espátulas, mas, na verdade, apenas operando um máquina múltipla – a impressora. Essa máquina já existe, falta apenas a sua difusão e seu acesso facilitado.&lt;br /&gt;Quanto ao quadro, como o conhecemos hoje, é uma questão que se iguala à do livro. A forma física de apropriação da informação pode se alterar ou não, mas talvez permaneça por muito tempo em seu formato e suporte conhecido.&lt;br /&gt;Sendo assim, a fotografia não precisa mais de contorcionismos, para se tornar arte. Ela é a própria, com uma forma própria, até com altos e baixos relevos feitos com tinta e alcança essa nova forma de artes plásticas, que não é pintura, nem fotografia, ganhando os horizontes de sua liberdade, sempre limitada a um modelo prévio – a foto. Já a pintura, desgarrada de quaisquer vínculos, de qualquer liame com a natureza, brota irreverente ou certinha, da cabeça do pintor, para uma base limpa, livre de qualquer interferência, sem ser conspurcada por uma imagem prévia e aflora, retumbante, em um suporte, tendo ali o seu nascedouro.&lt;br /&gt;É possível que se levante a questão de que toda essa liberdade da pintura pode ser tolhida pelo mercado, pela tela de encomenda ou pela orientação de um curador de arte. Mas cabe ao artista saber assegurar a sua liberdade de criar, sem que se curve a modismos ou contrarie a sua maneira de ver a vida, em nome de um sucesso, que pode ser passageiro e não vale o “preço” da venda de seus ideais artísticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O LIVRE EXPRESSIONISMO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse movimento pictórico, que está surgindo neste começo de milênio, também chamado de expressionismo livre ou neo- expressionismo, tenta libertar-se das amarras da parte técnica da pintura, que os movimentos anteriores, por mais libertários que procurassem ser, não conseguiram fazer. Cobra-se sempre a técnica, mesmo no abstrato e no expressionismo, tais como os conhecemos; e é a libertação disso que esse novo pensar vem trazer.&lt;br /&gt;Constitui-se essa forma de pintar, basicamente, na ruptura definitiva com as regras da técnica de pintar. Ao longo da história da arte, muitos movimentos artísticos tentaram se liberar do figurativo bem acabado, mas sempre estiveram adstritos ao “bonitinho, ao engraçadinho” ou ao decorativo. Assim, acaba-se com o “bem acabadinho”, como na pintura figurativa, como, por exemplo, no caso de uma paisagem.&lt;br /&gt;O Livre Expressionismo tem como característica os traços fortes, aparentemente ao acaso, sem completar-se com a integridade da tinta no pincel . A ruptura se dá, realmente, não só com a quebra das regras de pintar, mas, principalmente, com o distanciamento da pintura de outras formas de expressão pela imagem, como o desenho gráfico, o web design, a pintura figurativa, não demonstrando coisas da natureza, todas certinhas, como se fosse uma fotografia tradicional. Essa “qualidade de acabamento” não está presente nesse movimento, livre de regras, que se alarga, além das fronteiras tradicionais da pintura.&lt;br /&gt;O mesmo choque que o impressionismo causou no famoso Salão de Exposição em Paris, guardadas as devidas proporções, está acontecendo com o Livre Expressionismo, que, também, causa horror nos puritanos da pintura, que dizem faltar técnica, como diziam do impressionismo, no qual faltava precisão nas imagens retratadas. No Livre Expressionismo alegam falta de técnica, pelos traços planejadamente desajeitados – ver obras de Rothko - pelo não completar da tinta na forma, pela presença do “spilled”, de que falaremos a seguir e outras características que são identificadas nesse movimento novo.&lt;br /&gt;Como no abstracionismo, não se trata de não saber pintar, mas de buscar novos caminhos, para libertar a pintura de outros modos parecidos de pintar, como já citado. A comparação com o figurativo e o desenho gráfico é gritante e acachapante. Por isso, não se exige, no Livre Expressionismo, aquela primorosidade viscosa, brilhante e decorativa que vende muito. Já dizia Kurt Vonnegut, escritor americano, que “As Artes não são uma maneira de ganhar a vida, são uma maneira de torná-la mais suportável”.&lt;br /&gt;Ao contrário desse objeto decorativo que a grande maioria das outras formas de pintar proporciona, o Livre Expressionismo, também, não se confunde com o abstrato conhecido, que, simplesmente, nega as regras de pintura anterior, mesmo em suas mais diversas formas. Ele rompe com a concepção do belo, da perfeição, enquanto o abstrato conhecido ainda busca a estética antiga, por mais vanguardista que seja.&lt;br /&gt;O Livre Expressionismo traduz emoção e imaginação, por meio de um falso improviso, não só pela forma descuidada, com espátulas, pincéis e dedos, mas pela cores, as nuances, os devaneios pictóricos do pigmento e, por isso, foge a qualquer atitude comparativa com outros movimentos existentes.&lt;br /&gt;Para concluir, Picasso dizia: “Levei 90 anos para aprender a pintar como criança”. Isto explica bem o que aqui se quer expor e a essência da anti-regra na técnica, com a nova estética, a qual parece se firmar como primeiro movimento sério a ser concretizado nestes novos tempos e até confirmado nos altos preços alcançados nos leilões de obras de arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O MÉTODO SPILLED&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse método de pintura (técnica é o material que se usa) não foi ainda tentado com sucesso, principalmente por ser confundido, por alguns, com a pintura com aquarela. Mesmo no início dos anos 50, quando a efervescência criativa estava em alta e quando surgiram grandes inovações no expressionismo, não há registro de que o uso de tinta espessa líquida tenha sido conduzido pelo pincel, com a tinta derramada, criando cores e formas novas.&lt;br /&gt;Spilled é derramado, em inglês, como dripping é pingado, método usado por Pollock, em sua fase áurea. Mas não é um simples derramado, como se faz aleatoriamente, por descuido até, em uma tela, criando borrões, objeto de muitas piadas conhecidas com a pintura abstrata.&lt;br /&gt;Há uma intenção, ao ser derramada a tinta sobre a tela. Esse desejar certo objetivo começa com a viscosidade da tinta, que não pode ser a que vem pronta, em latas e tubos. O artista tem que prepará-la, na dosagem certa, obedecendo a seu desejo. Disso depende, também, o bom resultado da pintura, das nuances alcançadas. Esse é um ponto importante: não basta derramar tinta sobre a tela. É preciso orientá-la com pincel, com espátula ou com os dedos, para se obter uma forma pensada. Não é deixar que o acaso seja o pintor. Este interfere na tela, para dar a forma e a tonalidade pré-concebida, mas, dependendo do tipo de tinta usado, há um tempo para movimentar a tinta sobre a tela, para que se atinja a meta a alcançar.&lt;br /&gt;Esse método não exige um esboço, como nos demais métodos conhecidos - a não ser aquele que está na cabeça do artista - nem aqueles passos tradicionais de enquadrar o pintado na tela ou a necessidade do desenho. Compõe, assim, o Livre Expressionismo, de que já falamos, onde a liberdade de expressar-se está não somente na aparência de uma pintura, aparentemente, inconclusa (como está no artigo anterior), mas no spilled.&lt;br /&gt;É a verdadeira expressão do artista na hora de pintar, sem estar preso a um tecnicismo de sombras e luzes, às pinceladas perfeitas, àquela coisa “bonitinha” e “bem acabada”, mas na imperfeição como perfeito, embora essa idéia de Perfeição seja religiosa, que tem como contrapartida a culpa e o “pecado”, valor adotado pela burguesia há muitos séculos e exacerbada com o romantismo do século XIX, infelizmente, ainda hoje, adotada como ditame da hipocrisia e exposta, na arte, como veremos depois.&lt;br /&gt;Essa forma de pintar vem quebrar com esses valores, implodindo esses ideais conservadores, ao ser a verdadeira expressão do artista na hora em que pinta, acendendo a sua inquietação, gerando estresse, esforço mental e físico, como deve ser a pintura. E não aquela calmaria, aquela tranqüilidade aquele “relaxar”, como pensa a maioria das pessoas. É um trabalho e, como tal, exige muito do pintor, como se fizesse outros tipos de trabalho. Trata-se de um trabalho manual e intelectual, ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;Não há somente o acaso o “vamos ver como fica”. Há um direcionamento, uma intenção demonstrada. Se vai ser apenas uma tela decorativa, veremos em outra oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AGUADO COM PINCEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode existir a possibilidade de ter sido descoberto um novo método na pintura, como aconteceu com vários pintores, a exemplo de Jackson Pollock que criou o seu dripping ( pingado), realizando obras importantes com esse método. Não é, também, uma técnica, como, por exemplo, acrílico sobre tela, óleo sobre eucatex, óleo sobre tela, etc.&lt;br /&gt;O método trata de dissolver a tinta do tubo em um pequeno recipiente, até ficar não muito rala. No caso da tinta em lata, tem-se que verificar a grossura da tinta nesse recipiente e, também, não deixá-la muito rala. Após isso, é derramada, no material usado como suporte artístico, com critério, obedecendo à forma desejada. Depois, passa-se o pincel e espalha-se a tinta ou sacode-se a tela, também obedecendo à forma pretendida. Podem ser várias ou uma só cor, conforme o desejo do artista.&lt;br /&gt;Está sendo chamado, provisoriamente, de Aguado com Pincel ou, aproximadamente, em inglês, de Paintbrush Watercolor e, pela descrição e expressividade que tem esse método, seria interessante que se encontrasse a expressão ou palavra correta.&lt;br /&gt;Está em inglês o nome do método pela inequívoca universalidade da língua, que, infelizmente, não é o caso da nossa. É importante fixar a autoria deste método!&lt;br /&gt;Voltando à pintura, fica ressaltado que essa descrição não se dirige somente a artistas plásticos, mas a todos aqueles que se interessam por arte, como apreciadores.&lt;br /&gt;Esse Método, pela lei brasileira, é, razoavelmente, considerado Direito Autoral ou Propriedade Imaterial, devendo o artista ser conhecido, para que ninguém se aproprie do Método como seu. Daí, estar sendo exposto aqui.&lt;br /&gt;A seguir, apresenta-se uma tela com um exemplo do métod o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OMÉTODO DO MATERIALISMO&lt;br /&gt;DIALÉTICO APLICADO À ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje, a grande maioria dos livros escritos por autores famosos, referindo-se à Filosofia da Arte, pelo menos os que são mais difundidos, utiliza-se do método empírico ou do método sistêmico, do fenomenológico ou do semiótico, o que, por sua natureza, não consegue explicar o que é arte ou um objeto artístico. Chegou mesmo a ponto de filósofos, como Morris Weitz, proporem que se abandonasse a idéia desse conceito, afirmando que a arte não pode ser definida.&lt;br /&gt;Quanto ao método do materialismo dialético, é atribuído seu uso, na arte, a expoentes intelectuais, como Walter Benjamim e outros integrantes da Escola de Frankfurt e a vários autores, inclusive a Karl Marx, que pretendia a arte engajada à causa dos trabalhadores. Isto por serem simpatizantes do comunismo, proporcionando uma tremenda confusão no campo metodológico, pois se confundia, como se confunde até hoje, o comunismo, a práxis da teoria marxista com o método marxista de análise das relações sociais.&lt;br /&gt;Poucos são os que entendem o método do materialismo dialético, que nada tem a ver com a teoria do comunismo. O método, básica e sinteticamente, consiste em analisar um fato ou fenômeno social (não confundir com fenomenologia), a partir de contradições internas do sistema, ou seja, utilizando a conhecida máxima popular de que toda moeda tem o seu contrário, mal comparando.&lt;br /&gt;Partindo-se, assim, para uma definição de arte, são evidenciadas todas as suas contradições, em vetores diferentes, um indo outro vindo, sem utilizar a batida fórmula de “vantagens e desvantagens”. O fenômeno social, em si, é contraditório, como, por exemplo, no caso da arte: ao ser apreciado o objeto de arte, não se busca mais a emoção e o sentimento do artista (teoria da expressão), mas a ótica do espectador. Mas que ótica? Não aquela da simples apreciação pela beleza e a da expressão que o artista demonstrou, mas a ótica da visão de mundo do espectador, sua maneira de pensar e conceber a arte, suas experiências de vida, seu histórico instrucional. Isso determina se o objeto é artístico e o seu valor material, a partir de um consenso de pessoas que têm influência no meio social ou daquelas que são detentoras do poder de formar opiniões, como, por exemplo, os jornalistas e professores. A opinião dessas pessoas, expressa publicamente e a partir de suas visões de mundo, irá determinar se há arte em um determinado objeto e, até mesmo, o que é arte.&lt;br /&gt;É lamentável que o método do materialismo dialético não tenha ainda alcançado a arte, pelo menos não da forma como foi concebido por Marx no posfácio do livro ”A Ideologia Alemã”. Lá fica evidenciando um raciocínio em forma de “U”, de onde se parte de um conceito, vão-se identificando as contradições desse conceito, as formas como é processado pela sociedade, a sua aplicabilidade, até chegar ao mesmo nome do conceito original, mas com outro conteúdo. Isso ainda não acontece com a Arte, infelizmente. O que se observa, nos conteúdos publicados, é uma forma simplória do empirismo, um enfado fenomenológico e, até mesmo, a forma incorreta do uso do método do materialismo dialético.&lt;br /&gt;Ao serem ministradas as disciplinas Filosofia e História da Arte, é trazido, para os alunos, o raciocínio desgastado de antigos autores, fazendo com que eles não possam entender o cerne da arte, a sua aplicabilidade social e a resposta dessa aplicação da definição de arte e do objeto de arte. Ficam os professores na mesmice da lógica do senso-comum, passando para o aluno um discurso, muitas vezes eloqüente, literário, mas de onde não se pode tirar nada concreto. Isto ocorre, porque não são estudadas as várias realidades sociais, dependendo de classe ou segmento social e a análise da resposta desses setores sociais, mas a análise é feita pelo que lhes é apresentado como arte, sem que isso seja questionado.&lt;br /&gt;Por outro lado, os críticos de arte se servem, também, de conceitos ultrapassados, para analisar o trabalho de um artista. Utilizam, quase sempre, as Teorias do Belo e a Teoria da Expressão, assim como a Teoria da Percepção, sem jamais atingir a própria essência da arte, que é a resposta social das diversas classes sociais ao(s) objeto (os) produzido (os).&lt;br /&gt;É fundamental, portanto, que se estude mais o método marxista do materialismo dialético, sem a Teoria Marxista, que é o Comunismo. Uma coisa não se comunica com a outra. São realmente bem distintas, se estudadas à luz da Teoria do Conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A TEORIA DO CONTEÚDO SIGNIFICANTE X A TEORIA DO CONTEÚDO DO ESPECTADOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da Teoria Essencialista, há três teorias que buscam identificar o que é arte e o que é objeto de arte. Essa Teoria Essencialista, exposta aqui de forma bem sucinta, tenta encontrar uma essência da arte que seja comum a todas as obras de arte, consideradas desse modo ou não. Por ser uma tarefa hercúlea, pretende-se sintetizá-la, para, a partir disso, expor uma nova teoria – a Teoria do Conteúdo do Espectador – onde se utiliza o método do materialismo dialético, a forma mais próxima de explicação da realidade nas relações sociais concretas.&lt;br /&gt;Primeiro, para melhor entender a Teoria Essencialista, é necessário demonstrar que ela pode se apresentar sob três aspectos:&lt;br /&gt;A) A Teoria da Imitação&lt;br /&gt;B) A Teoria da Expressão&lt;br /&gt;C) A Filosofia da arte, ou seja, a estética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira diz que só é arte aquilo que imita a natureza ou o que nela existe. Essa teoria possui várias limitações, sendo a principal aquela que impede a inclusão das obras abstratas. A segunda refere-se à emoção que o artista sentiu, ao realizar a obra de arte, colocando seus sentimentos a serviço de seu trabalho e necessita de inspiração, como algo fora do comum, esquecendo-se de que essas obras de arte são fruto de pesquisa, de um trabalho paciente e minucioso, com muito suor, no sentido de aperfeiçoar o objeto artístico, eliminando, desse modo, os defeitos inerentes a qualquer produto unicamente emocional. Se a obra de arte fosse fruto da emoção do artista, como se explicaria as que são feitas por encomenda? Ou aquelas aleatórias, como as conhecidas como “música de elevador”, feitas com recursos de som produzidos ao acaso? Mas essa teoria, ainda hoje, é aceita pela maioria das pessoas, principalmente leigos, sem qualquer questionamento, através de frases como “ o que estaria pensando o artista no momento de concepção dessa obra” ou “como estava apaixonado o poeta ao fazer essa poesia de amor” ou, ainda, “ esse pintor estava passando por um momento emocional difícil ao elaborar este trabalho”. Estas são expressões de desconhecimento do processo criativo de uma obra de arte. Podem ocorrer sentimentos e emoções do artista, mas isso não é fator determinante na compreensão de um objeto de arte.&lt;br /&gt;Por fim, a Filosofia da Arte vem esclarecer o que costumam chamar os filósofos da arte de forma significante ou Teoria Formalista, em que não interessa a emoção estética e o sentimento do artista, mas a do espectador, demonstrando o que este sente, para definir um objeto de arte. Essa Teoria tende a jogar no espectador o que seu sentimento pessoal determina - o chamado gosto individual, aquele equívoco de que “cada um tem seu gosto”, o que não é verdadeiro.&lt;br /&gt;Propõe-se uma correção de rumo a essa Teoria. Ela não deve ser formal, mas material, ou seja, de conteúdo do espectador. É que essa emoção estética – esse sentimento que toca o espectador - vem de sua visão de mundo, de seus valores, de sua maneira de encarar a vida, de sua religiosidade ou não, de seu referencial teórico e de seu conhecimento sobre arte, ingredientes que não são individuais, mas de segmento social ou até de classe social. Caso contrário, a Teoria Formalista serviria apenas para a pintura. Se uma pessoa da classe mais favorecida economicamente - da classe média ou mesmo da classe social alta - mas sem cultura geral, por exemplo, olhar uma instalação como a de Robert Morris – placas de madeira com espelho – irá ter em mente que aquilo não é arte, mas caixas com espelhos arrumadas, aleatoriamente, em um espaço e não perceberá as nuances do trabalho do artista, nem o seu significado. Outro exemplo seria a obra que se utiliza um terço católico, para fazer as formas genitais das pessoas, a qual foi proibida de participar de uma exposição coletiva.&lt;br /&gt;Esse “acervo” de conhecimento, que cada pessoa tem, junto com seus valores e dogmas, é que determina se existe arte ou se a sua tradução é um objeto de arte. O grau de profundidade desses elementos ou sua superficialidade faz com que se aceite ou não uma obra de arte, principalmente a abstrata. Quando não se entende o que é mostrado, seja a música, a pintura, a escultura, a literatura, etc, tenta-se esconder isso através de brincadeiras que desqualificam o objeto de arte, não lhe atribuindo qualquer valor ou simplesmente o rejeitando. A reação pode ser contrária, também, ao ser valorizado como arte o objeto, pois a pessoa consegue compreendê-lo e reconhece a sua proposta, dependendo da plasticidade.&lt;br /&gt;Daí a importância da existência da compreensão do que seja a Teoria do Conteúdo do Espectador para se entender o que é arte ou um objeto de arte. De acordo com essa teoria, a Visão de Mundo é o limite a que a pessoa chega, em termos de abstração e aceitação de raciocínios surgidos da realidade e transformados em teorias. É o que a pessoa compreende acerca de determinada coisa, dentro de seu mundo de conhecimento ou pensamento, limitado ou não e dentro de suas experiências pessoais ou de sua classe social. Se essa pessoa adere ao que a maioria pensa sobre uma coisa ou sobre as relações sociais, sem questionar - o consenso - ou se rebela contra esse pensamento comum e massivo, pode criar alternativas que poderão fazer surgir outro consenso. Isso é que vai, na concepção de arte, influenciar sua definição. Arte é arte, porque a maioria das pessoas pensa assim sobre determinado objeto.&lt;br /&gt;Esse retorno, essa resposta do espectador nos dá uma visão do método do materialismo dialético aplicado à arte, de vez que inclui, também, a emoção do artista, evidenciando os dois vetores: o que a obra de arte mostra e o outro vetor, pelo lado do espectador e sua visão de mundo, estabelecendo-se a contradição interna, fazendo surgir o conceito de arte. Isso facilita a análise da arte, pois faz com que se abandonem as visões empíricas ou sistêmicas, usualmente utilizadas, na concepção de arte e estabelece o contraditório, coisa que não é contemplada por filósofos conhecidos.&lt;br /&gt;Com a Teoria do Espectador, explica-se o que é arte e objeto de arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A IDÉIA DE PERFEIÇÃO NA ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que se entenda melhor o conjunto de valores contidos na Arte Abstrata, no Livre Expressionismo e na própria Arte Contemporânea, até mesmo na arte chamada de clássica ou figurativa, é necessário penetrar no secreto e misterioso valor e dogma da Perfeição.&lt;br /&gt;A idéia de perfeição é uma concepção que se consolidou no cristianismo, em suas mais diversas formas, assumidas atualmente e está ligada a outra noção: a de pecado e culpa. Há uma idéia de perfeição, oriunda dos gregos e sua filosofia, mas houve a prevalência do domínio das terras e, logicamente, da filosofia romana, sobre perfeição. Esse ideal grego foi, à época, relegado a segundo plano pelo surgimento do monoteísmo. Com o domínio do Cristianismo, no mundo, esse dogma da perfeição fortaleceu-se de forma visceral.&lt;br /&gt;Quando foi reconhecido por Roma o movimento do Cristianismo, por volta dos anos 363 D.C., aproximadamente, foi necessário erigir uma imagem de um ser sagrado, divino, a “imagem do monoteísmo”, como meio mais fácil de dominação e exercício do poder pela Igreja. É, até hoje, uma doutrina singular que tem a sanção e a penalidade diante dos homens. Utiliza-se de meios coercitivos e coativos, tendo o pecado como o crime e o reconhecimento da culpa, como penitência, para aliviar ou extinguir o pecado. Na idade Média, a Igreja chegou a vender indulto ao pecado, como forma de extirpar a culpa. Mas, para isso, deveria existir o perfeito, representado por Deus e Jesus Cristo.&lt;br /&gt;Nas Imagens sacras, ícones dessa representação, há sempre uma aura de serenidade e luz. Jesus Cristo está sempre com a imagem de alguém de olhos azuis ou verdes e longos cabelos loiros, transmitindo o que acham ser a idéia de perfeição, sem se questionar a origem étnica de Cristo, moreno, de nariz longo e vergado, olhos pretos e cabelos ondulados, como Palestino que era. Mas esta última descrição não satisfaz um ideal de perfeição, onde acham que deve estar presente a raiz étnica ariana.&lt;br /&gt;Esses traços de representação, em esculturas e pinturas, depois ampliados para outras formas de arte, não ficaram somente na pessoa retratada, mas vieram para o campo dos valores e dogmas, que apregoam a idéia de um ser sem mácula, um ser perfeito e inigualável, objeto de adoração. Essa idéia foi absorvida pela arte – não só na arte sacra - onde o perfeito é aquele sem defeito, todo certinho, imitando as coisas que existem na realidade. Nada mais imperfeito!&lt;br /&gt;A perfeição, nas artes, em especial na pintura e na escultura, representa o valor máximo do Cristianismo – e não só do catolicismo – buscando-se a cópia fiel de uma figura etérea, imaculada, isenta de defeitos. O retrato da incolumidade passa a ser o valor maior, transformado em dogma, para ser adorado e seguido.&lt;br /&gt;Os artistas da época e até os atuais ainda palmilham esse caminho, fazendo refletir, na arte, a perfeição, com tudo em seus devidos lugares e cores idênticas à do objeto real – o ideal de perfeição. Movimentos pictóricos, a partir do século XIX, rebelaram-se contra essa perfeição, como o Impressionismo e o Expressionismo, o Realismo Fantástico, o Surrealismo, o Abstrato em suas diversas versões, entre elas, o Expressionismo Abstrato, além de outros movimentos. Houve uma fase até de negação, a não-pintura, o desconstrutivismo.&lt;br /&gt;Assim, com a rebeldia instalada e, posteriormente, incorporada à noção de arte, existem, ainda os que pensam em “técnica”, ou seja, aquele resquício da perfeição assombrosamente inconcebível em um trabalho artístico de vanguarda ou não, onde devem prevalecer outras concepções de conjunto, de combinação, não importa a forma e a cor, o certo e o errado. Inclusive essa idéia de certo e errado vem de Mal e Bem, também criações incorporadas do Cristianismo. Falamos sempre em Cristianismo e suas diversas formas, como o protestantismo e suas correntes de pensamento, somente porque é o valor predominante. Mas essa idéia de perfeição, também, há em outras religiões, onde a perfeição é chamada de harmonia, de paz, etc.&lt;br /&gt;São poucos os que atentaram, com clareza e lucidez, para o fato de que o perfeito é o imperfeito, na medida em que sua gama de nuances foge a um padrão pré-estabelecido, consistindo aí a sua beleza. O traço malfeito, a cor estranha para o usual, a ausência de rimas na poesia, a música aparentemente sem sentido, a prosa com aparência de desencontrada e confusa, a escultura sem guardar os parâmetros da simetria, desenquadrada e disforme, são características ainda não plenamente aceitas.&lt;br /&gt;A idéia de Livre Expressionismo, que não deixa de ser, de certa forma, um pleonasmo de reforço, também não é bem aceita pelo grande público, somente para alguns entendidos. É confundida com falta de talento, trabalho mal feito, sem técnica, mas, no fundo, representa a falta de orientação do espectador, que deixa de ter os paradigmas, aos quais está habituado, para analisar uma obra de arte.&lt;br /&gt;O imperfeito, para usar a terminologia antônima, é a verdadeira arte contemporânea, feita com espontaneidade, ao construir a nova estética, com plasticidade diferente, que não se submete ao certinho e inexpugnável do ideal da perfeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A PINTURA ABSTRATA E SEUS MOVIMENTOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A concepção do abstrato, na pintura, foi expressa ao público no final do século XIX, começo do XX, por meio de quadros artísticos, que tentavam superar o figurativo da pintura clássica.&lt;br /&gt;Para fugir a essas concepções, muitas tentativas foram feitas, mas Vassaly Kandinsk, em 1917, chegou à abstração total, retirando qualquer vestígio do figurativo em suas obras, embora já tivesse, nos primeiros anos do século XX, conseguido pintar o abstrato. Nasce o abstrato, propriamente dito, na pintura, mas ele vai assumir diversas formas, principalmente no período da arte moderna, com o cubismo e outras manifestações pictóricas, como o fauvismo, o futurismo, o próprio surrealismo (que se pretendeu filosofia), resquícios do impressionismo e do expressionismo puro, embutidos em um abstrato que só chegou, verdadeiramente, ao Brasil, na década de 40 do século XX.&lt;br /&gt;O pós-Segunda Guerra, como na primeira, trouxe uma ebulição no mundo da arte. Após a Segunda Grande Guerra, começou a mudança das atenções artísticas de Paris para New York, produzindo concepções novas e fazendo surgir uma outra pintura abstrata, mais complexa, principalmente a partir dos anos 50. É um período tão conturbado, artisticamente, que quase tudo foi tentado, como forma de buscar uma maneira nova de se expressar pela pintura. O Expressionismo abstrato teve o seu período áureo, mas foi logo abafado pelo pop-art dos anos 60.&lt;br /&gt;Mas o que nos interessa, aqui, ressaltar é que, na arte contemporânea, os próprios movimentos artísticos estão todos englobados, de certa forma, até os considerados como pintura abstrata. Ou melhor, a produção artística, no abstrato, contemplando antigos movimentos figurativos, impressionistas, cubistas, como que ressuscitam esses movimentos dentre de um contexto abstrato, assim como no pop - art, e nos dias atuais.&lt;br /&gt;Esse fenômeno, que pode parecer falta de criatividade, incorporando, inclusive, outros meios artísticos, como a fotografia e o vídeo, o cinema, vem retratar a configuração de um período confuso para a história da pintura, onde a saída mais palpável está na pintura computadorizada, sem se confundir com a arte gráfica ou desenho gráfico, ou às poucas limitações artísticas ainda existentes em alguns softwares de pintura.&lt;br /&gt;Nota-se, na arte abstrata pura, sem resquícios de figurativismo ou outros movimentos, a necessidade da criação de palavras ou expressões que definam a sua principal característica, que são as cores, para definir esse novo conjunto, ressasaltando-se a sua tonalidade, sua saturação, a textura e outros elementos primordiais na pintura abstrata de forma que, ao observar-se um quadro, tenha-se em mente não a forma criada, mas a avalanche de cores ou uma só que transmita um sentimento ou emoção, a partir da visão de espectador e não do artista. Há uma carência de instrumental teórico para dar substância à pintura abstrata, de vez que são usados os mesmos parâmetros e pressupostos de outros movimentos pictóricos, inclusive no que diz respeito à filosofia do abstrato, salvo a Teoria do Espectador.&lt;br /&gt;Essa filosofia, ainda embrionária, tem como cerne a pertinência do raciocínio, da concepção e da compreensão do abstrato, como, por exemplo, o medo, a memória, o tempo curto ou longo, o desejo, o êxtase, etc. Mas não se filosofa por esse ângulo, na pintura, com a representatividade que se possa ter nesse contexto pictórico. Aí já não basta ficar nas cores ou formas que assume, mas no significado filosófico e não psicológico dessa pintura.&lt;br /&gt;É muito fácil representar o medo, por exemplo, na violência urbana, nas armas, nos conflitos de rua, na caracterização de gangs ou, individualmente, no retrato da solidão, em suas mais diversas formas. Mas fazê-lo na configuração abstrata, por meio da pintura abstrata, exige muita leitura, para saber processar o pensamento, filosofando, comparando, unindo conceitos desagregados pela educação, ao serem departamentalizados para fins didáticos, como se cada coisa viesse em seqüência. Nem na história isso acontece, pois, hoje, vivemos, ainda, de forma concomitante, com diversos estágios dos períodos da civilização, no que diz respeito à prática da realidade social - ainda existe em nossos dias feudalismo, colonialismo, reinados, trabalho escravo, etc. Isso acontece, também, nos conceitos, nos valores, nos dogmas e em muitas outras formas que podem ser contempladas pela pintura abstrata e na sua interpretação.&lt;br /&gt;Urge refazer nossa apreciação do quadro abstrato, sob a forma do método do materialismo dialético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O FIGURATIVO E O ABSTRATO NA ARTE CONTEMPORÂNEA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a grande massa da população, quando se fala em pintura de telas, vem sempre em mente a arte figurativa, compondo o imaginário popular. Para pessoas com essa concepção, pintar quadros significa retratar, “com perfeição”, uma realidade já existente na natureza, como jarros de flor, paisagens, retrato de pessoas ou ambientes, formas geométricas e tudo o mais que possa, facilmente, identificar. Em função disso, o quadro é bem feito e o artista tem talento, quanto mais próximo estiver dessa realidade, imitando, copiando, nos mínimos detalhes, o que foi transposto para a tela.&lt;br /&gt;Já, na pintura abstrata, ocorre o contrário: por não entender o que significa o quadro, pois não há parâmetro na realidade, muitos consideram rabiscos, pintura mal feita, acusando esses pintores de falta de técnica. Mesmo as pessoas com estudos acadêmicos sobre arte espantam-se ou estranham certos quadros abstratos, quando muito ousados para a ortodoxia a que foram habituados nos meios acadêmicos. Em geral, os livros sobre arte são compêndios que, mesmo se propondo a tratar de temas específicos, como a arte moderna, por exemplo, sempre são recheados de formulações teóricas baseadas em uma filosofia da arte ultrapassada e, para mostrar erudição, citam autores, estudiosos famosos, como sustentação de suas posturas nos livros que escrevem. Salvo raríssimas exceções, não inovam baseados em uma realidade globalizante e de um capitalismo pseudocomplacente, que usa a responsabilidade social como bandeira atenuante de sua ferocidade. Muitas vezes, utiliza a arte como instrumento dessa camuflagem, em ações sociais, principalmente através de ONGs, com a aparência de minimizar as desigualdades sociais.&lt;br /&gt;Essa realidade nova, evidente, mas sutil, não consta das análises de produção artística, de vez que são relegadas a seu campo específico, como a economia e a sociologia. A Antropologia Filosófica não é, muitas vezes, analisada na Filosofia da Arte, embora seja parte inerente a esta, de vez que a postura consumista do homem do século XXI interfere na arte, com o seu comportamento físico, os lugares onde freqüenta, o que veste, etc.&lt;br /&gt;Toda essa gama de fatores ainda não chegou na História e na Filosofia da arte atual, salvo raríssimas exceções, em artigos esparsos, embora, algumas vezes, abordada em livros de Antropologia. E as pessoas não têm acesso a esse tipo de informação. Continuam a pensar na pintura como o retrato do que existe a seu redor, em termos materiais e insistem com os pintores artísticos que façam quadros, pintando-as, que retratem uma paisagem, cavalos, gatos e cachorros, sem, nem de longe, desconfiarem de que existe um mundo de abstração, um pensamento abstrato, porque são incapazes de abstrair.&lt;br /&gt;A pintura abstrata vem necessitando de uma abordagem mais atual, agora que, praticamente, desapareceram os movimentos pictóricos, a não ser alguns rótulos eclipsados pelo enorme volume de informações a disposição. Infelizmente, no meio acadêmico - se exceções há! - esses fatos não são contemplados, preferindo-se basear os estudos em antigos pensadores do século XVII a XX, em sua primeira metade. São realidades teóricas e práticas que não condizem com a nossa e escapam da pintura contemporânea.&lt;br /&gt;São, ainda, trabalhos eivados de um psicologismo exacerbado, falando em sonhos, emoções, imaginação e interpretações no mesmo sentido, entregues a um “eu” imaginário e desfocado da realidade, como aconteceu com a pintura do pós-guerra, onde se buscava uma explicação transcendente para certo tipo de Expressionismo Abstrato.&lt;br /&gt;Essas interpretações perduram, até hoje, à guisa de uma explicação para a pintura contemporânea e, até mesmo, de outros movimentos pictóricos anteriores.&lt;br /&gt;Fica constatado, então, que as explicações sobre a pintura abstrata, considerando o período contemporâneo, incluindo a presença da pintura virtual, não satisfazem, em termos teóricos, a contemplação do tema de forma satisfatória. Falta, principalmente, uma visão ampla e abrangente, uma abordagem macro esclarecendo o que é, realmente, o abstrato na pintura.&lt;br /&gt;A primeira coisa a se entender é que existem, na visão atual, dois grandes grupos chamados de abstrato puro, no sentido de completo, inteiro, integral, e abstrato impuro, no sentido de misturado, incompleto, parcial e que este se subdivide em abstrato figurativo e figurativo abstrato. Pode parecer apenas jogo de palavras, mas o conteúdo específico de cada um demonstrará o contrário.&lt;br /&gt;No abstrato puro ou completo, não há o menor resquício de figurativo, como nas obras de Fará Bell, Mark Rothko e em outros trabalhos, inclusive de pintores virtuais, como Celito Medeiros, João Viegas e outros. Já, no abstrato impuro ou parcial, a maior ou menor prevalência do abstrato, na tela ou em outro suporte, define se é abstrato figurativo ou figurativo abstrato.&lt;br /&gt;No abstrato figurativo, a prevalência na pintura é do abstrato, como no trabalho de Andy Warhol, em Retrato de Maurício, onde há um cachorro azul, pintado com cores fortes. Por ter a prevalência das cores quentes e a sua supremacia no quadro, em detrimento da forma – o cachorro – este passa a ser um adjetivo na pintura, como acontece no caso do fauvismo, do cubismo e em outras pinturas abstratas que são consideradas impuras. Magritte é outro pintor que se utiliza do abstrato figurativo, como pintura conceitual e engajada, com suas formas figurativas, em cores vivas e, ao mesmo tempo, o abstracionismo da mensagem, ao evidenciar, de forma incomum, objetos do dia-a-dia com a conotação crítica ou inovadora.&lt;br /&gt;O figurativo abstrato traz as características contrárias, prevalecendo o figurativo com laivos de abstracionismo, onde se encontra, no objeto retratado, a sutileza de detalhes da figura, da cópia, mas, ao mesmo tempo, um certo desfoque, a magia imaginária do abstrato, colocando fora de ordem algum aspecto do conteúdo retratado, como em um pôr-do-sol todo vermelho, em tom suave, com um sol discreto. Muitos trabalhos há com características de figurativo abstrato e, enumerar apenas alguns, pode até dar uma idéia errada do que seja essa espécie de figurativo.&lt;br /&gt;Todas essas espécies do gênero abstrato estão presentes na arte contemporânea assim como o gênero figurativo. Não há uma característica própria no contemporâneo, nem essa forma histórica de ver a arte é um movimento pictórico. Apesar de ser uma forma atual de fazer arte, pode não ser atual no que expõe como arte, revelando artistas que se dedicam da pintura clássica à abstrata pura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ACEITAÇÃO PÚBLICA DA ARTE ABSTRATA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande público, as pessoas sem conhecimento de arte, quando se deparam com uma pintura figurativa e uma abstrata, logo são atraídas pela forma reconhecível no figurativo e costumam “gostar” da pintura abstrata como algo decorativo. Pensam no seu tapete, no seu sofá, na cor de sua parede, para, ali, colocar o quadro abstrato. É claro que isso acontece com os quadros figurativos, pois querem uma paisagem, uma natureza morta, um pôr-do-sol, por exemplo, também, adornando seus ambientes domésticos ou de trabalho.&lt;br /&gt;Nota-se, porém, que os motivos são diferentes. No primeiro caso, quer-se o conteúdo do figurativo e, no segundo, o lúdico do abstrato. Mesmo os decoradores menos atentos ou para satisfazer ao cliente, obedecem a essa lógica do lúdico no abstrato, todos sem entrar no mérito da concepção abstrata, no seu significado, na representação e importância desse movimento artístico que representa o quadro.&lt;br /&gt;Em ambientes como escritórios mais sofisticados, residências de luxo, com proprietários de alto poder aquisitivo, Bancos, Instituições Públicas ou Privadas com forte representatividade na sociedade, encontram-se quadros abstratos. Uns por investimento, outros pela doação do artista, que quer ver sua obra ligada a prestigiosos locais como esses. Jamais, salvo os colecionadores, pelo real valor artístico da obra ou pelo seu valor intrínseco. Isso é caro e acarreta custos elevados no projeto do decorador de interiores e, quase sempre, projetos caros são rejeitados pelos clientes.&lt;br /&gt;Estas elucubrações podem nos levar a uma conclusão inverídica, como a de que só apreciam a obra de arte abstrata os mais ricos e que os medianos ou pobres, por não terem acesso a esse tipo de arte, a rejeitam. Nada mais falso. A apreciação da arte abstrata nada tem a ver com sua aquisição, ao requinte, à sofisticação, mas ao sentimento que elas provocam na pessoa, à forte plasticidade que emanam, independente do conhecimento artístico, ainda que específico, que possuam.&lt;br /&gt;Se é assim, então, por que a preferência, em maioria numérica, pelo figurativo? Anos e anos, séculos de louvação ao retratável, ao que existe na natureza e poucos, muito poucos, em comparação, ao “desfigurado” abstrato que necessita de pensar para levar a um sentimento de gratificação com o apreciar da obra. E sendo preciso pensar, dá trabalho, exige mais do espectador, é uma “mais valia” mental que nem os estudantes se querem permitir mais. É um esforço que não pode entrar no “lúdico” do abstrato. Isto sem falar no desconhecimento que, mesmo alguns entendidos, têm do real sentido do abstrato, usando-se categorias de análise do figurativo e aplicando-as ao abstrato.&lt;br /&gt;Outro fator que influencia a preferência pelo figurativo, mas de difícil conceituação, é o que se costuma chamar de brega ou cafona. Sabe-se que independe de dinheiro, passa-se longe do discreto, do que é de “BOM GOSTO”, outra coisa difícil de definir. Mas, no capitalismo vigente no mundo, que agora se transforma em responsabilidade social e se “preocupa” com o ecológico, algumas pistas podem ser recolhidas.&lt;br /&gt;A produção em massa, a imitação barata de produtos caros, a pirataria, também na arte, vem gerando uma espécie de produto novo, na área do brega e do cafona, que não somente o exagero dos brilhos e das fanfarras de penduricalhos a que estávamos habituados. É um tipo de brega moderno que vem tendo adesões na arte, através dos malfadados projetos sociais de inclusão social, com a arte de rua, aquela pintura dita das bases que assoma pelas cidades, nos muros e nos prédios. Há muito boa intenção nesses projetos, mas o caminho e a escolha da arte seria o roteiro a seguir? Essa pseudo “democratização da arte” existe mesmo ou é mais um engodo, como essa nova concepção de kitsch que se tenta impingir, para aumentar as vendas? Se somos todos kitsch, “bregas chiques”, nada contra comprar e comprar coisas comuns e da moda, inclusive arte semelhante aos quadros de algumas novelas de TV, aumentando o consumismo e distanciando o abstrato do grande público, na busca do excêntrico, do exótico, do monumentalmente massificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CRÍTICA DE ARTE NA PINTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, na crítica de arte, em geral, uma espécie de repulsa e, ao mesmo tempo, atração pelos critérios que são adotados para a sua elaboração. O resultado publicado tem uma influência fundamental na vida do artista ou do grupo artístico, quando se trata de uma orquestra ou de um corpo de balé.&lt;br /&gt;Quando a crítica de arte vem travestida de resenha, a situação se agrava, por esta assumir, declaradamente, uma posição de simples apresentação da obra e uma pseudo-objetividade que, na grande maioria das vezes, coloca-se como defensora ou acusadora do trabalho de quem produz arte. Há casos de resenhas, com tal evidência de parcialidade, que nem há o local de comparecimento para o público ou a editora do livro, salvo publicações de âmbito nacional.&lt;br /&gt;No caso da crítica de arte, na pintura, duas grandes vertentes se abrem, ao serem analisadas as pinturas figurativas e as abstratas. Em geral, os mesmos critérios usados para a pintura figurativa são utilizados para a abstrata, sempre acompanhadas de um falso glamour verborrágico que enfatizam a emoção do pintor, ao elaborar determinado quadro.&lt;br /&gt;Salvo exceções, diz-se sempre que o crítico de arte é um artista frustrado, que, por não saber fazer, comenta. É injusta essa assertiva, na medida em que não há necessidade de “saber fazer”, para que se exerça a atividade de apreciador de arte, com a responsabilidade de analisá-la. A questão principal reside nos critérios usados para essa apreciação, que, logicamente, dependem da formação cultural e do referencial teórico do crítico.&lt;br /&gt;A guisa de ter em mão dados concretos para a apreciação heterodoxa de um objeto de arte, principalmente a pintura, foram criados alguns itens indispensáveis à identificação da pintura e à sua apreciação, obedecendo a critérios teóricos de História e Filosofia da arte:&lt;br /&gt;NA PINTURA FIGURATIVA:&lt;br /&gt;Entende-se por figurativa a arte produzida, buscando imitar o que existe na realidade, nos mínimos detalhes, como são as obras clássicas ou em posicionamentos mais elásticos como no impressionismo. Mas sempre refletindo, copiando, uma paisagem, mesmo que inventada, uma natureza morta, um retrato e outros elementos da natureza. Historicamente, o figurativo, para alguns tóricos, estende-se até o impressionismo, mesmo que seja pintado atualmente. Não se pode esquecer movimentos como o concretismo, o cubismo, que, de certa forma, copiam as formas geométricas existentes na natureza - observe-se o nome dos quadros - não deixando de ser um tipo de abstracionismo-figurativo e não um abstracionismo puro.&lt;br /&gt;Para a análise de um quadro figurativo, é necessário observar alguns itens, sem que aqui estejam todos, pois esta relação é mais exemplificativa do que exaustiva:&lt;br /&gt;- O Enquadramento do objeto pintado em relação à tela, mesmo que sejam partes de um objeto, como o canto de casarão colonial ou parte do corpo humano, para que se possa verificar a proporcionalidade do conteúdo;&lt;br /&gt;- A Luz e a Sombra, onde está consumado o delineamento do tema, a expressão de suas formas e parte do contraste de cores;&lt;br /&gt;- A Perspectiva, que dá a idéia da dimensão do objeto e ajuda na verificação da proporcionalidade deste e, principalmente, a sua profundidade;&lt;br /&gt;- A Fidelidade ao Modelo, onde se observa a veracidade do objeto pintado, identificando se é uma natureza morta, uma paisagem, um retrato fiel, cenas de patrimônio histórico, etc.&lt;br /&gt;Estes itens não se confundem com os usados para o desenho, embora o quadro figurativo seja um desenho pintado, pois sua verificação não se dá exclusivamente pelo traço, mas pela combinação de cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NA PINTURA ABSTRATA:&lt;br /&gt;A designação pintura abstrata é, na realidade, um gênero que engloba diversos tipos de movimento pictórico, como o Fauvismo, que alguns consideram figurativo ( mas não é), o Expressionismo e o Expressionismo Abstrato, para falar apenas dos principais. Muitos dos movimentos surgidos, no que se chamou de fase Moderna ou Modernismo, são, na verdade, pinturas figurativas, representando exageradamente a realidade, como alguns dos famosos quadros de Tarsila do Amaral, por exemplo, Manacás e outros, como vem mostrado no google, em Tarsila do Amaral, Obras, Galeria, com 34 de seus quadros. Mas esta é outra análise a ser feita, pois a artista inovou para a época, rompendo com o classicismo.&lt;br /&gt;Itens das pinturas abstratas:&lt;br /&gt;- Contraste de cores;&lt;br /&gt;- Predominância ou não de cor determinada;&lt;br /&gt;- Alternância de Cor;&lt;br /&gt;- Excesso de cores, vindas do fauvismo;&lt;br /&gt;- Luminosidade, mesmo em quadros escuros;&lt;br /&gt;- Tipo de Abstrato adotado, onde se observa a coalescência de outros movimentos pictóricos contidos no Abstrato, tipo Abstrato-Impressionista ( Sol Nascente, de Monet ), Abstrato-Figurativo, Abstrato-Fauvista ( Sonhos, de Salvador Dali), Abstrato-Expressionista ( O Grito, de Munch) e o Expressionismo Abstrato (Jackson Pollock) e o abstrato puro como as obras de Rothko. Isto porque não há pintores exclusivos de um movimento artístico, podendo este pintar quadros de outros movimentos, como um figurativo ou um impressionista, colocando conteúdos abstratos em sua obra.&lt;br /&gt;É importante frisar que, no Figurativo, propriamente dito, há cópia do que já existe na natureza e no abstrato-figurativo, embora se possa pintar um gato azul, este não será um gato, mas a abstração de um gato, ao mesmo tempo em que a figura de uma mulher deformada, não pela cor, mas pelo desenho, será sempre uma mulher deformada pelo traço, algo figurativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SENTIDO DE ARTE CONTEMPORÂNEA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A expressão arte contemporânea tem a aparência de um sentido óbvio, como palavras democracia, social democracia, globalização e muitas outras que são utilizadas pelo senso comum, sem que seja esmiuçado o seu verdadeiro sentido. Até mesmo para aqueles que se dizem entendidos em arte, há divergência sobre o real período em que certa produção artística pode ser considerada contemporânea. Alguns são taxativos em afirmar que foi após a II Guerra Mundial; para outros, o movimento pop dos anos 60 e há os que consideram os anos 90 como o início dessa contemporaneidade.&lt;br /&gt;Observe-se, porém, que se trata, até agora, exclusivamente do Critério de Tempo, para a fixação do contemporâneo. Verifica-se, também, que a produção artística do nosso tempo torna-se passado, surgindo novas formas de a arte se apresentar, sendo que aquela anterior passa a obter um nome que a define. Essa historicidade da arte, com o critério exclusivamente de tempo, é insuficiente para definir o que é atual ou não. Há necessidade de verificação do conteúdo da arte para cada época, para que se tenha a segurança de definir o real sentido de arte contemporânea.&lt;br /&gt;Por outro lado, no momento recente, o artista pode estar produzindo um conteúdo de épocas anteriores como, no caso da pintura, quadros ou outra forma de apresentação, com a representação de movimentos artísticos como a pintura clássica, o barroco, o impressionismo, o cubismo, etc. Isto está acontecendo no presente, como ocorre com a tendência a um retorno ao figurativo, neste início de milênio, como, por exemplo, uma grande parte da chamada Arte de Rua. Verifica-se que tão somente o Critério de Tempo, em si, é insuficiente para uma concepção de arte contemporânea, mas não se pode descartar o tempo no sentido histórico; afinal, a realidade social muda e a anterior se torna passado.&lt;br /&gt;Pelo Critério de Conteúdo, porém, tem-se a oportunidade de contemplar uma visão mais abrangente da arte do nosso tempo, com sua subdivisão em Critério da Historicidade e Critério da Técnica, ou seja, do material utilizado na composição artística. Na arte contemporânea, o conteúdo terá que ser o dos dias em que vivemos, no caso, o aquecimento global, as questões ambientalistas, o problema energético mundial, a escassez de água, os avanços tecnológicos, a transformação das comunicações no mundo, as formas degradadas de vida humana, causadas pelo capitalismo selvagem, travestido em humanitário e muitas outras com as quais convivemos.&lt;br /&gt;Essas questões estão centradas em uma época, podendo ser estudadas e tornarem-se objeto de produção artística, caracterizando um período histórico, que, com o passar do tempo, vai deixando de ser contemporâneo, na medida em que forem sendo solucionados esses questionamentos. E outras questões surgirão, com conteúdo novo, tornando-se, por sua vez, objeto artístico de contemporaneidade.&lt;br /&gt;Ao lado dessa forma de conteúdo, engajado à nossa realidade atual, pode existir um conteúdo descompromissado em termos políticos, voltado exclusivamente para a plasticidade de novas formas de expressão artística, sem que isso constitua uma alienação do artista com seu tempo, pois busca uma sintonia plástica com sua época.&lt;br /&gt;Há que se considerar, também, o Critério da Técnica, de primordial importância na arte e, ainda, no caso da pintura, de contundente primazia, de vez que novos produtos vão surgindo, novos materiais, nova mesclagem e acoplamento desse conteúdo, produzindo nova concepção teórico-pictórica.&lt;br /&gt;Outro problema de relevância é a questão da nomenclatura que é utilizada para definir o contemporâneo. Costuma-se utilizar, como sinônimo, o pós-modernismo para a arte contemporânea, o que se torna um grande engano teórico, na medida em que o pós-modernismo abrange o período dos anos 60 ao início dos 90 e outros autores ainda incluem, aí, o tumultuado espaço de tempo após a II Grande Guerra. Isso foi contemporâneo, não é mais, passando a ser História.&lt;br /&gt;Na realidade, podem-se considerar, hoje, como contemporâneos ou neo-pós-modernistas, os fatos ocorridos após o início dos anos 90, com a grande transformação mundial das comunicações, por meio da internet. Esse período está sendo a alavanca de todo um processo de mudança na vida das pessoas e no trato das coisas, como é o caso da arte virtual, como a pintura virtual, arte produzida exclusivamente no computador e divulgada por sua rede mundial e outros meios. Esses fatos são uma espécie de corte no andamento das relações sociais então vigentes, gerando fato novo e interferindo no conceito de arte contemporânea.&lt;br /&gt;Desse modo, a definição de arte contemporânea há que sofrer uma modificação necessária e importante para seu entendimento, acompanhando os fatos sociais que vão surgindo, contemplando-se, como fundamental, a sua historicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O NOME DOS QUADROS ABSTRATOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de real importância, para a concepção do abstracionismo deste século XXI, a ligação que deve existir entre o nome dado ao quadro abstrato, seja ele virtual, em tela, ou outro suporte artístico e o conteúdo desse tipo de pintura. Com raras exceções, as pinturas abstratas mais conhecidas possuem nome de coisas concretas, da natureza palpável, para representações pictóricas que fogem a esse padrão. Exemplos há muitos, como “Villa Florentina” e “Pássaro da Floresta” de Paul Klee ou a maioria dos quadros de Jackson Pollock, como “Alquimia”, por exemplo, utilizando-se os pintores, também, de numeração, para seus quadros, como uma espécie de fuga à colocação de nomes abstratos. Apesar disso, Pollock usou, também, nomes abstratos como no quadro “Guardião do Segredo”, “Convergência” e alguns outros.&lt;br /&gt;Mas qual a importância do nome no quadro abstrato? Em que isso altera a plasticidade contida nessas representações abstratas? Essa tendência, até então existente, de colocar nome de coisas concretas contraria a própria concepção abstrata do quadro. Seria, mais ou menos, como colocar o nome em uma pessoa que não confere com sua personalidade, com sua maneira de ser e até com sua configuração física. Isso é mais difícil nas pessoas, porque nunca se sabe como elas serão mais tarde e o nome é colocado ainda quando recém-nascido.&lt;br /&gt;Nos quadros, a coisa é diferente. A própria realização da pintura pode advir de um nome, como, por exemplo, “Possibilidade de Amar”, “Enlevo de Amor”, “Alegre Sensação”, “Convencimento” e muitos outros, ou o nome pode ser colocado depois de o quadro pronto, mas em consonância com a plasticidade de uma idéia abstrata. Não faz sentido apresentar uma pintura abstrata com o nome de “Casa no Pântano”, onde, nem de longe, possa ser visualizado o arremedo de um pântano ou de uma casa, por maior a aproximação que se queira dar em tintas e traços. Mas a abstração que queira exprimir a sensação de isolamento ou degredo, existente em uma casa no pântano e jamais uma moradia nesse lugar – o figurativo - dever-se-ia chamar, por exemplo, “Solidão” ou “Isolamento”, um nome adequadamente abstrato.&lt;br /&gt;Essa união, essa confluência, essa unidade entre o nome e a representação plástica do quadro, na visão atual, vem transmitir a idéia de abstração, buscada ao longo do tempo. Há, por outro lado, os defensores de que a consistência da pintura está no choque entre o nome concreto e a expressão abstrata. Essa é uma concepção estapafúrdia, na medida em que esses nomes concretos eram colocados pela falta da real compreensão do abstrato e, também, como uma espécie de satisfação ao público da intenção do artista. Isto se dá, porque, só recentemente, o abstrato não é só aquilo que não se vê ou não se pode tocar, mas uma configuração transcendente, como as diversas emoções em “estado bruto”, pois, no momento em que são vividas por uma pessoa, passam a ser concretas. Existe, por exemplo, a tristeza e a tristeza vivida por uma pessoa, que, neste último caso, passa a ser concreta.&lt;br /&gt;É importante observar que os conceitos de abstrato/concreto, aqui expostos, expressam o abstrato como um dos movimentos que existe, principalmente, na pintura e na escultura, contra a arte clássica do período Renascentista, fazendo com que o abstrato seja aquela pintura ou escultura que não representa aquilo que existe na natureza material, mas na imaterial.&lt;br /&gt;Essa nova visão do abstrato teve reflexos na arte. Um sentimento ou uma possibilidade de sentir pode ser “visualizado” na música, na dança e, no caso da pintura, ser mesmo visualizada na plasticidade da tela. Isto, a partir não de um simples nome que faça ligação com o concreto, mas um nome abstrato, entrelaçando o imaginário abstrato com a sua representação pictórica abstrata.&lt;br /&gt;Há, nesses casos, uma espécie de “casamento”, de entrosamento entre o concebido com pincéis e tintas ou com a mesa digitalizadora e a designação que é dada a esse trabalho.&lt;br /&gt;Como se verifica, não se trata somente de uma questão semântica, mas de um espírito de consonância entre a concepção plástica criada e a designação desse fenômeno, gerando um novo modo de pensar na arte e, em especial, na pintura, que é sempre o tema recorrente nestes escritos aqui apresentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DISTINÇÃO ENTRE ARTE DECORATIVA E ARTE ABSTRATA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa temática é antiga, mas ressurge, com maior evidência, dentro da evolução histórica da Arte, com ênfase, principalmente, a partir dos anos 60, com o que foi a pop art, consistindo, para as artes plásticas, em uma contusão, especialmente na musculatura da arte de pintar, até nos dias de hoje.&lt;br /&gt;Surgiram formas inusitadas e “infantis” de contextualizar e comercializar a arte pictórica, sem qualquer suporte teórico, a não ser a ironia e o deboche com os produtos industrializados e a fama construída artificialmente. Esse conjunto de inovações foi, à época e continua sendo, apenas um pequeno período de “revolta”, em que a arte decorativa buscava o novo, infantilizado com latas de sopa e retratos de Marilyn Monroe e precisou percorrer outros caminhos teórico-metodológicos, como o materialismo dialético, para encontrar uma explicação.&lt;br /&gt;Nos dias atuais, foram criando corpo formas de “expressão”, como instalações, vídeos, arte efêmera e outras que passaram a encontrar espaços dos mais respeitáveis, ganhando um consenso como Arte, ao mesmo tempo em que os quadros iam da “mesmice” às formas e cores mais incongruentes possíveis.&lt;br /&gt;Essa incongruência, que nada tem de arte abstrata, traduzia-se e se traduz na conectância com o que é simplesmente decorativo. É uma espécie de combinação de flores e frutos para os ambientes de alimentação ou alienações pictóricas, desde que as cores combinem com o sofá ou o tapete, independentemente de se tratar de um objeto de arte. ( como muito bem define a teoria da arte).&lt;br /&gt;Essa desorientação artística, no campo da pintura, forçou os teóricos e mesmo os artistas a se formularem a questão: o que é um objeto de arte e o que é um objeto decorativo? Há uma resposta simplista que diz que o objeto de arte pode ser decorativo, mas o objeto decorativo jamais será um objeto de arte. Isso ocorre porque o objeto de arte, além de ser uma peça única, indivisível, ainda que seja um conjunto, de vez que o conjunto é o objeto, pode não corresponder aos critérios clássicos da estética. Em outras palavras, pode ser feio. O exemplo típico é o quadro “O Grito”, de Munch. Trata-se de uma obra de arte em que o feio é o belo, através da mensagem. Outros exemplos estão em algumas obras de Picasso, de Pollock, onde a imitação da natureza está fora de questão: a beleza seria, talvez, duvidosa, não fosse a genialidade dos autores e são, na verdade, objetos de arte. Nestes, não se pode aplicar a máxima de Vinícius de Morais: “... beleza é fundamental...” O que demonstra ser extraordinário em um objeto de arte é todo um conjunto de pequenos detalhes que o tornam diferenciado de qualquer outro objeto no mundo. Isto está presente na elaboração do artista, ao compor a sua obra, sincronizando cores e formas, de tal maneira que outra pessoa poderá apenas imitá-la, jamais “fazer escola”, como antigamente. Não há mais possibilidade de seguidores.&lt;br /&gt;Mas a chamada arte decorativa vem tomando corpo, de maneira insistente, neste início de milênio, com um suporte criado aleatoriamente, a partir da segunda metade do século XX: a pintura-escultura, ao mesmo tempo, a guisa de alto relevo. Observe-se, na decoração de ambientes de novelas de TV, em que, às vezes, há quadros de artistas profissionais, mas a maior parte é elaborada pelo Setor de Arte da TV, sem citar autores. Simples pinceladas compatíveis com a ambientação, desvalorizando o artista e a obra, apenas compondo interiores com certo “charme”. Assim, a arte decorativa passa a ser o descartável, próprio do consumismo atual e não um desdobramento artístico desta época de globalização. Passa a se desconhecer seu valor intrínseco como arte, jogando-se o objeto, literalmente, no lixo, depois de certo tempo. O próprio material com que é confeccionada essa “arte” também é descartável, tendendo a arte decorativa a ser apenas uma arte passageira.&lt;br /&gt;Têm se encontrado esforços isolados de renovação do movimento pictórico, sem os alardes da arte decorativa, nem as, muitas vezes, insanas e obtusas demonstrações de atividade artística. Novos métodos de pintura vêm sendo descobertos na calada e solitária busca por um parâmetro para a pintura contemporânea, sem fazer da arte a promoção pessoal do artista, mas a construção de um horizonte, preservando o objeto de arte como tal. Torna-se isso muito difícil, por deixar de fora o novo, como busca constante do novo, por ser simplesmente novo e consumível. A esperança para o universo cultural reside aí, na constante elaboração de um objeto de arte como tal, nessa forma de resistência ao estabelecido, não como contracultura, mas como um movimento artístico aceito mundialmente. Não se faz arte pensando na decoração de um ambiente, mas na própria arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA NOVA FORMA DE PINTURA ARTÍSTICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste alvorecer da internet, ainda criança bem pequena, embora a cada dia aumente de tamanho, numa velocidade impressionante, toma corpo uma nova forma de pintura. Muitos meios de expressão artística são manifestados por meio do computador, criando um espaço novo para as artes, como a música, com suas composições e execuções, o desenho gráfico, o próprio desenho à mão livre, a literatura, a dança com suas coreografias definidas por softwares, a escultura, as instalações e os projetos de arquitetura e os de fabricação de automóveis e utensílios domésticos... Tudo!&lt;br /&gt;Pode-se executar, também, a Pintura Virtual e montar até uma espécie de ateliê no computador, para exercer essa tão bela arte. Campo mais amplo terá, principalmente, a pintura contemporânea, que tem representantes autênticos, como Lisa Kowalsk, Don Li-Leger, Fara Bell, Alfred Gockel, Pascal Magis, só para citar alguns, embora, nem todos, pintores virtuais. No Brasil, podemos apontar, com relevância maior, os premiados Celito Medeiros e João Viegas, dentre outros, que adotam a pintura contemporânea abstrata de forma virtual.&lt;br /&gt;É à representatividade e à importância da pintura contemporânea que nos ateremos, utilizando os meios da informática, principalmente, as produzidas exclusivamente no computador. E, na pintura contemporânea, a abstrata pura recebe maior destaque, se não a confundirmos com o web design, como é utilizada na publicidade. Não que outros tipos não possam se tornar pintura virtual. A variedade de instrumentos e recursos encontrados nos e-ateliês é tão fantástica e se amplia, a cada dia, que se adapta, com maior facilidade, à arte contemporânea e pode se prender, também, a quadros de outros movimentos artísticos, principalmente, pela grandiosidade e profusão de meios contidos já nos softwares especializados para pintores. Além do que, no caso, por exemplo, da pintura figurativa, impressionista, etc., podem ser utilizados outros meios artísticos como o vídeo, a fotografia e o cinema, que reproduzem com maior qualidade o figurativo.&lt;br /&gt;Na pintura virtual, o quadro é criado na tela do computador, diretamente, através de mesa digitalizadora, utilizando-se uma caneta própria e clicando nos itens desejados, para escolher e misturar cores, além de outros recursos que não cabe elencar aqui.&lt;br /&gt;Apesar disso, sempre é preciso que esses softwares de pintura se ampliem, em termos de recursos, oferecendo maior número de variação de pincéis e de combinação de cores e ofereçam maior diversidade de idiomas, para atingir um público mais numeroso, embora já sejam bastante avançados.&lt;br /&gt;Mas o grande problema da pintura virtual, ainda, é a confusão que fazem, principalmente os leigos, com o web design, acreditando que alguns pintores, utilizando recursos desses sofwares de pintura, não estão fazendo pintura, mas desenho pintado. Isso constitui certa dificuldade para o pintor virtual ou e-pintor, uma vez que seu trabalho de criação é visto como recurso de computador e não a combinação criativa de cores e formas, utilizando pincéis, espátulas e esfumadores virtuais, para obter o efeito desejado, como fazem os pintores em outros tipos de suporte artístico, como telas, eucatex, etc.&lt;br /&gt;Para o leigo, isso pode parecer uma questão sem relevância, mas, para aquele que pinta, essa distinção é fundamental, a partir da diferenciação entre desenho pintado, mesmo em tela e pintura; e essa confusão estende-se, atualmente, ao web design, ao desenho gráfico, sendo totalmente diferente, embora estes sejam pintados. Mas a pintura é outra coisa, é um modo próprio de expressão, que, infelizmente, muitos confundem, inclusive achando que só a pintura figurativa é pintura.&lt;br /&gt;A pintura virtual é o futuro presente, embora as pessoas ainda desejem o objeto, o quadro fisicamente, o que, também, é possível, através da impressão em pano, lona, etc., com uma impressora própria, ainda rara e pouco acessível. Mas, como aconteceu com outros instrumentos tecnológicos, isto será superado e cada pintor poderá ter a sua no seu ateliê, quando a compreensão do virtual se popularizar e se ampliar para uma vida própria na internet, como já está começando a acontecer com compras em supermercado, celebração de contratos, vídeos-conferência, com aulas, reuniões de empresa e outras prestações de serviço.&lt;br /&gt;A pintura virtual, ainda, necessita de uma divulgação maior e de um processo de distribuição mais apropriado, para que seja levada mais a sério. Precisa, também, como acontece com o livro, de uma conscientização maior sobre a desnecessidade do “objeto na mão”, esse manuseio possessivo que a maioria das pessoas tem. Mas isso já está acontecendo com o CD, que, aos poucos, está sendo substituído pelo MP3, só para citar um exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EXPOSIÇÃO VIRTUAL DE PINTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em pintura virtual, surge uma idéia que pode se concretizar, se já não foi executada, que consiste em colocar monitores LCD, em tamanho grande, embutidos em painéis, mostrando um quadro. Assim, cada monitor de computador, como moldura do quadro, ficaria interligado por rede a um site de um pintor virtual ou e-pintor. Ocorreria em uma Galeria com endereço real e seguiria os mesmos trâmites de uma exposição não-virtual.&lt;br /&gt;Essa idéia, inicialmente, não traduz, de forma obrigatória, a venda dos quadros expostos, mas nada impede que colecionadores ou mesmo qualquer pessoa que não queira quadro para decoração, adquira-o, como se compra um DVD de um filme. Neste caso, poderia conter somente um quadro ou a exposição inteira, para inserir a imagem em seu computador, com dispositivo que evitasse cópia, para seu deleite, como apreciador da arte pictórica.&lt;br /&gt;Para os artistas mais tímidos, ou que não querem se afligir com a ansiedade própria do vernissage, seria colocado um telão com vídeo computadorizado de um depoimento seu, que mudaria, de tempos em tempos, dependendo da duração da exposição. Mostraria, também, ele em seu ateliê virtual, trabalhando, em sua mesa digitalizadora com o computador, elaborando parte de obras de arte.&lt;br /&gt;Poderia haver, no meio do salão de exposição, um computador disponível ao público visitante, com três chances de interagir com a obra, através de mudança de cores, de forma e de tamanho do quadro virtual. A pessoa que assim o fizesse poderia, também, levar para casa o “seu” quadro original com as alterações feitas, nas três modalidades descritas ou com aquela que mais lhe agradasse. Seria uma forma de não simplesmente interagir, mas de despertar ou revelar novos talentos, além de divulgar, para o público, a evolução dos quadros pintados em tela, nessa versão computadorizada.&lt;br /&gt;Por se tratar de pintura, seriam disponibilizados apenas softwares para pintores, excluindo-se o web designer e outras formas de arte, como a arte gráfica, dando-se ênfase à prevalência de cores sobre a forma. Isto na busca de novos caminhos para horizontes mais largos que a pintura clássica, talvez até como forma de incentivar novos movimentos ou tendências, neste início de novo milênio, que ainda se encontra impregnado da arte da segunda metade do século XX.&lt;br /&gt;Essa exclusão a que nos referimos acima não vem revelar discriminação com tipos de arte, apenas fazer crescer a importância da pintura em sua especificidade, sem aquele caldeirão de idéias desordenadas em uma mistura bastarda, que, até hoje, ainda perdura, quando se faz um quadro abstrato com componentes figurativos, lembrança de uma época picassiana muito presente nos dias atuais, com as “ pichações “ ou grafitagem, também chamadas Arte de Rua.&lt;br /&gt;Neste tempo de diversidades entrecortadas, com a globalização econômica, mas não social, pode parecer que sugerimos entrar na contramão da história, tentando departamentalizar setores artísticos. Mas o que postulamos é, tão somente, com uma ferramenta tecnológica, dinamizar a pintura, para que saiamos das dificuldades que têm os museus, as galerias e os próprios artistas em armazenar, com qualidade de conservação e manutenção, suas obras de arte, além de democratizar, seja pela internet, seja em exposições reais, essa nova forma de fazer pintura.&lt;br /&gt;Quanto ao ganho financeiro das galerias, marchand e artistas, não se restringirá somente à venda de CDs com os quadros, mas estender-se-ão à cobrança de ingressos nas galerias e à possível reprodução, em lona própria, em copiadoras especiais pra esse fim, com a confecção de telas.&lt;br /&gt;A pintura virtual, ao contrário do que possa se pensar, não mecanizará a pintura, mas dará ao artista a mesma sensação de estar em seu ateliê, sem os perigos do cheiro das tintas e dos solventes, cercado do mesmo material, no conforto de sua poltrona, exercendo unicamente sua atividade de criar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A EMOÇÃO DO ARTISTA E DO ESPECTADOR DA ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um erro fatal, na interpretação da obra de arte, está em desvendar a emoção do artista, no momento de elaboração de sua obra de arte. Há quase um consenso em torno de que a beleza artística reside na capacidade de transmissão dessa emoção para o objeto, seja uma tela, uma partitura, uma escultura ou qualquer outra manifestação artística.&lt;br /&gt;Essa emoção, apesar de existir, é imperscrutável e não adianta ir buscar na vida pessoal de quem faz arte a resposta para tal enigma. Independente da condição econômica, do sofrimento pessoal, seja de amor, de doença ou outro tipo de acidente de percurso, vigora o dom, a natureza, a alma provida de certa sensibilidade, aperfeiçoada com muito suor, trabalho, decepções, entusiasmos, exercício, força de vontade, persistência na construção de um objeto de arte.&lt;br /&gt;Os meios para externar essa expressão emotiva podem estar disponíveis, mas se não houver o treino, a habilidade adquirida com esforço e, sobretudo, a imaginação advinda do hábito de observar, pensar, estudar, ter conhecimentos especializados, nada irá deflagrar esse espasmo emotivo com resultado satisfatório para uma obra de arte merecedora desse nome. Observe-se que, aqui, não tratamos a imaginação em seu aspecto negativo, como quis demonstrar Emile Chartier (Alain) – 1868-1951 – em seu Systèmes des Beaux Arts, de 1920, ainda hoje lido e estudado, ou seja, a imaginação como um componente que nos engana, que nos faz, pela paixão das coisas, distorcer o objeto observado. Ressaltam-se a imaginação criativa, os saltos galopantes do universo do novo, do inusitado, que tornam único um objeto de arte.&lt;br /&gt;Essa emoção do artista é supervalorizada na interpretação da obra, esquecendo-se o apreciador das obras por encomenda, dos acasos, como aconteceu com Jackson Pollock, pintor americano do pós-guerra, ao descobrir o dripping, por um simples pingado da tinta da lata, formando texturas incríveis que o consagraram como um marco revolucionário do Expressionismo Abstrato. Outros fatores contribuem para o fazer artístico e é necessário que se desmistifique a tão louvada inspiração como elemento primordial em uma execução artística. Essa inspiração é um mito criado por pessoas sem talento ou com pouco conhecimento da filosofia da arte e se traduz, sim, na associação de idéias, como ao presenciar um fato ou a execução de um ato e ter a capacidade de fazer ilação para um novo ato e a produção de novo fato. Não se trata do efeito de demonstração, como é estudado em Sociologia, mas no processamento de idéias, gerando algo diferente e, por muitos, impensado. Imagine-se um pintor que deseje dar prevalência ao tom negro e passe a usá-lo com primazia em suas obras, simplesmente porque gosta desse tom – que os leigos chamam de cor - ou porque queira manifestar uma integração com o Brasil de predominância da raça negra. Seria ele taxado de depressivo, de negativista ou que estaria passando por uma fase “negra” em sua vida? Não seria simplificar demais a emoção do artista?&lt;br /&gt;Por outro lado, há a apreciação do espectador, com seus valores que podem ser o senso comum ou uma visão crítica que valoriza a obra. O peso dessas opiniões de apreciadores sobrepuja a emoção do artista, que pode não ser valorizada. A supremacia desse consenso constrói uma carreira de artista ou a aborta na primeira exposição de suas obras, não importando a beleza da emoção do artista, o seu talento, a decantada inspiração e mesmo a sua imaginação criadora.&lt;br /&gt;Prevalece, portanto, a opinião, nem sempre abalizada, de quem aprecia, de quem observa e, principalmente, de quem é formador de opinião ou tem cacife para chancelar uma produção artística.&lt;br /&gt;Esta pode ser até uma visão pessimista e avassaladora da realidade, mas é uma constatação inexorável e sem os devaneios românticos da elevação da arte, como manifestação suprema da capacidade humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ARTE DE RUA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pintar artisticamente ou como protesto político os muros, prédios, ou qualquer outro suporte exposto na rua não é um fenômeno novo. No Brasil, até onde se tem notícia, vem desde o final dos anos 50, se ampliou nos anos 60 e, principalmente, a partir de 1970 tomou corpo, mas com a tônica do vandalismo, sem uma proposta artística definida. Foi muito usada com a pintura de frases como “abaixo a ditadura”, bem como os “desenhos” quase criptográficos, hoje incorporados pelo Livre Expressionismo, a que nos referimos e mensagens ingênuas de amor adolescente.&lt;br /&gt;Bem interessante, na época, é que quanto mais difícil o lugar para apor essas inscrições, mais valorizadas eram, havendo uma quase disputa entre os pichadores de rua, buscando alcançar os lugares mais altos e de difícil acesso. Não havia propriamente uma distinção de classe social entre os pichadores, em geral, jovens de classe média ou classe média alta que se misturavam aos hoje chamados meninos de rua, que começavam a surgir, vagueando e vandalizando pelas ruas das cidades.&lt;br /&gt;Desde essa época, até hoje, usavam as tintas em latinhas de spray, mais fáceis de conduzir e fugir da polícia, em virtude da criminalidade do ato de pichar.&lt;br /&gt;A partir dos anos 80, assumiu um caráter mais sério, com um status de arte, passando dos muros, laterais de viadutos, laterais de prédios, o chão das calçadas, das ruas, etc., para a condição de mais um suporte artístico e, ao mesmo tempo, deixando, também, de ser puro ato de vandalismo. Era e é a vitrine do grafite, com tendências fortemente figurativas, no estilo pictórico das HQ. Diz o grafiteiro Rica P., (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Foretaleza) que “ o grafite não é uma questão de estética e sim de atitude. Uma tela feita por um grafiteiro exibida em um museu não é grafite, está no campo das artes plásticas tradicionais. Grafite é Rua, com o que isso implica : contestação do uso de espaço público, vontade de democratizar o acesso à arte, desafio ao poder”. Esse aspecto rebelde, desafiador e portador de uma mensagem de liberdade vem sendo contrariado pelo mercado de artes. Cada vez mais os marchand´s encontram público na classe alta e endinheirada para a compra de obras de grafiteiros, não mais em seus suportes de “desafio”, mas em telas nas exposições, como a que grafiteiros brasileiros fizeram em New York. Esse emparedamento da Arte de Rua vem se tornando um alvo dos próprios grafiteiros, que, no fundo, buscam a fama, como os artistas plásticos convencionais. A cada dia, a Arte de Rua deixa a rua, para palmilhar os brilhosos caminhos das paredes internas, seja de Galerias de Arte, seja de Exposições, seja dos acervos particulares, como noticiam as publicações especializadas. Usam-se, como suporte, caixas de papelão para acondicionar remédios ou outros produtos usados de forma alternativa, como suporte.&lt;br /&gt;Mas a arte na rua continua viva, efetivada por novos grafiteiros em busca de fama ou por aqueles renitentes com sua proposta de desafiar o poder constituído, sinalizando a possibilidade de integração do humano com o urbano.&lt;br /&gt;Há ainda o lado dito social, patrocinado, contraditoriamente, - é uma atividade ilegal - pelo próprio poder público que arregimenta futuros grafiteiros e oferece cursos de grafitagem artística, entrando pelo viés da inclusão social.&lt;br /&gt;Hoje, basicamente, existem dois tipos de técnica de grafite: o free hand ou mão livre que é a técnica mais comum entre os artistas plásticos, com regras de luz e sombra, contrastes, etc. e a técnica dos moldes, onde a pintura é feita sobre um suporte vazado e colocado o molde, sendo pintado por cima. Mas o grafite tem várias versões e é muito localizado por Estado ou região. Cada uma tem uma preferência e um aspecto artístico diferente, sendo os mais destacados os de São Paulo e os do Nordeste. Os de São Paulo chegaram a influenciar artistas do mundo inteiro, pela diversidade de estilos, originalidade e excelência pictórica.&lt;br /&gt;Hoje é um campo de atividade que tem aceitação, principalmente na moda, chegando a Nike a contratar grafiteiros para ilustrar seus tênis. As camisetas, as roupas de jeans, também, são produções que estão cada vez mais requisitando grafiteiros e os incorporando à máquina do modo de produção capitalista.&lt;br /&gt;Hoje, é chique grafitar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SENTIDO DA PALAVRA NATUREZA NAS ARTES PLÁSTICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma espécie de consenso entre os estudiosos das Artes Plásticas sobre o uso da palavra natureza para estabelecer a distinção entre a arte abstrata e a arte figurativa. A abstrata seria aquela que não reproduz a natureza e, por sua vez, a figurativa, aquela que a reproduz.&lt;br /&gt;Esse abandono da mimese pode gerar, a princípio, uma confusão do termo natureza, sendo atribuído apenas o sentido de coisas naturais, existentes sem a interferência humana. Isso restringe a concepção da dicotomia abstrato/figurativo a paisagens, flores, ao próprio homem retratado, tornando pequena a interpretação do sentido de natureza, que é muito mais amplo.&lt;br /&gt;Quando se diz que o abstrato não contempla a mimese ( reprodução) da natureza, tomamos essa palavra no sentido de realidade, reprodução da realidade, aliás, a representação de um conteúdo, semanticamente, feito de um modo muito mais apropriado, pois abrange não só o natural, que se auto-reproduz, mas, também, tudo aquilo que é produzido pelo homem e pelo outros animais e compõe um todo, um sentido totalizante de tudo o que nos cerca. Assim como os termos natureza morta e natureza, há outros, nas Artes Plásticas, com significado que não coincide com os comumente usados. Têm acepção própria.&lt;br /&gt;Mas a palavra realidade, em sociologia, por exemplo, não tem esse uso tão claro e definido como nas artes plásticas, porque vai além do que podemos observar pelo método empírico. Pode-se mesmo dizer que, nem sempre, a realidade é o real, aquilo que vemos e constatamos pela simples observação. Há interpretações que obedecem a métodos científicos variados, para a definição do que é realidade. Não é o caso das Artes Plásticas, em que a simples observação pode definir o objeto contemplado, em se tratando de arte figurativa, mas que, na abstrata, requer a integração de outros elementos, para dar sentido ao observado, como, por exemplo, na arte conceitual.&lt;br /&gt;O que é certo e inquestionável é a presença ou não da realidade na distinção da dualidade abstrato/figurativo. Nessa realidade, está o que foi concebido ou executado pelo homem, como as formas geométricas, que passaram a compor o fenômeno pictórico definido como cubismo, seja analítico ou não. As formas geométricas integram a realidade, estão nas coisas que conhecemos e estão à nossa volta.&lt;br /&gt;Do mesmo modo, por exemplo, uma vaca verde, um cachorro azul, como no fauvismo, serão sempre uma vaca e um cachorro, mas não existem na nossa realidade, a não ser pelo método artificial da pintura de pelos. E, desse modo, compõe o que se costuma chamar de abstrato impuro, porque contempla algumas formas da natureza ( a vaca, o cachorro), mas, ao mesmo tempo abstrato, pela cor. Há o denominado abstrato puro, onde nenhum vestígio da realidade se encontra, possuindo formas totalmente imaginárias que não são muito levadas em consideração pelo apreciador atento, a não ser pelo conjunto da obra, prevalecendo a harmonia das cores, a sua tonalidade, a sua disposição no quadro. Na escultura abstrata, ocorre a forma inventada sem ser a partir de nenhum modelo existente na realidade.&lt;br /&gt;Desse modo, podemos concluir que, quando se usa a palavra natureza, em Artes Plásticas, há uma referência explícita à realidade e, portanto, a arte figurativa é aquela que reproduz essa realidade e a abstrata é a que a abandona completamente ou não. Ao pintarmos ou esculpirmos a cadeira, a mesa, o homem, um quarto, um ambiente, uma forma geométrica e outros objetos construídos, há uma tentativa ou de reproduzir a realidade (A pintura clássica) ou de fugir dela, mas não completamente, de vez que há os resquícios de uma realidade, o que não acontece no abstrato puro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A FINALIDADE DA ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meios chamados cultos, a questão “ para que serve a arte”parece inócua. É inclusive sinônimo de ignorância, ausência de refinamento ou falta de sensibilidade. Chega a ser uma indagação despropositada, de vez que, em quase todos os círculos sociais, a arte é reconhecida como “alimento espiritual ou alimento da alma” ─ dependendo da crença religiosa ─ para e, nas comunidades econômicamente carentes, é instrumento para a retirada desse segmento social da marginalidade, principalmente os jovens, dando uma perspectiva melhor de vida.&lt;br /&gt;Esses fatos seriam incontestáveis e responderiam à finalidade da arte, caso não fosse perguntado que tipo de arte, com que características é enfocada ou qual metodologia é aplicada a esse conteúdo e qual a finalidade prática dessa abordagem em um regime capitalista.&lt;br /&gt;Levar a arte às comunidades pobres não se resume a ensinar a tocar um instrumento, a dançar balé clássico ou moderno, a imitar pinturas de artistas famosos, a fazer escultura de material reciclado ou até a fazer maquetes arquitetônicas e urbanísticas das favelas e palafitas, para melhorar sua funcionalidade. É muito mais. Requer todo um arcabouço de mudança de mentalidade, leituras constantes, formas abstratas de pensar, que se constrói durante um aprendizado longo, para que não baste apenas saber que, por exemplo, Noite Estrelado é um quadro impressionista, pintado por Van Gogh. Nota-se que, geralmente, em nosso regime capitalista, o “ensino” e a ocupação com a arte é um paliativo para a ausência do Estado, em seu papel fundamental de construir uma cidadania, dignidade, trabalho e respeito ao ser humano.&lt;br /&gt;Essas questões estão dentro de uma maior: qual a utilidade prática da arte? Serve para e a todos? A resposta à segunda pergunta, infelizmente, é não. Pode-se democratizar a apreciação da arte, mas não a sua elaboração, a sua produção.&lt;br /&gt;A arte é uma captação/expressão de sensibilidade, perante uma realidade crua, em qualquer Estado ou regime econômico, opulenta de violência, simbólica ou factual e, muitas vezes, realidade sem graça, sem atrativos. Essa sensibilidade é transmitida a quem a tem ou aprende a ter. Por isso, dedicar-se à arte consiste em uma emoção inusitada e de paixão. É preciso gostar muito de arte para se dedicar a ela. Tem que saber viver, em todos os instantes, a sensação artística, em cada coisa visualizada, em cada leitura, como elemento inspirador e de engrandecimento instrucional e, sobretudo, muito estudo, para o artista não se tornar um simples repetidor de uma técnica, como o desenho não-criativo, mas copista.&lt;br /&gt;Ter o potencial para a captação da emoção artística independe de grau de instrução, de raça, cor, credo ou local de nascimento. Depende de um sentimento especial e inexplicável, como gostar de certas cores, mas isso não é aleatório, como o simples gostar por gostar. É preciso possuir a sensação premeditada de preferência e de sensibilidade que congrega o toque certo na percepção do material, das cores, dos contrastes, alguns ingredientes inatos à estética. Mas esse processo de criação é para poucos, somente para aqueles que se dedicam e têm a constância do aprendizado, da busca permanente, aqueles que entendem e praticam o processo criativo.&lt;br /&gt;Já, para o espectador, é necessário, também, ter uma sensibilidade aguçada e, sobretudo, saber apreciar a arte, o que requer certo conhecimento, não somente específico, mas geral. É diferente de o simples gostar do objeto de arte por uma atração inconsciente e sem fundamento, como quem escolhe uma roupa ou compra um carro.&lt;br /&gt;Toda essa formação do espectador caberia ao arte-educador que, na sua grande maioria, não ensina a apreciação da arte, mas oferece um conteúdo para quem deseja ser artista e nem todas as pessoas são artistas. Não devem se contentar esses profissionais com simplesmente ensinar História da Arte ou fazer com que seus alunos busquem ser artistas, mas despertar-lhes a sensibilidade e a acuidade mental para, no mínimo, tornarem-se mais próximos do enriquecedor caminho do saber perceber a vida, suas nuances, seus meandros e contradições, por meio da arte. Essa é uma de suas finalidades.&lt;br /&gt;Por outro lado, existe, ainda, a finalidade de buscar o refinamento pessoal e, em um regime capitalista como o nosso, voltar-se para o mercado de trabalho e de oferta de produtos ou serviços. Esse fato vem acontecendo, por exemplo, com a Arte de Rua que está se voltando para as Galerias de Arte ou passando para edifícios, principalmente em suas laterais, como complemento arquitetônico, deixando de se expor em muros mal cuidados e prédios abandonados.&lt;br /&gt;A finalidade da arte, como conceito e como objeto, é transgredir e não a tão decantada concepção duvidosa de beleza. Se a finalidade da arte fosse a beleza, o belo, como ficaria a chamada feiúra , se nela há sentido e sentimento? O que dizer da estética do feio?&lt;br /&gt;A transgressão é a busca do novo por intermédio do talento humano. Transgredir não em seu sentido pejorativo de vandalizar, de destruir, mas de ir além, de romper as regras para construir. Esse transgredir é não se conformar com o presente, é a implantação do futuro agora. É romper caminhos, desabar prédios de valores e concepções consolidadas. É destruir, construindo.&lt;br /&gt;O entendimento desse novo não implica massificar o fazer artístico. Essa tarefa é para quem tem talento, porque a arte é singular e não plural, no sentido de sua produção. Mas democratizar a apreciação deve ser um objetivo a perseguir.&lt;br /&gt;A finalidade da arte, quanto à sua produção, é comover o espectador, causar estranheza, reflexão e romper o existente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEMOCRACIA E MASSIFICAÇÃO NA ARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é um tema que requer certa sutileza, pois envolve a igualdade de direitos, contida na Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão e consta da grande maioria das Constituições e outras Leis dos países do mundo. Inclui, também, a liberdade e a fraternidade, tripé – igualdade, fraternidade e liberdade - do Estado de Direito Democrático.&lt;br /&gt;Essas questões legais dizem de perto a posicionamentos filosóficos relativos ao acesso à arte, seja no que diz respeito à produção artística, seja no que se refere à capacidade de apreciação de um objeto de arte.&lt;br /&gt;A educação instrucional, que seria a responsável pelo processo ensino-aprendizagem desse tipo de conhecimento, não pode abranger todas as formas de arte que existem e, geralmente, atem-se à pintura, à escultura, à música ou ao teatro, de acordo com a formação do professor, em uma ou algumas dessas artes. Assim, somente a leitura de vários livros suprirá essa lacuna educacional.&lt;br /&gt;Por outro lado, as políticas públicas de incentivo às artes, também, privilegiam certos setores de produção artística, dependendo do Governo Federal ou do Ministro da Cultura do momento, estendendo-se esse procedimento a Estados e Municípios. Isto ocorre nem tanto pela economia da cultura e do entretenimento, mas, principalmente, pelo “circo” que pode ser proporcionado com “faturamento” político partidário ou, então, pela área a que estão ligados os dirigentes do setor da Cultura.&lt;br /&gt;Por si só, torna-se difícil alimentar, culturalmente, a alma de uma população, em um país onde é quase impossível alimentar, com ingredientes nutritivos, o corpo da maioria de seus habitantes. Essas questões sociais e econômicas são da maior relevância, mas não chegam ao nível de uma discussão mais ampla, atingindo uma posição filosófica sobre a massificação e/ou democratização da arte.&lt;br /&gt;Há que se convir que o fazer artístico não é para todos, mas para aqueles que têm talento ou dom, como querem alguns e necessitam do apoio de políticas educacionais, do interesse dos professores, da escola e da viabilização física de material à disposição dos alunos, para se exercitarem. E, antes de qualquer coisa, precisam de liberdade para criar, para experimentar, para inovar, inclusive deixando que surjam novas formas de arte.&lt;br /&gt;Este é um modo de democratizar a arte!&lt;br /&gt;Em frente ao artista, está o espectador, que, por sua vez, necessita de conhecimento adequado e suficiente para apreciar a arte, instrumental indispensável para adquirir valores artísticos. Esses valores mudam de acordo com o avanço/retrocesso da humanidade, nessa linha sinuosa que é a História humana. Mas necessita-se de uma base, de um ponto de partida nos escaninhos do conhecimento, para se entender a própria evolução desse caminhar tortuoso e compreender as novas manifestações artísticas, reconhecendo a validade histórica dos valores que nos antecederam.&lt;br /&gt;Fazer a leitura de uma obra de arte, seja ela qual for ou a que movimento pertença ou a qual corrente do pensamento se filie, exige estudo e dedicação, ao lado da atenção que se deve dar à carreira escolhida como profissão. Esse mesmo suporte teórico-artístico e, com mais afinco, deve ter o profissional da arte, não apenas inventando técnicas e métodos de produção artística, mas sabendo o que está fazendo e o que já foi pensado e executado ou não, no campo artístico que escolher, para criar seu estilo, a personalização de sua arte e procurar evoluir no seu processo criativo.&lt;br /&gt;Este, também, é um modo de democratizar a arte!&lt;br /&gt;No lado oposto, há a massificação, termo hoje pejorativo, por suas conseqüências, que engloba diversos níveis culturais e educacionais, especificamente, independente da classe social a que pertença o indivíduo massificado. Este indivíduo, induzido pelo marketing, torna-se incapaz de proceder a uma análise mais profunda sobre certos fazeres artísticos, como, por exemplo, no campo da música e dos programas de televisão. Faz parte do rebanho tocado por modismos, muito comum nas artes, no mundo inteiro.&lt;br /&gt;Para esses movimentos de modismo, tem que haver a liberdade de expressão e de adesão, mas que se tenha a consciência, que se tenha presente, a eventualidade de sua duração ou a inconsistência teórico-pratica de sua existência. É, na maioria das vezes, o eflúvio de um nicho economicamente viável e provisório, cercado por uma extravagância peculiar, que se estende ao comportamento, à maneira de vestir, aos adereços pessoais e a todo um conglomerado de emanações peculiares que, contraditoriamente, se exaure pela própria massificação, dando lugar a outro modismo.&lt;br /&gt;Democratizar não é massificar!&lt;br /&gt;Na democracia, o direito de acesso deve ser garantido a todos com capacidade instrucional, na presunção de que todos estejam no mesmo nível, ou seja, em igualdade de condições e o acesso só aos mais capazes, sem a égide da inclusão social a qualquer custo. Aliás, essa expressão veio no pacote de “democratização” das atividades de Estado, inventada por governos incapazes de suprir as necessidades básicas do cidadão, tornando-se uma expressão-tabu – inclusão social – intocável, mesmo que as conseqüências sejam desastrosas.&lt;br /&gt;Atribui-se aos contribuintes, ao esforço privado, as responsabilidades sociais do Estado. E, nessa enlameada distorção do público e do privado, vai a arte sendo deturpada, espoliada, “bucha de canhão” para atividades de “inclusão” e, embora a arte clássica seja considerada coisa de “elite”, é utilizada, no vale-tudo da inclusão, formando orquestra de menores pobres, ensinando balé clássico e canto lírico, sem nenhum respaldo socioeconômico que garanta um ensino adequado com uma profissão futura. Há os que escapam, um ou outro e isso é visto como vitória, diante da inércia do Estado.&lt;br /&gt;A massificação generaliza, impõe uma falsa igualdade e faz do artista uma estrela, nos mesmos moldes tradicionais dos artistas de outrora. Muitas vezes, torna celebridade quem pontifica na televisão fazendo bobagem, simplesmente a guisa de aparecer para um grande público, dando a ilusória impressão de uma ascensão social.&lt;br /&gt;A massificação é produto do consumismo exacerbado e a arte não se presta a esse tipo de prática.&lt;br /&gt;Isso não é democracia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FILOSOFIA DA ARTE: A Pintura e o Método do Materialismo Dialético, é uma tentativa de aplicação desse Método, a partir das contradições internas conceituais e de explanação do Conteúdo.Uma espécie de leitura do avesso de práticas pictóricas&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3552059319010853667-2902630933909094693?l=livrossaraiva23.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/feeds/2902630933909094693/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/02/contracapa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/2902630933909094693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3552059319010853667/posts/default/2902630933909094693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrossaraiva23.blogspot.com/2009/02/contracapa.html' title='LIVRO FILOSOFIA DA ARTE (I)'/><author><name>SARAIVA 23</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
