sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

FILOSOFIA

SARAIVA 23

















FIAPOS DE ARTE
(Temas sobre Filosofia da Arte)















2 0 0 9





















A meus pais, pela integridade
cultural que me proporcionaram.


Às reviravoltas da vida que
independem de você.


















A meus pais, pela integridade
cultural que me proporcionaram.


Às reviravoltas da vida que
independem de você.







































































Aos olhos que não conheço,
que não sei se ainda me pertencem
e de que cor são.
O AUTOR







S U M Á R I O

1- APRESENTAÇÃO ...............................................................................
2 - O SENSO DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA.......................................
3 – GRAFITAGEM E PICHAÇÃO...........................................................
4 – A GRAFITAGEM NA MISTURA DE ESTILOS...............................
5 – ALEGORIAS DO AMOR NA PINTURA...........................................
6 – SÉRIES PICTÓRICAS......................................................................... 7 – ARTE, CIÊNCIA E TECNOLOGIA....................................................
8 - UMA EXPOSIÇÃO E UM MUSEU TEÁTICO..................................
9 - ARTE: UM MUNDO FECHADO........................................................
10 – UM OUTRODUCHAMP.................................................................... 11 - O CONCEITUAL NA ARTE COMTEMPORÂNEA (I)....................
12 - O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (II)...................
13 - O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPURÂNEA (III)..................
14 - O ENGODO DA FOTO, O CINEMA E A PINTURA........................
15 - O ESTILO NA PINTURA E NAS ARTES.........................................
16 - A MESCLAGEM DA TEMÁTICA ABSTRATA COM FORMA FI-
GURATIVA.........................................................................................
17 - EMPREENDEDORISMO E MARKETING NA ARTE.....................
18 - CINEMA DE ARTE............................................................................ 19 - O CURTA-METRAGEM NO CONTEXTO DA ARTE....................
20 - LITERATURA PARA E-BOOKS.....................................................
21 - O CONTO E O CURTA-METRAGEM.............................................
22 - AS PALAVRAS NA ARTE...............................................................
23 - O PURISMO DA LÍNGUA NA ARTE.............................................
24 - ARTE E CRIME................................................................................
25 - O PONTO CEGO E A ARTE............................................................
26 - OBESIDADE NA ARTE...................................................................
27 - A VIRTUALIDADE..........................................................................
28 - O NOVO............................................................................................
29 - O QUE SERÁ DE MINHA PINTURA?...........................................
30 - A ARTE DESPROTEGIDA..............................................................
31 - POLLOCK: UMA EFICIENTE BRUPTURA ABSTRATA............
32 - PINTURA: MÃE DAS ARTES?......................................................
33 - SERÁ ARTE? O QUE SERÁ?.........................................................











APRESENTAÇÃO



A carência de trabalhos que enfoquem a Arte Contemporânea como a arte do final dos anos 90 em diante é extrema, havendo sempre uma confusão quanto aos períodos históricos em que se dão os últimos movimentos da arte, principalmente da pintura. Há autores que até confundem obras do período modernista e pós-modernista com arte contemporânea, como se encontram estampadas na maioria dos atuais compêndios sobre arte.
A finalidade deste trabalho, como consta, também, do nosso primeiro livro “Filosofia da Arte:A Pintura e o Método do Materialismo Dialético”, é trazer temas complexos sobre arte de uma forma simples, acessível na linguagem, para que entendidos e leigos possam debater ou interessar-se por um conteúdo artístico. Com o enfoque sempre na pintura, são tratados, porém, outras questões relativas às artes, de um modo geral, assim como o entrosamento teórico sobre elas, sempre em busca do pulsar criativo que as faz existir.
A preocupação maior na exposição dos temas é com a arte contemporânea, a forma como se apresenta e a concepção volátil de seu conceito ao longo da história. O que hoje é arte contemporânea amanhã levará um rótulo referente à sua época e passará a surgir nova arte contemporânea.
Muitos estudiosos da arte não conseguem visualizar essa forma evolutiva do caminhar no mundo artístico, principalmente no que diz respeito à produção contida nos anos 50, 60, até 80 ou 90. Fazem uma enorme confusão do pós modernismo com arte contemporânea, de vez que usam um critério temporal dessa arte.
Essas e outras questões estão em pauta neste livro, buscando suscitar discussões. O método encontrado para isso foi não procurar esgotar os temas levantados, mas apenas fazer sugestões, como deve fazer a literatura para e-books, com textos breves, degustáveis, sem referencial no pensamento de outros autores.
Deixa-se para o possível leitor de tela a criatividade e a iniciativa de buscar outras fontes de pesquisa e estudo, levando em conta as assertivas aqui emitidas, como fonte primeira de um trabalho de fôlego. É mais um livro na internet, se não esclarecedor, mas que sustenta sua validade pelo que possa inquietar e remexer em conceitos tradicionais e sedimentados em Escolas de Arte, contribuindo com outra visão do fenômeno artístico.
Em fevereiro, 2009
Saraiva 23



O SENSO DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA



Em qualquer forma de expressão artística sempre está presente a questão relativa à hora de parar e dar por concluído o trabalho. Para isso é preciso ter o senso de composição da obra, na arte em geral, antes esboçada ou mesmo criada ao longo do processo de execução, para se ter a noção exata de acrescentar, excluir excessos ou deixar de colocar a quantidade correta de tintas e formas, notas musicais, passos coreográficos, etc.
No caso específico da pintura, em especial na abstrata, aquilo que se chama de dom ou talento reside nesse fato de saber a hora de para ou continuar um trabalho, tanto nos traços, como na hora da colocação da tinta, tendo sempre como pressuposto o todo, ou seja, a composição da obra. Essa composição não é aleatória ou casual, mas obedece a padrões de formação de um sentido de unidade, sem que, para isso, haja uma fórmula pré-determinada.
Daí, dizer-se que a arte não pode ser ensinada, mas apenas a técnica e os métodos das artes, embora estas sejam condições importantes para a elaboração de uma trabalho artístico ou para a apreciação de obras dessa natureza. Jamais alguém pode construir um conteúdo a ser passado a outrem, estabelecendo regras ou sugestões da hora de para o trabalho, dando-o como concluído. Isso é tarefa do artista e só dele.
A composição da obra artística é, inclusive, muitas vezes, o aspecto definidor do estilo do artista, ou seja, o seu diferencial, sua marca. A obra de Jackson Pollock, na sua action painting, foi rotulada, no início, pelos críticos como lama de tinta, mas depois sendo entendida e aceita como o ponto alto do expressionismo abstrato, no início dos anos 50.
Esse ponto sensível da produção artística, estabelecer a composição, configurar a própria definição da obra, varia de artista para artista, o que faz com que se fixe o seu estilo, a sua característica. Para o autor, há a sensação exata de falta ou excesso, ao produzir o trabalho, mas isso é adquirido ao longo de anos de uma labuta diuturna e séria, imbuída de compromisso com a própria arte.
Muitas vezes, o artista abandona seu esboço inicial ou modifica-o e chega até a desistir da proposta, em nome do resultado, se este não alcança o senso de composição. E é o senso de composição, portanto, que dá sentido à objetividade da obra e integra, com destaque, o processo de criação.
Não apenas o excesso de tinta, a distorção no contraste de cores e formas compõem o conteúdo desse senso, mas algo que vem de dentro do artista e vai fluindo para o seu trabalho, gerando a composição.
Outra questão importante que está dentro do senso de composição é a intencionalidade do ato criativo. Alegam os detratores da arte contemporânea – como aconteceu desde o impressionismo e passando pela arte moderna e pós-moderna – que qualquer outro animal, não só os homens, pode praticar atos relativos à criação pictórica. Vários animais são citados, como macacos, cavalos, elefantes, cachorros, etc. como operadores dessa tarefa, se colocados diante de uma tela, junto com pincéis e tintas, sendo capazes de produzir trabalhos abstratos iguais aos quadros dos humanos.
Observa-se que, nesses casos de pintura abstrata, não há a intencionalidade da composição e muito menos o sentido de cópia, para os quadros figurativos, clássicos ou não, de vez que falta o senso de composição. O mesmo acontece com crianças muito pequenas, até seus cinco anos que, podendo ter um talento latente, ainda não são capazes de expressar a vontade do senso de composição, pela ausência de um raciocínio mais apurado.
É importante ressaltar, também, que os problemas relativos ao enquadramento do que vai ser pintado, hoje, já não obedece a critérios rígidos, como no passado, podendo ser criados fragmentos, pedaços de um todo que não aparecem na tela, tanto no figurativismo, quanto no abstracionismo. Prevalece a tese do senso de composição, recaindo sobre este toda a carga criativa.

do desse senso, mas algo que vem de dentro do artista e vai fluindo para o seu trabalho, gerando a composiç


























GRAFITAGEM E PICHAÇÃO



Na pintura contemporânea, tanto a grafitagem quanto a pichação, vêm se tornando uma via de acesso ao reconhecimento de trabalhos e de pessoas, como objetos de arte produzidos por artistas, mesmo no meio acadêmico, com restrições, e fora dele, na comercialização dos trabalhos em galerias e por outros meios particulares. A lei brasileira ainda criminaliza, de forma indiscriminada, essas duas maneiras de atuar na arte, quando a ação se dá nas ruas, em muros e prédios, sem autorização do proprietário, vandalizando o patrimônio público ou privado.
A questão essencial não está na criminalização ou não desses atos, mas no discernimento sobre a representação do ato de pichar ou grafitar, podendo ou não tornar-se um objeto de arte. A distinção entre a grafitagem e a pichação e os tipos desta, já se acha esclarecida para os entendidos, embora, a grosso modo, não seja do conhecimento da maioria das pessoas, fato que influencia tanto no julgamento da criminalização, quanto na visualização de novos horizontes para a arte contemporânea e seus desdobramentos subseqüentes.
Em função disso, necessário se faz insistir na distinção, em primeiro lugar, da grafitagem e da pichação. A grafitagem tende ao figurativo e é sempre um produto artístico com melhor acabamento, usando-se as técnicas tradicionais do desenho e da pintura, apesar de existir grafitagem enquadrada em outros movimentos artísticos, como, por exemplo, o surrealismo e até o abstracionismo.
A pichação que tem o caráter aparente de vandalismo, mas, se realizada sob a forma de composição artística, usando ou não as tradicionais técnicas de pintura, passa a ser arte. Mas aquela em que o pichador, sem idéias, passa apenas para o âmbito de um lambuzador gráfico, sem o sentido da composição, torna-se um vândalo de suportes virgens, sem nenhum significado atrelado à arte.
A composição, tanto na pichação, como na arte em geral, é aquela que encerra um sentido de expressão no todo compondo uma obra, criando uma unidade, interligando formas expressas e demonstrando um sentido, mesmo que não figurativo.

Assim, a pichação com composição passa a ser entendida como a feição abstrata da pintura de rua e se iguala à grafitagem, sendo esta, em geral, mais figurativa. Para melhor esclarecimento, basta olhar com alguns colecionadores e nos ateliês de alguns artista mais jovens, tanto em espírito, como na idade cronológica, para que se encontre uma forma diferente de pintar, com riscos de aparência aletória, mas que formam uma composição: arte.
Estas pinturas-pichação não tem ainda, como o grafite, o reconhecimento do “status quo” artístico e não invadem galerias e assemelhados, com plena aceitação, sendo relegadas, junto com a pichação sem composição, aos desvãos trashs da pura contravenção penal. Há arte na pichação, desde que haja composição, o sentido último da expressão artista pictórica.












































A GRAFITAGEM NA MISTURA DE ESTILOS

Com a atual mistura de estilos na decoração de interiores, sem a permissividade agressiva dos anos 90, onde se “atulhavam”, no mesmo ambiente, móveis, quadros e objetos decorativos de personalidades ambientais díspares, o grafite das galerias vem se impondo na composição de ambientes. Não mais aquela grafitagem com tendências ao vandalismo, na impunidade de traços e frases, mas um estilo mais refinado, proveniente da intermediação de galeristas, que procedem a uma seleção previa.
Há nesses novos quadros uma tendência do retorno ao figurativismo, ora explicito, ora cravejado com os eflúvios do abstracionismo e, principalmente, uma predominância do modelo das histórias em quadrinho, tanto as puramente infantis, como aos mangás, contundentes e extravagantes, confundindo-se com uma espécie de arte gráfica. A anterior prevalência da pintura abstrata estava dando lugar a um abstracionismo sem critério, pintado sem uma temática definida, simples garranchos ou borrões, sem atender ao mínimo de uma metodologia pré-estabelecida.
Qualquer pessoa, que estivesse na frente de uma tela em branco e se achasse pintor artístico, colocava, no suporte, rabiscos ou aleatórias manchas de tinta, sem atentar para pressupostos técnicos, como contraste, sombras ou luzes e a composição, fazendo com que pessoas sem talento chegassem ao limiar de artista plástico ou pintor artístico. Essa confusão foi gerando um desconforto no mundo da arte pictórica, criando modismos sem substância na decoração de interiores, fazendo com que esses quadros fossem, mais tarde, trocados por outros mais consentâneos com o que se conhece por arte da pintura.
Entraram, então, os quadros de grafiteiros, principalmente a partir dos anos 2000 e foram ganhando credibilidade no mercado, acomodando-se ao gosto de um público novo e evoluindo para as salas de visita dos endinheirados. Com isso, foi se formando uma outra mistura de estilo, não mais a tresloucada mélange do rústico com o antiquado, de séculos anteriores, mas uma mistura de estilos de aparência mais conservadora e sóbria.
Certos objetos, imitando os do século XIX ou início do XX, aqueles leves, retorcidos, estilo Luís XIV/XV ou os pesadões de madeira maciça, já convivem, com conforto artístico, com telas de grafiteiros de estilo contemporâneo, coadjuvados por objetos decorativos de leveza, como o aço escovado ou a porcelana fina em pequenas esculturas abstratas. Sabe-se que quem determina o estilo do ambiente é o que está nas paredes, ao contrário do que muitos pensam, acreditando serem as últimas coisas a colocar ou a escolher, quando, na realidade, é o inverso. Constata-se isso pelo modo de olhar, de imediato, de quem entra em um ambiente, fazendo uma panorâmica com os olhos, primeiro no que está ao nível destes, as paredes, baixando-os depois para os móveis e os objetos colocados embaixo, vindo, posteriormente, o piso, para poder caminhar sem esbarrar nas coisas. Essa ordem de observação advém da necessidade de localização da pessoa no ambiente, antes de dar qualquer passo em frente, fazendo com que os quadros sejam os primeiros a serem observados.
Misturar estilos é uma arte, assim como compor ambientes, não obedecendo apenas ao “bom gosto”, mas, acima de tudo, a uma técnica, a qual se aprende, hoje, em cursos superiores específicos.
















ALEGORIAS DO AMOR NA PINTURA

O tema amor sempre esteve presente nas artes e, no caso da pintura, manifestou-se através de alegorias ou símbolos concernentes a cada época da história da humanidade. As metáforas do amor, que são conhecidas até hoje, como o coração, a flecha de cupido ou as chamas, representando amores ardentes, são apresentadas por pintores famosos em uma exposição que ocorreu em Kiel, no extremo norte da Alemanha.
Entre os artistas mais famosos que foram expostos no Museu de Arte de Kunsthalle Kiel estão Gustav Klimt, Albrecht Dürer e Edvard Munch, tendo como obra mais antiga “O Triunfo do Amor”, de Anne Polignac, que data do ano de 1500. Segundo os organizadores, uma das grandes inspirações para os artistas de todas as épocas foram os poemas do italiano Francesco Petrarca, do século XIV.
Conforme pensam alguns, essas alegorias do amor não foram uma invenção da publicidade moderna, mas remontam ao início da cultura ocidental, a partir, basicamente, do Renascimento. Os artistas mais modernos mostram a comercialização do amor, que já foi exibido como uma emoção divina e perfeita, durante vários séculos.
A Exposição que se chamou “True Romance” ou o Romance Verdadeiro, em uma tradução livre, tem grande importância conceitual e histórica, pois mostra como os artistas de várias épocas visualizavam o amor, usando os hoje famosos clichês, em suas obras. Essa importância conceitual e histórica foi um dos motivos de relembrá-la aqui, de vez que essa mostra terminou dia 9 de setembro, de 2008, acrescentando-se que, infelizmente, não foi exposta em outras partes do planeta, privando os interessados em arte de conhecer essa forma visual de ver e sentir o amor.
A arte pictórica e suas mais diversas manifestações de visualização gráfica do amor têm uma importância crucial para a teoria da arte, por se tratar de uma temática abstrata demonstrada, em grande parte, de forma figurativa, mesclando dois estilos, de forma criativa e suntuosa e fazendo mais uma “leitura” da história da arte. Essa mistura do abstrato temático com o figurativismo gráfico vem ganhando força, atualmente, em obras recentes, não apenas em retrospectivas como a de Kiel, mas assumindo ares de um trabalho consistente com o traslado da grafitagem para as galerias, movimento que vem ganhando força, como em telas de Titi Freak, nas suas exposições em New York.
Na busca de rumos para a arte deste III Milênio, esse é um caminho bem interessante, considerando que a arte abstrata sempre recebeu nomes figurativos, com raríssimas exceções contrárias, referindo-se a temas da realidade concreta. Vem agora a contrapartida da arte figurativa com temas e nomes abstratos, que no passo ocorreu de forma pálida, com uma revitalização bem expressiva, de vez que mistura o abstrato com o figurativo na mesma obra de arte, dissolvendo essa dicotomia que no Brasil se deu com o modernismo.




















SÉRIES PICTÓRICAS

Na opinião de diversos filósofos da arte e de alguns entendidos, como críticos e pessoas envolvidas na promoção e divulgação da arte, o artesanato não é considerado objeto de arte. Os critérios usados para essa afirmação estão na constatação de que, no artesanato, há repetição do objeto, sempre com as mesmas características fundamentais; são produzidos, com pequenas modificações não essenciais, em série; e tem definida uma utilidade prática no cotidiano das pessoas, que está longe de ser a utilidade de um objeto de arte.
Há certa dúvida se seriam as séries de quadros sobre o mesmo tema uma forma de artesanato, considerando que algumas características se enquadram nos critérios para definir o artesanato. Pode-se notar que não há termos de comparação, observando os artistas plásticos, os pintores artísticos, que, ao longo do tempo, fizeram séries, como Monet e seus nenúfares, Picasso e suas séries azul e rosa e muitos outros que produziram séries.
Existe, nas séries de quadros com repetição temática, uma variação de ângulos e possibilidades com uma outra leitura e esses quadros não se repetem em seus múltiplos, como no artesanato. Parece ser uma linha tênue que separa a forma de se apresentar a arte, da simples imitação de arte, que repete apenas fórmulas práticas de reproduzir objetos de utilidade doméstica, mas essa distinção é bem clara.
Não é todo tema que se presta à produção de quadros temáticos em série, de vez que, dependendo do tema, pode cair na reprodução de regionalismos populares, descambando para o artesanato. Esse tipo de cuidado é importante na produção artística, pois traduz um diferencial valorativo no mercado das artes, tornando-se aconselhável que essas séries sejam elaboradas, quando os artistas já tenham um nome destacado no mundo das artes.
Para os iniciantes, recomenda-se a busca de um estilo próprio ou de alguns pontos que identifiquem seu trabalho, cabendo, até, uma variação de temas e que se possa dizer que certa pintura é de autor definido, mesmo sem que seja preciso colocar o seu nome no quadro. Esse ponto ou pontos identificadores são da maior relevância na criação de uma individualidade do artista, mas têm que trazer uma variação, como nos quadros de Volpi que sempre pintava bandeirinhas, formando composições nos quadros, cada uma com uma disposição e um formato diferente.
No caso de Jackson Pollock, com sua action painting, depois de 1946, diferente de todos os outros pintores de sua época, ocorre que, hoje, identifique-se uma pintura sua, sem nenhuma dificuldade, pela originalidade e superação do que, até então, fazia-se em arte pictórica. Parecia série, mas não eram e é um bom exemplo a ser seguido.
Não é série, porque se trata apenas da mesma técnica, mas o que é representado é diferente, não se tornando composições em seqüência, mas ampliando, cada vez mais, a gama de plasticidade visual, sem que se esgotasse a fonte criativa do que se expunham nas telas. A série para o pintor artístico é uma proposta perigosa, podendo cair no âmbito do artesanato ou esgotando-se, na impossibilidade de criação.



















ARTE, CIÊNCIA E TECNOLOGIA

O binômio Arte e Tecnologia vem aparecendo, nos últimos tempos, com uma enorme força de criação, devastando conceitos tradicionais e provendo a humanidade com novos modelos artísticos. Da pintura digital ao laser como grafite, passando pelas sofisticadas elaborações em vídeo, a arte vem se modificando e, como em todo processo de mudança, sujeita a exageros e espantos.
Essa renovação constante da arte pela tecnologia acontece todo ano, como no maior festival de arte e tecnologia da América Latina, o File 2008 – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, constando de instalações, jogos, performances, palestras e vídeos, com cerca de 300 artistas, de mais de 30 nacionalidades, sendo composto de grupos, coletivos e trabalhos individuais. A afluência do público é grande e demonstra o interesse de milhares de pessoas por avanços tecnológicos, que vão influir, mais tarde, na vida das pessoas.
É uma oportunidade para o grande público freqüentar uma enorme gama de inovações tecnológicas, de forma gratuita e mostrando uma variedade de opções de consumo fácil e atrativo, na medida em que se trata de uma mostra que não exige do público um repertório muito sofisticado, ao contrário das exposições tradicionais.
Passa a ser uma espécie de vale tudo, nesse tatear inicial de toda nova forma de arte, onde cabem todas as tendências, na busca de um caminho seguro para encontrar a essência do senso artístico. A verdade, no caso brasileiro, é que o domínio da nova tecnologia é para um grupo bem restrito de artistas, que se aventura nesse mundo digital e virtual, mesmo com falta de acesso aos meios eletrônicos e de formação adequada para nossos criadores.
Trata-se de uma tentativa a mais de inserção da arte no mundo tecnológico, que, de forma irreversível, veio para ficar e se acha enfronhado em todas as atividades humanas. A grande questão é se o modo tradicional de fazer arte continuará ou não a ser produzido: o pincel, a palheta, a tela e o cavalete, a pedra bruta ou a tora de madeira , o cinzel, a espátula e a argila, ainda, vingarão frutos, para a grandeza de nossas sensações. Essa convivência do tradicional com o inovador permanecerá, ainda, por muito tempo, até mesmo entrecruzando-se, para satisfação tanto dos aficionados da arte, quanto aos da tecnologia.
É importante notar que a ciência está presente nesse processo, sob a forma de tecnologia. A posição da ciência e de seu ramo tecnológico e o caráter na inovação merecem um estudo mais acurado, para que não se caia na armadilha do senso comum, verdadeiras crendices, que acredita que a ciência é apolítica, neutra e as inovações tecnológicas são sinônimo de progresso. Esse entendimento afasta o conhecimento das necessidades sociais e o glorifica, com um endeusamento sem base teórica.
Dois conceitos fundamentais estão imbuídos nessa idéia do senso comum, que são a neutralidade científica e o determinismo tecnológico, representando um obstáculo para a ciência democrática, capaz de melhorar a sociedade. Idéias como essa são absorvidas em países desenvolvidos ou não, que não buscam a origem e os significados da tecnociência.
Há, neste caso, o envolvimento questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo está virando uma área política. Seria interessante um estudo específico sobre o assunto, tomando como ponto de partida essas três vertentes do conhecimento. Essa questão da política na arte, na ciência e na tecnologia está centrada no que se chama de Código Ético.
Essa concepção se traduz, na prática, em que um eletrodoméstico qualquer, um automóvel, etc. encerra em si todo um contexto de sua concepção e está ligado a determinadas estratégias. Essas estratégias representam interesses corporativos ligados ao consumismo tecnológico. Cada projeto de um novo produto já traz embutido o seu fim, quando sairá de linha, sendo o que se chama de obsolescência programada. Para que a pessoa consuma mais é preciso incutir a idéia de que a aquisição de novos produtos tecnológicos devem ser entendidas como progresso: o consumidor deve acreditar que está progredindo e tendo um aparelho melhor, de última tecnologia, embora o aparelho antigo possa ter mais qualidade técnica ou uma arte progressista melhor.
O trinômio: arte, ciência e tecnologia não fica adstrito a uma simples interação entre essas partes, mas pertence a um contexto mais amplo, atrelado ao que se deseja para nossa sociedade. Mas não se pode ficar adstrito ao determinismo tecnológico, ou seja, à crença de que o produto que acaba de ser lançado é, eventualmente, melhor, mais eficiente e desejável do que o anterior e à idéia de progresso embutida nos meios tecnológicos. Nessas condições, não cabe à arte apenas utilizar novos meios tecnológicos, sem criar esses meios de forma intrínseca, como arte, com suporte teórico e base concreta de objeto artístico.



UMA EXPOSIÇÃO E UM MUSEU TEMÁTICO

Na Suíça, acaba de ser inaugurada uma Exposição que mostra a evolução da imagem feminina na arte, na cidade de St, Gallen, que se inicia desde o século XVII, quando a visão e as fantasias dos pintores homens dominaram a maneira como as mulheres eram retratadas nas artes plásticas. Isso só mudou, quando as próprias mulheres começaram a pintar retratos de seu cotidiano, séculos depois.
Os clichês estão presentes nessas obras mais antigas, retratando as mulheres como santas, musas ou sedutoras, abordagem que só se modificou com a antecipação feminina e o próprio feminismo, aparecendo como temas a mulher independente e atuante na sociedade, a partir da arte moderna, pós-moderna e contemporânea. A Exposição documenta a emancipação artística das mulheres, quando mostra suas obras mais atuais, embora, desde o final do século XIX e os primeiros trinta anos do século XX, já anunciem uma nova maneira de retratar a mulher pela própria mulher.
Na arte contemporânea, encontram-se em exposição obras feita por mulheres, como instalações de vídeos, performances e até uma ambulância com bancos e interior de pelúcia. Entre elas, destaca-se a obra da artista plástica Manon, com trabalhos desconcertantes, como uma série de cabeças de mulheres vivas, raspadas ou um vídeo que a mostra em uma jaula.
Essa Exposição chama-se Ladies Only, Somente Mulheres, em tradução livre e tem o quadro mais antigo datado de 1679, do pintor holandês Michiel van Musscher, mas entre os artistas expostos mais conhecidos, estão Pablo Picasso, Max Liebermann e Sylvie Feury. Essa é uma prova, hoje incontestável, da capacidade da mulher em todos os campos de atividade, enquanto se pode observar a maneira como eram olhadas a partir dos séculos, formando um conjunto amplo de apreciação, também, da mulher através dos tempos.
Por outro lado, em Berlim, capital da Alemanha, é inaugurado um novo museu dedicado ao Surrealismo, chamado de Coleção Scharf-Gerstenberg, mostrando mais de 250 obras de mestres do surrealismo e artistas que influenciaram um dos movimentos artísticos mais singulares de século passado. O Museu foi reformado e ampliado, pois até 2005 abrigava o Museu Egípcio, a um custo de 10 milhões de euros e seu acervo é baseado em uma coleção privada, cedida à capital alemã em regime de empréstimo permanente.
O programa de inauguração inclui uma série de filmes, como o clássico “O Cão Andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dali, assim como películas contemporâneas de cunho surrealista. O surrealismo foi um movimento das artes, fundado pelo intelectual francês André Breton, em 1924, com seu Manifesto Surrealista, um estilo, privilegiando temas abstratos, fantásticos ou ligados aos abismos do inconsciente.




















ARTE: UM MUNDO FECHADO

Todas as tentativas para desmistificar a aura que envolve a arte e os artistas têm sido em vão, mesmo que movimentos mais recentes como o pop art, as instalações, os ateliês abertos a visitantes, os vídeo arte, etc., que buscam a popularização da arte, tenham feito esforços de se aproximar do grande público. Por outro lado, os arte educadores têm seguido dois caminhos distintos para sensibilizar os jovens, ou tornando-os espectadores com mais acuidade para as nuances da arte, ou, ao mesmo tempo, procurando fazer com que esses estudantes se exercitem em algo de cunho artístico.
Essas formas de fazer a compreensão do fenômeno artístico não atende à necessidade de todos os educandos, seja numa mesma escola ou mesmo em uma classe, seja em várias escolas do ensino público ou privado, pelo desnível social entre os alunos, que afeta o entendimento do cerne da arte. O que se consegue que seja captado pelo alunado é apenas uma visão ampla, conhecendo obras dos grandes artistas, com comentários ou não dos professores, sem que se possa chegar ao âmago da criação, do real significado da arte e da sua utilidade, principalmente, no mundo de hoje.
O homem, neste nosso mundo, se impõe uma rotina estressante, sem hora para nada, sem pensar no trabalho que fazem, quando deveriam ocupar esses espaços de tempo, com trabalho criativo não devendo mais ser utilizá-lo como trabalho braçal, repetitivo, mesmo em uma atividade intelectual. Ao contrário disso, criam-se, mais e mais, tarefas burocráticas, emperramento do sistema de trabalho, dando a impressão de que quanto mais atarefado está o homem, mais ele trabalha e produz, enriquece e se realiza e nem sempre isso é verdade.
Esse homem modernoso gera o embrutecimento da vida, sendo a escola responsável por isso, ao direcionar seu ensino para profissões específicas, não tendo o ser humano a oportunidade de entrar em contato com a cultura de um modo geral, com a informação, produzindo uma péssima comunicação. Isso impede seu entendimento para o cerne da arte, indispensável na vida de todos nós, e nesse cerne está a teoria da arte, que a explica, informa e subsidia, pois, sem isso, fica-se na apreciação da arte, de forma fútil e trivial, chegando-se a dizer que a pessoa não compra arte abstrata, ela mesma faz.
Daí, como diz Domenico de Masi, como se vive em um regime capitalista pobre, tem-se que ter uma cultura para cada classe social e, logicamente, uma arte para cada camada da sociedade, de vez que aqui se tem a classe dos ricos, a média e a dos pobres e miseráveis, enquanto, nos países do primeiro mundo, apenas a dos ricos e a média, com um pequeno grupo de pobres, jamais miseráveis. Isso tem repercussões sérias nessa substância material e imaterial da cultura, que é a arte.
Nessa ótica, a arte que se aproxima do povo, como, por exemplo, a grafitagem de rua, que em teoria seria para o povão, tem seu desejo intrínseco de ir para as galerias de arte, o que está acontecendo, aos poucos, transformando seus artistas anônimos em famosos, nesse desejo perene, de país subdesenvolvido, de subir, rapidamente, na escala social. Com isso, a arte dividida e valorizada por classes sociais, esse mundo artístico vai ficando cada vez mais fechado, não só como vedação ao acesso do artista, mas, de modo geral, como parte de nossa vida a ser compreendida.
Fica, então, o mundo da arte entregue aos especialistas, aos artistas, aos críticos e, sobretudo, ao mercado. Quem vai entender de arte, em vez de todos, será apenas uma pequena parcela da sociedade, que poderá compreender o fenômeno diferencial do abstracionismo, as distinções de pinceladas cores e suportes, assim como a ocupação do espaço feita pelas instalações.
No mais, é pura arte figurativa repetitiva, mimese, sendo ensinada aos pobres garotos nas escolas, ainda fazendo com que eles façam “releituras” grotescas, “coveres” ridículos de cantores e dançarinos, na ingênua intenção de que estão ensinando e colocando-os para fazer arte. Cada pessoa tem o seu limite de compreensão das coisas e, obedecendo a isso, é que deveria ser propagado o conhecimento artístico.








UM OUTRO DUCHAMP

A História da Arte contempla Marcel Duchamp (1887-1968) agregado a uma genialidade que, mesmo na sua época, pode e deve ser questionada. Não é só o direito ao exercício mental do questionamento que está em jogo, mas o fato de ele ter passado por vários movimentos artísticos e, em todos eles, ter participado, na maior parte das vezes, de forma esdrúxula, l´enfant terrible, como muitos, porém mais como o “garoto travesso” que faz peraltices e os pais (o público especializado) aplaudem.
Há muito de invencionice e não invenção na obra de Duchamp, que corre pelas beiradas do non sense, atribuindo-se genialidade, onde há muito mais esquisitice ou falcatrua de propósitos e quem lida com arte está habituado a coisas estranhas e estapafúrdias, mas não desse quilate e tão endeusadas. Quase toda a obra desse artista vem acompanhada de certo respaldo teórico, dado por ele, naquilo que acreditava ser teórico, com suporte suficiente para iniciar um novo movimento no mundo da arte.
Alguns acham que ele revolucionou a História da Arte, ao negar o papel puramente visual de uma obra de arte e lançou princípios da arte conceitual, da pop, da minimalista, da cinética e das instalações. Isso em plenos anos 60, 70, pouquinho antes da forte linguagem visual que a nova tecnologia, a partir dos anos 80, trouxe consigo, de forma avassaladora já nos anos 90 e que negou, com atos e fatos, essa estranha posição teórica, a da desvalorização do visual.
Onde está a genialidade disso? Talvez, em um tremendo engano de visão futura, que, quem sabe, possa ser atribuída à idade avançada em que se encontrava nessa época. A arte, principalmente, as chamadas Belas Artes, na sua essência, é, visceralmente visual e em qualquer outro campo artístico ela se apresenta bastante visual. Muito mais, ainda, com a avançada tecnologia do nosso tempo, onde, desde a pintura digital à coreografia da dança, faz-se através da informática, passando pela música, pelo canto, pela composição, pelo cinema, pelo vídeo, etc.
Na verdade a arte, apesar de Duchamp, nunca deixou de ser visual, ainda mais neste início de milênio, mesmo com a arte conceitual e, necessariamente, com a nova arte conceitual. A Arte Conceitual da época dele era a expressão de um conceito alternativo, como nos ready-made ou com outra formas, aliás um modo de conceituar mal construído, pela visão teórica, de difícil compreensão, que, hoje, chamam de enigma de Duchamp, exatamente o que ele não queria.
Ao contrário, portanto, do que ele propunha que era uma arte próxima ao público, desmistificada, de fácil aceitação pelo povo em geral, sua arte era e é fechada, precisa de explicação feita pelos críticos, de maneira literária e por ele mesmo em seus escritos. Nada a ver com a essência de uma arte Renascentista, que contava uma história e, se ele pretendeu isso, o fez do pior modo possível, contando histórias intrincadas, com um fio narrativo próximo ao inexplicável.
O endeusamento desse artista está mostrado na Exposição a ser aberta no Museu de Arte Moderna de São Paulo, como parte das comemorações dos 60 anos da instituição. São 120 trabalhos, além dos ready-made, a parte mais conhecida de sua obra e incluem o urinol e o banquinho com roda de bicicleta, além de o “Grande Vidro”, uma réplica e mais três caixas de anotações sobre esse trabalho, espalhadas pelo espaço da exposição, como, também, outras obras famosas, como a “Caixa Valise”, trabalhos em miniatura e seu último projeto “Etant Donnés”, reconstruído através de desenhos e esboços.
Todo um acervo que é odiado e amado, dependendo da ótica artística com que é observado e foi engolida pela Nova Arte Conceitual, como arte contemporânea.












O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (I)

A arte conceitual, na grande maioria das vezes, é colocada na categoria de arte contemporânea. Esta categoria de arte merece, entretanto, alguns esclarecimentos, pois é muito confundida pelos estudiosos e autores como arte pós-moderna e não é situada no momento correto e exato de sua existência.
A concepção de arte contemporânea não está ligada a uma questão de tempo, embora ela aconteça, historicamente, em determinado tempo: não é a arte que se faz agora, nestes últimos anos, mas aquela que trata de um conteúdo desses últimos anos. Com o passar dos anos, sempre há nova arte contemporânea, de vez que o conteúdo muda ao sabor da história do homem e o que se chamava por essa categoria recebe outro nome.
É o que acontece com a arte dos anos pós-II Grande Guerra até os anos 90 do século passado, a qual passou a se chamar de arte pós-moderna, sendo a arte contemporânea a dos anos 90 até nossos dias deste início de milênio. Nossa arte contemporânea tem como conteúdo o aquecimento global, a biocivilização, a escassez de alimentos, o biocombustível, a tecnologia da comunicação e da informação – TCI, a nova opressão do poder sobre certas minorias, principalmente, no caso das mulheres mulçumanas e outras minorias que surgiram.
Assim, de tempos em tempos, surge uma nova arte contemporânea, considerando que o contemporâneo muda, quando os temas que foram tratados, em um período da história do homem, são substituídos por outros, pertinentes à nova realidade histórica. Alguns confundem a arte contemporânea com o que é realizado agora, não importa o conteúdo, podendo este ser, por exemplo, a pintura clássica, o cubismo ou a instalação.
Nesse caminhar da história da humanidade, depois da arte moderna houve certa dificuldade em alojar no tempo os tipos de arte surgidos. Mas é importante que se fixem períodos, em função do conteúdo, para orientação dos estudiosos do assunto e do público em geral. A arte moderna, no Brasil, vai do ínício do século XX, com seu ápice nos anos 20/30, até meados dos anos 40.
O pós-guerra foi um grande divisor de águas, de vez que mudaram os valores e os conceitos sociais, a humanidade se descobriu diante de nova realidade, como a Televisão – emissor de imagem e som - os aparelhos eletrodomésticos, a indústria e seus artefatos sendo elétricos e depois eletrônicos e muitas outras inovações. Pode-se dizer que nesse período, principalmente em torno dos anos 50, surgiu um novo processo de industrialização e a vida das pessoas mudou completamente, bem como os costumes, mais acentuadamente, a partir dos anos 60.
A arte refletiu isso, com a ruptura pictórica de Jackson Pollock, por exemplo e o movimento do expressionismo abstrato, além de outras manifestações artísticas, como a pop art. A arte desse período, que foi contemporânea à época, depois foi considerada pós-moderna. Ela se estende até o final dos anos 80, tendo como conteúdo o experimentalismo, em todos os campos artísticos, inclusive a arte conceitual, com Duchamp sendo seu exponencial.
No artigo seguinte, será feita a comparação dessa arte conceitual com o conceitual contemporâneo, elaborado com outro conteúdo e com outro invólucro teórico.













O CONCEITUAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA (II)

A arte conceitual dos anos 60 até final dos 80 - período pós-moderno – define-se como uma tentativa de revisão da noção de obra de arte arraigada na cultura ocidental. Circulam algumas versões sobre o surgimento do conceito e da expressão Arte Conceitual. Uma delas afirma que o seu uso popular se deu em 1967, depois que a revista americana Artforun publicou um texto com o nome de “Parágrafos sobre a Arte Conceitual”.
Nesse artigo o artista minimalista Sol LeWitt organiza as reflexões já existentes na área sobre uma arte que se desenvolve somente no campo da idéias, abandonando o lado da materialidade da obra de arte. Por essa forma de expressão artística, as idéias, as reflexões e pensamentos do artista são mais importantes que o objeto de arte em si, como o caso da famosa tela pintada toda de vermelho, que não foi entendida como monocromática e sim como um suporte para as reflexões do artista sobre a violência e a angústia do mundo.
Por esse modo de entender a arte, pode-se ter uma posição sobre o que seja a arte conceitual desse período, pois mais adiante na História, o período contemporâneo vem a ter outra definição e outro cerne. Na pós-modernidade, o conceito poderia ser aquele do movimento artístico que defende a superioridade das idéias veiculadas ou não pela obra de arte, ficando os meios usados em lugar secundário.
Isto é a própria concepção da anti-arte, considerando que a arte plástica, principalmente, usa a plasticidade do objeto de arte para expressar idéias e conceitos, justamente o contrário do que pensavam nessa época. Na verdade, queriam artistas como Robert Rauschenberg, Marcel Duchamp, George Maciunas. Sol LeWitt e, mais recentemente, Yoko Ono, Lawrence Weiner e outros reagir ao formalismo da obra de arte, não criar objetos de luxo para a burguesia, voltando-se contra a rigidez do objeto, expressando idéias.
Outros artistas buscaram diferentes meios de se expressar de forma artística como o vídeo, a fotografia adulterada, as instalações, as performances. Terminaram criando um “vácuo” na arte, em especial nas artes plásticas e qualquer um se sentia artista, bastando para isso que tivesse idéias, de vez que o objeto de arte pouco interessava, vinha em segundo plano.
Essa arte conceitual não teve seu destino “consumível” pelo consenso da sociedade, em função da precariedade da maioria de suas obras e, por isso, não sendo bem visto, pelo mercado de artes. Foi uma época de busca constante por formas de se expressar, diante das idéias inovadoras provenientes das mudanças de costumes, que ficaram à frente do pop art, ainda voltado para a nova vida de produtos industrializados em si e seus ícones no mundo “pop star”, sem alcançar o cerne das idéias que motivaram isso.
Diante da retração do mercado, os marchands se voltaram para a arte produzida nos moldes anteriores, fazendo pouco da arte conceitual desse período. Agora os curadores e os galeristas se voltam para a nova arte conceitual que foi aparecer mesmo, a partir do anos 2000, ficando a década de 90 enfronhada na arte tecnológica, nos vídeos e computadores, no começo da pintura digital e, ao mesmo tempo convivendo com certa tralha da antiga arte conceitual, sendo feita já de qualquer forma.
Não se constitui, propriamente, de um período vazio, porque as outras espécies de arte como as instalações e performances, por exemplo, supriram com idéias inovadoras as artes plásticas que chegaram à beira do besteirol. Caminhando na banalidade irrisória, sem valor artístico, ou na repetição de movimentos pictóricos anteriores, quase todos baseados no figurativo, essa repetição do conteúdo de movimentos anteriores não é arte contemporânea, como já foi afirmado.
Surge, então, um conteúdo atual, que se passa a chamar de Nova Arte Conceitual, com outro enfoque e sem radicalismo, devendo ser tratada na parte III desta série.








O CONCEITUAL NA NOVA ARTE CONTEMPORÂNEA (III)

A nova arte conceitual foi surgindo, lentamente, a partir dos anos 2000, em meio ao vácuo artístico proveniente da arte conceitual anterior, dentro do que já se reconhece como Nova Arte Contemporânea, precedida pelo caos desmedido que começou nos anos 90, do século passado. Essa arte anterior, confusa e sem horizontes definidos, fez surgir o vídeo artístico, as instalações, as performances, etc. que passaram a ter vida própria dentro das artes plásticas. Apareceu, depois disso, uma nova forma de fazer arte.
Nessa nova forma de fazer arte, a idéia está embutida no objeto de arte, ao contrário da anterior, que precedia este e, muitas vezes, estava fora do objeto. A arte, como a pictórica, em um misto de figurativismo e abstracionismo ou apenas um deles, se apresenta, então, fazendo uma reflexão, geralmente, crítica, adotando a conhecida postura contestatória da arte, dentro de seu espaço libertário.
Nesse contexto, não reflete mais angustias existenciais, mas sim conceitos, em geral, mostrando contradições ou não, como as relativas ao meio ambiente, a comunicação e a informação, onde estão contidos problemas relativos a biocombustível, alimentos, aquecimento global, etc. Pode ser uma arte, também, que apenas demonstre conteúdo com situações de costumes com várias práticas sociais ligadas a um conceito, como a questão da lenta aceitação do homossexualismo, como a opressão, em termos de ser humano, das mulheres mulçumanas e vários outros assuntos, desde que não seja uma arte contemplativa, como flores, belos traços abstratos, paisagens bonitas, sem um compromisso com a conceituação de uma realidade.
Quanto ao emprego da tecnologia na arte, em especial as artes plásticas, tem-se a pintura digital, que alguns chamam de virtual, além das instalações e performances com robôs, telas com enormes quadros virtuais de jardins que se movimentam e muitas outras inovações. A temática, porém, não é necessariamente conceitual, de vez que não se visualiza uma idéia ou um princípio, muito menos uma crítica, embutida, explicitamente, na imagem.
Essa é a diferença da arte conceitual anterior, em que a idéia não precisava estar explicitada na obra, mas na cabeça do artista ou na ilação que podia vir a fazer o espectador. Na nova arte conceitual, a idéia, o princípio, a crítica estão compondo a obra de arte, há necessidade dela para que o artista venha a se expressar.
Outro ponto importante é o título da obra, trazendo sempre a conotação abstrata, demonstrando sentimentos ou situações não palpáveis, como um complemento do expressado na obra e, por mais que ela seja figurativa, sempre há o viés do racional e abstrato. Essa é outra característica dessa nova forma de fazer arte, a espécie de título, na tentativa de superar, aos poucos, o desastre e a desilusão com a arte que vinha sendo feita, primeiro naquela busca desenfreada de criar um movimento após a pop art e depois no desandar frenético da busca por uma arte palatável para o mercado.
A nova arte conceitual não busca, necessariamente, esses objetivos e, ao mesmo tempo, é satisfatória pra os artistas e para o mercado.



















O ENGODO DA FOTO, O CINEMA E A PINTURA

Fotografia é momento, ângulo, luz e translucidez, tudo efêmero, contraditoriamente, fixado para sempre. Aquele instante em que se vira o rosto e é fotografado, espontaneidade instantânea ou pose estudada, no cuidado de expor e gravar por muito tempo o melhor, sendo sempre passageiro e nem sempre consentâneo com a realidade. Por tudo isso, toda foto é falsa, ao aprisionar um só momento, quando nós e a natureza somos feitos de muitos, no mesmo instante; é essa multiplicidade que nos faz ser único, desmancha-se na duradoura ostentação de uma versão fluida de nós mesmos.
Uma foto engana a quem a aprecia, na sua versão parcial, pois, mesmo escolhida dentre muitas ou sendo só aquela tirada com base no instantâneo, não passa de uma foto, a tradução visual do apego ao momento, não importa se o cabelo comprido parecer curto, para trás, se a cor do vestido ou da calça não combinar com a multiplicidade da mistura de cores da máquina. Pouco interessa se o olhar parecer reflexivo ou ativo, no estardalhaço de uma alegria momentânea, sempre induz a uma interpretação da pessoa que pode ser errônea.
Se o corpo aparece gordo ou magro, atrativo ou desqualificado, não importa a roupa, a composição que a pessoa faz, preparando-se para ser fotografada. Tudo não passa de um instante persistente na sua loucura de ser “aquele instante”e não a pessoa real, fisicamente, que a foto revela.
E não se fala de photoshop ou qualquer outro software de tratamento da fotografia, que opera modificações magníficas, tanto para melhor ou para pior. Esse é outro departamento, aquele que trabalha a foto-matriz e a altera, ao sabor ou humor do técnico ou do fotógrafo artístico. Fala-se da foto-origem que engana os olhos, não das perfumarias de ilustrações trabalhadas pelo computador.
Essa foto-raiz, a base conceitual da fotografia e que vai se tornar crua ou alterada, a foto a ser observada é que engana, porque pára um tempo, mesmo se o objeto está em movimento. Esse parar do tempo é uma pausa diferente do retrato pintado em um quadro, que pode não ser fiel ao original parado, mas dá margem a modificações da essência da coisa retratada e, quando abstrata, tem a liberdade maior de ter a sua própria essência, na pintura com abstracionismo.
E a imagem em movimento, o cinema, engana? O cinema tem outra essência, que reside na dinâmica, na seqüência de fatos, mesmo se a câmara for fixada apenas no rosto de uma pessoa. A expressão dessa pessoa vai se alterando com o tempo, contando uma história, o que seria, aliás, um belo roteiro para um curta-metragem.
No cinema, o corpo da pessoa ou os retalhos de natureza se alteram com o passar do tempo, mesmo que sejam segundos, o que não pode acontecer na fotografia. Ela fixa aquele momento e os subseqüentes que se danem, ensejando a inverdade de sermos um momento.
Já a pintura, mesmo a elaborada de uma vez, fixa vários momentos, muitas expressões, por mais parado que fique o modelo ou a natureza transposta para uma tela. A luz se altera, a sombra, que não é artificial, modifica-se e nunca se pinta o que foi visto anteriormente. A pintura abstrata, que tem como modelo a mente do artista, é livre, não se acomoda ao pensar naquele instante, ao devaneio do agora, mas mistura lembranças, um histórico de vida com os sonhos de um futuro: é fluida, moldável e inconseqüente, como o próprio homem.















O ESTILO NA PINTURA E NAS ARTES

Ver a obra de arte e reconhecer o autor: esse é o sentido do estilo na arte, que define a marca própria do artista. A busca por esse estilo particular de fazer suas obras é o grande sonho de todo artista, em início de carreira. Encontrado esse estilo, que sempre está preso a uma determinada forma ou escolha de cores, na pintura, acaba por se tornar, ao longo do tempo, um pesadelo para o artista, ocorrendo a repetição cansativa de variações sobre o mesma tema.
Embora o estilo marque a carreira do artista, ao identificá-lo, cria nele mesmo um sentido de repetição que cansa e inibe a criação. De um lado, trabalha, muitas vezes, com a mesma temática e, de outro, com o mesmo traço, as mesmas cores predominantes, a mesma pincelada característica de seu estilo, o mesmo acontecendo nas outras artes.
Daí a necessidade de fases na carreira, onde se pinta à exaustão certo estilo e depois o abandona, em busca de nova maneira de pintar ou fazer arte. Essas fases, embora sejam como uma pausa de certa maneira de fazer arte, sempre guardam em si a definição daquilo que distancia certo artista do outros e o torna individual.
Nessa hora surge “o branco”, a grande crise existencial do bloqueio do artista para criar, que, nem sempre acontece com todos, principalmente aqueles que têm a ousadia de mudar de temática e abraçar novos métodos e técnicas de pintura, indo em busca do desconhecido. Para um artista famoso, com clientela sistemática e um mercado favorável é um passo corajoso e no escuro, pelo desconhecimento da reação dos entendidos e do espectador em geral.
Há sempre uma tendência na reação negativa a mudanças, coisa intrínseca do ser humano, sendo esse um dado de grande importância na tomada de decisão do artista ao mudar de estilo, podendo perder todo o seu prestígio. O espectador espera do artista que ele mantenha sempre um determinado estilo e, em geral, estranha ou repugna o novo.
A mistura atual do figurativo com o abstrato, principalmente, a abstração na temática, a partir do nome do quadro, vem sendo, por constituir algo novo, absorvida aos poucos no mundo das artes, com certas restrições. Parece sempre ao espectador que se trata de quadros puramente figurativos, de vez que os nomes dos quadros, mesmo os abstratos, ao longo do tempo, sempre foram explícitos, de conotação figurativa e não eram levados muito em consideração.
E, ainda hoje, isso acontece, até a existência dessa nova corrente que torna o tema abstrato, com nome abstrato, mesmo que recorra à representação figurativa. Buscar esse estilo novo, não contemplado, ainda, pela crítica especializada, requer que o artista acredite nessa forma híbrida, diferente de outras que já existiram, como o expressionismo, com seu figurativo distorcido ou o dadaísmo que alterava as cores dos objetos e seres, figurativamente, retratados.
Esse novo estilo, ainda sem nome definido, presta-se muito para vislumbrar temas atuais, como o aquecimento global, as formas novas de matriz energética, a tecnologia da comunicação e da informação, enfim, a era da biocivilização e seu capitalismo bastante selvagem. Aliás, capitalismo que assume novas formas, parecendo englobar a questão ambiental e a humanitária, com mecanismos para auferir mais lucros, no seu “estilo” característico.















A MESCLAGEM DE TEMÁTICA ABSTRATA COM FORMA FIGURATIVA
Uma nova tendência que vem surgindo nesse final da primeira década do terceiro milênio, é a mistura da pintura e escultura abstratas com o figurativismo não muito bem delineado. A temática é abstrata, ensejando nome abstrato, e contendo traços do figurativo que não se parece com fotografia de registro.
Essa tendência tem sua origem na grafitagem de rua que vai para as galerias com suporte de tela e integra exposições de sucesso, como é o caso, por exemplo, do artista plástico e grafiteiro Titi Freak. Das ruas de São Paulo à casa da Cantora Cristina Aguilera, esse descendente de japonês vem conseguindo fazer sucesso em New York, seguindo essa nova forma de fazer pintura.
Depois de um longo período, a partir dos anos 70, em que houve uma predominância da arte figurativa, em especial as chamadas Belas Artes e uma ascensão posterior do abstracionismo, não entendido e aceito por todos, voltando-se ao figurativo, foi encontrada essa fórmula nova. Nela há duas formas: a representação figurativa transfigurada em abstrato, a forma em si, como nos quadros do artista citado.
A outra forma, a da temática, que consiste em uma temática abstrata, por exemplo, em temas atuais, como “Liberdade Poluída” (quadro do pintor maranhense J.Saraiva ), sendo representado por um pequeno compartimento, com uma janelinha, onde entra um sol sujo, cheio de poeira, que se alastra pelo espaço, de forma abstrata. Tudo isso em uma combinação hibrida, na qual não há prevalência de nenhuma corrente pictórica ou escultórica. Na verdade, um meio termo plástico.
Para que aconteça essa última forma há necessidade essencial de muita sensibilidade do artista e do espectador, para que não haja uma confusão de movimento pictórico existente, como o fauvismo, ou, se é o caso, de figurativo-abstrato, onde ficam separados, nitidamente, o figurativo e o abstrato. Deve-se procurar um meio termo, tanto na forma apresentada, quanto na escolha do título da obra, que comanda a condição híbrida, obedecendo a uma temática abstrata, assim como nas cores utilizadas na composição.
Esse hibridismo acaba com o tradicional posicionamento dicotômico entre figurativo e abstrato, quando se convencionou atribuir ao figurativo uma forma menor de fazer arte, pela ausência de certa complexidade no entendimento da proposta da obra de arte. Posição injusta, mas predominante entre os entendidos, porque se apresenta sob a forma de desenho pintado, necessitando de espontaneidade na expressão da idéia que o artista quer expor.
Essa forma híbrida entre o figurativo e o abstrato ainda não tem nome definido, mas vem sendo encontrada nos quadros contemporâneos, com certa insistência e não tardará, se não for apenas mais uma moda, a encontrar seu porto seguro na História da Arte.


















EMPREENDEDORISMO E MARKETING NA ARTE

A grande moda atual nas teorias da administração, como já foi a teoria da qualidade total, é o empreendedorismo e o marketing, que, embora existindo há muito tempo, não tinham a capa teórica que recobre, hoje, esses temas. Com essa nova roupagem, a teoria do empreendedorismo, ainda, encara um fato obsoleto, o de que é possível qualquer pessoa gerir negócios, basta que aprenda passos e metas, para atingir um objetivo final, que é a gestão de uma empresa, não importa seu tamanho.
Essa posição se torna ahistórica, atemporal e, com algumas adaptações devidas, vai se acomodando, teoricamente, no tempo e apresentando fracassos e falências, principalmente, nas mini e pequenas empresas. Isso significa que as questões maiores, como mudança no câmbio monetário, as oscilações de mercado, a instabilidade econômica e financeira, como a que está ocorrendo com os Estados Unidos neste final de mandato de Bush, nada disso acreditam que interfere, diretamente, na postura do empreendedor. Ele vai tocando seu negócio assim mesmo, bastando seguir os manuais sobre o assunto.
Por seu turno, o marketing, no fundo, ainda obedece ao velho ditado de que “a propaganda é a alma do negócio” e procura estratégias, ajudada pela tecnologia crescente, para tentar inovar e tornar palatável a divulgação de produtos. Produtos, aqui, no sentido bem amplo, incluindo a arte, que, por ser vista como uma mercadoria, recebe o mesmo tratamento dos marqueteiros, sujeitando-se às mesmas regras de comunicação, como qualquer produto de uso como utilidade doméstica.
A arte sempre teve uma aura de mistério, de adoração mística, de enlevo que os novos tempos vêm tentando desmistificar com a massificação do “produto”. Certos tipos de arte como a pintura e a escultura não se tornam objetos fáceis dessa manipulação, de vez que não são artes de performance, feitas na hora pelos artistas.
Isso faz com que seja mais difícil gerir atividades empreendedoristas em ateliês, sendo voltadas essas estratégias aos galeristas e aos curadores de arte, que lidam com um grande volume de obras e procuram escoá-las pelo mercado. Fazer com que artistas e seus trabalhos apareçam, publicamente, depende de uma tarefa diuturna, colocando-os na mídia quase que no cotidiano, para que se tornem conhecidos e adquiram fama.
Como acontece na mídia, hoje, qualquer passo que dê o artista é noticiado, mesmo que vá à praia com familiares, faça compras no supermercado ou cometa algum desatino, como embebedar-se e drogar-se. Um exemplo disso é Amy Winehouse que desaba pela rua com suas crises de droga e foi Britney Spear, que agora se acomodou, mas continua sendo notícia, por estar mais calma em seus acessos de droga e vida dissoluta.
Empreender atividades artísticas é um ramo em que faltam profissionais qualificados nesse metier, de vez que as pessoas se jogam nessa atividade, atendendo apenas a seus instintos, ao bom senso e com algum conhecimento de história da arte. O mesmo acontece com a atividade desse marketing específico da arte, onde as agências de publicidade tratam por igual a arte e qualquer outro produto, sem considerar as especificidades desse fazer artístico.


















CINEMA DE ARTE

Há uma publicidade da própria TV a cabo que tem como slogan “canais de filmes existem muitos, mas de cinema, só no…..” e cita o nome do canal pago. À guisa de divulgar as qualidades dos filmes que apresenta, estabelece, de tabela, a distinção de qualquer filme para aqueles com um diferencial de qualidade que encarna a arte do cinema.
Há essa distinção entre cinema e filme, sendo que o primeiro tanto pode ser a sala de projeção de filmes – cinema com “c” minúsculo - quanto a arte em película, chamada de Cinema de Arte. Essa expressão é pleonástica, porque todo cinema é de arte, mas nem todo filme o é. O filme, hoje em dia, pode ter como suporte a própria película, feita de celulose, o sistema de gravação para TV, em CD, como, ainda, pelo celular, através de sua câmera. O filme é o produto desse tipo de criação artística ou pode não ser de arte.
O que diferencia o Cinema de Arte de um filme qualquer é a forma como é realizado, produzido, conduzido pelo réalizateur, como se chama na França o diretor de cinema ou cineasta. Muitas pessoas se interessam pelo filme, apenas em virtude do enredo da história contada, sem levar em consideração a forma como é contada, os cenários, a roupa dos personagens, chamada de figurino, a iluminação, mas, sobretudo, a maneira de contar a história em uma linguagem técnica, própria de cinema.
No Cinema de Arte, também chamados de filmes de arte, para fazer a diferença de uma simples história contada, cheia de efeitos especiais, onde há um herói, que sempre se dá bem e fica com a “mocinha”, no final, não há esse tipo de enredo apelativo. Ou não há enredo significativo algum, como em alguns filmes de curta ou longa metragem, verdadeiras obras de arte.
Há os filmes de entretenimento e os filmes de arte, estes com conteúdo que faz o espectador pensar, ao seu final, produzindo uma mensagem filosófica ou sociologica e não são feitos para um grande público. Quando se observar um filme com grande bilheteria, pode-se ter certeza que não é Cinema de Arte, mas filmes comerciais, produzidos por Hollywood, no estilo Harry Potter, exatamente, para terem grandes bilheterias e muitos lucros.
A identificação de filmes como O Cheiro de Papaya Verde, Nenhum a Menos, Os filhos do Paraíso, O Vaso e o recente filme alemão Partículas Elementares, como Cinema de Arte, está na qualidade narrativa, na sua condução e no seu conteúdo que faz uma reflexão sobre algum tema de relevância para o conhecimento e o saber. São filmes que podem parecer monótonos e sem ação, como estão habituados a ver os aficionados por jogos eletrônicos e clips da MTV. Filmes no estilo Matrix, com sua parafernália de efeitos especiais e que, apesar da boa intenção, perdem-se na tradicional diferença entre o bem e o mal, como se esses comportamentos pudessem andar separados nas pessoas.
O Cinema de Arte é sutil na sua mensagem, simples no seu enredo, mas profundo no seu conteúdo.




















O CURTA-METRAGEM NO CONTEXTO DA ARTE

Os filmes de curta-metragem tiveram uma fase majestosa, com bastante intensidade, nos anos 70, início dos 80, ainda com as filmadoras Super-8, como instrumento amador de formação de uma carreira de cineasta e, também, muitos atores e atrizes foram acolhidos como futuros pleiteantes a profissionais. A bitola 8 mm e a pouca tecnologia da época não ensejavam filmes de qualidade técnica aceitável, nem para os padrões daquele tempo, passando-se para uma nova etapa no final dos anos 80 em diante, cada vez com tecnologia mais avançada.
Caso seja feita uma análise rigorosa dos curtas, vai se notar que eles nasceram com a invenção do cinema, como meio de comunicação, usando-se o critério do tamanho da obra, em termos de minutos. Os primeiros filmes eram bem curtos e depois da profissionalização dos realizadores, com o cinema mudo, continuavam curtos, até, aproximadamente, o final dos anos 20. Com o cinema falado, tendo trilha sonora e sons pertinentes à ação, chamados de ruídos, na linguagem técnica, houve uma divisão, passando-se a considerar curtas os filmes de até 20 minutos de duração, os de média–metragem, até 80 minutos e os longas, em média, entre 100 minutos a duas horas de projeção.
Se usado o critério do estilo ou do modo de contar histórias, ou realizar o filme, observa-se a maneira de evidenciar certos momentos da vida, não, propriamente, uma história. O final brusco, depois adotado pelos longas, interrompendo a ação do filme, depois de deixada a mensagem, entrando, imediatamente, os créditos finais, junto com o modo de contar ou demonstrar algo, são características bem mais marcantes dos curtas, mais do que o tempo de projeção.
Esse modo peculiar de mostrar passagens e ocorrências, que, muitas vezes, parecem insignificantes no cotidiano, pode elevar o curta à categoria de cinema de arte, sem a preocupação do tempo escasso utilizado, chegando até mesmo a filmes de 1, 2 ou alguns minutos. O poder da concisão assemelha-se aos verdadeiros contos, os curtos, tendo os filmes a marca própria de roteiros enxutos, elaborados de forma diferente de qualquer outro tipo, como os de média e os de longa-metragem.
Atualmente, chega-se a fazer cinema de arte com os curtas, com um enorme número de festivais especializados e prêmios diversos, inclusive o Oscar, assumindo um modo de ser independente e incentivando novos talentos. É de se notar que na publicidade esses filmes são muito utilizados, com design especiais, para a promoção de produtos e bastante criativos, havendo até premiação para enaltecer a capacidade de seus realizadores.
O grande público, como o brasileiro, ainda despreza esse tipo de filme, mesmo o cinema de arte, mas é necessário ter a constância na sua elaboração, até que se crie o hábito de exibir em salas de projeção ou de colocar em um DVD vários curtas como acontece com filmes como Eu amo Paris e, agora, Eu amo New York, com vários diretores e histórias diferentes, em verdade, vários curta-metragem formando um longa.
Desse modo é possível criar um público maior para os curtas, ainda, encarcerados nas fina teia dos aficcionados.

















LITERATURA PARA E-BOOKS

A estrutura dos livros disponibilizados para leitura na internet guarda aquela mesma dos que são editados em papel, publicados pela editoras tradicionais. São livros com muitas páginas, obedecendo a um sumário, onde se indicam longos capítulos, cujo manuseio na tela do computador, em suas mais diversas versões, torna difícil a leitura.
Esse formato de livro, ainda, não se adaptou a uma literatura de e-books, como está acontecendo com os livros criados para mensagens de texto pelo celular, muito comum na França e no Japão. Os livros para computadores e seus semelhantes estão entre essa literatura de celular e o livro comum, ou seja, nem tão econômica como a dos aparelhos móveis, nem extensa demais, com um número de páginas enorme, dificultando seu uso pelo leitor.
A literatura contemporânea não suporta mais aqueles tratados, chegando a minúcias sobre um mesmo tema, em volumes grossos com mais de 400 páginas, de vez que devido à escassez de tempo, mesmo as pessoas que se interessam por literatura de entretenimento ou especializada, não dispõem de folga em suas agendas, para passar mais de, no máximo, meia hora, dedicando-se a ler. É um jogo rápido, até mesmo nos relatórios empresariais, explicitando a que vieram, sem delongas, em apenas uma postagem.
O e-book tem que ter, no limite, quarenta páginas, dividindo o conteúdo em capítulos pequenos, de uma folha e ¼, A-4, com um enorme poder de concisão e objetividade, mesmo que se trate de um texto literário, usando figuras de linguagem e uma beleza incomum, não encontrada nos escritos do mundo dos negócios. Necessita de um talento encaminhado para esse fim, cultivado de forma específica, como era feito, antigamente, para os textos longos, cheios de detalhes, nem sempre importantes.
Podem ser capítulos seqüenciados e encadeados em seu conteúdo, como se fazia outrora e ainda faz nos livros em papel ou ter capítulos, aparentemente dissociados, mas que guardem uma unidade com o tema do e-book. Dessa forma, a pessoa pode ter mais comodidade, sem ficar presa a uma seqüência indispensável para o entendimento do tema, podendo este ser entendido, sendo colocadas temáticas correlatas, para proporcionar, também, uma outra forma de entendimento, que não seja a tradicional.
Para isso é preciso talento, volta-se a frisar, para que não fiquem assuntos esparsos, sem uma unidade que os costure, imprescindível à compreensão do livro. Essa é uma forma nova de escrever a que os escritores consagrados e a maioria dos novos, que os imitam ou seguem suas trilhas, não estão habituados.
Há que ser discutidos esses aspectos nos cursos de Letras, nos seminários e correlatos relativos à literatura. Existe uma forte tendência de que, aos poucos, vá existindo, no Brasil, como já acontece lá fora, o uso paralelo das formas tradicionais de suportes da literatura com os e-books e os de celular, devendo prevalecer estas duas últimas formas.






































O CONTO E O CURTA-METRAGEM

A literatura de ficção e o cinema, como formas de expressão artística sempre foram companheiros e amantes, nem sempre fiéis um ao outro, mas interagindo, de forma que ora um supera o outro em termos de arte. Há casos de filmes melhores que os livros adaptados, como Razão e Sensibilidade e livros melhores do que os filmes correspondentes, como A Casa dos Espíritos, de Izabel Allende, dependendo da capacidade do escritor ou roteirista e diretor, em saber contar uma história com criatividade e atrativos de cada arte.
Com a morte em, 18/03/08, do escritor e inventor Arthur C. Clarcke, autor do conto A Sentinela, que virou o famosíssimo filme 2001: Uma Odisséia no Espaço,de 1968, bem vivo, até hoje, na lembrança e nas filmotecas pelo mundo, essa ligação cinema e arte ficcional perdeu um de seus grandes artífices. Aos 90 anos, em sua casa em Colombo, capital do Siri Lanka, o mundo das artes ficou menor com a ausência de um dos venerados mestres de literatura de ficção científica.
Para quem não se lembra com exatidão do filme, basta lembrar de seus momentos de relevância, como o túnel das luzes, os 25 minutos iniciais do filme sem um diálogo e o escurecimento da tela por tempo mais longo do que o normal. Mas, acima de tudo, a descoberta por um primata da extensão de seu braço, com um osso na mão, destroçando uma ossada e depois seus semelhantes, constatando a superioridade de sua força física como potencial de destruição, de um modo geral.
Essas cenas marcantes e fundamentais no enredo vêem reforçadas pela grandeza e plenitude da imagem, com inovações estarrecedoras para a época, graças ao diretor Stanley Kubrick. Nesse filme , assim como nos outros depois, que usou, pela primeira vez, a captação de imagem por vídeo, simultaneamente, à imagem da filmadora tradicional, houve um marco delineador de um outro modo de filmagem, trazendo uma nova linguagem para o cinema.
Essa ligação literatura/cinema se faz sentir, com maior evidência, nos filmes de curta-metragem, onde verdadeiros contos são colocados na sétima arte, não como adaptação de contos para o cinema, mas como filmes com a estrutura narrativa de contos, como no curta Pequeno Círculo, a título de exemplo. Os curta- metragem, que não recebem o devido valor artístico, são a essência do cinema, acontecendo o mesmo com o conto, que no mundo da literatura ficcional, têm muito pouca procura e menos interesse ainda.
As duas linguagens – conto e curta metragem – embora pertencentes a modos diferentes de fazer arte, têm vários pontos em comum, como a rapidez e a indefinição de seus finais, colocando o leitor/espectador para pensar, vindo daí, talvez, o seu desprestígio. Não há o entendimento fácil do longa metragem de entretenimento, nem a leitura leve do romance que só conta uma história, sem reflexões e aprofundamento.







































AS PALAVRAS NA ARTE

As palavras em si já são uma arte, consagrada na literatura, em especial a literatura de ficção, onde o estilo e seu uso correto e no devido lugar, chama a atenção de apreciadores, mesmo que elas não venham carregadas de uma idéia forte, contundente. As palavras como instrumento artístico, podendo ser orais e escritas, sempre foram reconhecidas por seu valor de modificar as coisas, enaltecê-las, incentivá-las, de denegrir a auto-estima ou de criar uma aura de mistério e glamour.
Quando a palavra é emprestada a outras formas de arte, para descrevê-las, anunciá-las ou comentá-las é que se pode perceber a real textura que elas criam, concedendo explicações para coisas, aparentemente, inexplicáveis, como na pintura, na música, na dança, contemporâneas, onde a compreensão do fenômeno ainda não está bem deglutida. Mesmo para os movimentos artísticos clássicos, há sempre um toque diferente, um ângulo novo, a ser contemplado por um comentário luxuoso, gerando imagens, como fotografias em letras, em frases e períodos de uma consistência ímpar.
As explicações orais dadas pelos fotógrafos de Victória Beckham, ex-Spice Girl, hoje, casada com o jogador de futebol David Beckham, para uma sessão de fotos, onde ela aparece sem o habitual glamour, mas como uma boneca viva e feia, é um exemplo do que aqui se fala. Eles usaram todo um palavreado metafórico, para justificar a feiúra da mulher que atrai a atenção obsessiva da imprensa britânica, utilizando expressões como “um olhar visionário”, que ela é uma “verdadeira contadora de histórias ( fazendo propaganda de vestidos e bolsas) ou “fotos que emprestavam energia criativa a modelo”.
Esse glamour das palavras serve de um suporte, até de conteúdo, para produções artísticas, com descrições enlevadas, concebendo uma atmosfera de beleza e da estética da feiúra, ensejando todo um clima de plenitude, que, muitas vezes, a obra em si, não consegue alcançar. O cultivo das palavras é, sempre, o horizonte infinito de latitudes inalcançáveis, a força motriz da energia da beleza, seja qual for a forma de arte.



































O PURISMO DA LÍNGUA NA ARTE




Houve uma disputa pela imprensa, entre dois gramáticos, sendo um sociolinguista, Sírio Possenti e outro um purista, Luis Antônio Sacconi, através do Terra Magazine, no Portal Terra, sobre o uso ou não de estrangeirismos e a adoção da linguagem, foneticamente escrita. Esses questionamentos são antigos, a partir, basicamente, dos anos 70, mas refletem, de forma contundente, na estética da literatura, como arte, definindo a qualidade da obra, na apreciação de leitores voltados para a valorização de estilos, em textos como Romances, Contos e Poesia.
A adoção de estrangeirismos acredita-se deva ser evitada, aportuguesando-se a palavra, salvo quando, de todo, for impossível, caso do termo “expert”, que jamais poderia ser entendido como esperto ou entendido, cujos sentidos, em português não são fiéis ao sentido original da palavra. A maioria das palavras estrangeiras são anglicanismos, pelo domínio do inglês no mundo, invadindo inclusive o francês, tradicional ex-exportador de palavras para a língua portuguesa.
Há até mesmo uma lei inócua, na França, que proíbe o uso de palavras em inglês, de resultado pífio, principalmente, no setor de informática e dos nomes das casas de comércio. O domínio da língua inglesa, com prevalência da norte-americana, é incontestável, mas existem muitas palavras que podem ter o seu sentido adaptado para o português, como é o caso da palavra celular, para telefone móvel, download, para baixar programa e muitas outras.
Existe, porém, certo “caipirismo” brasileiro, que prefere usar as palavras em inglês, como demonstração de sabedoria e pedantismo, na linguagem comum, tanto na oral como na escrita, como reafirmação de conhecimento e mesmo em artigos científicos e nos eruditos, sob a forma de citação no original, sem a devida tradução. Esse modismo, que vem se consolidando em um comportamento constante, amputa a língua portuguesa, sem que essa observação se constitua em exemplo de xenofobia. Em Portugal, a língua procura se manter íntegra, sem ser por lei, mas por uma questão de respeito ao modo de falar português, que, como José Saramago, não permite que, em seus livros, no Brasil, seja feita a adaptação para nossa língua.
Quanto ao modo de falar e de escrever sem seguir as normas gramaticais constituídas, como acontece demais em chats e msns brasileiros, procurando-se imitar a fonética das palavras, jamais pode ser trazida para uma obra literária. Embora tenha a liberdade de uma obra de arte, possui as suas características próprias, que é o estilo e a linguagem usada. Esses dois pontos distintos e que, para o leigo, parecem se confundir, são o cerne da literatura arte, o que a distingue da literatura comum, como na pintura um traço aleatório, independente da vontade do pintor, com significado duvidoso, também, não induz à obra de arte.
Esse mesmo caráter duvidoso, quanto à arte na literatura, é a linguagem fonética escrita, que se torna uma leitura enjoada, maçante e, em grande parte, sem poder de comunicação, que é o que mais importa na escrita artística e na comum.























ARTE E CRIME

Há o consenso de que a arte tem como função principal, além do encantamento que causa nas pessoas, o de transgredir normas, ser libertária e romper com os padrões tradicionais de conduta humana. Em função disso, começou dia 10/03 e se estendeu até o dia 15 desse mês, em Recife, o seminário Arte e Crime: insubordinações, com várias atividades tendo como foco as obras e ações artísticas que, devido ao seu caráter crítico, político e transgressor, situam-se no limite da ilegalidade.
É interessante notar que a relação entre arte e crime pode ser dividida em dois grandes campos de reflexão: a arte como demolidora da prática de certos atos sociais, considerados ilegais, alterando os costumes, como a nudez em lugar público, o uso de substâncias ilícitas, nos filmes de drogados, etc. E, no outro campo, como crimes contra a pessoa, o patrimônio, material e imaterial, severamente, punidos com sansões mais pesadas.
Ao ser tratada a relação arte e crime como insubordinação, tem-se em mente conceber a arte como veículo para fazer pensar certos limites e mecanismos de controle da sociedade. A arte como potência capaz de provocar revisões de pensamento, através de fotos, vídeos, pintura, escultura, intervenções urbanas que utilizam o caráter subversivo e transgressor inerentes à própria arte, no seu aspecto inovador.
Nesse caso, a arte testa limites de ilegalidade, cometendo pequenos delitos, como, por exemplo, a nudez das mulheres em ambiente público, no caso dos desfiles das escolas de samba, durante o carnaval ou no desnudar de partes íntimas femininas, em desfiles de moda. Há um outro tipo de transgressão como a pirataria de obras de arte, o furto de quadros e idéias, onde se pode observar o papel e a perspectiva dos poder público, ora com inércia, ora com eficiência, dependendo da repercussão do caso.
Há, ainda, a questão da considerada “oxigenação” que a periferia e a chamada “atitude” trazem para a sociedade. Nessa postura, a periferia não deseja mais ser espectadora, mas participante do processo criativo. Possui uma arte própria que se populariza nas diversas classes sociais, principalmente entre os jovens, como é o caso da moda, da música funk, etc. No passado, isso ocorreu através do samba de raiz, de fundo de quintal, hoje, bastante valorizado.
Um problema que deve ser bastante discutido é o da qualidade artística no objeto de arte, para que não se queira incluir a pirataria (roubo) como forma de emancipação do extorsivo poder dos estúdios de gravação de filmes e música. Cada um que crie a sua arte, hoje com bastante facilidade pelo computador e a divulgue da forma que achar conveniente, inclusive pela internet, não usando, para isso, o talento alheio, na condição de simples atravessador, em uma concorrência desleal com o artista e feita por quem não o é.
Crime no sentido de insubordinação diante dos costumes é diferente do crime que atinge terceiros, na sua integridade física, inclusive a criativa, que alcança seu patrimônio e rompe com as mais primárias formas de convivência em sociedade. A insubordinação tem seus limites, mesmo na posição de vanguarda, de visão de novos horizontes sociais, mas não pode ser confundida com a bandidagem, que tem que ser penalizada.















UM PONTO CEGO E A ARTE



Quando um campo de visão é escondido por algum empecilho físico, eletrônico e de qualquer outra natureza, chamamos esse espaço não visto de ponto cego. É um termo comum na arquitetura, e nas artes em geral, mas que pode ser aplicado a qualquer ciência, inclusive as da área social.
O mapa do Brasil lembra a forma de um coração e o do Continente africano o de um coração partido pelo braço de mar que separa a Arábia Saudita do lado do Oriente Médio e o Egito, o Sudão, a Eritrea e o Yemen de outro, na África. Esse é um dado constatado, fisicamente, na formação dos continentes, inquestionável por sua visível estrutura.
Em termos sociais ou sociológicos, o coração partido ocorre de maneira real, muitas vezes como um ponto cego, pois só se enxerga no continente africano o país chamado África do Sul, bem ao sul mesmo e confunde-se esse país com o Continente: África. Esse continente de coração partido sofre o mesmo revés socioeconômico dos países que ficam voltados para o litoral, como Angola, Moçambique, Camarões, etc., de onde vieram, também, os escravos para o Brasil.
Esses países citados e outros do litoral, junto com a África do Sul, conhecido pela atuação de Nelson Mandela, são pontos de referência, naquela região do planeta, para os brasileiros, de um modo geral. Tem-se, com isso, a impressão de que somente essas nações, sem contar a Líbia, o Sudão, o Chad, a República da África Central e outros não compõem o Continente.
O mesmo destino de territórios colonizados, como o Brasil, têm, lá, os do litoral, mas os que estão no ponto cego estão atolados, também, na miséria e no totalitarismo, requerendo ação humanitária, de vez que estão afetados por doenças como a AIDS e assolados pela fome. Observa-se que, por serem os brasileiros descendentes, inclusive em sua grande maioria, de negros africanos do litoral, a eles estão ligados, culturalmente e mais próximos de seus problemas.
É compreensível essa posição, mas quando se fala em raça negra, em raiz, há todo um conjunto de pontos comuns e referenciais com o resto do continente africano. O mesmo acontece na América do Sul, quando há a citação de latinidade, pois logo vêm à tona os países de colonização espanhola e descendência indígena, hoje já, definitivamente, chamados de ibero-americanos e se exclui o Brasil.
A latinidade, porém, inclui o Brasil, mesmo que cada país tenha as suas características culturais próprias, mas o espírito expansivo, a alegria, a musicalidade, a afetividade “hospedeira” é comum em toda a América do Sul. O mesmo acontece com as características culturais do povo africano, seja do norte ou do sul, do litoral ou do centro, formando um todo que merece ajuda e atenção dos países em desenvolvimento e dos desenvolvidos, para que se efetue uma mudança efetiva no cenário “afavelado” daquele continente.
Essa visão parcial da África têm muitos brasileiros. Isso atrapalha o entendimento socioantropológico de nosso povo e influencia de teses raciais e de miscigenação que determinam o preconceito, como o sistema de cotas no ensino superior, a negação peremptória desse preconceito contra o negro e muitas outros pontos de vista. É preciso enxergar o ponto cego do Continente Africano.
Trazendo-se essa visão para a arte, observa-se que desde a época de Picasso e sua famosa influência africana, sem nunca ter ido à África, fica adstrita às máscaras e outras esculturas de rituais religiosos, necessitando até mesmo de um artesanato que se desprenda disso. A arte africana tem peças lindas, de valor artístico, mas sente-se que falta um liame com a arte ocidental e parte da oriental, ausência de ligação essa que torna limitado o conteúdo produtivo, ficando adstrito a um curral de idéias e de formas e cores, partindo-se para o repetitivo do artesanato.
Já na música africana e na dança há mais amplitude em seus ritmos próprios, os quais a cultura negra de outros países cuida de acrescentar os elementos locais, enriquecendo a estética do negro e fomentando outros fundamentos de cunho social. Nesses locais, como o Brasil, a arte negra trouxe forte contribuição para a própria consciência negra, sua importância e seu valor estético, abandonando-se aquela postura antiquada de imitar o branco, na aparência, no vestuário e adereços e no modo de pensar e ser.
Esse novo choque racial, se por um lado acirra preconceitos, tanto dos brancos, como dos próprios negros contra si, abre horizontes de amplitude incalculável para a renovação de todo um arcabouço social, com conseqüências imprevisíveis para as relações sociais.









A OBESIDADE NA ARTE
Nos últimos tempos, em função de revezes na vida de pessoas em busca de um tipo magérrimo, como a bulimia e a anorexia, as grifes de alto luxo e os organizadores de desfiles de moda estão abandonando tipos de modelos secas e de aspecto doentio. Outras aparências, não propriamente gordas, vêm surgindo, com um aspecto saudável, ressaltando um esplendor que combine com um look cheio de vida e formas.
Na arte, principalmente na pintura, tem havido uma oscilação, desde os quadros de Rubens e outros artistas da época, com as mulheres rechonchudas, ostentando exemplos de beleza, até Fernando Botero, com seus quadros retratando as gordas, embora de forma infantil, com aspecto simples. Sendo quase um exemplo único no mundo atual, esse pintor tinha outros adeptos das mulheres obesas, como maneira de retratar, ora uma realidade inexorável do ser humano, quase sempre com a idade avançando, ora por encontrar algo de sutil em partes do corpo das gordas que os atrai e revelam em seus quadros.
Recentemente, um quadro britânico pode ser o mais caro de um artista vivo, leiloado na casa Christie´s, em Nova York, do pintor Lucian Freud, sendo oferecido por até 35 milhões de dólares, mostrando uma operária obesa dormindo em um sofá. Os traços, que se parecem com os de desenho, são esquecidos, diante maneira como é retratada a mulher, com certo glamour, com força na expressão, fornecendo equilibrada distribuição das partes do corpo e pelas dobras que se encontram no sofá.
Um dos pontos altos é a mão direita segurando um seio farto, bem guloso, enquanto o outro se deixa levar pela força da gravidade, assim como a barriga, que tapa a visão do sexo. As coxas volumosas guardam a forma apropriada da posição em que se encontra deitada. Isto sem falar nas cores utilizadas pelo pintor, com vários contrastes de bege e verde amarronzado, formando um todo de uma estética diferenciada, que não chega a ser o que, convencionalmente, chama-se de belo, nem de feiúra.
Simplesmente, foge ao tradicional em termos de estética: um quadro diferente, que atrai a atenção dos apreciadores de arte pictórica.


A VIRTUALIDADE

O mundo virtual é uma concepção que cria embaraço, má interpretação e certa confusão, na maioria das pessoas que lidam com conteúdo digital, qualquer que seja o meio de comunicação. A ausência de distinção entre o digital, o real e o virtual, tanto a nível teórico, quanto prático, leva até indivíduos esclarecidos, a achar que tudo em que está na internet é virtual e o real é somente o que está à sua volta, no corpo a corpo.
O digital é o meio, o mecanismo, o instrumento utilizado para oferecer uma comunicação através da informática, como, por exemplo, os telefones, as televisões e os computadores. O real é tudo que utiliza a presença da pessoa, não apenas através dos cinco sentidos tradicionais, mas incluindo as sensações produzidas pela palavra e pela imagem que, nem sempre, estão diante dos ouvidos e da visão. Inclui-se, aí, a comunicação a longa distância, como é o caso da internet, onde essa presença constante de pessoas se conectando torna real a relação, embora não haja o cara a cara, como não há no telefone e outros meios digitais teleoperados, por quase todos no mundo inteiro.
O conceito de virtualidade está ligado a uma realidade que não é a que se vive, mas à criada pelo homem, como nos filmes com efeitos especiais, jamais a realidade do chat, do msn, das comunidades sociais que são reais, tanto quanto as associações de bairro. Estar na internet não é ser virtual, como a maioria pensa. As pessoas que ali se comunicam são reais, apenas operam a distância um instrumento, hoje com a imagem do interlocutor, através das webcam´s, mostrando objetos, assistindo a filme juntas, fazendo troca de carinho, como beijos, não escritos ou falados, embora em locais diferentes.
A virtualidade, também, por isso, não é a “desrealidade”, como querem alguns filósofos atuais, principalmente franceses, mas uma realidade diferente, a chamada realidade virtual, que implica a realização de conteúdos que jamais podem ser repetidos, na realidade comum, porque criados e existentes apenas dentro dos computadores. A confusão vem daí, em achar-se que a comunicação a distância, também, está, apenas, dentro dos computadores, aparecendo nas telas dos monitores e que uma conversa em chat é virtual por isso, esquecendo-se de que, por trás das telas, há pessoas com sentimentos, atitudes, etc., exercendo a sua realidade. Costuma-se dizer que a relação social estabelecida no chat é idêntica a uma conversa por telefones, com aparelhos próprios, entre os surdos, existindo através da linguagem escrita com seus códigos próprios para exprimir sensações e sentimentos.
A realidade virtual não inclui o contato a distância real, como o vivido por pessoas que trocam informações pelo computador, seja pessoal ou de conhecimento. A virtual é a de algo inexistente em nossa realidade, inventada pelo homem e só existe na cabeça das pessoas. Está bem distante do ser humano, como as alterações que se fazem, através de softwares como o photoshop, em fotografias e imagens outras.
Isso é virtualidade e não a comunicação no computador entre pessoas a distância. Até a televisão digitalizada e informatizada já produz virtualidade, quando se alteram os rumos de um filme ou de qualquer outro programa, colocando-se na forma desejada.
Sem querer confundir mais, o virtual é real, mas o real não é virtual, mesmo no computador.































O NOVO

A palavra novo abrange vários sentidos, trazendo conseqüências distintas. Sempre guarda consigo a intenção de demonstrar o que acaba de surgir, mas não a garantia de que será permanente. As pessoas recebem o novo como modismo, como início de outro estágio na vida ou como algo de permanência mais duradoura.
Há uma tendência dos conservadores, aqueles que ficam adstritos a princípios morais imutáveis de não aceitar a mudança e essa postura é, em geral, atribuída aos velhos, reconhecidamente, resistentes a modificações no seu modo de proceder, diante das coisas e encarar outros valores. Mas há jovens que se recusam a aceitar as premissas de uma nova forma de existência humana, que se resumem na globalização, no feminismo e no chamado capitalismo humanitário.
No campo da produção cultural, as inovações se apresentam, no regime capitalista, como felicidade, amor e feminismo. São os três campos explorados no âmbito da cultura de um povo, neste tempo em que estamos vivendo. Através da dimensão que é dada a cada um desses elementos, pode-se verificar a existência do novo, não como vanguarda, mas como espectro do modismo do momento.
Um exemplo claro disso é a reformulação do antigo como novo, sem que surja uma vanguarda que, efetivamente, venha mudar o panorama dos valores morais ou éticos. Morais, os valores estabelecidos e éticos, os que devem ser. No campo da vida moderna, as modificações e inovações tecnológicas continuam dominando o ranking das coisas novas, ao mesmo tempo em que o aquecimento global causado, em grande parte, por esse desenvolvimento tecnológico é a contramão desse caminho tortuoso, no qual trilhamos e estamos mergulhados em sua paisagem.
O novo sempre tem dois lados: o presente e o passado, na perspectiva de construção de um futuro para a humanidade. Esses dois momentos são conflitantes e, ao contrário do que se pensa, não existe uma passagem tranqüila de um para o outro, ocorrendo contradições internas, na eterna luta da manutenção do que era com os valores morais que surgem de uma nova realidade.
Esse tema filosófico tem aplicações práticas gritantes, no confronto diário e mais acentuado, em tempos recentes, no conflito de gerações. Mas isso não é retilíneo, como um comportamento esperado. Há parte das gerações novas que repetem o modo de agir anterior e a outra procura outras formas de se expressar, na descontração, na leviandade, no desleixo pessoal, em maneiras de chamar atenção, em uma sociedade cada vez mais massificada.
O que se pode concluir é que o novo não é o diferente do anterior, no choque passado/presente, mas uma gama de pequenos detalhes, aos quais é preciso estar atento, para entendê-los e não é óbvio, como alguns podem pensar. O novo, nem sempre é novo por estar à frente, repete fórmulas, mas há o novo, realmente, inovador, a ruptura, a verdadeira vanguarda que rompe com o passado, nem sempre impunemente.
















O QUE SERÁ MINHA PINTURA?

Há sempre uma necessidade crescente dos críticos de arte e dos que produzem arte de enquadrar a produção artística em um movimento ou em uma tendência. Como, nos últimos anos, essa tarefa vem ficando mais difícil, passou-se a denominar os trabalhos por décadas, como pintura dos anos 80, 90, etc.
A existência de movimentos pictóricos foi desaparecendo ao longo do tempo, pela falta de organicidade na maneira de fazer pintura. Cada artista, por sua própria conta e risco, fica atrelado a uma instituição ou indivíduo que faz seu marketing e o projeta no mundo das artes. Dependendo dessa pessoa, um curador ou marchand, como se dizia antigamente, o trabalho artístico estará em evidência no mercado certo, no momento apropriado.
Com essa configuração atual, torna-se difícil para os historiadores de arte estabelecer padrões de compreensão didática, no enquadramento, sem falsas rotulações, dos objetos artísticos, no caso a pintura. Apesar de vivermos em uma sociedade massificada, cada artista, sozinho, procura sobressair no mercado e para a fama, o sucesso, sem haver uma troca de experiências ou uma causa, como aconteceu com os Impressionistas e bem posteriormente com os expressionistas abstratos, nos dois casos rejeitados, os primeiros no Salão de Paris e os segundos no Metropolitan Museum de New York. Em ambos os casos, pintavam de forma diferente do que habitualmente era exposto nos Museus e Galerias e ainda não haviam criado mercado para seus trabalhos.
Essa rejeição os uniu, não importava, no caso dos expressionistas abstratos, o que pintassem, desde o figurativo até o intrinsecamente abstrato. Foi, então, que Jackson Pollock, pelo esforço de sua mulher Aka Lena Krassner - conhecida , artisticamente, como Lee Krasner - conseguiu atrair a atenção de Peggy Guggenheim e de críticos de arte, ávidos por novidades, projetando Pollock no mercado. Consigo arrastou uma série de outros pintores que tiveram o reconhecimento merecido, embora Pollock fosse o único que atingiu fama internacional, graças ao trabalho da Senhora Krassner, que, abandonando seu próprio trabalho como pintora, dedicou-se integralmente à carreira do marido.
Essa atitude de congraçamento de artistas desapareceu. Surgiu um novo modo de vida que se instalou nos anos 60 e, contraditoriamente, dizendo-se de liberdade, paz e amor, esse comportamento - se é que foi realmente uma filosofia de vida - ao mesmo tempo em que lutava pela liberdade individual, reunia-se em comunidades. Isso gerou, mais tarde, o fenômeno da dicotomia indivíduo X massificação de forma bem acirrada e contundente.
Com a massificação, daí advinda, hoje se pinta o que vende, desde a arte dos nativos das cidades históricas ao esgarçar dos histriônicos, nas grandes cidades como New York, Tóquio, etc.. E nem foi falada na arte puramente decorativa, dos pintores de flores e paisagens, dos cavalos e gatos, das pessoas e grupos, como se fosse uma foto mal tirada.
E o que será minha pintura? Onde estaria “enquadrado” meu trabalho, como está registrado neste site, em Quadros Atuais e nos Arquivos? Seria um Livre Expressionismo, uma versão presente do Expressionismo Abstrato ou não seria nada, apenas mais uma galeria de quadros decorativos, sem valor artístico?
Acredito na pintura como forma, ainda vigente, de expressão e continuarei pintando, porque, como disse Pollock: “Pintar é um modo de ser”.

























A ARTE DESPROTEGIDA


A arte, no Brasil, é tratada, basicamente, como um subproduto de fachada de atuação governamental, sem políticas públicas de auto-sustentação, ficando a atuação nessa área à mercê do humor de governos e dos empresários mecenas. Ao centralizar no Ministério da Cultura os recursos para a enorme diversidade de arte que existe, além da cultura popular, fica evidente que muitas dessas artes ficarão de fora das asas protetoras (sic) desse órgão público.
Não é desse jeito que se coordena o setor das artes no país, desmotivando pessoas e instituições que se interessam em atuar e promover o setor artístico nacional. A definição clara de políticas voltadas para a arte, seja como atividade empresarial, seja como atividade pública, torna inócua qualquer atuação do Ministério da Cultura nesse setor.
Com os olhos voltados para a cultura popular, essa instituição governamental privilegia áreas desse tipo de cultura, tornando patrimônio cultural do Brasil comidas típicas, músicas, brincadeiras populares, que já fazem parte da história do país. É certo que desse campo deve cuidar o Ministério, porém, jamais, em detrimento da cultura erudita, jogada às traças nos escaninhos dos programas de computador, em arquivos nunca abertos, nem para consulta.
Os mais recentes roubos nos museus brasileiros é uma prova cabal dessa desproteção material, locais onde não há segurança, sem detectores de metais, serviço de câmeras eficientes, em se tratando de prédios que têm um conteúdo bastante valioso, a preços de mercado. A não ser velhos vigias, na maior parte das vezes, sem uma arma, atrelados a um sistema de controle de visitantes, ficam os prédios entregues à vontade dos ladrões especializados.
Sabe-se que o roubo de obras de arte ocorre no mundo inteiro, mesmo onde há respeito e diligência no serviço de segurança, sendo mais uma razão para que se implante um sistema eficiente de guarda, conservação e manutenção desse patrimônio. Mas a desproteção da arte está mesmo em um plano mais alto, mais abrangente, envolvendo a questão da produção, divulgação, fiscalização e orientação do setor artístico.
Se o Brasil não conseguiu impedir a devastação da mata atlântica, não está impedindo o desmatamento da região amazônica, quer tratar o biocombustível, paralelamente, à produção de petróleo, sem dar prevalência ao primeiro, o que se pode exigir para a arte? Óbvio que não pode se exigir que o alimento da alma seja tratado com seriedade e vigor necessários ao seu desenvolvimento.
Muitos acreditam, ainda, literalmente, que a arte é inútil. Mas essa visão estreita está contida, apenas, na concepção específica de um capitalismo que vê na arte, somente um produto mercadológico, sem atentar para o fato de que, mesmo em um capitalismo mais avançado e inteligente, é uma fonte de renda impressionante. O Brasil, como governo, não enxerga isso e fecha os olhos cegos para um setor dinâmico e enaltecedor do ser humano.




















POLLOCK: Uma Eficiente Ruptura Abstrata

Desde as tentativas para modificação da pintura renascentista, muitos movimentos se instalaram com esse propósito, como o impressionismo, no século XIX e outros anteriores, como o barroco, buscando inovar nos aspectos das técnicas e dos métodos. Essa busca constante pelo diferente não se dava no sentido consumista, do novo pelo novo, como hoje em dia, com o desrespeito da descartabilidade, do modismo, de vez que sempre havia o reconhecimento do tipo de pintura e mesmo de arte praticada anteriormente.
Pode-se considerar o impressionismo como a primeira tendência de rompimento, realmente efetiva, com o figurativo tradicional, modificando os modos clássicos de ver uma realidade retratada.
O surgimento, mesmo que rudimentar, na época, da fotografia impactou a visão que se tinha da pintura como elemento de reprodução, de cópia da realidade, da elaboração de retratos e pinturas de paisagens e naturezas mortas. A fotografia, ainda hoje, fixa momentos de uma realidade concreta, como as tiradas para álbuns familiares, viagens, todas de cunho pessoal, embora tenha alçado vôo ao status de arte, com os diversos trabalhos dos fotógrafos-artistas, que buscam uma realidade diferente da que é simplesmente captada pela câmera.
Com o advento da fotografia, a busca por um pintar que rompesse com a tradicional forma de captar a realidade avançou bastante. Isso, em movimentos pictóricos vários, como o cubismo, o surrealismo, um pintar abstrato, com Kandinsk e muitos outros, o dadaísmo e todos os da chamada pintura moderna, mas, ainda, com laivos de figurativo.
Com Edvard Munch, considerado o pai do Expressionismo, houve uma forma mais intimista e até mais conceitual de expressar um sentimento, uma emoção, por meio da pintura, mas com componentes ainda figurativos. Mas foi no pós- II Guerra que uma busca maior passou a interessar os pintores americanos, que desejavam se desvincular do estilo europeu, de vez que o centro cultural do mundo deixou de ser Paris e passou a ser New York.
A mesma tendência de inovar, do início e primeira metade do século XX, agora, passou a ter outra preocupação, que era desvincular inteiramente o figurativo das pinturas abstratas. Muitas tentativas foram feitas, com forte interpretação psicológica do conteúdo dos quadros e, mesmo com formas abstratas, lembravam o figurativo, sem que a intenção fosse essa.
Foi com Jackson Pollock que se atingiu o grau máximo de abstração, a fixação de um aparente nada, se pensado em formas figurativas, a concepção de uma nova forma, por intermédio de seu dripping, onde o figurativo desaparece. Um modo tão revolucionário que chegou ao patamar de uma ruptura com o que, até então, vinha sendo executado como pintura e elaborado de forma tão particular e própria do pintor, que não pôde ter seguidores, pois seriam meramente repetidores. Em todos os quadro de Pollock, dessa fase de dripping, observa-se a genialidade em não repetir conteúdo, embora a forma seja praticamente a mesma. Há uma variedade de composições com o mesmo tema, sem que exista a visão por um outro ângulo, sem necessidade de que a luz se desloque ( embora se desloque), mas isso é fundamental no figurativo, a exemplo dos quadros dos jardins, no impressionismo de Monet.
Como não pôde haver seguidores, a morte prematura do pintor, por desvarios do alcoolismo, em um desastre de automóvel, encerrou praticamente uma fase grandiosa da pintura. Outros tempos chegaram, outra mentalidade passou a ver o mundo, como se ele fosse sendo descascado, fazendo surgir outros movimentos como o minimalismo, a pop art, tendência de um desfalecer inesperado com o mundo real da industrialização e da mudança de costumes.
Realmente, Pollock criou o abstrato sem o resquício de figurativo.











PINTURA: Mãe das Artes ?

A primeira forma de expressão do homem se deu quando ele, ao tomar um pedaço de osso na mão, criou uma extensão de si mesmo e pôde combater os animais maiores, fisicamente, bem como o próprio homem. Enfim, pôde se defender e/ou atacar. A partir daí, vieram os objetos construídos por ele, como utilitários, que foram se aprimorando ao longo do tempo, até arquitetar formas consideradas artísticas, acima das outras artes.
Foi, porém, com a pintura rupestre, não importando, aqui, a sua finalidade, se para simples controle de suas posses ou como forma de expressão do que o cercava, que se criou, ao longo dos anos, uma forma de fixação de uma realidade. Com o passar do tempo, veio a ampliação desse processo criativo e foram-se desdobrando formas e objetos criativos, a inclusão das cores, até chegar a este ponto que nós conhecemos, mas que sempre está em plena mutação, com a incorporação de tecnologias usadas como meio de comunicação. O processo criativo sempre caminha e, ao concluir um estágio, já está em busca de outro.
Se levarmos em consideração que todas as artes, como a escultura, a dança, a música, a literatura, etc., têm os seus signos, que podem ser transpostos para um suporte, e, além disso, podem ser pintadas, de modo concreto ou abstrato, assim como podem ser dançadas, a pintura, a escultura, a literatura, etc., torna-se duvidosa a expressão: a pintura é a mãe das artes. Pode-se criar, por exemplo uma coreografia para uma escultura de Rodin ou para um personagem literário ou uma história contada por escritores e, assim, para todas as artes.
Para os apaixonados pela pintura, não há outra arte igual a essa, uma que congregue e explicite, com clareza, amplitude e solidez, não só as outras formas de expressão artística, mas a realidade invisível e nada palpável dos sentimentos, da emoção sentida com, às vezes, apenas um traço feito com aparência aleatória, em um suporte que pode ser de papel, de madeira, de alvenaria, como os muros e as paredes internas de um prédio, o interior de uma galeria de esgoto, nos lençóis ou na tela. Não importa onde!
Arte alguma tem esse privilégio de ser tão versátil em sua demonstração e ser expressa com um simples pedaço de carvão em qualquer lugar, até nos recônditos das antigas cavernas ou na mais sofisticada e cara galeria de arte. A pintura transcende, ultrapassa o tempo, tem uma noção diferenciada dele, assim como nos campos magnéticos, há intervalos de vazios do tempo, como o conhecemos.
A pintura tem o moto-próprio de energia, jamais acaba, como pensaram alguns, ao se verem perdidos e sem horizontes de criatividade. Ela apenas se transforma e se adapta, como um camaleão atemporal; basta observarmos o caso da recente criação e execução da pintura virtual. Essa nova modalidade de pintura percorre outros campos criativos. Esquiva-se de seus suportes tradicionais, tendo o computador como máquina e o homem como seu condutor, ao fazer escolhas, criar combinações de cor impensáveis, que não dependem da iluminação do local, para quem as aprecia e externando formas, tanto figurativas, quanto abstratas.
Por essa e outras razões, a pintura se situa em um plano, desmerecendo essas outras formas de expressão artística.

















SERÁ ARTE? O QUE SERÁ?

Uma revista brasileira não especializada em arte, mas em assuntos para mulheres, traz uma pequena reportagem: “Arte sob Encomenda”, na qual relata experiências economicamente bem sucedidas de grafiteiros pintando paredes interiores, substituindo quadros, em hotéis e residências, inclusive fora do Brasil. São pinturas, na maioria figurativas, algumas misturando figurativo com abstrato, no estilo grafite.
A mão de qualquer um apreciador de arte pegaria logo o cabo do carimbo com a tendência de afixá-lo com o termo modismo. Mas há algumas características que chamam a atenção na descrição da jornalista: “esses grafiteiros, com sucesso internacional, têm telas expostas em galerias de arte e trouxeram sua experiência da rua, lá onde a pintura se desmancha ou apaga pelas intempéries do tempo”.
Nas paredes interiores, essa pintura se desgasta, também, com o passar do tempo, pelo cansaço de sua presença, com a possível postura efêmera de sua proposta e é apagada, propositalmente, para que seja colocada outra, como um artesanato com outro modelo e finalidade. Os murais e pinturas de parede, simplesmente, vêm desde Roma, mas auferiam o cunho de obras de arte e, até hoje, são admiradas dessa forma. Não há a eventualidade e a agilidade dos tempos atuais, quando se consegue vislumbrar a genialidade do artista, sua especificidade como arte, não importa qual o suporte artístico que foi utilizado. Sair da arte de rua parece sair de uma escola para uma pintura de grandes dimensões, de prevalência figurativa, para que todos a entendam, com traço específico e uma forma “berrante”, com cores quentes e condiz muito com os jovens que trabalham com arte, que, segundo a reportagem, são os maiores compradores da “parede com desenho pintado” ou site specific, como é conhecida nos meios artísticos.
É uma “arte” feita por encomenda, de vez que o artista estuda o local e se prende a suas características, para produzir seu trabalho. Diferente do que acontece com o artista e sua tela ou seu muro, quando há o exercício de uma liberdade total para criar, mesmo que ele, também, estude a tela em branco, “namore”, embora haja arte em tela por encomenda.
O que é importante fixar e entender é que esse tipo de trabalho, nas paredes interiores de moradias ou lugares públicos, é mais uma busca de um caminho para o futuro da arte pictórica e possui algo próprio, definido, incomum, principalmente nos trabalhos abstratos. O fato de estar na parede ou na tela se traduz em uma simples questão de suporte.
Na pintura virtual, há telas em LCD que a pessoa enfia um chip e aparece o quadro pintado pelo artista em seu computador, ou aparece uma seqüência de quadros que ficam na parede, não necessitando da tela tradicional de lona. E isso já existe.
Apregoar essa tendência do site specific, como modismo, pode ser perigoso, porque depende da qualidade da arte e dos novos pontos de apreciação que lhe são acrescentados. Isso o futuro nos dirá.
O que é incontestável é que o estilo grafite vem se tornando uma marca própria de um período, como este início de milênio, não só pelo fato de entrar para as galerias de arte. O cinema animação vem adotando essas características, seja no futurismo do roteiro ou nas histórias mais convencionais. Essa aceitação do grande público e do grupo dos entendidos vem fixando um fazer artístico que deixou de ser marginal.