SARAIVA 23
FILOSOFIA DA ARTE:
A Pintura e o Método do Materialismo Dialético
2007
Copyrigth by Saraiva Filho
saraivafilho23@hotmail.com
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Revisão Lígia Costa Saraiva
Saraiva Filho, J
Filosofia da Arte: Uma Visão Dialética / J. Saraiva Filho – Maranhão. Brasil.2007
1. J. Saraiva Filho,1948 – Arte 2. Escritor Brasileiro – Século XX – Filosofia da Arte 3. Brasil
CDD -
CDU –
A Lígia Saraiva, pelo incentivo, apoio, e revisão.
A meuspais“in memorian,
pelo que fizeram de mim e,
em especial, pelo sentido de
liberdade que me passaram.
SUMÁRIO
1 - Apresentação
2 – Prefácio
3 - A expressão Artista Plástico
4 - Sobre alguns movimentos pictóricos
5 - Idéias sobre Arte Contemporânea
6 - A leitura de quadro abstrato
7 – A liberdade na pintura
8 - O livre expressionismo
9 - Método spilled
10 - Aguado com pincel
11 - Método do materialismo dialético aplicado à arte
12 - A teoria do conteúdo significante x a teoria do
espectador
13 - A idéia de Perfeição na arte
14 - A pintura abstrata e seus movimentos
15 - O figurativo e o abstrato na arte contemporânea
16 - A aceitação pública da arte abstrata
17 - A crítica de arte na pintura
18 - O sentido de arte contemporânea
19 - O nome dos quadros abstratos
20 - Distinção entre arte decorativa e arte abstrata
21 - Uma nova forma de pintura artística
22 - Exposição virtual de pintura
23 - A emoção do artista e do espectador da arte
24 - A arte de rua
25 - O sentido da palavra natureza nas artes plásticas
26 - A finalidade da Arte
27 - Democratização e Massificação da Arte
APRESENTAÇÃO
O objetivo destes artigos, escritos ao longo de quase dois anos, é desmistificar concepções antiquadas sobre Filosofia e História da Arte, a partir de novos conceitos que fogem à ortodoxia dos manuais vigentes, tendo como eixo teórico-metodológico o método do materialismo dialético, apenas como método, sem adotar a teoria marxista. O enquadramento dos movimentos pictóricos obedece a uma visão nova de figurativo e de Abstrato, contrariando as existentes, geralmente empíricas, semióticas ou fenomenológicas, adotando-se uma perspectiva menos conservadora. Talvez sejam considerados textos esdrúxulos para os ortodoxos, mas a intenção, aqui, é visualizar o futuro, a partir da arte contemporânea.
Não houve a intenção inicial de se tornar um livro, daí a diversidade de assuntos, aparentemente, não concatenados, mas que, no fundo, guardam certo entrosamento. Pode parecer que há repetição de temáticas, como, por exemplo, a arte contemporânea, mas com apresentação de enfoques diferentes.
Os artigos não foram datados, apesar da presença de sua historicidade, para gerar, no leitor, a possibilidade de fazer interligação pessoal dos temas e, através da interação, participar de sua própria montagem mental.
A finalidade do livro foi voltar-se para a pintura moderna, pós-moderna e contemporânea, de vez que, como pintor artístico, esse é o âmbito de interesse do autor.
Saraiva 23 / abril de 2007
PREFÁCIO
Com suas reflexões estéticas, calcadas em uma profunda visão crítica, o autor, pintor artístico (como ele próprio prefere nomear o artista plástico que exercita a arte da pintura), expõe-nos, através de uma delicada seqüência de artigos, suas observações mais apuradas sobre a produção artística, no campo das artes visuais, sem recorrer à utilização de uma linguagem estritamente acadêmica, o que permite alcançar um público mais amplo e heterogêneo.
De grande valor analítico, a presente obra propõe-se, mesmo que despretensiosamente, auxiliar aqueles que têm dificuldade em entender uma fruição plena na apreciação de uma obra de arte.
A leitura, aparentemente fragmentada, do presente livro poderá induzir o leitor mais distraído a questionar seu título e subtítulo, caso este não venha a compreender que não se trata aqui de uma Dissertação ou Tese sobre Estética, nem, tampouco, de um tratado sobre o método do materialismo dialético e, sim, um livro de conteúdo claro e bastante profícuo sobre esses assuntos.
O que mais me impressiona neste livro é a fartura de análises sobre técnicas, movimentos e obras, de forma bastante clara, sem nenhuma pretensão didática, mas com uma linguagem que possibilita um entendimento bastante acessível, colocando, como que propositalmente, conteúdos com os quais se pode dialogar distintamente, no momento em que se precise recorrer ao entendimento de uma obra ou movimento em particular.
Embora não seja minha área de conhecimento específico, sinto-me à vontade para tecer comentários sobre o livro de Saraiva Filho, colocando-me como apreciador atuante das artes visuais e por considerá-las de conteúdos colaborantes e imprescindíveis à cenografia, uma das linguagens cênicas, através da qual me comunico artisticamente.
Parabéns, Saraiva, seu livro chega em muito boa hora.
Tácito Borralho
Dramaturgo e Professor de Arte da
Universidade Federal do Maranhão -UFMA
A EXPRESSÃO ARTISTA PLÁSTICO
Há termos ou expressões, em pintura e escultura, que, também, ficaram defasadas ou mudaram de sentido com o tempo, como Belas Artes e mesmo a mais nova, Artista Plástico. Belas Artes prendia-se à noção de que o artístico tem que ser o Belo, o perfeito, referindo-se, naturalmente, à copia do que era transposto para o trabalho do artista.
Quando outras formas de pintura, a bordo de novos movimentos artísticos, surgiram, surgiu a consciência de que há plasticidade no que se costuma chamar de pintura feia, não mais perfeita, como, por exemplo, as obras de Rothko, algumas de Picasso e outras de Munch. Coloca-se em destaque não mais a beleza, O Belo, mas a plasticidade da obra, tomando corpo a estética do feio. Feio, no sentido de o que a maioria das pessoas considera feio, não, simplesmente, algo ligado ao gosto pessoal.
Essa plasticidade da obra fez surgir a expressão artes plásticas, referindo-se à pintura e à escultura. Daí, o termo artista plástico, para o realizador de trabalho nesse campo. Mas, com o passar do tempo, foram surgindo outras formas de plasticidade, principalmente com o avanço da tecnologia, como o web design, o vídeo artístico, a fotografia digital, a pintura virtual, a arquitetura, pós anos 60, no Brasil, bem como outros caminhos para o modo de expressão de uma realidade plástica.
A atitude reacionária de continuar usando a expressão artista plástico, para os pintores artísticos e os escultores, faz com que fique abafada, contraditoriamente, menosprezada a questão da plasticidade, não se atribuindo essa qualidade a outros tipos de arte. Reduz-se seu âmbito, que é o de um gênero: Arte Plástica, com suas diversas espécies, inclusive o pintor artístico, que é adjetivado dessa forma, para que não haja confusão com os demais tipos de pintor, como o de paredes – não murais – o de automóveis ou móveis e outros.
Assim, artista plástico é todo aquele que usa a plasticidade em sua arte. O conteúdo que encerra a palavra plasticidade é enorme. Inclui todo tipo de arte que usa a forma e a cor ou a não cor – preto e branco -, de forma fixa ou não, podendo tanto ser um quadro, uma escultura, como as imagens de cinema e vídeo, o balé, a arquitetura, etc. Há, também, uma espécie de plasticidade no som, na construção de uma frase por um escritor e em muitos outros meios de expressão artística.
A pintura artística tem a sua forma de plasticidade própria, não importa o suporte, evidenciada no traço, na cor ou na expressão de uma idéia, no caso específico da pintura conceitual. Além disso, o conceito embutido na expressão pintor artístico diz mais de perto à sua atividade, a pincel, a tinta, a espátula, a tela, a painel... enfim, a um verdadeiro ato de criar livremente, sem as amarras de algo pré-estabelecido, como em algumas outras artes plásticas.
SOBRE ALGUNS MOVIMENTOS PICTÓRICOS
Há uma mistura, na História da Arte, entre pintura e pintores modernos, pós-modernos e contemporâneos. Essa divisão, que não é estática, engessada, entrelaça-se, mas cada uma possui características próprias de cada movimento pictórico, mesmo que o artista esteja em épocas diferentes. Pode-se ter um pintor dos anos 80 ou do novo milênio fazendo sua arte com características de épocas anteriores, como, por exemplo, o cubismo.
Isso não parece óbvio para o leigo e não acontece na classificação elaborada pelos chamados entendidos de arte que, por incrível que pareça, confundem a época em que foi feita a obra com o seu estilo. Com evidente incredulidade, essa posição foi observada ao serem pesquisados os trabalhos de artistas vivos, que pintam usando estilos de outra época, como o surrealismo, sendo a pintura catalogada como contemporânea.
Essa confusão desastrosa nos remete a uma pequena análise dos três últimos movimentos, na pintura, em que esse conflito teórico-prático fica mais evidente. Primeiro o Modernismo: no caso do Brasil, implantado oficialmente em 1922, mas, no mundo, já evidenciado em outros trabalhos, desde o final do século XIX. Esse movimento pictórico (mais tarde retomado) conta com obras surrealistas, cubistas, dadaístas, fauvistas, impressionistas, expressionistas, abstratos e outros. Como, na História, não pode haver um período demarcado da produção dessas obras, entrelaçando-se um no outro, até hoje, ainda se produzem trabalhos com as características acima.
No pós-guerra, com a desorientação mundial, foram surgindo movimentos centrados no abstracionismo, em que uma outra lógica se implantava, auxiliada por um corpo teórico da psicologia vigente à época. Foi um período fértil em produções, quando os norte-americanos queriam provar aos europeus a sua supremacia artística e, realmente, Paris deixou de ser o centro cultural do mundo, passando essa honra para Nova York. Muitos experimentos, na pintura, foram feitos nessa época, para que se desprendesse do ranço europeu.
Alguns historiadores admitem que, aí, começou o pós-modernismo, com uma nova mentalidade capitalista e o esboço de um novo sistema de vida. Esse rompimento não significa que alguns artistas ainda continuem produzindo o que caracteriza o modernismo e até obras figurativas, que permeiam todos os momentos da história da pintura. Surge, então, o expressionismo abstrato, tendo como figura exponencial Jackson Pollock, com o seu dripping, que fez muito sucesso por, aproximadamente, dez anos, valorizando-se bastante, após a morte do artista - além de outros pintores com criações inovadoras, no campo da action painting.
Instalavam-se, a partir dos anos 60, outras tentativas, como a pop art, de sucesso na área da pintura, assim como em outras áreas artísticas, revitalizando-se, com vigor, o pós-modernismo. Desse período do pós-guerra, até os anos 80 ou 90, convivemos com o pós-modernismo. Com a implantação definitiva e irreversível da informática, nos anos 90, até nossos dias, neste início do terceiro milênio, vem a arte contemporânea com muito modismo evidenciando-se, enquanto surgiam as instalações, as obras em vídeo, etc., fazendo com que as artes plásticas não ficassem aprisionadas à escultura e à pintura em tela, embora algumas dessas atividades não tenham conseguido o reconhecimento integral de sua plasticidade ou a durabilidade e a consistência necessária, para formar propriamente um movimento.
Este poderá surgir em meio ao aparente caos em que vivemos, nessa busca constante, sem que ainda apareça um movimento plástico novo, eficiente e com certa durabilidade, sem modismos, mas, certamente, muito ligado ao consumismo e à globalização.
Mas esse é o contemporâneo, onde não mais se busca uma corrente pictórica, mas cada artista, em sua área, por meio do marketing, nem sempre legítimo, usa a mídia para a promoção de seu trabalho, de forma individual, sem aquele espírito de aglutinação que houve, por exemplo, no impressionismo.
Nestes anos que correm, em início do século XXI, a existência do artista torna-se mais importante que a sua obra, dando margem a muita autopromoção, mesmo que o trabalho artístico apresentado não tenha valor, como obra de arte, neste instante da História, podendo vir a ter em um momento posterior. Fatos dessa natureza têm exemplos demonstrados com o passar dos anos, em vários casos, como o próprio impressionismo, com a sua tradicional resistência, tanto dos próprios colegas de pintura, como do público em geral, assim como em cada movimento que surgia com características de rompimento com o passado, sedimentado pela tradição.
Do mesmo modo, mas sem as características de movimento, cada artista, atualmente, busca, solitário e com o apoio da mídia, sua verdade artística na arte contemporânea.
IDEÍAS SOBRE ARTE CONTEMPORÂNEA
Quando se fala em Arte Contemporânea, sempre está presente aquilo que foi produzido nos últimos vinte ou, no máximo, trinta anos. Tem-se sempre a concepção de alguma produção artística mais recente, mas não pressupõe, necessariamente, algo novo, existindo “nesse recente” - unicamente uma questão de Tempo - a cópia do que a natureza nos oferece, a mimese da arte clássica ou a do modernismo e pós-modernismo, a questão de Conteúdo.
Assim, o real contemporâneo pressupõe que tenha existido uma evolução no campo da arte, que, por isso mesmo, adquire outro nome, passando a surgir outro contemporâneo. Nessa idéia de algo novo, em termos de criação artística, está contido o diferenciado do que até então vinha sendo produzido.
Nesse contexto, bastante amplo, podem estar inseridas pesquisas experimentais, alguma loucura sem sentido ( porque há as com sentido), ou seja, uma idéia do gasto termo vanguarda – avant-garde, olho na frente, como relembra Alicia Ortiz, no seu livro sobre Dora Maar.
Mas o que seria mesmo arte contemporânea, sob um ângulo mais profundo? Há algum tempo, certo Banco Comercial, em sua versão cultural, promoveu o levantamento de obras contemporâneas e a exposição dos artistas escolhidos. Catalogou, pelo Brasil inteiro, o que acreditava ser contemporâneo, de vez que utilizou, como critério básico, a produção artística dos últimos dois anos – no caso atual, obras a partir de 2003 - como um apanhado do que se fez nesse curto espaço de tempo, em termos de arte visual. Seria um critério primordial com outros suplementares ou um único, em essência? O que isso representa?
É necessária uma pungente definição de atributos que já existem e cabe aos historiadores e filósofos da arte decidir isso. Não aqueles critérios vagos, delimitados pelo tempo, onde são produzidas formas e cores tendentes ao abstracionismo informal ou ao abstracionismo construtivista. É preciso, antes de tudo, saber que a produção de pintores artísticos vem crescendo nos dias atuais, no mundo inteiro, adotando formas pictóricas as mais diversas, inclusive utilizando movimentos de outras épocas. Não basta, como foi dito, o fator tempo - os últimos - pois ainda se produz muito, atualmente, a cópia, a imitação da natureza, conceito de pintura nascido, de forma mais abundante, no século XVI: uma flor, um casarão na rua, uma paisagem bucólica ou não, o folclore local, etc. Não que isso deixe de ser arte, mas, jamais, arte contemporânea, mesmo que tenha sido produzido ontem.
Seria, então, a contemporaneidade na pintura a inserção de novas tecnologias vigentes? Isso, de afogadilho, como vem sendo feito, causa uma enorme confusão teórica, misturando-se arte gráfica por computador, grafismo, desenho, instalações, banners, pintura virtual, etc. Comporia, assim, uma espécie de democracia desavisada da arte pictórica: o vale tudo!? Seria a procura de novas técnicas, incluindo novos materiais, sem que estes buscassem o efêmero na natureza, para constituir quadros? Ou seria usar o papel como suporte da arte pictórica ou o paninho ordinário de algumas telas, atribuindo-se-lhes uma importância desabusada?
O mais importante é identificar, nesse contemporâneo, o surgimento de posturas que possam caracterizar os primeiros anos deste novo milênio. E, não, simplesmente catalogar por catalogar baboseiras de vida efêmera, inovações sem espírito artístico, como costuma acontecer em início de século, as quais vão se depurando ao longo do tempo. Esperamos que, assim, venha agindo o mencionado Banco, mas falta mais alguma coisa: deveria ser fomentada a criação de grupos de artistas plásticos que comungassem da mesma corrente filosófica da Arte e que caminhassem para uma evolução ou mesmo uma ruptura dos movimentos artísticos tradicionais. Não que se quisesse revigorar ou reeditar uma Semana de Arte Moderna em nossos dias, o que seria de uma estultice sem precedentes. Mas o que se observa das exposições de arte, que tomam certas cidades, é a mesmice constante, com desculpas pouco lisonjeiras de que temos uma cultura regional forte, impedindo um avanço para o universal ou que já estamos produzindo arte contemporânea, mesmo aos poucos, fato não verdadeiro. Estas afirmações, expostas em jornais locais, principalmente a última, não têm a menor substância teórica, para constituir um conceito disso que se chama arte contemporânea, como acima demonstrado.
Por outro lado, o desejo dos artistas é agradar o espectador e possível comprador com fórmulas fáceis. No caso das artes visuais, é mostrar a capacidade que tem o artista de imitar “ipsis litteris” o que existe na natureza, ou utilizar fórmulas alternativas da mesma temática, ainda que atribuam o adjetivo abstrato a seu fazer artístico. Assim, o espectador não precisa pensar, refletir, sobre o que lhe é exposto, apenas olhar e comprar.
É hora de existir uma conexão com resto do mundo, mesmo que utilizando teóricos do passado como Mâtisse, Paul Klee e muitos outros, ainda mestres da pintura, que escreveram sobre arte e fizeram arte, para se iniciar os primeiros passos a caminho de uma pintura própria. O artista de nosso tempo não pode ser um epígono!
É importante reafirmar, ainda, que a contemporaneidade nas artes plásticas não está diretamente ligada a uma questão de tempo recente, mas a uma tendência que vai se cristalizando ou não e pode se tornar um movimento pictórico. Nesse caso, assume o nome dado ao movimento e segue as vicissitudes de seu período histórico. Assim foi com o impressionismo, o dadaísmo, o cubismo o abstracionismo, etc. Perceber a formação dessa tendência, quando ela surge, é o que há de mais importante na arte contemporânea e define a necessidade de sua existência, dando evolução ao conhecimento artístico do homem, mesmo considerando a posição individualista da maioria dos pintores artísticos atuais.
Quando não chegar a formar um movimento, uma tendência atual, é imperativo que se fomentem ações que devem surgir nos próximos anos do início deste milênio, ocorrendo buscas, através de técnicas novas, um novo traço, até se caracterizar como uma tendência.
Espera-se por esse fato, como aconteceu no século passado, a partir dos anos 20.
A LEITURA DE UM QUADRO ABSTRATO
As primeiras perguntas que as pessoas fazem, quando estão diante de um quadro abstrato é: O que é isso? O que significa o que quer dizer? O que o pintor está representando? Não se dão conta de que estão diante de um quadro ou de uma escultura abstrata, significando esta uma idealização do artista, sem nenhuma conexão com o que existe na natureza ou foi criado pelo homem. E ficam essas pessoas procurando respostas, encontrando formas que não existem e nem são conhecidas pelo homem. Então, geralmente, chegam à conclusão de que nada representam e são apenas borrões de tinta ou traços alucinados de algum artista plástico louco ou sem talento, algum que chutou uma lata de tinta.
Isto se dá, porque, quem não conhece história da arte ou sua filosofia, sempre esteve habituado a ver quadros e esculturas que os artistas fizeram, durante muitos séculos, representando coisas que existem na natureza. Mas, na pintura abstrata, o artista compõe quadros, com a mistura de formas e cores, com o objetivo apenas de expressar um sentimento, uma emoção ou a simples plasticidade, sem querer deixar um recado, uma mensagem explícita. Outras vezes, deseja imprimir uma idéia, por meio da arte conceitual.
A apreciação do objeto de arte pressupõe a síntese do conhecimento humano, no que diz respeito ao campo científico: a física, a química, a biologia, a anatomia, a sociologia, a antropologia e demais ramos do que é conhecido como ciência exata ou não, embora sem um grande aprofundamento. Essa frase pode parecer absurda ou óbvia, pelo choque que pode causar em um primeiro momento, sem reflexão. Mas, para se valorizar e contextualizar a produção artística, é necessário, também, que se distinga o instrumento semântico a ser usado no entendimento da arte figurativa, como no da arte abstrata. A separação desse instrumental faz com que não se utilizem conceitos como luz, sombra, perspectiva e alguns outros na arte abstrata.
A obra figurativa tem o seu instrumental próprio, onde se busca representação da natureza bem nítida, sendo que a forma, assim como a cores, tem uma significância fundamental, como, por exemplo, em um quadro de Vermeer, de Renoir ou na escultura de Rodin. No abstrato, nem sempre, a forma tem relevância, nem é determinante para o entendimento do que o artista quer transmitir e as cores assumem um papel primordial, em termos de contraste, jamais de luz e sombra. Utiliza-se outro instrumental teórico e semântico, como a perspicácia da pincelada, o expresso sem ser evidente e alguns outros.
Há, no apreciador de arte, uma espécie de “cacoete” do figurativo, ao analisar a obra abstrata. Isso tem trazido grandes contratempos, quando são vetados objetos artísticos, por mentes arraigadas aos conceitos rígidos do instrumental clássico, ao verificarem, no abstrato, a ausência da técnica figurativa, que, por definição, não está lá. Muitos artistas de talento foram preteridos, a partir desse fenômeno, deixando de ser valorizado o seu trabalho, por existirem, ainda, apreciadores antiquados, que confundem os instrumentais semânticos.
O clássico tem o seu lugar no mundo da arte com a sua beleza peculiar, as suas especificidades encantadoras, a sua magia e seu fulgor mágico. Já o abstrato, principalmente o Expressionismo Abstrato, tem o seu lugar na arte pós-moderna, assim como o Livre Expressionismo ou neo-pós-moderno não muito bem contemplado pelos críticos e pelos autores da História da Arte, que, em sua grande maioria, não passa da fase dos anos 60, do século passado para cá e nem alcançam a arte contemporânea, como já foi explicitada.
O contemporâneo tem contra si o alegado período de distanciamento para a sua apreciação correta, mas a virada do século XXI traz um momento próprio e definidor que engole esse distanciamento, com a grandiosidade de novos conceitos ligados à tecnologia, onde se abandonam as concepções tradicionais, como é o caso do advento, por exemplo, da produção artística virtual com uma força nova, diferenciada de alguns arremedos cometidos na segunda metade do século XX.
Esse novo mundo virtual, onde não há mais o quadro em seu aspecto físico tradicional, com ou sem a tela como suporte artístico, traz outra dimensão à apreciação da arte abstrata, com formas e cores novas. Isso pode assustar o expectador, pela falta de entendimento do novo, causando o usual medo do desconhecido, mas é uma arte que veio para ficar e se expandir. Pressupõe uma nova forma de liberdade na pintura!
É conhecida a utilidade e indispensabilidade do computador, seja qual for a sua forma no mundo moderno. A arte criada e exposta no computador vem mexer com questões fundamentais no mundo da arte, como a necessidade relevante da existência de museus, a questão do preço da obra de arte e todo o glamour e mistério que envolve esse mundo próprio e fechado. Isto, sem falar na supremacia dos marchands e curadores, popularizando-se, sem massificar, as concepções da criação artística.
Esse contemporâneo modifica totalmente a apreciação do objeto de arte e demanda um entendimento aberto, uma mente capaz de absorver essas mudanças, coisa que, contraditoriamente, não é fácil nos meios artísticos e nos meandros do trato com a arte. É preciso saber sentir e perceber esse futuro presente!
A LIBERDADE NA PINTURA
Como não se costuma fazer, este artigo terá, logo no início, umas citações. A primeira, de 2003, de Alicia Dujovne Ortiz, escritora Argentina, em seu livro “Dora Maar – prisioneira do olhar” ─ da ed. Imago - que estabelece a forte diferença entre fotografia e pintura. Diz a autora: “ Curioso processo de uma arte relativamente nova, que liberou a pintura de sua obrigação de realismo e que, como se sua própria vocação não fosse suficiente, tentava copiar a liberdade da pintura”. A segunda, mais adiante, no mesmo livro, cita a famosa fotógrafa Tina Modotti, Ítalo-Mexicana, em 1929, quando esta diz: “ Eu me considero uma fotógrafa, nada mais, e se minhas fotografias se diferenciam do que geralmente é produzido nesse domínio é que eu não tento produzir arte, mas fotografias honradas, sem truques nem manipulações, enquanto a maioria dos fotógrafos ainda procura os ‘efeitos artísticos ‘. “Na opinião dela”, continua Alicia Ortiz, baseada no livro de Madotti, “ Sobre la fotografia “ - “ esses fotógrafos têm ‘um complexo de inferioridade,“não apreciam o que a fotografia tem de especificamente seu, de algo que lhe é muito próprio e preferem recorrer a toda espécie de imitações, de tal forma que suas obras dão a impressão de que, quem as faz, quase tem vergonha de dizer que faz fotografia”
Essas idéias tocam na importância da fotografia, não como artes, o que não ocorre atualmente e, ao mesmo tempo, lembram a razão intrínseca da pintura que é a sua liberdade. Essa mesma liberdade que só se encontra, também, na escultura e em nenhuma outra forma de expressão artística ligada às artes plásticas. As artes gráficas e, não, a pintura no computador, não conseguem, por exemplo, dar o relevo real que se faz na tela, apenas aquele sugerido pela arte clássica, com a sombra e a luz ou com o claro e o escuro. Na pintura virtual, isso não ocorre.
A fotografia tem o seu espaço, não somente nas festas de criança e nos casamentos. Ela vai muito mais longe. Chega a atingir o patamar de Belas Artes, como a pintura e a escultura. Mas lhe falta a liberdade integral, tolhida que é pelo objeto, por aquilo que lhe é dado, pelo modelo, humano ou não, mesmo fotografado em ângulos diferenciados, mesmo com o avanço tecnológico maior, assim como acontece com o computador. O instrumento, neste caso, apenas capta, cerceia a criação, o que não acontece na pintura, onde até as próprias mãos do pintor, embrenhadas nas cores, podem ser o instrumento e isso se consegue, também, na pintura virtual, com software próprio. A liberdade da criação é intensa e pode até não se estender ao simples âmbito de uma tela ou um painel. Não tem limite para seu suporte material. A liberdade da forma, na pintura, jamais se iguala à da fotografia, onde se necessita auferir algum tipo de imagem, montar ou ter um cenário, por mais esdrúxulo que seja, ou aproveitar a realidade existente. Depois que a pintura e a escultura se livraram da escravatura do modelo, da fidelidade ao real, do copismo e do colorismo, não há mais grilhões para sua criação. Esta, porém, é uma posição que pode estar sendo revista, dado o avanço tecnológico, embora não se produza fotografia do nada, como o pintor o faz na tela em branco.
A arte, chamada de moderna e pós-moderna, ainda se fixou em algumas formas pré-existentes, como acontece no cubismo – formas geométricas existem há séculos - no surrealismo, no impressionismo e até no expressionismo e em tantos outros movimentos pictóricos do século XX. Isso não ocorre na arte contemporânea que procura se despregar dessas formas tradicionais e buscar cores e combinações de cores entrelaçadas, de tal forma, que criam uma unidade.
Essa questão das cores é outro aspecto que a máquina não limita, na grande maioria dos casos, dependendo do software utilizado. E, hoje, com a fotografia digital e as ilhas de computação gráfica, fala-se apenas em informatização artística e não produção artística. Isso faz alguns pensarem, até, no fim da pintura em telas, em painéis, da forma como vem sendo feita há muitos anos, o que nos parece uma possibilidade, desde que a informática artística avance de tal maneira, principalmente no aspecto reprodução – novo tipo de impressora mais acessível economicamente - como vem fazendo, produzindo pintura com espátulas, pincéis e seus relevos, em camada alta e baixa. O mesmo aconteceu com as tintas feitas à mão, desde o século XIX, que foram substituídas por tintas feitas em laboratório e acondicionadas em tubos, o que deu maior liberdade ao pintor artístico. E, atualmente, o computador.
Não se convencer disso seria negar a evolução histórica do ser humano, mas devemos chamar a atenção para o fato de este avanço tecnológico não desvirtuar a própria natureza humana, como já vem acontecendo, em nome da velocidade, da pressa, da quantidade, do capitalismo selvagem, que, por outro lado, cria o estresse, a vida atribulada e a ausência do homem como animal.
Mas, voltando à fotografia e à pintura, a tendência é que estas operem uma fusão, como já existe em nossos dias, visivelmente, por exemplo, em camisetas e na web design e em exposições. O aperfeiçoamento tecnológico disto faz com que, tanto a informática, quanto a fotografia, numa espécie de terceiro gênero, criem juntas mais liberdade, sem atingir, porém, a da pintura, “pintando” em tecido próprio, a lona branca e vazia, sem nenhuma foto, em máquinas especiais operadas pelo homem, como se este estivesse com pincéis e espátulas, mas, na verdade, apenas operando um máquina múltipla – a impressora. Essa máquina já existe, falta apenas a sua difusão e seu acesso facilitado.
Quanto ao quadro, como o conhecemos hoje, é uma questão que se iguala à do livro. A forma física de apropriação da informação pode se alterar ou não, mas talvez permaneça por muito tempo em seu formato e suporte conhecido.
Sendo assim, a fotografia não precisa mais de contorcionismos, para se tornar arte. Ela é a própria, com uma forma própria, até com altos e baixos relevos feitos com tinta e alcança essa nova forma de artes plásticas, que não é pintura, nem fotografia, ganhando os horizontes de sua liberdade, sempre limitada a um modelo prévio – a foto. Já a pintura, desgarrada de quaisquer vínculos, de qualquer liame com a natureza, brota irreverente ou certinha, da cabeça do pintor, para uma base limpa, livre de qualquer interferência, sem ser conspurcada por uma imagem prévia e aflora, retumbante, em um suporte, tendo ali o seu nascedouro.
É possível que se levante a questão de que toda essa liberdade da pintura pode ser tolhida pelo mercado, pela tela de encomenda ou pela orientação de um curador de arte. Mas cabe ao artista saber assegurar a sua liberdade de criar, sem que se curve a modismos ou contrarie a sua maneira de ver a vida, em nome de um sucesso, que pode ser passageiro e não vale o “preço” da venda de seus ideais artísticos.
O LIVRE EXPRESSIONISMO
Esse movimento pictórico, que está surgindo neste começo de milênio, também chamado de expressionismo livre ou neo- expressionismo, tenta libertar-se das amarras da parte técnica da pintura, que os movimentos anteriores, por mais libertários que procurassem ser, não conseguiram fazer. Cobra-se sempre a técnica, mesmo no abstrato e no expressionismo, tais como os conhecemos; e é a libertação disso que esse novo pensar vem trazer.
Constitui-se essa forma de pintar, basicamente, na ruptura definitiva com as regras da técnica de pintar. Ao longo da história da arte, muitos movimentos artísticos tentaram se liberar do figurativo bem acabado, mas sempre estiveram adstritos ao “bonitinho, ao engraçadinho” ou ao decorativo. Assim, acaba-se com o “bem acabadinho”, como na pintura figurativa, como, por exemplo, no caso de uma paisagem.
O Livre Expressionismo tem como característica os traços fortes, aparentemente ao acaso, sem completar-se com a integridade da tinta no pincel . A ruptura se dá, realmente, não só com a quebra das regras de pintar, mas, principalmente, com o distanciamento da pintura de outras formas de expressão pela imagem, como o desenho gráfico, o web design, a pintura figurativa, não demonstrando coisas da natureza, todas certinhas, como se fosse uma fotografia tradicional. Essa “qualidade de acabamento” não está presente nesse movimento, livre de regras, que se alarga, além das fronteiras tradicionais da pintura.
O mesmo choque que o impressionismo causou no famoso Salão de Exposição em Paris, guardadas as devidas proporções, está acontecendo com o Livre Expressionismo, que, também, causa horror nos puritanos da pintura, que dizem faltar técnica, como diziam do impressionismo, no qual faltava precisão nas imagens retratadas. No Livre Expressionismo alegam falta de técnica, pelos traços planejadamente desajeitados – ver obras de Rothko - pelo não completar da tinta na forma, pela presença do “spilled”, de que falaremos a seguir e outras características que são identificadas nesse movimento novo.
Como no abstracionismo, não se trata de não saber pintar, mas de buscar novos caminhos, para libertar a pintura de outros modos parecidos de pintar, como já citado. A comparação com o figurativo e o desenho gráfico é gritante e acachapante. Por isso, não se exige, no Livre Expressionismo, aquela primorosidade viscosa, brilhante e decorativa que vende muito. Já dizia Kurt Vonnegut, escritor americano, que “As Artes não são uma maneira de ganhar a vida, são uma maneira de torná-la mais suportável”.
Ao contrário desse objeto decorativo que a grande maioria das outras formas de pintar proporciona, o Livre Expressionismo, também, não se confunde com o abstrato conhecido, que, simplesmente, nega as regras de pintura anterior, mesmo em suas mais diversas formas. Ele rompe com a concepção do belo, da perfeição, enquanto o abstrato conhecido ainda busca a estética antiga, por mais vanguardista que seja.
O Livre Expressionismo traduz emoção e imaginação, por meio de um falso improviso, não só pela forma descuidada, com espátulas, pincéis e dedos, mas pela cores, as nuances, os devaneios pictóricos do pigmento e, por isso, foge a qualquer atitude comparativa com outros movimentos existentes.
Para concluir, Picasso dizia: “Levei 90 anos para aprender a pintar como criança”. Isto explica bem o que aqui se quer expor e a essência da anti-regra na técnica, com a nova estética, a qual parece se firmar como primeiro movimento sério a ser concretizado nestes novos tempos e até confirmado nos altos preços alcançados nos leilões de obras de arte.
O MÉTODO SPILLED
Esse método de pintura (técnica é o material que se usa) não foi ainda tentado com sucesso, principalmente por ser confundido, por alguns, com a pintura com aquarela. Mesmo no início dos anos 50, quando a efervescência criativa estava em alta e quando surgiram grandes inovações no expressionismo, não há registro de que o uso de tinta espessa líquida tenha sido conduzido pelo pincel, com a tinta derramada, criando cores e formas novas.
Spilled é derramado, em inglês, como dripping é pingado, método usado por Pollock, em sua fase áurea. Mas não é um simples derramado, como se faz aleatoriamente, por descuido até, em uma tela, criando borrões, objeto de muitas piadas conhecidas com a pintura abstrata.
Há uma intenção, ao ser derramada a tinta sobre a tela. Esse desejar certo objetivo começa com a viscosidade da tinta, que não pode ser a que vem pronta, em latas e tubos. O artista tem que prepará-la, na dosagem certa, obedecendo a seu desejo. Disso depende, também, o bom resultado da pintura, das nuances alcançadas. Esse é um ponto importante: não basta derramar tinta sobre a tela. É preciso orientá-la com pincel, com espátula ou com os dedos, para se obter uma forma pensada. Não é deixar que o acaso seja o pintor. Este interfere na tela, para dar a forma e a tonalidade pré-concebida, mas, dependendo do tipo de tinta usado, há um tempo para movimentar a tinta sobre a tela, para que se atinja a meta a alcançar.
Esse método não exige um esboço, como nos demais métodos conhecidos - a não ser aquele que está na cabeça do artista - nem aqueles passos tradicionais de enquadrar o pintado na tela ou a necessidade do desenho. Compõe, assim, o Livre Expressionismo, de que já falamos, onde a liberdade de expressar-se está não somente na aparência de uma pintura, aparentemente, inconclusa (como está no artigo anterior), mas no spilled.
É a verdadeira expressão do artista na hora de pintar, sem estar preso a um tecnicismo de sombras e luzes, às pinceladas perfeitas, àquela coisa “bonitinha” e “bem acabada”, mas na imperfeição como perfeito, embora essa idéia de Perfeição seja religiosa, que tem como contrapartida a culpa e o “pecado”, valor adotado pela burguesia há muitos séculos e exacerbada com o romantismo do século XIX, infelizmente, ainda hoje, adotada como ditame da hipocrisia e exposta, na arte, como veremos depois.
Essa forma de pintar vem quebrar com esses valores, implodindo esses ideais conservadores, ao ser a verdadeira expressão do artista na hora em que pinta, acendendo a sua inquietação, gerando estresse, esforço mental e físico, como deve ser a pintura. E não aquela calmaria, aquela tranqüilidade aquele “relaxar”, como pensa a maioria das pessoas. É um trabalho e, como tal, exige muito do pintor, como se fizesse outros tipos de trabalho. Trata-se de um trabalho manual e intelectual, ao mesmo tempo.
Não há somente o acaso o “vamos ver como fica”. Há um direcionamento, uma intenção demonstrada. Se vai ser apenas uma tela decorativa, veremos em outra oportunidade.
AGUADO COM PINCEL
Pode existir a possibilidade de ter sido descoberto um novo método na pintura, como aconteceu com vários pintores, a exemplo de Jackson Pollock que criou o seu dripping ( pingado), realizando obras importantes com esse método. Não é, também, uma técnica, como, por exemplo, acrílico sobre tela, óleo sobre eucatex, óleo sobre tela, etc.
O método trata de dissolver a tinta do tubo em um pequeno recipiente, até ficar não muito rala. No caso da tinta em lata, tem-se que verificar a grossura da tinta nesse recipiente e, também, não deixá-la muito rala. Após isso, é derramada, no material usado como suporte artístico, com critério, obedecendo à forma desejada. Depois, passa-se o pincel e espalha-se a tinta ou sacode-se a tela, também obedecendo à forma pretendida. Podem ser várias ou uma só cor, conforme o desejo do artista.
Está sendo chamado, provisoriamente, de Aguado com Pincel ou, aproximadamente, em inglês, de Paintbrush Watercolor e, pela descrição e expressividade que tem esse método, seria interessante que se encontrasse a expressão ou palavra correta.
Está em inglês o nome do método pela inequívoca universalidade da língua, que, infelizmente, não é o caso da nossa. É importante fixar a autoria deste método!
Voltando à pintura, fica ressaltado que essa descrição não se dirige somente a artistas plásticos, mas a todos aqueles que se interessam por arte, como apreciadores.
Esse Método, pela lei brasileira, é, razoavelmente, considerado Direito Autoral ou Propriedade Imaterial, devendo o artista ser conhecido, para que ninguém se aproprie do Método como seu. Daí, estar sendo exposto aqui.
A seguir, apresenta-se uma tela com um exemplo do métod o.
OMÉTODO DO MATERIALISMO
DIALÉTICO APLICADO À ARTE
Até hoje, a grande maioria dos livros escritos por autores famosos, referindo-se à Filosofia da Arte, pelo menos os que são mais difundidos, utiliza-se do método empírico ou do método sistêmico, do fenomenológico ou do semiótico, o que, por sua natureza, não consegue explicar o que é arte ou um objeto artístico. Chegou mesmo a ponto de filósofos, como Morris Weitz, proporem que se abandonasse a idéia desse conceito, afirmando que a arte não pode ser definida.
Quanto ao método do materialismo dialético, é atribuído seu uso, na arte, a expoentes intelectuais, como Walter Benjamim e outros integrantes da Escola de Frankfurt e a vários autores, inclusive a Karl Marx, que pretendia a arte engajada à causa dos trabalhadores. Isto por serem simpatizantes do comunismo, proporcionando uma tremenda confusão no campo metodológico, pois se confundia, como se confunde até hoje, o comunismo, a práxis da teoria marxista com o método marxista de análise das relações sociais.
Poucos são os que entendem o método do materialismo dialético, que nada tem a ver com a teoria do comunismo. O método, básica e sinteticamente, consiste em analisar um fato ou fenômeno social (não confundir com fenomenologia), a partir de contradições internas do sistema, ou seja, utilizando a conhecida máxima popular de que toda moeda tem o seu contrário, mal comparando.
Partindo-se, assim, para uma definição de arte, são evidenciadas todas as suas contradições, em vetores diferentes, um indo outro vindo, sem utilizar a batida fórmula de “vantagens e desvantagens”. O fenômeno social, em si, é contraditório, como, por exemplo, no caso da arte: ao ser apreciado o objeto de arte, não se busca mais a emoção e o sentimento do artista (teoria da expressão), mas a ótica do espectador. Mas que ótica? Não aquela da simples apreciação pela beleza e a da expressão que o artista demonstrou, mas a ótica da visão de mundo do espectador, sua maneira de pensar e conceber a arte, suas experiências de vida, seu histórico instrucional. Isso determina se o objeto é artístico e o seu valor material, a partir de um consenso de pessoas que têm influência no meio social ou daquelas que são detentoras do poder de formar opiniões, como, por exemplo, os jornalistas e professores. A opinião dessas pessoas, expressa publicamente e a partir de suas visões de mundo, irá determinar se há arte em um determinado objeto e, até mesmo, o que é arte.
É lamentável que o método do materialismo dialético não tenha ainda alcançado a arte, pelo menos não da forma como foi concebido por Marx no posfácio do livro ”A Ideologia Alemã”. Lá fica evidenciando um raciocínio em forma de “U”, de onde se parte de um conceito, vão-se identificando as contradições desse conceito, as formas como é processado pela sociedade, a sua aplicabilidade, até chegar ao mesmo nome do conceito original, mas com outro conteúdo. Isso ainda não acontece com a Arte, infelizmente. O que se observa, nos conteúdos publicados, é uma forma simplória do empirismo, um enfado fenomenológico e, até mesmo, a forma incorreta do uso do método do materialismo dialético.
Ao serem ministradas as disciplinas Filosofia e História da Arte, é trazido, para os alunos, o raciocínio desgastado de antigos autores, fazendo com que eles não possam entender o cerne da arte, a sua aplicabilidade social e a resposta dessa aplicação da definição de arte e do objeto de arte. Ficam os professores na mesmice da lógica do senso-comum, passando para o aluno um discurso, muitas vezes eloqüente, literário, mas de onde não se pode tirar nada concreto. Isto ocorre, porque não são estudadas as várias realidades sociais, dependendo de classe ou segmento social e a análise da resposta desses setores sociais, mas a análise é feita pelo que lhes é apresentado como arte, sem que isso seja questionado.
Por outro lado, os críticos de arte se servem, também, de conceitos ultrapassados, para analisar o trabalho de um artista. Utilizam, quase sempre, as Teorias do Belo e a Teoria da Expressão, assim como a Teoria da Percepção, sem jamais atingir a própria essência da arte, que é a resposta social das diversas classes sociais ao(s) objeto (os) produzido (os).
É fundamental, portanto, que se estude mais o método marxista do materialismo dialético, sem a Teoria Marxista, que é o Comunismo. Uma coisa não se comunica com a outra. São realmente bem distintas, se estudadas à luz da Teoria do Conhecimento.
A TEORIA DO CONTEÚDO SIGNIFICANTE X A TEORIA DO CONTEÚDO DO ESPECTADOR
Dentro da Teoria Essencialista, há três teorias que buscam identificar o que é arte e o que é objeto de arte. Essa Teoria Essencialista, exposta aqui de forma bem sucinta, tenta encontrar uma essência da arte que seja comum a todas as obras de arte, consideradas desse modo ou não. Por ser uma tarefa hercúlea, pretende-se sintetizá-la, para, a partir disso, expor uma nova teoria – a Teoria do Conteúdo do Espectador – onde se utiliza o método do materialismo dialético, a forma mais próxima de explicação da realidade nas relações sociais concretas.
Primeiro, para melhor entender a Teoria Essencialista, é necessário demonstrar que ela pode se apresentar sob três aspectos:
A) A Teoria da Imitação
B) A Teoria da Expressão
C) A Filosofia da arte, ou seja, a estética.
A primeira diz que só é arte aquilo que imita a natureza ou o que nela existe. Essa teoria possui várias limitações, sendo a principal aquela que impede a inclusão das obras abstratas. A segunda refere-se à emoção que o artista sentiu, ao realizar a obra de arte, colocando seus sentimentos a serviço de seu trabalho e necessita de inspiração, como algo fora do comum, esquecendo-se de que essas obras de arte são fruto de pesquisa, de um trabalho paciente e minucioso, com muito suor, no sentido de aperfeiçoar o objeto artístico, eliminando, desse modo, os defeitos inerentes a qualquer produto unicamente emocional. Se a obra de arte fosse fruto da emoção do artista, como se explicaria as que são feitas por encomenda? Ou aquelas aleatórias, como as conhecidas como “música de elevador”, feitas com recursos de som produzidos ao acaso? Mas essa teoria, ainda hoje, é aceita pela maioria das pessoas, principalmente leigos, sem qualquer questionamento, através de frases como “ o que estaria pensando o artista no momento de concepção dessa obra” ou “como estava apaixonado o poeta ao fazer essa poesia de amor” ou, ainda, “ esse pintor estava passando por um momento emocional difícil ao elaborar este trabalho”. Estas são expressões de desconhecimento do processo criativo de uma obra de arte. Podem ocorrer sentimentos e emoções do artista, mas isso não é fator determinante na compreensão de um objeto de arte.
Por fim, a Filosofia da Arte vem esclarecer o que costumam chamar os filósofos da arte de forma significante ou Teoria Formalista, em que não interessa a emoção estética e o sentimento do artista, mas a do espectador, demonstrando o que este sente, para definir um objeto de arte. Essa Teoria tende a jogar no espectador o que seu sentimento pessoal determina - o chamado gosto individual, aquele equívoco de que “cada um tem seu gosto”, o que não é verdadeiro.
Propõe-se uma correção de rumo a essa Teoria. Ela não deve ser formal, mas material, ou seja, de conteúdo do espectador. É que essa emoção estética – esse sentimento que toca o espectador - vem de sua visão de mundo, de seus valores, de sua maneira de encarar a vida, de sua religiosidade ou não, de seu referencial teórico e de seu conhecimento sobre arte, ingredientes que não são individuais, mas de segmento social ou até de classe social. Caso contrário, a Teoria Formalista serviria apenas para a pintura. Se uma pessoa da classe mais favorecida economicamente - da classe média ou mesmo da classe social alta - mas sem cultura geral, por exemplo, olhar uma instalação como a de Robert Morris – placas de madeira com espelho – irá ter em mente que aquilo não é arte, mas caixas com espelhos arrumadas, aleatoriamente, em um espaço e não perceberá as nuances do trabalho do artista, nem o seu significado. Outro exemplo seria a obra que se utiliza um terço católico, para fazer as formas genitais das pessoas, a qual foi proibida de participar de uma exposição coletiva.
Esse “acervo” de conhecimento, que cada pessoa tem, junto com seus valores e dogmas, é que determina se existe arte ou se a sua tradução é um objeto de arte. O grau de profundidade desses elementos ou sua superficialidade faz com que se aceite ou não uma obra de arte, principalmente a abstrata. Quando não se entende o que é mostrado, seja a música, a pintura, a escultura, a literatura, etc, tenta-se esconder isso através de brincadeiras que desqualificam o objeto de arte, não lhe atribuindo qualquer valor ou simplesmente o rejeitando. A reação pode ser contrária, também, ao ser valorizado como arte o objeto, pois a pessoa consegue compreendê-lo e reconhece a sua proposta, dependendo da plasticidade.
Daí a importância da existência da compreensão do que seja a Teoria do Conteúdo do Espectador para se entender o que é arte ou um objeto de arte. De acordo com essa teoria, a Visão de Mundo é o limite a que a pessoa chega, em termos de abstração e aceitação de raciocínios surgidos da realidade e transformados em teorias. É o que a pessoa compreende acerca de determinada coisa, dentro de seu mundo de conhecimento ou pensamento, limitado ou não e dentro de suas experiências pessoais ou de sua classe social. Se essa pessoa adere ao que a maioria pensa sobre uma coisa ou sobre as relações sociais, sem questionar - o consenso - ou se rebela contra esse pensamento comum e massivo, pode criar alternativas que poderão fazer surgir outro consenso. Isso é que vai, na concepção de arte, influenciar sua definição. Arte é arte, porque a maioria das pessoas pensa assim sobre determinado objeto.
Esse retorno, essa resposta do espectador nos dá uma visão do método do materialismo dialético aplicado à arte, de vez que inclui, também, a emoção do artista, evidenciando os dois vetores: o que a obra de arte mostra e o outro vetor, pelo lado do espectador e sua visão de mundo, estabelecendo-se a contradição interna, fazendo surgir o conceito de arte. Isso facilita a análise da arte, pois faz com que se abandonem as visões empíricas ou sistêmicas, usualmente utilizadas, na concepção de arte e estabelece o contraditório, coisa que não é contemplada por filósofos conhecidos.
Com a Teoria do Espectador, explica-se o que é arte e objeto de arte.
A IDÉIA DE PERFEIÇÃO NA ARTE
Para que se entenda melhor o conjunto de valores contidos na Arte Abstrata, no Livre Expressionismo e na própria Arte Contemporânea, até mesmo na arte chamada de clássica ou figurativa, é necessário penetrar no secreto e misterioso valor e dogma da Perfeição.
A idéia de perfeição é uma concepção que se consolidou no cristianismo, em suas mais diversas formas, assumidas atualmente e está ligada a outra noção: a de pecado e culpa. Há uma idéia de perfeição, oriunda dos gregos e sua filosofia, mas houve a prevalência do domínio das terras e, logicamente, da filosofia romana, sobre perfeição. Esse ideal grego foi, à época, relegado a segundo plano pelo surgimento do monoteísmo. Com o domínio do Cristianismo, no mundo, esse dogma da perfeição fortaleceu-se de forma visceral.
Quando foi reconhecido por Roma o movimento do Cristianismo, por volta dos anos 363 D.C., aproximadamente, foi necessário erigir uma imagem de um ser sagrado, divino, a “imagem do monoteísmo”, como meio mais fácil de dominação e exercício do poder pela Igreja. É, até hoje, uma doutrina singular que tem a sanção e a penalidade diante dos homens. Utiliza-se de meios coercitivos e coativos, tendo o pecado como o crime e o reconhecimento da culpa, como penitência, para aliviar ou extinguir o pecado. Na idade Média, a Igreja chegou a vender indulto ao pecado, como forma de extirpar a culpa. Mas, para isso, deveria existir o perfeito, representado por Deus e Jesus Cristo.
Nas Imagens sacras, ícones dessa representação, há sempre uma aura de serenidade e luz. Jesus Cristo está sempre com a imagem de alguém de olhos azuis ou verdes e longos cabelos loiros, transmitindo o que acham ser a idéia de perfeição, sem se questionar a origem étnica de Cristo, moreno, de nariz longo e vergado, olhos pretos e cabelos ondulados, como Palestino que era. Mas esta última descrição não satisfaz um ideal de perfeição, onde acham que deve estar presente a raiz étnica ariana.
Esses traços de representação, em esculturas e pinturas, depois ampliados para outras formas de arte, não ficaram somente na pessoa retratada, mas vieram para o campo dos valores e dogmas, que apregoam a idéia de um ser sem mácula, um ser perfeito e inigualável, objeto de adoração. Essa idéia foi absorvida pela arte – não só na arte sacra - onde o perfeito é aquele sem defeito, todo certinho, imitando as coisas que existem na realidade. Nada mais imperfeito!
A perfeição, nas artes, em especial na pintura e na escultura, representa o valor máximo do Cristianismo – e não só do catolicismo – buscando-se a cópia fiel de uma figura etérea, imaculada, isenta de defeitos. O retrato da incolumidade passa a ser o valor maior, transformado em dogma, para ser adorado e seguido.
Os artistas da época e até os atuais ainda palmilham esse caminho, fazendo refletir, na arte, a perfeição, com tudo em seus devidos lugares e cores idênticas à do objeto real – o ideal de perfeição. Movimentos pictóricos, a partir do século XIX, rebelaram-se contra essa perfeição, como o Impressionismo e o Expressionismo, o Realismo Fantástico, o Surrealismo, o Abstrato em suas diversas versões, entre elas, o Expressionismo Abstrato, além de outros movimentos. Houve uma fase até de negação, a não-pintura, o desconstrutivismo.
Assim, com a rebeldia instalada e, posteriormente, incorporada à noção de arte, existem, ainda os que pensam em “técnica”, ou seja, aquele resquício da perfeição assombrosamente inconcebível em um trabalho artístico de vanguarda ou não, onde devem prevalecer outras concepções de conjunto, de combinação, não importa a forma e a cor, o certo e o errado. Inclusive essa idéia de certo e errado vem de Mal e Bem, também criações incorporadas do Cristianismo. Falamos sempre em Cristianismo e suas diversas formas, como o protestantismo e suas correntes de pensamento, somente porque é o valor predominante. Mas essa idéia de perfeição, também, há em outras religiões, onde a perfeição é chamada de harmonia, de paz, etc.
São poucos os que atentaram, com clareza e lucidez, para o fato de que o perfeito é o imperfeito, na medida em que sua gama de nuances foge a um padrão pré-estabelecido, consistindo aí a sua beleza. O traço malfeito, a cor estranha para o usual, a ausência de rimas na poesia, a música aparentemente sem sentido, a prosa com aparência de desencontrada e confusa, a escultura sem guardar os parâmetros da simetria, desenquadrada e disforme, são características ainda não plenamente aceitas.
A idéia de Livre Expressionismo, que não deixa de ser, de certa forma, um pleonasmo de reforço, também não é bem aceita pelo grande público, somente para alguns entendidos. É confundida com falta de talento, trabalho mal feito, sem técnica, mas, no fundo, representa a falta de orientação do espectador, que deixa de ter os paradigmas, aos quais está habituado, para analisar uma obra de arte.
O imperfeito, para usar a terminologia antônima, é a verdadeira arte contemporânea, feita com espontaneidade, ao construir a nova estética, com plasticidade diferente, que não se submete ao certinho e inexpugnável do ideal da perfeição.
A PINTURA ABSTRATA E SEUS MOVIMENTOS
A concepção do abstrato, na pintura, foi expressa ao público no final do século XIX, começo do XX, por meio de quadros artísticos, que tentavam superar o figurativo da pintura clássica.
Para fugir a essas concepções, muitas tentativas foram feitas, mas Vassaly Kandinsk, em 1917, chegou à abstração total, retirando qualquer vestígio do figurativo em suas obras, embora já tivesse, nos primeiros anos do século XX, conseguido pintar o abstrato. Nasce o abstrato, propriamente dito, na pintura, mas ele vai assumir diversas formas, principalmente no período da arte moderna, com o cubismo e outras manifestações pictóricas, como o fauvismo, o futurismo, o próprio surrealismo (que se pretendeu filosofia), resquícios do impressionismo e do expressionismo puro, embutidos em um abstrato que só chegou, verdadeiramente, ao Brasil, na década de 40 do século XX.
O pós-Segunda Guerra, como na primeira, trouxe uma ebulição no mundo da arte. Após a Segunda Grande Guerra, começou a mudança das atenções artísticas de Paris para New York, produzindo concepções novas e fazendo surgir uma outra pintura abstrata, mais complexa, principalmente a partir dos anos 50. É um período tão conturbado, artisticamente, que quase tudo foi tentado, como forma de buscar uma maneira nova de se expressar pela pintura. O Expressionismo abstrato teve o seu período áureo, mas foi logo abafado pelo pop-art dos anos 60.
Mas o que nos interessa, aqui, ressaltar é que, na arte contemporânea, os próprios movimentos artísticos estão todos englobados, de certa forma, até os considerados como pintura abstrata. Ou melhor, a produção artística, no abstrato, contemplando antigos movimentos figurativos, impressionistas, cubistas, como que ressuscitam esses movimentos dentre de um contexto abstrato, assim como no pop - art, e nos dias atuais.
Esse fenômeno, que pode parecer falta de criatividade, incorporando, inclusive, outros meios artísticos, como a fotografia e o vídeo, o cinema, vem retratar a configuração de um período confuso para a história da pintura, onde a saída mais palpável está na pintura computadorizada, sem se confundir com a arte gráfica ou desenho gráfico, ou às poucas limitações artísticas ainda existentes em alguns softwares de pintura.
Nota-se, na arte abstrata pura, sem resquícios de figurativismo ou outros movimentos, a necessidade da criação de palavras ou expressões que definam a sua principal característica, que são as cores, para definir esse novo conjunto, ressasaltando-se a sua tonalidade, sua saturação, a textura e outros elementos primordiais na pintura abstrata de forma que, ao observar-se um quadro, tenha-se em mente não a forma criada, mas a avalanche de cores ou uma só que transmita um sentimento ou emoção, a partir da visão de espectador e não do artista. Há uma carência de instrumental teórico para dar substância à pintura abstrata, de vez que são usados os mesmos parâmetros e pressupostos de outros movimentos pictóricos, inclusive no que diz respeito à filosofia do abstrato, salvo a Teoria do Espectador.
Essa filosofia, ainda embrionária, tem como cerne a pertinência do raciocínio, da concepção e da compreensão do abstrato, como, por exemplo, o medo, a memória, o tempo curto ou longo, o desejo, o êxtase, etc. Mas não se filosofa por esse ângulo, na pintura, com a representatividade que se possa ter nesse contexto pictórico. Aí já não basta ficar nas cores ou formas que assume, mas no significado filosófico e não psicológico dessa pintura.
É muito fácil representar o medo, por exemplo, na violência urbana, nas armas, nos conflitos de rua, na caracterização de gangs ou, individualmente, no retrato da solidão, em suas mais diversas formas. Mas fazê-lo na configuração abstrata, por meio da pintura abstrata, exige muita leitura, para saber processar o pensamento, filosofando, comparando, unindo conceitos desagregados pela educação, ao serem departamentalizados para fins didáticos, como se cada coisa viesse em seqüência. Nem na história isso acontece, pois, hoje, vivemos, ainda, de forma concomitante, com diversos estágios dos períodos da civilização, no que diz respeito à prática da realidade social - ainda existe em nossos dias feudalismo, colonialismo, reinados, trabalho escravo, etc. Isso acontece, também, nos conceitos, nos valores, nos dogmas e em muitas outras formas que podem ser contempladas pela pintura abstrata e na sua interpretação.
Urge refazer nossa apreciação do quadro abstrato, sob a forma do método do materialismo dialético.
O FIGURATIVO E O ABSTRATO NA ARTE CONTEMPORÂNEA
Para a grande massa da população, quando se fala em pintura de telas, vem sempre em mente a arte figurativa, compondo o imaginário popular. Para pessoas com essa concepção, pintar quadros significa retratar, “com perfeição”, uma realidade já existente na natureza, como jarros de flor, paisagens, retrato de pessoas ou ambientes, formas geométricas e tudo o mais que possa, facilmente, identificar. Em função disso, o quadro é bem feito e o artista tem talento, quanto mais próximo estiver dessa realidade, imitando, copiando, nos mínimos detalhes, o que foi transposto para a tela.
Já, na pintura abstrata, ocorre o contrário: por não entender o que significa o quadro, pois não há parâmetro na realidade, muitos consideram rabiscos, pintura mal feita, acusando esses pintores de falta de técnica. Mesmo as pessoas com estudos acadêmicos sobre arte espantam-se ou estranham certos quadros abstratos, quando muito ousados para a ortodoxia a que foram habituados nos meios acadêmicos. Em geral, os livros sobre arte são compêndios que, mesmo se propondo a tratar de temas específicos, como a arte moderna, por exemplo, sempre são recheados de formulações teóricas baseadas em uma filosofia da arte ultrapassada e, para mostrar erudição, citam autores, estudiosos famosos, como sustentação de suas posturas nos livros que escrevem. Salvo raríssimas exceções, não inovam baseados em uma realidade globalizante e de um capitalismo pseudocomplacente, que usa a responsabilidade social como bandeira atenuante de sua ferocidade. Muitas vezes, utiliza a arte como instrumento dessa camuflagem, em ações sociais, principalmente através de ONGs, com a aparência de minimizar as desigualdades sociais.
Essa realidade nova, evidente, mas sutil, não consta das análises de produção artística, de vez que são relegadas a seu campo específico, como a economia e a sociologia. A Antropologia Filosófica não é, muitas vezes, analisada na Filosofia da Arte, embora seja parte inerente a esta, de vez que a postura consumista do homem do século XXI interfere na arte, com o seu comportamento físico, os lugares onde freqüenta, o que veste, etc.
Toda essa gama de fatores ainda não chegou na História e na Filosofia da arte atual, salvo raríssimas exceções, em artigos esparsos, embora, algumas vezes, abordada em livros de Antropologia. E as pessoas não têm acesso a esse tipo de informação. Continuam a pensar na pintura como o retrato do que existe a seu redor, em termos materiais e insistem com os pintores artísticos que façam quadros, pintando-as, que retratem uma paisagem, cavalos, gatos e cachorros, sem, nem de longe, desconfiarem de que existe um mundo de abstração, um pensamento abstrato, porque são incapazes de abstrair.
A pintura abstrata vem necessitando de uma abordagem mais atual, agora que, praticamente, desapareceram os movimentos pictóricos, a não ser alguns rótulos eclipsados pelo enorme volume de informações a disposição. Infelizmente, no meio acadêmico - se exceções há! - esses fatos não são contemplados, preferindo-se basear os estudos em antigos pensadores do século XVII a XX, em sua primeira metade. São realidades teóricas e práticas que não condizem com a nossa e escapam da pintura contemporânea.
São, ainda, trabalhos eivados de um psicologismo exacerbado, falando em sonhos, emoções, imaginação e interpretações no mesmo sentido, entregues a um “eu” imaginário e desfocado da realidade, como aconteceu com a pintura do pós-guerra, onde se buscava uma explicação transcendente para certo tipo de Expressionismo Abstrato.
Essas interpretações perduram, até hoje, à guisa de uma explicação para a pintura contemporânea e, até mesmo, de outros movimentos pictóricos anteriores.
Fica constatado, então, que as explicações sobre a pintura abstrata, considerando o período contemporâneo, incluindo a presença da pintura virtual, não satisfazem, em termos teóricos, a contemplação do tema de forma satisfatória. Falta, principalmente, uma visão ampla e abrangente, uma abordagem macro esclarecendo o que é, realmente, o abstrato na pintura.
A primeira coisa a se entender é que existem, na visão atual, dois grandes grupos chamados de abstrato puro, no sentido de completo, inteiro, integral, e abstrato impuro, no sentido de misturado, incompleto, parcial e que este se subdivide em abstrato figurativo e figurativo abstrato. Pode parecer apenas jogo de palavras, mas o conteúdo específico de cada um demonstrará o contrário.
No abstrato puro ou completo, não há o menor resquício de figurativo, como nas obras de Fará Bell, Mark Rothko e em outros trabalhos, inclusive de pintores virtuais, como Celito Medeiros, João Viegas e outros. Já, no abstrato impuro ou parcial, a maior ou menor prevalência do abstrato, na tela ou em outro suporte, define se é abstrato figurativo ou figurativo abstrato.
No abstrato figurativo, a prevalência na pintura é do abstrato, como no trabalho de Andy Warhol, em Retrato de Maurício, onde há um cachorro azul, pintado com cores fortes. Por ter a prevalência das cores quentes e a sua supremacia no quadro, em detrimento da forma – o cachorro – este passa a ser um adjetivo na pintura, como acontece no caso do fauvismo, do cubismo e em outras pinturas abstratas que são consideradas impuras. Magritte é outro pintor que se utiliza do abstrato figurativo, como pintura conceitual e engajada, com suas formas figurativas, em cores vivas e, ao mesmo tempo, o abstracionismo da mensagem, ao evidenciar, de forma incomum, objetos do dia-a-dia com a conotação crítica ou inovadora.
O figurativo abstrato traz as características contrárias, prevalecendo o figurativo com laivos de abstracionismo, onde se encontra, no objeto retratado, a sutileza de detalhes da figura, da cópia, mas, ao mesmo tempo, um certo desfoque, a magia imaginária do abstrato, colocando fora de ordem algum aspecto do conteúdo retratado, como em um pôr-do-sol todo vermelho, em tom suave, com um sol discreto. Muitos trabalhos há com características de figurativo abstrato e, enumerar apenas alguns, pode até dar uma idéia errada do que seja essa espécie de figurativo.
Todas essas espécies do gênero abstrato estão presentes na arte contemporânea assim como o gênero figurativo. Não há uma característica própria no contemporâneo, nem essa forma histórica de ver a arte é um movimento pictórico. Apesar de ser uma forma atual de fazer arte, pode não ser atual no que expõe como arte, revelando artistas que se dedicam da pintura clássica à abstrata pura.
A ACEITAÇÃO PÚBLICA DA ARTE ABSTRATA
O grande público, as pessoas sem conhecimento de arte, quando se deparam com uma pintura figurativa e uma abstrata, logo são atraídas pela forma reconhecível no figurativo e costumam “gostar” da pintura abstrata como algo decorativo. Pensam no seu tapete, no seu sofá, na cor de sua parede, para, ali, colocar o quadro abstrato. É claro que isso acontece com os quadros figurativos, pois querem uma paisagem, uma natureza morta, um pôr-do-sol, por exemplo, também, adornando seus ambientes domésticos ou de trabalho.
Nota-se, porém, que os motivos são diferentes. No primeiro caso, quer-se o conteúdo do figurativo e, no segundo, o lúdico do abstrato. Mesmo os decoradores menos atentos ou para satisfazer ao cliente, obedecem a essa lógica do lúdico no abstrato, todos sem entrar no mérito da concepção abstrata, no seu significado, na representação e importância desse movimento artístico que representa o quadro.
Em ambientes como escritórios mais sofisticados, residências de luxo, com proprietários de alto poder aquisitivo, Bancos, Instituições Públicas ou Privadas com forte representatividade na sociedade, encontram-se quadros abstratos. Uns por investimento, outros pela doação do artista, que quer ver sua obra ligada a prestigiosos locais como esses. Jamais, salvo os colecionadores, pelo real valor artístico da obra ou pelo seu valor intrínseco. Isso é caro e acarreta custos elevados no projeto do decorador de interiores e, quase sempre, projetos caros são rejeitados pelos clientes.
Estas elucubrações podem nos levar a uma conclusão inverídica, como a de que só apreciam a obra de arte abstrata os mais ricos e que os medianos ou pobres, por não terem acesso a esse tipo de arte, a rejeitam. Nada mais falso. A apreciação da arte abstrata nada tem a ver com sua aquisição, ao requinte, à sofisticação, mas ao sentimento que elas provocam na pessoa, à forte plasticidade que emanam, independente do conhecimento artístico, ainda que específico, que possuam.
Se é assim, então, por que a preferência, em maioria numérica, pelo figurativo? Anos e anos, séculos de louvação ao retratável, ao que existe na natureza e poucos, muito poucos, em comparação, ao “desfigurado” abstrato que necessita de pensar para levar a um sentimento de gratificação com o apreciar da obra. E sendo preciso pensar, dá trabalho, exige mais do espectador, é uma “mais valia” mental que nem os estudantes se querem permitir mais. É um esforço que não pode entrar no “lúdico” do abstrato. Isto sem falar no desconhecimento que, mesmo alguns entendidos, têm do real sentido do abstrato, usando-se categorias de análise do figurativo e aplicando-as ao abstrato.
Outro fator que influencia a preferência pelo figurativo, mas de difícil conceituação, é o que se costuma chamar de brega ou cafona. Sabe-se que independe de dinheiro, passa-se longe do discreto, do que é de “BOM GOSTO”, outra coisa difícil de definir. Mas, no capitalismo vigente no mundo, que agora se transforma em responsabilidade social e se “preocupa” com o ecológico, algumas pistas podem ser recolhidas.
A produção em massa, a imitação barata de produtos caros, a pirataria, também na arte, vem gerando uma espécie de produto novo, na área do brega e do cafona, que não somente o exagero dos brilhos e das fanfarras de penduricalhos a que estávamos habituados. É um tipo de brega moderno que vem tendo adesões na arte, através dos malfadados projetos sociais de inclusão social, com a arte de rua, aquela pintura dita das bases que assoma pelas cidades, nos muros e nos prédios. Há muito boa intenção nesses projetos, mas o caminho e a escolha da arte seria o roteiro a seguir? Essa pseudo “democratização da arte” existe mesmo ou é mais um engodo, como essa nova concepção de kitsch que se tenta impingir, para aumentar as vendas? Se somos todos kitsch, “bregas chiques”, nada contra comprar e comprar coisas comuns e da moda, inclusive arte semelhante aos quadros de algumas novelas de TV, aumentando o consumismo e distanciando o abstrato do grande público, na busca do excêntrico, do exótico, do monumentalmente massificado.
A CRÍTICA DE ARTE NA PINTURA
Há, na crítica de arte, em geral, uma espécie de repulsa e, ao mesmo tempo, atração pelos critérios que são adotados para a sua elaboração. O resultado publicado tem uma influência fundamental na vida do artista ou do grupo artístico, quando se trata de uma orquestra ou de um corpo de balé.
Quando a crítica de arte vem travestida de resenha, a situação se agrava, por esta assumir, declaradamente, uma posição de simples apresentação da obra e uma pseudo-objetividade que, na grande maioria das vezes, coloca-se como defensora ou acusadora do trabalho de quem produz arte. Há casos de resenhas, com tal evidência de parcialidade, que nem há o local de comparecimento para o público ou a editora do livro, salvo publicações de âmbito nacional.
No caso da crítica de arte, na pintura, duas grandes vertentes se abrem, ao serem analisadas as pinturas figurativas e as abstratas. Em geral, os mesmos critérios usados para a pintura figurativa são utilizados para a abstrata, sempre acompanhadas de um falso glamour verborrágico que enfatizam a emoção do pintor, ao elaborar determinado quadro.
Salvo exceções, diz-se sempre que o crítico de arte é um artista frustrado, que, por não saber fazer, comenta. É injusta essa assertiva, na medida em que não há necessidade de “saber fazer”, para que se exerça a atividade de apreciador de arte, com a responsabilidade de analisá-la. A questão principal reside nos critérios usados para essa apreciação, que, logicamente, dependem da formação cultural e do referencial teórico do crítico.
A guisa de ter em mão dados concretos para a apreciação heterodoxa de um objeto de arte, principalmente a pintura, foram criados alguns itens indispensáveis à identificação da pintura e à sua apreciação, obedecendo a critérios teóricos de História e Filosofia da arte:
NA PINTURA FIGURATIVA:
Entende-se por figurativa a arte produzida, buscando imitar o que existe na realidade, nos mínimos detalhes, como são as obras clássicas ou em posicionamentos mais elásticos como no impressionismo. Mas sempre refletindo, copiando, uma paisagem, mesmo que inventada, uma natureza morta, um retrato e outros elementos da natureza. Historicamente, o figurativo, para alguns tóricos, estende-se até o impressionismo, mesmo que seja pintado atualmente. Não se pode esquecer movimentos como o concretismo, o cubismo, que, de certa forma, copiam as formas geométricas existentes na natureza - observe-se o nome dos quadros - não deixando de ser um tipo de abstracionismo-figurativo e não um abstracionismo puro.
Para a análise de um quadro figurativo, é necessário observar alguns itens, sem que aqui estejam todos, pois esta relação é mais exemplificativa do que exaustiva:
- O Enquadramento do objeto pintado em relação à tela, mesmo que sejam partes de um objeto, como o canto de casarão colonial ou parte do corpo humano, para que se possa verificar a proporcionalidade do conteúdo;
- A Luz e a Sombra, onde está consumado o delineamento do tema, a expressão de suas formas e parte do contraste de cores;
- A Perspectiva, que dá a idéia da dimensão do objeto e ajuda na verificação da proporcionalidade deste e, principalmente, a sua profundidade;
- A Fidelidade ao Modelo, onde se observa a veracidade do objeto pintado, identificando se é uma natureza morta, uma paisagem, um retrato fiel, cenas de patrimônio histórico, etc.
Estes itens não se confundem com os usados para o desenho, embora o quadro figurativo seja um desenho pintado, pois sua verificação não se dá exclusivamente pelo traço, mas pela combinação de cores.
NA PINTURA ABSTRATA:
A designação pintura abstrata é, na realidade, um gênero que engloba diversos tipos de movimento pictórico, como o Fauvismo, que alguns consideram figurativo ( mas não é), o Expressionismo e o Expressionismo Abstrato, para falar apenas dos principais. Muitos dos movimentos surgidos, no que se chamou de fase Moderna ou Modernismo, são, na verdade, pinturas figurativas, representando exageradamente a realidade, como alguns dos famosos quadros de Tarsila do Amaral, por exemplo, Manacás e outros, como vem mostrado no google, em Tarsila do Amaral, Obras, Galeria, com 34 de seus quadros. Mas esta é outra análise a ser feita, pois a artista inovou para a época, rompendo com o classicismo.
Itens das pinturas abstratas:
- Contraste de cores;
- Predominância ou não de cor determinada;
- Alternância de Cor;
- Excesso de cores, vindas do fauvismo;
- Luminosidade, mesmo em quadros escuros;
- Tipo de Abstrato adotado, onde se observa a coalescência de outros movimentos pictóricos contidos no Abstrato, tipo Abstrato-Impressionista ( Sol Nascente, de Monet ), Abstrato-Figurativo, Abstrato-Fauvista ( Sonhos, de Salvador Dali), Abstrato-Expressionista ( O Grito, de Munch) e o Expressionismo Abstrato (Jackson Pollock) e o abstrato puro como as obras de Rothko. Isto porque não há pintores exclusivos de um movimento artístico, podendo este pintar quadros de outros movimentos, como um figurativo ou um impressionista, colocando conteúdos abstratos em sua obra.
É importante frisar que, no Figurativo, propriamente dito, há cópia do que já existe na natureza e no abstrato-figurativo, embora se possa pintar um gato azul, este não será um gato, mas a abstração de um gato, ao mesmo tempo em que a figura de uma mulher deformada, não pela cor, mas pelo desenho, será sempre uma mulher deformada pelo traço, algo figurativo.
O SENTIDO DE ARTE CONTEMPORÂNEA
A expressão arte contemporânea tem a aparência de um sentido óbvio, como palavras democracia, social democracia, globalização e muitas outras que são utilizadas pelo senso comum, sem que seja esmiuçado o seu verdadeiro sentido. Até mesmo para aqueles que se dizem entendidos em arte, há divergência sobre o real período em que certa produção artística pode ser considerada contemporânea. Alguns são taxativos em afirmar que foi após a II Guerra Mundial; para outros, o movimento pop dos anos 60 e há os que consideram os anos 90 como o início dessa contemporaneidade.
Observe-se, porém, que se trata, até agora, exclusivamente do Critério de Tempo, para a fixação do contemporâneo. Verifica-se, também, que a produção artística do nosso tempo torna-se passado, surgindo novas formas de a arte se apresentar, sendo que aquela anterior passa a obter um nome que a define. Essa historicidade da arte, com o critério exclusivamente de tempo, é insuficiente para definir o que é atual ou não. Há necessidade de verificação do conteúdo da arte para cada época, para que se tenha a segurança de definir o real sentido de arte contemporânea.
Por outro lado, no momento recente, o artista pode estar produzindo um conteúdo de épocas anteriores como, no caso da pintura, quadros ou outra forma de apresentação, com a representação de movimentos artísticos como a pintura clássica, o barroco, o impressionismo, o cubismo, etc. Isto está acontecendo no presente, como ocorre com a tendência a um retorno ao figurativo, neste início de milênio, como, por exemplo, uma grande parte da chamada Arte de Rua. Verifica-se que tão somente o Critério de Tempo, em si, é insuficiente para uma concepção de arte contemporânea, mas não se pode descartar o tempo no sentido histórico; afinal, a realidade social muda e a anterior se torna passado.
Pelo Critério de Conteúdo, porém, tem-se a oportunidade de contemplar uma visão mais abrangente da arte do nosso tempo, com sua subdivisão em Critério da Historicidade e Critério da Técnica, ou seja, do material utilizado na composição artística. Na arte contemporânea, o conteúdo terá que ser o dos dias em que vivemos, no caso, o aquecimento global, as questões ambientalistas, o problema energético mundial, a escassez de água, os avanços tecnológicos, a transformação das comunicações no mundo, as formas degradadas de vida humana, causadas pelo capitalismo selvagem, travestido em humanitário e muitas outras com as quais convivemos.
Essas questões estão centradas em uma época, podendo ser estudadas e tornarem-se objeto de produção artística, caracterizando um período histórico, que, com o passar do tempo, vai deixando de ser contemporâneo, na medida em que forem sendo solucionados esses questionamentos. E outras questões surgirão, com conteúdo novo, tornando-se, por sua vez, objeto artístico de contemporaneidade.
Ao lado dessa forma de conteúdo, engajado à nossa realidade atual, pode existir um conteúdo descompromissado em termos políticos, voltado exclusivamente para a plasticidade de novas formas de expressão artística, sem que isso constitua uma alienação do artista com seu tempo, pois busca uma sintonia plástica com sua época.
Há que se considerar, também, o Critério da Técnica, de primordial importância na arte e, ainda, no caso da pintura, de contundente primazia, de vez que novos produtos vão surgindo, novos materiais, nova mesclagem e acoplamento desse conteúdo, produzindo nova concepção teórico-pictórica.
Outro problema de relevância é a questão da nomenclatura que é utilizada para definir o contemporâneo. Costuma-se utilizar, como sinônimo, o pós-modernismo para a arte contemporânea, o que se torna um grande engano teórico, na medida em que o pós-modernismo abrange o período dos anos 60 ao início dos 90 e outros autores ainda incluem, aí, o tumultuado espaço de tempo após a II Grande Guerra. Isso foi contemporâneo, não é mais, passando a ser História.
Na realidade, podem-se considerar, hoje, como contemporâneos ou neo-pós-modernistas, os fatos ocorridos após o início dos anos 90, com a grande transformação mundial das comunicações, por meio da internet. Esse período está sendo a alavanca de todo um processo de mudança na vida das pessoas e no trato das coisas, como é o caso da arte virtual, como a pintura virtual, arte produzida exclusivamente no computador e divulgada por sua rede mundial e outros meios. Esses fatos são uma espécie de corte no andamento das relações sociais então vigentes, gerando fato novo e interferindo no conceito de arte contemporânea.
Desse modo, a definição de arte contemporânea há que sofrer uma modificação necessária e importante para seu entendimento, acompanhando os fatos sociais que vão surgindo, contemplando-se, como fundamental, a sua historicidade.
O NOME DOS QUADROS ABSTRATOS
É de real importância, para a concepção do abstracionismo deste século XXI, a ligação que deve existir entre o nome dado ao quadro abstrato, seja ele virtual, em tela, ou outro suporte artístico e o conteúdo desse tipo de pintura. Com raras exceções, as pinturas abstratas mais conhecidas possuem nome de coisas concretas, da natureza palpável, para representações pictóricas que fogem a esse padrão. Exemplos há muitos, como “Villa Florentina” e “Pássaro da Floresta” de Paul Klee ou a maioria dos quadros de Jackson Pollock, como “Alquimia”, por exemplo, utilizando-se os pintores, também, de numeração, para seus quadros, como uma espécie de fuga à colocação de nomes abstratos. Apesar disso, Pollock usou, também, nomes abstratos como no quadro “Guardião do Segredo”, “Convergência” e alguns outros.
Mas qual a importância do nome no quadro abstrato? Em que isso altera a plasticidade contida nessas representações abstratas? Essa tendência, até então existente, de colocar nome de coisas concretas contraria a própria concepção abstrata do quadro. Seria, mais ou menos, como colocar o nome em uma pessoa que não confere com sua personalidade, com sua maneira de ser e até com sua configuração física. Isso é mais difícil nas pessoas, porque nunca se sabe como elas serão mais tarde e o nome é colocado ainda quando recém-nascido.
Nos quadros, a coisa é diferente. A própria realização da pintura pode advir de um nome, como, por exemplo, “Possibilidade de Amar”, “Enlevo de Amor”, “Alegre Sensação”, “Convencimento” e muitos outros, ou o nome pode ser colocado depois de o quadro pronto, mas em consonância com a plasticidade de uma idéia abstrata. Não faz sentido apresentar uma pintura abstrata com o nome de “Casa no Pântano”, onde, nem de longe, possa ser visualizado o arremedo de um pântano ou de uma casa, por maior a aproximação que se queira dar em tintas e traços. Mas a abstração que queira exprimir a sensação de isolamento ou degredo, existente em uma casa no pântano e jamais uma moradia nesse lugar – o figurativo - dever-se-ia chamar, por exemplo, “Solidão” ou “Isolamento”, um nome adequadamente abstrato.
Essa união, essa confluência, essa unidade entre o nome e a representação plástica do quadro, na visão atual, vem transmitir a idéia de abstração, buscada ao longo do tempo. Há, por outro lado, os defensores de que a consistência da pintura está no choque entre o nome concreto e a expressão abstrata. Essa é uma concepção estapafúrdia, na medida em que esses nomes concretos eram colocados pela falta da real compreensão do abstrato e, também, como uma espécie de satisfação ao público da intenção do artista. Isto se dá, porque, só recentemente, o abstrato não é só aquilo que não se vê ou não se pode tocar, mas uma configuração transcendente, como as diversas emoções em “estado bruto”, pois, no momento em que são vividas por uma pessoa, passam a ser concretas. Existe, por exemplo, a tristeza e a tristeza vivida por uma pessoa, que, neste último caso, passa a ser concreta.
É importante observar que os conceitos de abstrato/concreto, aqui expostos, expressam o abstrato como um dos movimentos que existe, principalmente, na pintura e na escultura, contra a arte clássica do período Renascentista, fazendo com que o abstrato seja aquela pintura ou escultura que não representa aquilo que existe na natureza material, mas na imaterial.
Essa nova visão do abstrato teve reflexos na arte. Um sentimento ou uma possibilidade de sentir pode ser “visualizado” na música, na dança e, no caso da pintura, ser mesmo visualizada na plasticidade da tela. Isto, a partir não de um simples nome que faça ligação com o concreto, mas um nome abstrato, entrelaçando o imaginário abstrato com a sua representação pictórica abstrata.
Há, nesses casos, uma espécie de “casamento”, de entrosamento entre o concebido com pincéis e tintas ou com a mesa digitalizadora e a designação que é dada a esse trabalho.
Como se verifica, não se trata somente de uma questão semântica, mas de um espírito de consonância entre a concepção plástica criada e a designação desse fenômeno, gerando um novo modo de pensar na arte e, em especial, na pintura, que é sempre o tema recorrente nestes escritos aqui apresentados.
DISTINÇÃO ENTRE ARTE DECORATIVA E ARTE ABSTRATA
Essa temática é antiga, mas ressurge, com maior evidência, dentro da evolução histórica da Arte, com ênfase, principalmente, a partir dos anos 60, com o que foi a pop art, consistindo, para as artes plásticas, em uma contusão, especialmente na musculatura da arte de pintar, até nos dias de hoje.
Surgiram formas inusitadas e “infantis” de contextualizar e comercializar a arte pictórica, sem qualquer suporte teórico, a não ser a ironia e o deboche com os produtos industrializados e a fama construída artificialmente. Esse conjunto de inovações foi, à época e continua sendo, apenas um pequeno período de “revolta”, em que a arte decorativa buscava o novo, infantilizado com latas de sopa e retratos de Marilyn Monroe e precisou percorrer outros caminhos teórico-metodológicos, como o materialismo dialético, para encontrar uma explicação.
Nos dias atuais, foram criando corpo formas de “expressão”, como instalações, vídeos, arte efêmera e outras que passaram a encontrar espaços dos mais respeitáveis, ganhando um consenso como Arte, ao mesmo tempo em que os quadros iam da “mesmice” às formas e cores mais incongruentes possíveis.
Essa incongruência, que nada tem de arte abstrata, traduzia-se e se traduz na conectância com o que é simplesmente decorativo. É uma espécie de combinação de flores e frutos para os ambientes de alimentação ou alienações pictóricas, desde que as cores combinem com o sofá ou o tapete, independentemente de se tratar de um objeto de arte. ( como muito bem define a teoria da arte).
Essa desorientação artística, no campo da pintura, forçou os teóricos e mesmo os artistas a se formularem a questão: o que é um objeto de arte e o que é um objeto decorativo? Há uma resposta simplista que diz que o objeto de arte pode ser decorativo, mas o objeto decorativo jamais será um objeto de arte. Isso ocorre porque o objeto de arte, além de ser uma peça única, indivisível, ainda que seja um conjunto, de vez que o conjunto é o objeto, pode não corresponder aos critérios clássicos da estética. Em outras palavras, pode ser feio. O exemplo típico é o quadro “O Grito”, de Munch. Trata-se de uma obra de arte em que o feio é o belo, através da mensagem. Outros exemplos estão em algumas obras de Picasso, de Pollock, onde a imitação da natureza está fora de questão: a beleza seria, talvez, duvidosa, não fosse a genialidade dos autores e são, na verdade, objetos de arte. Nestes, não se pode aplicar a máxima de Vinícius de Morais: “... beleza é fundamental...” O que demonstra ser extraordinário em um objeto de arte é todo um conjunto de pequenos detalhes que o tornam diferenciado de qualquer outro objeto no mundo. Isto está presente na elaboração do artista, ao compor a sua obra, sincronizando cores e formas, de tal maneira que outra pessoa poderá apenas imitá-la, jamais “fazer escola”, como antigamente. Não há mais possibilidade de seguidores.
Mas a chamada arte decorativa vem tomando corpo, de maneira insistente, neste início de milênio, com um suporte criado aleatoriamente, a partir da segunda metade do século XX: a pintura-escultura, ao mesmo tempo, a guisa de alto relevo. Observe-se, na decoração de ambientes de novelas de TV, em que, às vezes, há quadros de artistas profissionais, mas a maior parte é elaborada pelo Setor de Arte da TV, sem citar autores. Simples pinceladas compatíveis com a ambientação, desvalorizando o artista e a obra, apenas compondo interiores com certo “charme”. Assim, a arte decorativa passa a ser o descartável, próprio do consumismo atual e não um desdobramento artístico desta época de globalização. Passa a se desconhecer seu valor intrínseco como arte, jogando-se o objeto, literalmente, no lixo, depois de certo tempo. O próprio material com que é confeccionada essa “arte” também é descartável, tendendo a arte decorativa a ser apenas uma arte passageira.
Têm se encontrado esforços isolados de renovação do movimento pictórico, sem os alardes da arte decorativa, nem as, muitas vezes, insanas e obtusas demonstrações de atividade artística. Novos métodos de pintura vêm sendo descobertos na calada e solitária busca por um parâmetro para a pintura contemporânea, sem fazer da arte a promoção pessoal do artista, mas a construção de um horizonte, preservando o objeto de arte como tal. Torna-se isso muito difícil, por deixar de fora o novo, como busca constante do novo, por ser simplesmente novo e consumível. A esperança para o universo cultural reside aí, na constante elaboração de um objeto de arte como tal, nessa forma de resistência ao estabelecido, não como contracultura, mas como um movimento artístico aceito mundialmente. Não se faz arte pensando na decoração de um ambiente, mas na própria arte.
UMA NOVA FORMA DE PINTURA ARTÍSTICA
Neste alvorecer da internet, ainda criança bem pequena, embora a cada dia aumente de tamanho, numa velocidade impressionante, toma corpo uma nova forma de pintura. Muitos meios de expressão artística são manifestados por meio do computador, criando um espaço novo para as artes, como a música, com suas composições e execuções, o desenho gráfico, o próprio desenho à mão livre, a literatura, a dança com suas coreografias definidas por softwares, a escultura, as instalações e os projetos de arquitetura e os de fabricação de automóveis e utensílios domésticos... Tudo!
Pode-se executar, também, a Pintura Virtual e montar até uma espécie de ateliê no computador, para exercer essa tão bela arte. Campo mais amplo terá, principalmente, a pintura contemporânea, que tem representantes autênticos, como Lisa Kowalsk, Don Li-Leger, Fara Bell, Alfred Gockel, Pascal Magis, só para citar alguns, embora, nem todos, pintores virtuais. No Brasil, podemos apontar, com relevância maior, os premiados Celito Medeiros e João Viegas, dentre outros, que adotam a pintura contemporânea abstrata de forma virtual.
É à representatividade e à importância da pintura contemporânea que nos ateremos, utilizando os meios da informática, principalmente, as produzidas exclusivamente no computador. E, na pintura contemporânea, a abstrata pura recebe maior destaque, se não a confundirmos com o web design, como é utilizada na publicidade. Não que outros tipos não possam se tornar pintura virtual. A variedade de instrumentos e recursos encontrados nos e-ateliês é tão fantástica e se amplia, a cada dia, que se adapta, com maior facilidade, à arte contemporânea e pode se prender, também, a quadros de outros movimentos artísticos, principalmente, pela grandiosidade e profusão de meios contidos já nos softwares especializados para pintores. Além do que, no caso, por exemplo, da pintura figurativa, impressionista, etc., podem ser utilizados outros meios artísticos como o vídeo, a fotografia e o cinema, que reproduzem com maior qualidade o figurativo.
Na pintura virtual, o quadro é criado na tela do computador, diretamente, através de mesa digitalizadora, utilizando-se uma caneta própria e clicando nos itens desejados, para escolher e misturar cores, além de outros recursos que não cabe elencar aqui.
Apesar disso, sempre é preciso que esses softwares de pintura se ampliem, em termos de recursos, oferecendo maior número de variação de pincéis e de combinação de cores e ofereçam maior diversidade de idiomas, para atingir um público mais numeroso, embora já sejam bastante avançados.
Mas o grande problema da pintura virtual, ainda, é a confusão que fazem, principalmente os leigos, com o web design, acreditando que alguns pintores, utilizando recursos desses sofwares de pintura, não estão fazendo pintura, mas desenho pintado. Isso constitui certa dificuldade para o pintor virtual ou e-pintor, uma vez que seu trabalho de criação é visto como recurso de computador e não a combinação criativa de cores e formas, utilizando pincéis, espátulas e esfumadores virtuais, para obter o efeito desejado, como fazem os pintores em outros tipos de suporte artístico, como telas, eucatex, etc.
Para o leigo, isso pode parecer uma questão sem relevância, mas, para aquele que pinta, essa distinção é fundamental, a partir da diferenciação entre desenho pintado, mesmo em tela e pintura; e essa confusão estende-se, atualmente, ao web design, ao desenho gráfico, sendo totalmente diferente, embora estes sejam pintados. Mas a pintura é outra coisa, é um modo próprio de expressão, que, infelizmente, muitos confundem, inclusive achando que só a pintura figurativa é pintura.
A pintura virtual é o futuro presente, embora as pessoas ainda desejem o objeto, o quadro fisicamente, o que, também, é possível, através da impressão em pano, lona, etc., com uma impressora própria, ainda rara e pouco acessível. Mas, como aconteceu com outros instrumentos tecnológicos, isto será superado e cada pintor poderá ter a sua no seu ateliê, quando a compreensão do virtual se popularizar e se ampliar para uma vida própria na internet, como já está começando a acontecer com compras em supermercado, celebração de contratos, vídeos-conferência, com aulas, reuniões de empresa e outras prestações de serviço.
A pintura virtual, ainda, necessita de uma divulgação maior e de um processo de distribuição mais apropriado, para que seja levada mais a sério. Precisa, também, como acontece com o livro, de uma conscientização maior sobre a desnecessidade do “objeto na mão”, esse manuseio possessivo que a maioria das pessoas tem. Mas isso já está acontecendo com o CD, que, aos poucos, está sendo substituído pelo MP3, só para citar um exemplo.
EXPOSIÇÃO VIRTUAL DE PINTURA
Falando em pintura virtual, surge uma idéia que pode se concretizar, se já não foi executada, que consiste em colocar monitores LCD, em tamanho grande, embutidos em painéis, mostrando um quadro. Assim, cada monitor de computador, como moldura do quadro, ficaria interligado por rede a um site de um pintor virtual ou e-pintor. Ocorreria em uma Galeria com endereço real e seguiria os mesmos trâmites de uma exposição não-virtual.
Essa idéia, inicialmente, não traduz, de forma obrigatória, a venda dos quadros expostos, mas nada impede que colecionadores ou mesmo qualquer pessoa que não queira quadro para decoração, adquira-o, como se compra um DVD de um filme. Neste caso, poderia conter somente um quadro ou a exposição inteira, para inserir a imagem em seu computador, com dispositivo que evitasse cópia, para seu deleite, como apreciador da arte pictórica.
Para os artistas mais tímidos, ou que não querem se afligir com a ansiedade própria do vernissage, seria colocado um telão com vídeo computadorizado de um depoimento seu, que mudaria, de tempos em tempos, dependendo da duração da exposição. Mostraria, também, ele em seu ateliê virtual, trabalhando, em sua mesa digitalizadora com o computador, elaborando parte de obras de arte.
Poderia haver, no meio do salão de exposição, um computador disponível ao público visitante, com três chances de interagir com a obra, através de mudança de cores, de forma e de tamanho do quadro virtual. A pessoa que assim o fizesse poderia, também, levar para casa o “seu” quadro original com as alterações feitas, nas três modalidades descritas ou com aquela que mais lhe agradasse. Seria uma forma de não simplesmente interagir, mas de despertar ou revelar novos talentos, além de divulgar, para o público, a evolução dos quadros pintados em tela, nessa versão computadorizada.
Por se tratar de pintura, seriam disponibilizados apenas softwares para pintores, excluindo-se o web designer e outras formas de arte, como a arte gráfica, dando-se ênfase à prevalência de cores sobre a forma. Isto na busca de novos caminhos para horizontes mais largos que a pintura clássica, talvez até como forma de incentivar novos movimentos ou tendências, neste início de novo milênio, que ainda se encontra impregnado da arte da segunda metade do século XX.
Essa exclusão a que nos referimos acima não vem revelar discriminação com tipos de arte, apenas fazer crescer a importância da pintura em sua especificidade, sem aquele caldeirão de idéias desordenadas em uma mistura bastarda, que, até hoje, ainda perdura, quando se faz um quadro abstrato com componentes figurativos, lembrança de uma época picassiana muito presente nos dias atuais, com as “ pichações “ ou grafitagem, também chamadas Arte de Rua.
Neste tempo de diversidades entrecortadas, com a globalização econômica, mas não social, pode parecer que sugerimos entrar na contramão da história, tentando departamentalizar setores artísticos. Mas o que postulamos é, tão somente, com uma ferramenta tecnológica, dinamizar a pintura, para que saiamos das dificuldades que têm os museus, as galerias e os próprios artistas em armazenar, com qualidade de conservação e manutenção, suas obras de arte, além de democratizar, seja pela internet, seja em exposições reais, essa nova forma de fazer pintura.
Quanto ao ganho financeiro das galerias, marchand e artistas, não se restringirá somente à venda de CDs com os quadros, mas estender-se-ão à cobrança de ingressos nas galerias e à possível reprodução, em lona própria, em copiadoras especiais pra esse fim, com a confecção de telas.
A pintura virtual, ao contrário do que possa se pensar, não mecanizará a pintura, mas dará ao artista a mesma sensação de estar em seu ateliê, sem os perigos do cheiro das tintas e dos solventes, cercado do mesmo material, no conforto de sua poltrona, exercendo unicamente sua atividade de criar.
A EMOÇÃO DO ARTISTA E DO ESPECTADOR DA ARTE
Um erro fatal, na interpretação da obra de arte, está em desvendar a emoção do artista, no momento de elaboração de sua obra de arte. Há quase um consenso em torno de que a beleza artística reside na capacidade de transmissão dessa emoção para o objeto, seja uma tela, uma partitura, uma escultura ou qualquer outra manifestação artística.
Essa emoção, apesar de existir, é imperscrutável e não adianta ir buscar na vida pessoal de quem faz arte a resposta para tal enigma. Independente da condição econômica, do sofrimento pessoal, seja de amor, de doença ou outro tipo de acidente de percurso, vigora o dom, a natureza, a alma provida de certa sensibilidade, aperfeiçoada com muito suor, trabalho, decepções, entusiasmos, exercício, força de vontade, persistência na construção de um objeto de arte.
Os meios para externar essa expressão emotiva podem estar disponíveis, mas se não houver o treino, a habilidade adquirida com esforço e, sobretudo, a imaginação advinda do hábito de observar, pensar, estudar, ter conhecimentos especializados, nada irá deflagrar esse espasmo emotivo com resultado satisfatório para uma obra de arte merecedora desse nome. Observe-se que, aqui, não tratamos a imaginação em seu aspecto negativo, como quis demonstrar Emile Chartier (Alain) – 1868-1951 – em seu Systèmes des Beaux Arts, de 1920, ainda hoje lido e estudado, ou seja, a imaginação como um componente que nos engana, que nos faz, pela paixão das coisas, distorcer o objeto observado. Ressaltam-se a imaginação criativa, os saltos galopantes do universo do novo, do inusitado, que tornam único um objeto de arte.
Essa emoção do artista é supervalorizada na interpretação da obra, esquecendo-se o apreciador das obras por encomenda, dos acasos, como aconteceu com Jackson Pollock, pintor americano do pós-guerra, ao descobrir o dripping, por um simples pingado da tinta da lata, formando texturas incríveis que o consagraram como um marco revolucionário do Expressionismo Abstrato. Outros fatores contribuem para o fazer artístico e é necessário que se desmistifique a tão louvada inspiração como elemento primordial em uma execução artística. Essa inspiração é um mito criado por pessoas sem talento ou com pouco conhecimento da filosofia da arte e se traduz, sim, na associação de idéias, como ao presenciar um fato ou a execução de um ato e ter a capacidade de fazer ilação para um novo ato e a produção de novo fato. Não se trata do efeito de demonstração, como é estudado em Sociologia, mas no processamento de idéias, gerando algo diferente e, por muitos, impensado. Imagine-se um pintor que deseje dar prevalência ao tom negro e passe a usá-lo com primazia em suas obras, simplesmente porque gosta desse tom – que os leigos chamam de cor - ou porque queira manifestar uma integração com o Brasil de predominância da raça negra. Seria ele taxado de depressivo, de negativista ou que estaria passando por uma fase “negra” em sua vida? Não seria simplificar demais a emoção do artista?
Por outro lado, há a apreciação do espectador, com seus valores que podem ser o senso comum ou uma visão crítica que valoriza a obra. O peso dessas opiniões de apreciadores sobrepuja a emoção do artista, que pode não ser valorizada. A supremacia desse consenso constrói uma carreira de artista ou a aborta na primeira exposição de suas obras, não importando a beleza da emoção do artista, o seu talento, a decantada inspiração e mesmo a sua imaginação criadora.
Prevalece, portanto, a opinião, nem sempre abalizada, de quem aprecia, de quem observa e, principalmente, de quem é formador de opinião ou tem cacife para chancelar uma produção artística.
Esta pode ser até uma visão pessimista e avassaladora da realidade, mas é uma constatação inexorável e sem os devaneios românticos da elevação da arte, como manifestação suprema da capacidade humana.
A ARTE DE RUA
Pintar artisticamente ou como protesto político os muros, prédios, ou qualquer outro suporte exposto na rua não é um fenômeno novo. No Brasil, até onde se tem notícia, vem desde o final dos anos 50, se ampliou nos anos 60 e, principalmente, a partir de 1970 tomou corpo, mas com a tônica do vandalismo, sem uma proposta artística definida. Foi muito usada com a pintura de frases como “abaixo a ditadura”, bem como os “desenhos” quase criptográficos, hoje incorporados pelo Livre Expressionismo, a que nos referimos e mensagens ingênuas de amor adolescente.
Bem interessante, na época, é que quanto mais difícil o lugar para apor essas inscrições, mais valorizadas eram, havendo uma quase disputa entre os pichadores de rua, buscando alcançar os lugares mais altos e de difícil acesso. Não havia propriamente uma distinção de classe social entre os pichadores, em geral, jovens de classe média ou classe média alta que se misturavam aos hoje chamados meninos de rua, que começavam a surgir, vagueando e vandalizando pelas ruas das cidades.
Desde essa época, até hoje, usavam as tintas em latinhas de spray, mais fáceis de conduzir e fugir da polícia, em virtude da criminalidade do ato de pichar.
A partir dos anos 80, assumiu um caráter mais sério, com um status de arte, passando dos muros, laterais de viadutos, laterais de prédios, o chão das calçadas, das ruas, etc., para a condição de mais um suporte artístico e, ao mesmo tempo, deixando, também, de ser puro ato de vandalismo. Era e é a vitrine do grafite, com tendências fortemente figurativas, no estilo pictórico das HQ. Diz o grafiteiro Rica P., (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Foretaleza) que “ o grafite não é uma questão de estética e sim de atitude. Uma tela feita por um grafiteiro exibida em um museu não é grafite, está no campo das artes plásticas tradicionais. Grafite é Rua, com o que isso implica : contestação do uso de espaço público, vontade de democratizar o acesso à arte, desafio ao poder”. Esse aspecto rebelde, desafiador e portador de uma mensagem de liberdade vem sendo contrariado pelo mercado de artes. Cada vez mais os marchand´s encontram público na classe alta e endinheirada para a compra de obras de grafiteiros, não mais em seus suportes de “desafio”, mas em telas nas exposições, como a que grafiteiros brasileiros fizeram em New York. Esse emparedamento da Arte de Rua vem se tornando um alvo dos próprios grafiteiros, que, no fundo, buscam a fama, como os artistas plásticos convencionais. A cada dia, a Arte de Rua deixa a rua, para palmilhar os brilhosos caminhos das paredes internas, seja de Galerias de Arte, seja de Exposições, seja dos acervos particulares, como noticiam as publicações especializadas. Usam-se, como suporte, caixas de papelão para acondicionar remédios ou outros produtos usados de forma alternativa, como suporte.
Mas a arte na rua continua viva, efetivada por novos grafiteiros em busca de fama ou por aqueles renitentes com sua proposta de desafiar o poder constituído, sinalizando a possibilidade de integração do humano com o urbano.
Há ainda o lado dito social, patrocinado, contraditoriamente, - é uma atividade ilegal - pelo próprio poder público que arregimenta futuros grafiteiros e oferece cursos de grafitagem artística, entrando pelo viés da inclusão social.
Hoje, basicamente, existem dois tipos de técnica de grafite: o free hand ou mão livre que é a técnica mais comum entre os artistas plásticos, com regras de luz e sombra, contrastes, etc. e a técnica dos moldes, onde a pintura é feita sobre um suporte vazado e colocado o molde, sendo pintado por cima. Mas o grafite tem várias versões e é muito localizado por Estado ou região. Cada uma tem uma preferência e um aspecto artístico diferente, sendo os mais destacados os de São Paulo e os do Nordeste. Os de São Paulo chegaram a influenciar artistas do mundo inteiro, pela diversidade de estilos, originalidade e excelência pictórica.
Hoje é um campo de atividade que tem aceitação, principalmente na moda, chegando a Nike a contratar grafiteiros para ilustrar seus tênis. As camisetas, as roupas de jeans, também, são produções que estão cada vez mais requisitando grafiteiros e os incorporando à máquina do modo de produção capitalista.
Hoje, é chique grafitar!
O SENTIDO DA PALAVRA NATUREZA NAS ARTES PLÁSTICAS
Há uma espécie de consenso entre os estudiosos das Artes Plásticas sobre o uso da palavra natureza para estabelecer a distinção entre a arte abstrata e a arte figurativa. A abstrata seria aquela que não reproduz a natureza e, por sua vez, a figurativa, aquela que a reproduz.
Esse abandono da mimese pode gerar, a princípio, uma confusão do termo natureza, sendo atribuído apenas o sentido de coisas naturais, existentes sem a interferência humana. Isso restringe a concepção da dicotomia abstrato/figurativo a paisagens, flores, ao próprio homem retratado, tornando pequena a interpretação do sentido de natureza, que é muito mais amplo.
Quando se diz que o abstrato não contempla a mimese ( reprodução) da natureza, tomamos essa palavra no sentido de realidade, reprodução da realidade, aliás, a representação de um conteúdo, semanticamente, feito de um modo muito mais apropriado, pois abrange não só o natural, que se auto-reproduz, mas, também, tudo aquilo que é produzido pelo homem e pelo outros animais e compõe um todo, um sentido totalizante de tudo o que nos cerca. Assim como os termos natureza morta e natureza, há outros, nas Artes Plásticas, com significado que não coincide com os comumente usados. Têm acepção própria.
Mas a palavra realidade, em sociologia, por exemplo, não tem esse uso tão claro e definido como nas artes plásticas, porque vai além do que podemos observar pelo método empírico. Pode-se mesmo dizer que, nem sempre, a realidade é o real, aquilo que vemos e constatamos pela simples observação. Há interpretações que obedecem a métodos científicos variados, para a definição do que é realidade. Não é o caso das Artes Plásticas, em que a simples observação pode definir o objeto contemplado, em se tratando de arte figurativa, mas que, na abstrata, requer a integração de outros elementos, para dar sentido ao observado, como, por exemplo, na arte conceitual.
O que é certo e inquestionável é a presença ou não da realidade na distinção da dualidade abstrato/figurativo. Nessa realidade, está o que foi concebido ou executado pelo homem, como as formas geométricas, que passaram a compor o fenômeno pictórico definido como cubismo, seja analítico ou não. As formas geométricas integram a realidade, estão nas coisas que conhecemos e estão à nossa volta.
Do mesmo modo, por exemplo, uma vaca verde, um cachorro azul, como no fauvismo, serão sempre uma vaca e um cachorro, mas não existem na nossa realidade, a não ser pelo método artificial da pintura de pelos. E, desse modo, compõe o que se costuma chamar de abstrato impuro, porque contempla algumas formas da natureza ( a vaca, o cachorro), mas, ao mesmo tempo abstrato, pela cor. Há o denominado abstrato puro, onde nenhum vestígio da realidade se encontra, possuindo formas totalmente imaginárias que não são muito levadas em consideração pelo apreciador atento, a não ser pelo conjunto da obra, prevalecendo a harmonia das cores, a sua tonalidade, a sua disposição no quadro. Na escultura abstrata, ocorre a forma inventada sem ser a partir de nenhum modelo existente na realidade.
Desse modo, podemos concluir que, quando se usa a palavra natureza, em Artes Plásticas, há uma referência explícita à realidade e, portanto, a arte figurativa é aquela que reproduz essa realidade e a abstrata é a que a abandona completamente ou não. Ao pintarmos ou esculpirmos a cadeira, a mesa, o homem, um quarto, um ambiente, uma forma geométrica e outros objetos construídos, há uma tentativa ou de reproduzir a realidade (A pintura clássica) ou de fugir dela, mas não completamente, de vez que há os resquícios de uma realidade, o que não acontece no abstrato puro.
A FINALIDADE DA ARTE
Nos meios chamados cultos, a questão “ para que serve a arte”parece inócua. É inclusive sinônimo de ignorância, ausência de refinamento ou falta de sensibilidade. Chega a ser uma indagação despropositada, de vez que, em quase todos os círculos sociais, a arte é reconhecida como “alimento espiritual ou alimento da alma” ─ dependendo da crença religiosa ─ para e, nas comunidades econômicamente carentes, é instrumento para a retirada desse segmento social da marginalidade, principalmente os jovens, dando uma perspectiva melhor de vida.
Esses fatos seriam incontestáveis e responderiam à finalidade da arte, caso não fosse perguntado que tipo de arte, com que características é enfocada ou qual metodologia é aplicada a esse conteúdo e qual a finalidade prática dessa abordagem em um regime capitalista.
Levar a arte às comunidades pobres não se resume a ensinar a tocar um instrumento, a dançar balé clássico ou moderno, a imitar pinturas de artistas famosos, a fazer escultura de material reciclado ou até a fazer maquetes arquitetônicas e urbanísticas das favelas e palafitas, para melhorar sua funcionalidade. É muito mais. Requer todo um arcabouço de mudança de mentalidade, leituras constantes, formas abstratas de pensar, que se constrói durante um aprendizado longo, para que não baste apenas saber que, por exemplo, Noite Estrelado é um quadro impressionista, pintado por Van Gogh. Nota-se que, geralmente, em nosso regime capitalista, o “ensino” e a ocupação com a arte é um paliativo para a ausência do Estado, em seu papel fundamental de construir uma cidadania, dignidade, trabalho e respeito ao ser humano.
Essas questões estão dentro de uma maior: qual a utilidade prática da arte? Serve para e a todos? A resposta à segunda pergunta, infelizmente, é não. Pode-se democratizar a apreciação da arte, mas não a sua elaboração, a sua produção.
A arte é uma captação/expressão de sensibilidade, perante uma realidade crua, em qualquer Estado ou regime econômico, opulenta de violência, simbólica ou factual e, muitas vezes, realidade sem graça, sem atrativos. Essa sensibilidade é transmitida a quem a tem ou aprende a ter. Por isso, dedicar-se à arte consiste em uma emoção inusitada e de paixão. É preciso gostar muito de arte para se dedicar a ela. Tem que saber viver, em todos os instantes, a sensação artística, em cada coisa visualizada, em cada leitura, como elemento inspirador e de engrandecimento instrucional e, sobretudo, muito estudo, para o artista não se tornar um simples repetidor de uma técnica, como o desenho não-criativo, mas copista.
Ter o potencial para a captação da emoção artística independe de grau de instrução, de raça, cor, credo ou local de nascimento. Depende de um sentimento especial e inexplicável, como gostar de certas cores, mas isso não é aleatório, como o simples gostar por gostar. É preciso possuir a sensação premeditada de preferência e de sensibilidade que congrega o toque certo na percepção do material, das cores, dos contrastes, alguns ingredientes inatos à estética. Mas esse processo de criação é para poucos, somente para aqueles que se dedicam e têm a constância do aprendizado, da busca permanente, aqueles que entendem e praticam o processo criativo.
Já, para o espectador, é necessário, também, ter uma sensibilidade aguçada e, sobretudo, saber apreciar a arte, o que requer certo conhecimento, não somente específico, mas geral. É diferente de o simples gostar do objeto de arte por uma atração inconsciente e sem fundamento, como quem escolhe uma roupa ou compra um carro.
Toda essa formação do espectador caberia ao arte-educador que, na sua grande maioria, não ensina a apreciação da arte, mas oferece um conteúdo para quem deseja ser artista e nem todas as pessoas são artistas. Não devem se contentar esses profissionais com simplesmente ensinar História da Arte ou fazer com que seus alunos busquem ser artistas, mas despertar-lhes a sensibilidade e a acuidade mental para, no mínimo, tornarem-se mais próximos do enriquecedor caminho do saber perceber a vida, suas nuances, seus meandros e contradições, por meio da arte. Essa é uma de suas finalidades.
Por outro lado, existe, ainda, a finalidade de buscar o refinamento pessoal e, em um regime capitalista como o nosso, voltar-se para o mercado de trabalho e de oferta de produtos ou serviços. Esse fato vem acontecendo, por exemplo, com a Arte de Rua que está se voltando para as Galerias de Arte ou passando para edifícios, principalmente em suas laterais, como complemento arquitetônico, deixando de se expor em muros mal cuidados e prédios abandonados.
A finalidade da arte, como conceito e como objeto, é transgredir e não a tão decantada concepção duvidosa de beleza. Se a finalidade da arte fosse a beleza, o belo, como ficaria a chamada feiúra , se nela há sentido e sentimento? O que dizer da estética do feio?
A transgressão é a busca do novo por intermédio do talento humano. Transgredir não em seu sentido pejorativo de vandalizar, de destruir, mas de ir além, de romper as regras para construir. Esse transgredir é não se conformar com o presente, é a implantação do futuro agora. É romper caminhos, desabar prédios de valores e concepções consolidadas. É destruir, construindo.
O entendimento desse novo não implica massificar o fazer artístico. Essa tarefa é para quem tem talento, porque a arte é singular e não plural, no sentido de sua produção. Mas democratizar a apreciação deve ser um objetivo a perseguir.
A finalidade da arte, quanto à sua produção, é comover o espectador, causar estranheza, reflexão e romper o existente.
DEMOCRACIA E MASSIFICAÇÃO NA ARTE
Este é um tema que requer certa sutileza, pois envolve a igualdade de direitos, contida na Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão e consta da grande maioria das Constituições e outras Leis dos países do mundo. Inclui, também, a liberdade e a fraternidade, tripé – igualdade, fraternidade e liberdade - do Estado de Direito Democrático.
Essas questões legais dizem de perto a posicionamentos filosóficos relativos ao acesso à arte, seja no que diz respeito à produção artística, seja no que se refere à capacidade de apreciação de um objeto de arte.
A educação instrucional, que seria a responsável pelo processo ensino-aprendizagem desse tipo de conhecimento, não pode abranger todas as formas de arte que existem e, geralmente, atem-se à pintura, à escultura, à música ou ao teatro, de acordo com a formação do professor, em uma ou algumas dessas artes. Assim, somente a leitura de vários livros suprirá essa lacuna educacional.
Por outro lado, as políticas públicas de incentivo às artes, também, privilegiam certos setores de produção artística, dependendo do Governo Federal ou do Ministro da Cultura do momento, estendendo-se esse procedimento a Estados e Municípios. Isto ocorre nem tanto pela economia da cultura e do entretenimento, mas, principalmente, pelo “circo” que pode ser proporcionado com “faturamento” político partidário ou, então, pela área a que estão ligados os dirigentes do setor da Cultura.
Por si só, torna-se difícil alimentar, culturalmente, a alma de uma população, em um país onde é quase impossível alimentar, com ingredientes nutritivos, o corpo da maioria de seus habitantes. Essas questões sociais e econômicas são da maior relevância, mas não chegam ao nível de uma discussão mais ampla, atingindo uma posição filosófica sobre a massificação e/ou democratização da arte.
Há que se convir que o fazer artístico não é para todos, mas para aqueles que têm talento ou dom, como querem alguns e necessitam do apoio de políticas educacionais, do interesse dos professores, da escola e da viabilização física de material à disposição dos alunos, para se exercitarem. E, antes de qualquer coisa, precisam de liberdade para criar, para experimentar, para inovar, inclusive deixando que surjam novas formas de arte.
Este é um modo de democratizar a arte!
Em frente ao artista, está o espectador, que, por sua vez, necessita de conhecimento adequado e suficiente para apreciar a arte, instrumental indispensável para adquirir valores artísticos. Esses valores mudam de acordo com o avanço/retrocesso da humanidade, nessa linha sinuosa que é a História humana. Mas necessita-se de uma base, de um ponto de partida nos escaninhos do conhecimento, para se entender a própria evolução desse caminhar tortuoso e compreender as novas manifestações artísticas, reconhecendo a validade histórica dos valores que nos antecederam.
Fazer a leitura de uma obra de arte, seja ela qual for ou a que movimento pertença ou a qual corrente do pensamento se filie, exige estudo e dedicação, ao lado da atenção que se deve dar à carreira escolhida como profissão. Esse mesmo suporte teórico-artístico e, com mais afinco, deve ter o profissional da arte, não apenas inventando técnicas e métodos de produção artística, mas sabendo o que está fazendo e o que já foi pensado e executado ou não, no campo artístico que escolher, para criar seu estilo, a personalização de sua arte e procurar evoluir no seu processo criativo.
Este, também, é um modo de democratizar a arte!
No lado oposto, há a massificação, termo hoje pejorativo, por suas conseqüências, que engloba diversos níveis culturais e educacionais, especificamente, independente da classe social a que pertença o indivíduo massificado. Este indivíduo, induzido pelo marketing, torna-se incapaz de proceder a uma análise mais profunda sobre certos fazeres artísticos, como, por exemplo, no campo da música e dos programas de televisão. Faz parte do rebanho tocado por modismos, muito comum nas artes, no mundo inteiro.
Para esses movimentos de modismo, tem que haver a liberdade de expressão e de adesão, mas que se tenha a consciência, que se tenha presente, a eventualidade de sua duração ou a inconsistência teórico-pratica de sua existência. É, na maioria das vezes, o eflúvio de um nicho economicamente viável e provisório, cercado por uma extravagância peculiar, que se estende ao comportamento, à maneira de vestir, aos adereços pessoais e a todo um conglomerado de emanações peculiares que, contraditoriamente, se exaure pela própria massificação, dando lugar a outro modismo.
Democratizar não é massificar!
Na democracia, o direito de acesso deve ser garantido a todos com capacidade instrucional, na presunção de que todos estejam no mesmo nível, ou seja, em igualdade de condições e o acesso só aos mais capazes, sem a égide da inclusão social a qualquer custo. Aliás, essa expressão veio no pacote de “democratização” das atividades de Estado, inventada por governos incapazes de suprir as necessidades básicas do cidadão, tornando-se uma expressão-tabu – inclusão social – intocável, mesmo que as conseqüências sejam desastrosas.
Atribui-se aos contribuintes, ao esforço privado, as responsabilidades sociais do Estado. E, nessa enlameada distorção do público e do privado, vai a arte sendo deturpada, espoliada, “bucha de canhão” para atividades de “inclusão” e, embora a arte clássica seja considerada coisa de “elite”, é utilizada, no vale-tudo da inclusão, formando orquestra de menores pobres, ensinando balé clássico e canto lírico, sem nenhum respaldo socioeconômico que garanta um ensino adequado com uma profissão futura. Há os que escapam, um ou outro e isso é visto como vitória, diante da inércia do Estado.
A massificação generaliza, impõe uma falsa igualdade e faz do artista uma estrela, nos mesmos moldes tradicionais dos artistas de outrora. Muitas vezes, torna celebridade quem pontifica na televisão fazendo bobagem, simplesmente a guisa de aparecer para um grande público, dando a ilusória impressão de uma ascensão social.
A massificação é produto do consumismo exacerbado e a arte não se presta a esse tipo de prática.
Isso não é democracia!
FILOSOFIA DA ARTE: A Pintura e o Método do Materialismo Dialético, é uma tentativa de aplicação desse Método, a partir das contradições internas conceituais e de explanação do Conteúdo.Uma espécie de leitura do avesso de práticas pictóricas
domingo, 15 de fevereiro de 2009
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